Da casa espaçosa de muitos
cômodos com área de lazer imensa, incluindo piscina, Josué só tinha direito a
circular pelas dependências reservadas aos serviçais: cozinha, área de serviço
e os aposentos de alguns empregados que costumavam dormir no emprego.
Nas manhãs que Dona Matilde
chegava ao trabalho com Josué, era comum ouvir Dona Soraya perguntar: Matilde, tem alguém aí?
E Matilde profetizava: Não Dona Soraya, não é ninguém, é só meu
filho.
Dona Soraya saía todas as manhãs
para levar Olavinho às diversas aulas em que estava matriculado, incluindo as
aulas de piano, a qual Dona Soraya fazia questão que o menino se dedicasse.
Ao contrário de Matilde, Soraya sempre
apresentava o filho com muito orgulho, fazia questão de dizer: Esse é Olavinho, nosso futuro maestro.
Olavinho herdara o nome do avô e os sobrenomes
do pai e da mãe, pra ele o futuro brilhante já havia sido determinado mesmo
antes de nascer e era ratificado a cada manhã, a cada aula, a cada
apresentação.
Josué acompanhou a mãe ao
trabalho durante alguns anos e sempre tentava ajudá-la no que podia. Aos
quatorze anos, Josué, com muita sorte,
arrumou seu primeiro emprego. Começou a trabalhar na venda de Seu Afonso, na
mesma rua do serviço da mãe.
O jovem entregava todo tipo de
mercadoria que fazia parte do estoque e era comum vê-lo “passeando” pelas ruas do bairro em sua bicicleta com o cesto
repleto de mercadorias.
Tocava a campainha das casas e
logo uma empregada vinha atendê-lo pela porta dos fundos e quando era
questionada pela patroa a respeito de quem havia chegado, a mesma resposta era
ouvida por Josué: Não é ninguém, senhora,
é apenas o entregador da mercearia.
Assim, bem cedo, Josué passou a
ter a exata noção de sua identidade e do espaço que lhe cabia neste mundo.
O jovem percorria o bairro nobre
em sua bicicleta e conhecia a rotina de quase todas as pessoas e de algumas,
até o nome sabia, mas curiosamente, essas pessoas nunca haviam notado sua
presença. Para a maioria ele nem existia, tampouco interessava saber como as
frutas, verduras, queijos ou outros alimentos haviam chegado a suas casas, era
como se ninguém fosse responsável por
isso.
Josué não se ressentia ou talvez
nem se desse conta de seu absoluto anonimato, o importante era fazer com que
todos os alimentos chegassem ao seu destino em perfeito estado e no horário
determinado.
O tempo ia passando e Josué
seguia sem muitos questionamentos, o passado, o presente e o futuro não tinham
muitos diferenciais; seus dias eram “repetidos” e seriam assim até quando Deus
quisesse e até lá, Josué se dividia entre o trabalho de entregador na venda de
Seu Afonso e o primeiro grau noturno da escola pública bem perto de sua casa
num bairro esquecido na periferia da mesma cidade do bairro nobre de casas
enormes com áreas de lazer imensas.
Numa manhã de sábado, Josué se
viu atrasado para o trabalho de meio expediente que teria que cumprir e na
correria saiu de casa pensando nas entregas que iriam deixar de serem feitas em
conseqüência de seu atraso.
Correndo, atravessou a rua na tentativa de
alcançar o ônibus que acabara de parar no ponto do outro lado e foi atropelado
por um carro que vinha em sentido contrário.
Josué morreu ali, na rua bem perto de sua
casa, que ficava bem perto de sua escola.
Algumas pessoas lamentaram a
morte prematura.
No bairro nobre, Seu Afonso estranhava o
atraso de Josué enquanto escalava outro jovem para substituir-lo, e assim o dia
seguiu, com as mercadorias sendo entregues por outro garoto que era atendido pelas
empregadas pela porta dos fundos das casas enormes e ricas daquele bairro tão
nobre.
Naquele dia, naquele bairro e
naquela rua nada havia mudado tudo seguia absolutamente igual, afinal, ninguém havia morrido.
