domingo, 18 de novembro de 2012



 Era noite de verão e eu havia sido convidada para assistir a um show de MPB que iria acontecer num barzinho bem perto de minha casa. Do conjunto, que ia se apresentar naquela noite tão quente fazia parte o irmão de uma amiga, a quem eu queria muito prestigiar.
Eu estava diante de tudo que gostava: uma noite quente com cerveja gelada e a possibilidade de ouvir boa música, num ambiente muito acolhedor: um bar. Pra mim, naquela época, nada poderia ser melhor.
Para garantir minha presença ao evento, contratei uma senhora de minha confiança que costumava cuidar de Bruno nas noites em que eu precisava ou queria sair; Dona Nice, ela dormia em casa e isso me deixava mais tranqüila enquanto eu estivesse fora.
Dona Nice era uma senhora muito responsável e paciente, tinha jeito com crianças, mas sua aparência... Bem, digamos que sua aparência não era recomendada para crianças menores de oito anos: A pele daquela mulher era branca; muito branca e já bastante “frisada” pela idade, os cabelos extremamente vermelhos e arrepiados, de evidente rebeldia, revestidos por uma generosa camada de laquê aplicada pela senhora; na inútil tentativa de contê-los junto à cabeça; contudo, no decorrer do dia, mechas, ainda mais rebeldes iam, pouco a pouco se libertando, se desprendendo da “nave mãe” e sustentando-se em pé, compondo assim, um visual no mínimo estranho. Observar Dona Nice me fazia pensar que natureza, quando quer, sabe ser sarcástica.
 Além disso, pela manhã, o nariz de Dona Nice ficava muito vermelho, como se toda circulação sanguínea da senhora se concentrasse apenas na região central da face. A vermelhidão naquele nariz conferia-lhe um brilho descomunal e era impossível deixar de notar tamanha esquisitice.
Ver Dona Nice acordando, vestindo um peignoir azul Royal, de gola e punhos brancos que ela insistia em usar era como dar de cara com o Bozzo logo pela manhã.
Mesmo sendo dona deste visual, digamos pouco comum, aparentemente, Bruno não se importava com a aparência da senhora, mas, só pra garantir, todas as vezes que eu a contratava rezava pra que o menino não fizesse nenhum de seus comentários, com observações sempre tão francas e precisas, pois tinha medo que ele ofendesse aquela senhora.
Essa era minha maior preocupação quando deixava Bruno aos cuidados de Dona Nice e foi justamente graças a essa preocupação que resolvi, naquela noite, levá-lo comigo, mesmo tendo Dona Nice a minha disposição.
O esquema já estava montado na minha cabeça: a apresentação era cedo, o barzinho era bem perto de casa; se Bruno não quisesse ficar comigo ou ficasse com sono, eu poderia levá-lo pra casa e deixá-lo aos cuidados de Dona Bozza, digo, de Dona Nice, desta forma eu reduziria o tempo de contato entre Bruno e Dona Nice, o que poderia poupá-la da precisão impiedosa das observações, muitas vezes desconcertantes, de meu filho.
Enquanto eu tomava as devidas precauções e “montava esquemas” para preservar Dona Nice da franqueza de Bruno, nem de longe eu imaginava que desta vez eu seria seu alvo.
Assim foi feito, fomos ao tal barzinho prestigiar o amigo. Bruno estava contente por fazer um programa de adulto com a mãe, isso sem mencionar que o vovô e a vovó estariam no tal barzinho, pois também haviam sido convidados.
Bruno estava bem e prestava atenção em tudo, como era de seu costume, era um ambiente novo pra ele e havia muito que observar. Mas, logo após o final da segunda música, o menino começou a demonstrar os primeiros sinais de cansaço, até que pouco tempo depois, deitou a cabeça sobre a mesa, demonstrando claramente que havia chegado ao seu limite. Nessa hora, eu resolvi levá-lo para casa e deixá-lo na companhia de Dona Nice.
Ele não relutou, fez cara de bravo, o que pra mim era sono, mas acatou a ordem sem protestos, me acompanhando serenamente até nossa casa.
Chegamos ao apartamento; eu o coloque na cama e me despedi com um beijinho, como era de costume e ele retribuiu o beijo, o que me fez acreditar que tudo estava surpreendentemente bem.  Apaguei a luz e saí do quarto satisfeita.  Dei as últimas instruções a Dona Nice e voltei ao barzinho.
A noite foi ótima, música boa, amigos, conversa divertida, pessoas inteligentes e alegres, mas já era hora de voltar para casa.
Entrei no meu apartamento caminhando na ponta dos pés para não acordar nem Bruno e nem Bozza, que provavelmente já dormiam há horas.
Eu me preparava para dormir quando vi em cima de minha cama uma folha de caderno com a letrinha de meu filho, alfabetizado há bem pouco tempo. Pensei que era uma cartinha de amor, a primeira e esperava frase do tipo: “boa noite, mamãe, eu te amo”; ou ainda, “boa noite mamãe, senti sua falta”.  Com um sorriso satisfeito no rosto, interrompi o que estava fazendo e fui ansiosa em direção ao bilhete. Ao ler o seu conteúdo fui tomada por um incontrolável ataque de risos, pois nada poderia ser mais surpreendente que as palavras que nele estavam registradas.
 O bilhete dizia o seguinte:

“Mãe, você é muito chata.
 Você me manda embora do bar só por que eu dormi um pouco na mesa.
Isso que é ter mãe chata. Pode me bater por eu dizer isso, só que é isso que sinto em relação a você. Você é a mãe mais chata do mundo.
Eu acho que tenho hodio (ódio) de você, pois só por isso você me manda embora, mãe!(?)
Pode me bater quando você acordar. Eu acho você uma metida e tonta.
Chata, chata, metida e tonta.
Escreva no verço (verso) sua opinião idiota.”

Depois do primeiro impacto comecei a analisar o que aquele bilhete queria me dizer e me dei conta que Bruno, embora tenha feito tudo que eu havia determinado, estava profundamente contrariado e não teve o menor pudor em registrar sua indignação. Também achei muito engraçado a dúvida com relação ao ódio, com h, que ele sentia por mim, naquele momento e percebi o quanto ele estava enciumado por eu não estar totalmente disponível naquela noite, ou talvez por perceber que havia um mundo “além Bruno”, ao qual eu também pertencia. Daí eu também percebi que nós filhos, somos egoístas e pretensiosos, pois nos achamos merecedores da atenção integral de nossos pais. Exigimos muito, sempre, a qualquer hora, a qualquer preço. Nunca paramos pra perceber que nossos pais existem além de nós. Mas o que realmente me deixou impressionada, foi a coragem que Bruno teve de me enfrentar, mesmo achando que corria risco de apanhar, ele fez questão de me direcionar suas piores ofensas: chata, metida e tonta. Ele registrou claramente seu descontentamento com minha atitude e até desenhou para que eu não tivesse dúvidas.
Pode parecer incoerente, mas naquele momento tive orgulho de meu filho, pois ele tinha clareza, ele tinha coragem. Ele se expôs e me colocou de frente com os seus e com os meus sentimentos. Ele me fez inverter a ordem e pensar, pensar em mim, pensar em meus pais, pensar nos nossos papéis.
Meus pensamentos e o calor daquela noite me impediram de dormir. O verso, com ç, do bilhete permaneceu em branco, pois depois do desabafo do menino, que despertou minha lucidez e da demonstração de coragem, que me encheu de orgulho, qualquer coisa que eu escrevesse naquele bilhete no sentido de reprimir sua atitude ou tentar me desculpar pela minha, iria ser de fato, uma opinião idiota.

                          * Segue foto do bilhete original, na íntegra e sem cortes.*