sábado, 22 de dezembro de 2012



Eu posso dizer que durante minha infância tive tudo que desejei. Tá certo, os desejos eram bem simples: uma boneca Suzi e todas as cartelinhas com as roupinhas que deixavam a bonequinha mais antipática do que já era, os bonequinhos dos ídolos da Jovem Guarda, Roberto Carlos, O Tremendão e outros, todos cabeçudos e vestindo terninhos justos, outra bonequinha de papel pra gente encaixar as roupinhas também de papel, joguinho de “Resta Um”, livrinhos de colorir e tantas outras bugigangas que nem me lembro mais. Tudo era bem simples e estava ao meu alcance, era só pegar aquele telefone preto e pesado, “discar” quatro ou cinco números (não me lembro ao certo) e pronto, meu desejo se realizava como num passe de mágica.
Quem realizava sem demora todos os meus desejos era meu pai. Ele estava sempre de prontidão quando se tratava de me fazer feliz. Bastava um telefonema e na hora do almoço ou do jantar, ele aparecia com meu pedido.
Meu pai era um homem lindo, inteligente, bem nascido muito bem educado, simpático, gentil e comunicativo. Ele falava muito bem, exceto por um probleminha na fala, coisa boba, sem importância, quase imperceptível.
 Era muito comum ouvi-lo dizer que abasteceu o carro a caminho de casa, no posto Atrantic, que mascava chicrete só de vez em quando, que não falava quase nada de ingrês, ou ainda, que precisava comprar um broquinho para suas anotações.
Para mim, meu pai era perfeito, e se isso for algum defeito, então era esse o defeito de meu pai.
Claro que ninguém é perfeito, mas eu olhava meu pai com o coração e era assim que ele o via; perfeito.
Ele era o homem da minha vida; dele eu tinha tudo, colo, carinho, conselhos e o mais importante: exemplos. Ele me ensinava o que sabia, mas eu aprendia através do que ele me mostrava.
Ele me dava tudo, menos uma coisa, uma coisa que eu desejava demais: “A BICICRETA”.
Saímos do apartamento onde morávamos e nos mudamos para uma casa, cuja vizinhança era repleta de crianças, na maioria meninos. Eu adorava as brincadeiras dos meninos e participava de quase todas, pulava o muro das casas e roubava romã, tocava as campainhas e corria, jogava queimada com bola de meia molhada, enfim, fazia tudo que os meninos da rua faziam, mas ficava sempre de fora quando a brincadeira era andar de bicicleta pelo bairro. Meu pai era radicalmente contra bicicletas e por mais que eu pedisse, por mais que eu implorasse, ele não se comovia, estava irredutível e dizia: “Me peça o que quiser, mas bicicreta nem pensar. Bicicreta é a coisa mais perigosa do mundo”!  Devia ser crime dar bicicreta pra criança. E continuava: “Meu pai também nunca me deu bicicreta e hoje eu entendo o porquê, já vi gente se arrebentar andando de bicicreta, bicicreta não, bicicreta é um perigo!”
Meu pai tinha muita certeza do que dizia e seria difícil convencê-lo do contrário; ele sabia de tudo, mas desconhecia um detalhe. Ele nem desconfiava, mas na minha vida havia  um outro homem: meu avô Victorio.
 Esse era meu mago, tão poderoso que era capaz de curar todas as minhas dores com apenas um punhado de “pó invisível”. Qualquer arranhão, qualquer hematoma logo eram curados com apenas uma aplicação daquela poção, que curiosamente estava sempre no seu bolso. Ele aplicava a magia e avisava: “já vai passar”. Meu avô, pai de minha mãe, era tão poderoso que podia desobedecer a minha mãe e até o meu pai, e ele o fez.
Ao saber do meu desejo frustrado, o velho tratou logo de providenciar a bicicleta mais bonita de todas e fez surpresa. 
Ouvi a campainha e corri para atender. O entregador dizia em voz alta: “entrega para Dona Marta Porto”. Minha mãe chegou logo em seguida e recebeu também curiosa, a encomenda.
 Lembro-me muito bem da grande caixa de papelão marrom com letras azuis que diziam: Casas Lunarde.
 Eu estava tão eufórica que abri o imenso pacote ali mesmo, no portão da minha casa. Não podia acreditar, era ela, a bicicleta mais linda do mundo, com pneus “tala-larga” e pintura branca e verde tinindo, brilhando ao sol. Aquela pintura só não brilhava mais que os meus olhos. Era muita alegria.
Não perdi tempo, montei na minha “bike” e fui chamar meus amigos pra pedalar pelas ruas, ignorei completamente as proibições de meu pai.
Depois de feito, não havia mais o que contestar. Meu pai foi se acostumando com a idéia e percebeu que seu medo era mesmo exagerado, contudo ele sempre aconselhava, me indicava a melhor maneira de pedalar pela rua e pedia pra que eu não fosse muito longe. Ele continuava a zelar pela filha e eu começava a dar ares de independência.
Como esses homens foram importantes na minha vida... Como eles foram importantes pra minha vida. Eles determinaram o meu “jeito” de amar, eles me deram o modelo e eu ainda não sabia, mas o meu amor estaria reservado pra sempre aos nobres de alma, aos homens de bem. Só por eles eu me apaixonaria.
Essa história, embora tola, também me faz pensar que a vida é um eterno aprender, pois se por um lado meu pai temia me perder, por outro, meu avô cuidava pra que eu não perdesse absolutamente nada da minha infância.
Meu pai, mais jovem, achava que podia controlar as perdas e impedir meus tombos. Meu avô, mais velho, já sabia que os tombos fatalmente aconteceriam e seriam necessários pra que eu aprendesse a me levantar.
O exemplo destes homens não teve importância apenas na minha formação, ele foi um pouco mais além e alcançou meu filho, pois me serviram de base, de referência de inspiração.
Desde a infância eu aprendera o que é e como é um homem nobre, um homem de bem, havia visto de perto e pude passar ao meu filho ensinamentos preciosos pra que ele também se tornasse um homem de bem.
 Perdi meu pai muito cedo e esse foi o maior tombo de minha vida. Nenhuma bicicleta me derrubaria com tanta força, com tanta fúria.
 Meu avô também não estava mais, tampouco seu pó invisível pra aplacar tamanha dor, mas havia um menino a quem eu pretendia transformar num homem de bem. Esse menino foi o braço que me apoiou pra que eu me levantasse, foi minha razão, foi o meu alento.
Num certo dia, que tinha tudo para ser um dia qualquer, igual àquela manhã em que ganhei minha bicicleta, a vida me sorriu e me “entregou” um outro homem, não menos nobre que aqueles que eu tanto amara, diferente em alguns aspectos e que me despertou pra um amor um outro amor, um amor que eu nunca havia experimentado: o amor de mulher.
 Esse homem tinha tudo o que eu buscava e parte do que eu havia perdido. Pra esse homem havia apenas uma possibilidade: ser meu marido, pois desde a primeira vez que o encontrei eu o vi com meu coração e sabe de uma coisa?  Pra mim, ele também era perfeito.

sábado, 1 de dezembro de 2012



Através do Facebook começamos a programar nosso encontro.
Vinte cinco anos havia se passado desde nossa formatura e durante esse tempo, muitas vezes, a gente se perde entre aquilo que achávamos que seríamos e aquilo em que realmente nos transformamos. Eu confesso, imaginei pra mim muitas coisas que jamais aconteceram e tantas outras aconteceram sem que nunca tivesse imaginado.
Eu temia reencontrar a jovem que deixei num dos bancos da faculdade. Temia que ela me cobrasse por não tê-la conduzido como sonhara. Temia não reconhecê-la.
Imaginei que assim como eu, meus colegas talvez não me reconhecessem, afinal, eu vestia um outro corpo, bem mais denso e o rosto já estava marcado pelos anos vividos.
A data do encontro se aproximava e por várias vezes pensei em faltar.
Deixa pra lá, ninguém vai sentir minha falta”.
 Pura covardia, puro medo. Sei lá, medo da rejeição, medo da emoção.
 Achei que seria desconcertante encarar meu passado e como justificar o futuro promissor que jamais aconteceu.
 Na minha cabeça tola, presunçosa, vaidosa, apenas eu havia envelhecido, apenas eu havia passado por dificuldades, perdas e decepções. Esqueci das pessoas que vivem e sobrevivem em cada um de nós. Não me dei conta que a vida acontece para todos.
O dia do encontro estava cada vez mais perto e eu não conseguia me decidir se ia ou não. Foi um longo talvez, até que a saudade e a insistência de Lucila, amiga querida, me fizeram colocar no comando, aquele que nunca deveria ter saído: o meu coração.
 Sorte. Muita sorte ter a lúcida Lucila como amiga e um coração ainda corajoso pra obedecer.
O dia do encontro finalmente chegou e eu acordei misteriosamente feliz. Revirei meus guardados a procura do suvenir há vinte e cinco anos esquecido: uma toalha, que revestia a mesa do bar no último encontro logo após nossa formatura. Nela havia assinaturas e recados de todos que compareceram àquele encontro. 
Enquanto eu procurava pensava nos amigos, Marcelo, Uel, Adriana, Claudia, Ailson, Gandhi, Crescenzo, Cristina, Zé Márcio e tantos outros que há muito não via.
 Agora sim, minha alma estava no comando. Era ela quem iria me guiar.
Já no caminho me percebi feliz.
Cheguei.
Coração disparado. Muita emoção. Respirei fundo e fui entrando no local do evento com calma, queria observar antes de me aproximar.
Que lindo! Quase todos estavam lá. Gente alegre, gente inteligente, gente criativa e irreverente. Gente saudável, gente do bem. De longe, pude ouvir o falatório e as mesmas gargalhadas que costumava ouvir no pátio da universidade. Eles estavam lá, amigos queridos.
 Apressei o passo, queria muito abraçá-los.
 Fui recebida com carinho surpreendente e quis muito todos os beijos e abraços que ganhei.
 Aquela era minha tribo e claro, todos me reconheceram apesar dos anos, pois ali estavam nossas almas e almas não envelhecem e as almas afins sempre se reconhecem.
Nosso coração de estudante estava lá e ainda batia forte, franco, fresco.
Durante seis horas tive de volta meus vinte e poucos anos.
Nada mais envelhecera. Naquelas horas o tempo jamais havia existido.
Muita conversa e muita cerveja, muito carinho, muita alegria. Tudo como antes. Até Marcelo incorporou o famoso, o incomparável, o inimitável Mário Lúcio e cantou seus hits.

Saí daquele encontro sentindo, no corpo e na mente, a idade da minha alma: vinte e poucos anos...
 Comecei a caminhar “jovem e displicente” em direção a saída, mas antes precisava ir ao sanitário e resolvi pedir informação a jovem recepcionista, que gentilmente me apontou a direção dizendo: a senhora pode ir por ali. Senhora? Senhora?
 “Aquele” senhora ficou reverberando na minha cabeça: ora, ora, ora...
Naquele momento, caí em mim, e acredite, caí tão forte que pude ouvir até o barulho.
Como pode? Não era assim que eu estava! Definitivamente eu não estava senhora! Eu tinha acabado de resgatar os meus vinte e poucos anos! Será que não dava pra ver?
 Pra completar o choque de realidade, na direção indicada pela moça, havia uma enorme porta de vidro que impiedosamente me refletiu, me revelou...
 Lastimei:
 Que pena... Os espelhos não refletem a alma.

Obs. A toalha, que guardei durante vinte e cinco anos, confiei à minha amada Adriana, a quem julguei ser sucessora natural.
Gandhi, em sua infinita sabedoria, tratou logo de apelidar a relíquia de “toalha sudário”. Ele foi preciso, pois aquele pedaço de pano envolveu e preservou intactos os melhores anos de nossas vidas.
 

TEXTO DEDICADO À TURMA DE 1984 DO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINAS.