domingo, 13 de janeiro de 2013


De vez em quando, o menino Josué acompanhava a mãe ao serviço. Dona Matilde trabalhava de empregada doméstica na casa de uma senhora de muitas posses, Dona Soraya, mulher de um bem sucedido empresário do ramo de alimentos e mãe do pequeno Olavinho, que se destacava devido às inúmeras habilidades.
Da casa espaçosa de muitos cômodos com área de lazer imensa, incluindo piscina, Josué só tinha direito a circular pelas dependências reservadas aos serviçais: cozinha, área de serviço e os aposentos de alguns empregados que costumavam dormir no emprego.
Nas manhãs que Dona Matilde chegava ao trabalho com Josué, era comum ouvir Dona Soraya perguntar: Matilde, tem alguém aí?
E Matilde profetizava: Não Dona Soraya, não é ninguém, é só meu filho.
Dona Soraya saía todas as manhãs para levar Olavinho às diversas aulas em que estava matriculado, incluindo as aulas de piano, a qual Dona Soraya fazia questão que o menino se dedicasse.
 Ao contrário de Matilde, Soraya sempre apresentava o filho com muito orgulho, fazia questão de dizer: Esse é Olavinho, nosso futuro maestro.
 Olavinho herdara o nome do avô e os sobrenomes do pai e da mãe, pra ele o futuro brilhante já havia sido determinado mesmo antes de nascer e era ratificado a cada manhã, a cada aula, a cada apresentação.
Josué acompanhou a mãe ao trabalho durante alguns anos e sempre tentava ajudá-la no que podia. Aos quatorze anos, Josué, com muita sorte, arrumou seu primeiro emprego. Começou a trabalhar na venda de Seu Afonso, na mesma rua do serviço da mãe.
O jovem entregava todo tipo de mercadoria que fazia parte do estoque e era comum vê-lo “passeando” pelas ruas do bairro em sua bicicleta com o cesto repleto de mercadorias.
Tocava a campainha das casas e logo uma empregada vinha atendê-lo pela porta dos fundos e quando era questionada pela patroa a respeito de quem havia chegado, a mesma resposta era ouvida por Josué: Não é ninguém, senhora, é apenas o entregador da mercearia.
Assim, bem cedo, Josué passou a ter a exata noção de sua identidade e do espaço que lhe cabia neste mundo.
O jovem percorria o bairro nobre em sua bicicleta e conhecia a rotina de quase todas as pessoas e de algumas, até o nome sabia, mas curiosamente, essas pessoas nunca haviam notado sua presença. Para a maioria ele nem existia, tampouco interessava saber como as frutas, verduras, queijos ou outros alimentos haviam chegado a suas casas, era como se ninguém fosse responsável por isso.
Josué não se ressentia ou talvez nem se desse conta de seu absoluto anonimato, o importante era fazer com que todos os alimentos chegassem ao seu destino em perfeito estado e no horário determinado.
O tempo ia passando e Josué seguia sem muitos questionamentos, o passado, o presente e o futuro não tinham muitos diferenciais; seus dias eram “repetidos” e seriam assim até quando Deus quisesse e até lá, Josué se dividia entre o trabalho de entregador na venda de Seu Afonso e o primeiro grau noturno da escola pública bem perto de sua casa num bairro esquecido na periferia da mesma cidade do bairro nobre de casas enormes com áreas de lazer imensas.
Numa manhã de sábado, Josué se viu atrasado para o trabalho de meio expediente que teria que cumprir e na correria saiu de casa pensando nas entregas que iriam deixar de serem feitas em conseqüência de seu atraso.
 Correndo, atravessou a rua na tentativa de alcançar o ônibus que acabara de parar no ponto do outro lado e foi atropelado por um carro que vinha em sentido contrário.
 Josué morreu ali, na rua bem perto de sua casa, que ficava bem perto de sua escola.
Algumas pessoas lamentaram a morte prematura.
 No bairro nobre, Seu Afonso estranhava o atraso de Josué enquanto escalava outro jovem para substituir-lo, e assim o dia seguiu, com as mercadorias sendo entregues por outro garoto que era atendido pelas empregadas pela porta dos fundos das casas enormes e ricas daquele bairro tão nobre.
Naquele dia, naquele bairro e naquela rua nada havia mudado tudo seguia absolutamente igual, afinal, ninguém havia morrido.