domingo, 30 de setembro de 2012

Quando o Bruno era criança ele questionava tudo. Fazia perguntas das mais variadas formas e de todos os tipos, desde as mais simples às mais constrangedoras. Ele tinha uma curiosidade além do normal; aliás, ele tinha muitas coisas além do normal, incluindo uma incomum capacidade de compreensão sobre muitos assuntos, o que me fazia, muitas vezes, exagerar nas explicações.

Ainda bem pequeno, por volta dos quatro anos, ele queria por que queria saber onde estava antes de estar na minha barriga. Claro que eu não podia dar a resposta real: no saco do seu pai, resolvi então dizer que ele era um anjinho, que estava no céu e de lá veio parar direto na minha barriga.
Senti-me um pouco pretensiosa com essa explicação; afinal, de certa forma, eu estava comparando o nascimento do Bruno ao nascimento do menino Jesus, e acredite, não há e nunca houve qualquer semelhança entre mim e a Virgem Maria, mas de qualquer forma, minha resposta foi suficiente para sossegar um pouco a criança.
Os anos foram passando e o repertório de perguntas só fazia aumentar: mãe, minha avó “atinge” o cabelo pra fingir que é moça? Mãe, por que a Cristina tem bigode se ela é mulher? É claro que ele perguntava isso olhando pra cara da própria Cristina. Mãe, por que ele não tem dente. Mãe, por que o nariz dela parece morango? Mãe, por que ele é feio. Mãe, por que a nonna é murchinha? Mãe, por que ela é velha? E daí por diante.
Quanto mais eu temia suas perguntas, mais ele caprichava.
Algumas perguntas eram verdadeiras “pegadinhas”; por exemplo: Mãe o que é lenda? Depois de ouvir minha longa explicação sobre o surgimento e as inverdades a respeito dessas lendas ele perguntou: Mãe, Papai Noel é lenda? Pronto eu estava encurralada. Se dissesse a verdade acabaria precocemente com a deliciosa fantasia do Natal, que é o acalento da infância de todos nós, além de funcionar muito bem como instrumento de chantagem para os pais durante quase todo o ano. Por outro lado, se eu mentisse e ele já suspeitasse da verdade, o que me parecia bem provável, eu seria a mãe mentirosa e correria o risco de perder a confiança do meu único filho. Sem saída e buscando uma solução rápida, optei pela verdade, que me pareceu o mais correto a fazer naquele momento. Péim, errei o botão, pois  imediatamente após ouvir a resposta verdadeira nu e cruamente, Bruno concluiu: então, Papai Noel não existe? Com os olhos cheios de lágrimas, o menino correu para o quarto e passou dois dias me olhando com olhinhos decepcionados; o que “acabou” comigo.
Depois disso, descobri que muitas vezes, a resposta errada é justamente a opção mais correta e durante alguns anos, na época do Natal, eu me sentia muito mal e culpada por ter errado na opção.

É impressionante como as mães erram por medo de errar. Meu coração pedia para eu mentir, mas a “merda” da minha consciência me aconselhou a dizer a verdade e eu acatei o conselho e acabei pondo fim à fantasia de um garotinho; o meu filho.
 Eu deveria ter deixado minha intuição tomar conta daquela situação, ao invés disso resolvi pensar e fiz a pior escolha.
Por essas e por outras é que acredito quando dizem que é tão bom ser avó.
As avós estão comprometidas com a alegria e com a fantasia, elas querem a felicidade dos netos e nada mais importa. Vó é a mãe que “fechou pra balanço”; é a mulher que aprendeu a ser mãe, ela teve tempo de pensar, de ponderar, de respeitar os sentimentos e de pesar na real importância das coisas nesta tão breve vida.
Acho que ser avó é a possibilidade de nos redimir pelos erros que cometemos como mãe, ser avó é conseguir da vida uma raríssima segunda chance.

Meus amigos e meus familiares costumavam dizer que eu tinha sempre uma boa resposta para tudo, mas Bruno veio para por fim de vez a esse conceito sobre a minha pessoa.
Ele conseguia me deixar literalmente sem resposta.
Certo dia, Bruno me perguntou se eu trabalhava para “comprar dinheiro” e eu disse que não, que eu não comprava dinheiro, mas sim trocava meu trabalho por dinheiro e que era assim que as pessoas faziam; trabalhavam para ganhar dinheiro em troca.
Continuando o assunto ele perguntou se eu usava o dinheiro para “comprar cheques” e eu expliquei que não e que o dinheiro que ganhava com meu trabalho, eu guardava no banco. O banco me dava talões de cheque para que eu pagasse minhas compras; e as pessoas das lojas eram quem trocavam os cheques que eu passava pelo meu dinheiro que ficava guardado no banco e me alonguei um pouco mais na explicação dizendo que quando havia dinheiro para ser trocado por cheque nós adultos costumávamos dizer que o cheque tinha fundo e quando o dinheiro acabava, lá no banco, o cheque ficava sem fundo.
Bruno prestava atenção em tudo que eu dizia e logo após minha explicação ele perguntou se meu cheque tinha fundo para eu comprar um estojo igual ao que ele tinha visto com um coleguinha no colégio. Eu disse que sim, mas que ele teria que esperar até a próxima semana, pois no momento eu estava com pouco fundo; ou seja, pouco dinheiro e não queria ficar sem fundo; portanto meus cheques estavam com pouco fundo e era melhor esperar que ele tivesse mais fundo.
Depois de um tempo percebi que foi uma “over explicação” para uma criança de cinco anos.
O estojo que meu filho queria era muito cobiçado pelos alunos da sua escola, pois contava com uma gama de inutilidades jamais vista. O tal estojo tinha de tudo: tesoura, lente de aumento, espelho, lanterna, cortador de grama, cortador de unha, cortador de charuto, pé de cabra, pé de coelho, chave inglesa, chave Phillips, trio elétrico, desembaçador, desfibrilador, abridor de latas, de garrafa, lixadeira, furadeira, enfim, todo tipo de inutilidade que uma criança cursando o pré-primário nunca precisaria.
Aquele estojo era surrel; era a versão retangular doInspetor Bugiganga”. Era praticamente um “Inspetor Bugiganga pra viagem” e com tantos acessórios desnecessários, é claro que não sobrava muito espaço para se colocar coisas importantes para sua vidinha acadêmica como lápis, borracha, canetas, giz de cera, etc.
 Além de absolutamente desnecessário o preço de lançamento do estojo era proporcional ao tamanho e à quantidade de seus acessórios inúteis. Mas fazer o que, aquele objeto era, naquele momento, o sonho de consumo do meu filho e isso, pra mim, valia muito.
Pedi então que ele esperasse apenas alguns dias e nós iríamos até a loja para comprar o tão desejado estojo.
Assim que recebi meu salário convidei Bruno para irmos até a loja a fim de compramos o cobiçado estojo. Mais que depressa o menino aceitou o convite e saímos de casa conversando como era de costume. Ele me contava como era o estojo que tinha em mente, a cor que ele iria escolher e o quanto eram importantes todos aqueles acessórios. Eu me divertia com a conversa do menino.
 Chegamos à loja e uma vendedora muito simpática e solícita veio nos atender prontamente. Eu lhe pedi que mostrasse os modelos de estojo daquele tipo que ela dispunha. A moça apresentou com presteza todos os modelos e demonstrou todas as funções idiotas daquele objeto inacreditavelmente absurdo.
Bruno olhava maravilhado para todos eles e depois de pensar um pouco optou pelo mais completo; ou seja, o que continha o maior número de inutilidades. Pedi então que ela o embrulhasse e abri minha bolsa para dar início ao pagamento da mercadoria bizarra.
Naquela época não usávamos cartões de crédito para as compras, a função dos cartões era basicamente retirar dinheiro dos caixas eletrônicos.
Enquanto eu tirava o talão de cheques da bolsa, a vendedora se desmanchava em sorrisos e rasgava elogios ao meu filho dizendo o quanto ele era bonito e esperto por escolher aquele estojo. Eu retribuía a simpatia a mim oferecida e agradecia também com sorrisos, fingindo não perceber sua estratégia de vendas.
Tudo corria civilizadamente bem, tudo estava formalmente perfeito, parecia até um diálogo de compra de “lição de livrinho de inglês”, recheado de por favores e obrigados, até que no momento exato em que eu iniciei o preenchimento do cheque, Bruno fez a seguinte pergunta em alto e bom tom: Mãe, tem fundo?
Aquelas palavras reverberaram por toda loja; undo, undo, undo. A vendedora, que antes se desmanchava em amabilidades, me olhou como se eu fosse o Rabino Henry Sobel, é aquele das gravatas. Pude ver claramente a desconfiança em seus olhos e o seu rosto, a partir daquele instante, não insinuou mais nem um sorrisinho, nem que por educação ou solidariedade pelo meu constrangimento.
Fique ali, sem graça, sem jeito, sem ação e mais uma vez sem resposta.
Que situação, que vergonha!
A pergunta do Bruno não deixava dúvidas para ninguém naquela loja e eu podia até ouvir o pensamento das pessoas: essa mulher é uma tremenda 171, ela faz isso todo dia, dá cheques sem fundos em todas as lojas da cidade. Se não fosse assim, essa criança não estaria falando isso. Que criança pergunta para a mãe se o cheque tem fundo; só mesmo filhos de estelionatário têm essa preocupação. Crianças não mentem, mas adultos dão cheque sem fundo, ah, se dão! Olha ela ali. Vigarista!
Acho que foi isso que o Ronaldo Ésper sentiu quando foi pego roubando vasos de túmulos no cemitério de São Paulo.
Eu, totalmente desconcertada, quis amenizar a situação com o clássico comentário: Ah, esse menino! Constatei que não convenci e “cretinamente” continuei: Quem te disse isso, filho?  Resposta: você
Aquela foi a pior pergunta que eu poderia ter feito para Bruno naquele momento. A péssima escolha me deixou encurralada de novo e com cara de anus bem ali no meio da loja; resolvi dizer: Claro que tem fundo, filho, do contrário eu não estaria aqui comprando esse estojo pra você. Não podemos comprar nada sem dinheiro.
-Mas você “tá” dando cheque.
-Mas o cheque tem fundo e chega. Vamos embora.
Depois dessa última observação, a vendedora pediu para que eu colocasse no verso do cheque o meu telefone, meu endereço, RG, CPF, só faltou pedir atestado de bons antecedentes, o meu tipo sanguíneo e fator rh.
 Atendi ao pedido desconfiado da moça, que continuava me olhando seriamente; ela estava ficando com cara de “boi zebu” e eu já estava até vendo a hora que ela ia arrancar aquele estojo das minhas mãos.
Eu queria sair logo daquele lugar, mas resolvi não deixar que meu desejo transparecesse. Agradeci a vendedora e saí da loja com a calma dos justos, afinal, estava tudo certo, meu cheque tinha fundo, eu tinha dinheiro para comprar aquela mercadoria, não havia do que me envergonhar, não sei por que me senti tão constrangida.
Ninguém sabia, mas a pergunta do meu filho tinha um fundamento e não queria dizer que eu era uma caloteira.
Ao deixar aquela loja comecei a ver o fato com outros olhos e percebi que damos importância excessiva à opinião alheia.
Bruno estava feliz com seu novo estojo, era a felicidade e a leveza da inocência, inocência essa que o protegia dos olhares desconfiados e nem de longe deixava que ele percebesse as suspeitas e as deduções injustas dos pensamentos dos adultos. Ele estava blindado pela infância e pela alegria.
Ele tinha um estojo novo, cheio de funções inúteis, que eram imprescindíveis para alimentar sua imaginação e isso me bastava.
Dane-se a opinião dos outros.

Dias depois, passei na mesma loja para comprar uma agenda e fui atendida com muita simpatia pela mesma vendedora, afinal, ela havia constatado: meu cheque tinha fundo.

domingo, 23 de setembro de 2012



No terceiro andar do prédio no centro da cidade onde passei a maior parte de minha infância morava também minha tia Nely, mãe de Carlos Alberto, o Bird, meu primo irmão, que passou alguns anos de sua infância calçando uma botinha ortopédica, cuja função não era apenas corrigir os “pés chatos”, mas também atingir impiedosamente a canela de todos, indistintamente.
O Bird, literalmente, marcou a infância de todos nós, pois era comum apresentarmos hematomas depois das festas de aniversários de família, ou dos encontros casuais nos fins de semanas na casa dos meus avós paternos.
Carlos Alberto, o Bird, adquiriu uma espécie de cacoete do joelho pra baixo: era só avistar uma canelinha desavisada que ele “pimba”, ia logo carimbando com uma mancha roxa produzida pela ponta de sua botinha ortopédica. O Bird tinha verdadeira obsessão por canelas, o menino chutava até canela em pó.
 Durante toda infância, Bird se dedicou a um único objetivo: transformar todas as crianças da família em dálmatas.
 Ele nunca teve justificativas ou motivos aparentes para aqueles chutes era apenas um vício adquirido durante os anos de uso daquelas botinhas assassinas.
Liane era seu dálmata predileto, pois era doce demais para revidar os pontas-pés de Bird e por isso, tornou-se a prima mais malhada de todas.
Comigo era um pouco diferente; eu também usava botinhas ortopédicas...
 Carlos Alberto era um garoto nada fácil de lidar, ele insistia em marcar as pessoas justamente quando elas estavam bem distraídas e não esperavam pelo ataque. Qualquer um, a qualquer momento poderia tomar uma botinada impiedosa do pequeno Bird.
Velhos, jovens, crianças, qualquer um, bastava ter uma canela, que ele dava logo uma botinada pra quebrar. Aquele menino não respeitava nem perna mecânica, ele bicava sem dó.
Bird só não apanhava como deveria e precisava por causa de sua mãe; tia Nely, tia muito querida por todos os sobrinhos, que muitas vezes deixavam de revidar os “bicos” desferidos por Carlos Alberto só para não aborrecê-la, pois ela não reagia muito bem quando seu único filho levava a pior. O senso de proteção e o amor de tia Nely pelo filho eram tão grandes que ela não agüentava vê-lo apanhar, mesmo que merecidamente.
Tia Nely, irmã de meu pai, era e ainda é uma tia extremamente amorosa, presente e disponível. Ela está sempre por perto, oferecendo ajuda, oferecendo colo e oferecendo amor. Embora adorando crianças, optou por ter apenas um filho, o terrível Carlos Alberto, e talvez por isso, tenha resolvido adotar em seu coração todos os sobrinhos, especialmente as meninas, a quem sempre dedicou toda atenção e carinho, que só uma tia muito amorosa é capaz de dar.
Tia Nely é acolhedora e sempre esteve por perto, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza. Ela sim é fiel; ela sim merece um adesivo colado no carro com os dizeres: Tia Nely é Fiel.

Tia Nely me ensinou muitas coisas. A primeira foi logo na infância, quando eu ainda estava sendo alfabetizada, ela me alertou que a palavra rato não se escreve com dois erres.
Na adolescência ela me ensinou a fazer escova nos cabelos com o pente! Técnica muito importante e que faz toda a diferença no estilo de vida de uma mulher inteligente e independente.
Quando me tornei mãe, ela me ensinou a bater o purê de batatas com leite morno para que ele ficasse fofinho e mais gostoso, a fim de melhor alimentar o pequeno Bruno. Tinha que ser leite; tinha que ser morno e tinha que bater se não, não seria digno de alimentar um bebê.
Também me ensinou a fazer bolinho de arroz, moldando a massa com duas colheres para dar um formato uniforme às porções, coisa muito séria na formação dos bolinhos de arroz.
Graças à tia Nely, também adquiri a mania de colocar azeite em tudo.
Ela também me ensinou a burlar a receita e falsificar uma “schiacciata”, comprando massa de pizza pronta na padaria da esquina, regando com um fio de azeite, claro, e salpicando sal grosso antes de assar.
Dentre todas as coisas importantes que aprendi com minha querida tia uma com certeza iria mudar para sempre minha maneira de conduzir a vida. Era a lição máster, a lição imprescindível e que nem meu pai, nem minha mãe estavam aptos a me ensinar, mas como sempre, tia Nely estava lá, ela não ia me faltar e assim, ainda na minha adolescência, ela, cumprindo seu papel de tia e madrinha, me apresentou ao mundo alcoólico.
O universo das biritas, mais especificamente, das caipirinhas, estava bem ali, sendo apresentado com muita doçura por tia Nely. Mais tarde, minha tia Lia irmã de minha mãe, aprimorou as lições acrescentando ao meu cardápio etílico, outras bebidas como: vinhos importados, espumantes, frisantes e até atingir o nível máximo: o wisky.
Eu e tia Nely costumávamos passar algumas tardes no clube de campo que éramos sócias e nos dias de semana a cantina deste clube, quase sempre estava fechada, mas tia Nely, que pensava em tudo, preparava sempre um lanchinho e as doces caipirinhas para levar ao passeio.
Eu adorava tudo aquilo e sentia que éramos amigas, mais do que isso; éramos cúmplices; afinal nós estávamos bebendo juntas e isso era um elo indestrutível.  
Nós ríamos e conversávamos a tarde toda. Não me lembro muito bem sobre o que falávamos, mas sei que essas idas ao clube e as conversas regadas a caipirinhas fracas e doces, nos aproximaram ainda mais.
Tia Nely sempre gostou de conversas animadas e de uma cervejinha nas tardes quentes, tudo na dose certa, pois é muito comedida em tudo que faz.
Os anos passaram e minha afeição por essa tia tão querida só aumentou, pois a cada ano passado ela demonstrava mais e mais o seu carinho e sua dedicação para com as muitas sobrinhas que a vida lhe deu.
No decorrer de sua vida, entre todas as batalhas que venceu, tia Nely arranjou tempo para conquistar o amor e a admiração de cada uma das sobrinhas, sempre com amizade e companheirismo, sempre presente, sempre constante.
Tenho certeza que não sou a única a reconhecer seu valor e que tem por ela um carinho especial; tenho certeza que tia Nely já esteve presente para apoiar incondicionalmente todos os seus sobrinhos nos momentos difíceis que passaram, assim como nas alegrias que viveram.
Tenho certeza que ela conquistou para sempre o nosso amor e nossa gratidão.
Um beijo e obrigada, tia.

Obs. Quanto ao Bird, Carlos Alberto, bem... Ele cresceu.

domingo, 9 de setembro de 2012


Entrar para o Mundo de Marlboro nem sempre é fácil. No meu caso, só foi possível por ter um irmão que me colocava diretamente em contato com meus primos e alguns de seus amigos.

O Mundo de Marlboro é um lugar interessante e ao mesmo tempo bizarro. Lá, os conceitos são muitas vezes invertidos e o que nos parece desprezível e abominável é enaltecido pela maioria de seus membros.
Os membros do Mundo de Marlboro se recusam a aceitar a evolução das relações humanas; especialmente no que diz respeito ao relacionamento entre homens e mulheres. É como se uma mentalidade primitiva regesse o comportamento das pessoas daquele mundo tão “masculino”.
Para se perceber isso, não basta apenas entrar no Mundo de Marlboro, há que participar dele e para tanto faz-se necessário conquistar a plena confiança de seus membros, a ponto de ser considerada mais um “brother”.
Se ainda quisermos aprender alguma coisa com e sobre esses brothers, é preciso que eles, “esqueçam” que você é mulher; o que só é possível se existir um grau de parentesco capaz de inibir o interesse sexual por você, portanto, já deu pra perceber que nós mulheres, só entramos em Terra de Marlboro pelas mãos de um homem, que seja da família, do contrário, você não entra e se entrar, cuidado, será como caça.
Desde criança eu costumava brincar com meu irmão e com meus primos, especialmente o Bird, com quem passei boa parte da minha infância.
Crescemos juntos e isso foi fator determinante para anular definitivamente qualquer possibilidade de interesse sexual entre as partes.
Com Marcos, passei a conviver mais intensamente depois da adolescência, mesmo assim, ainda deu tempo de criarmos um laço de amizade bem forte, mas que não impedia que, de vez em quando, ele se arriscasse em alguma gracinha machista, só para não perder a prática. Essas gracinhas eram encaradas por mim como doces tolices de primo homem e mais novo e em nada interferiam no amor, na amizade, na confiança e na admiração que eu sentia e sinto por ele. Eu amo esse meu primo e até hoje, conservamos nossas afinidades e conseguimos conversar com total honestidade por horas, principalmente depois de algumas “doses”.
Conviver de perto com o sexo oposto me ajudou muito nas relações com outros homens. Para mim, esta convivência foi fundamental para aprender a lidar com eles e entender a sua natureza e a sua linguagem.
Desde cedo percebi que os homens funcionam no sistema binário; por exemplo: ou dá, ou desce.
Outra coisa muito importante que aprendi a respeito dos homens foi que eles mentem, todos eles mentem. Alguns ainda, são capazes de adequarem com velocidade e destreza espantosas o seu raciocínio ao que eles acham que “aquela mulher”, que “naquele momento” lhes interessa quer ouvir; isso é pior que mentir; é iludir.
Mentir e/ou iludir é uma unanimidade entre os homens; é um cacoete da alma masculina.
Transitando por Terra de Marlboro também pude constatar o que há tempos desconfiava: príncipe encantado não existe, pois como o próprio nome diz, ele é encantado; ou seja, está sob efeito de encantamento, portanto, logo irá “acordar” e das profundezas deste ser emergirá seu sapo interior mostrando de vez o seu caráter e as suas intenções; e digo mais, nem príncipe Willian é encantado; por baixo daquela roupinha real é bem provável que more um sapo verde, feio, desajeitado e gosmento.   
Aliás, quem inventou essa história de príncipe encantado? Por que fizeram isso com a gente? Por causa desta crença tem muita mulher que passa a vida beijando sapo na esperança dele virar príncipe um dia.
Pobres tolinhas, que ilusão!
 A verdade é que o mundo está repleto de sapos. Vivemos na Sapolândia desde os primórdios da humanidade e falando em primórdios da humanidade, justiça seja feita, dizer que os homens sempre mentiram é exagero; houve uma época em que eles não mentiam: a Pré-história
Nesta época, eles não mentiam por que ainda não sabiam falar e porque não tinham que convencer a gente de nada; usavam a força e pronto. Era comum ver os futuros príncipes puxando suas escolhidas pelos cabelos e arrastando-as até a caverna mais próxima, sem “xavequinho”, sem luz de velas e sem música ambiente e sem papinho do tipo: eu sou o último romântico. Faziam tudo rapidinho e depois sumiam sem se quer dar um telefonema no dia seguinte. Depois de alguns meses nascia outra coisinha pré-histórica, que iria crescer e ficar igualzinho a todos os outros “uga-bugas” que povoavam a Terra.
Nessa época não adiantava reclamar, ainda não existiam nem delegacia da mulher e nem a Lei Maria da Penha; tudo era na base da força mesmo e quem podia mais, chorava menos.

Chocante é constatar que muito pouco mudou de lá pra cá. Para boa parte dos homens o que interessa ainda é: afogar o ganso, molhar o biscoito, descabelar o palhaço. “É disso que o veio gosta”.
Alguns homens ainda conservam o inacreditável hábito “pegar” animaizinhos inocentes e fazem isso na maior cara-de-pau. Não sei se por comodidade ou por bizarra preferência, esses homens correm para “pegar” pobres ovelhinhas.
Você já pensou?
Coloque-se no lugar desses animaizinhos e imagine que você é uma ovelhinha fofinha e bonitinha, de lãzinha branquinha e carinha rosadinha, que está distraída saltitando livremente pelos pastos verdejantes, quando de repente aparece uma criatura que tem duas vezes o seu tamanho que nem é da sua espécie, é de outra categoria, de um outro mundo que nada tem a ver com o seu, que produz sons que você nunca ouviu e nem sabe decodificar; pois bem, essa criatura sem noção te pega e enquanto você tenta correr, ele creu. Você, pobre ovelhinha branquinha de carinha cor-de-rosa, fica ali, impotente, com os olhinhos lacrimejantes, com carinha de ovelhinha que comeu e não gostou, ou melhor, que foi comida e não gostou. Sua “dignidade ovelhal” dói e tudo que consegue dizer é: mééééé! Méééééé! 
Que sina essa a das ovelhinhas.
O fato é que bicho homem não tem jeito mesmo, já estamos no século XXI e ele se recusa a evoluir. Ainda não tratam com o devido respeito nem as mulheres e nem as ovelhinhas.
Dentro do casamento é um pouco diferente; a questão não é mais evolução, é crescimento, pois ele se recusa a crescer e espera que você seja ao mesmo tempo: mãe, amante, psicóloga, enfermeira, cozinheira, arrumadeira e trepadeira.
No papel de mãe, ele espera que você ache bonitinhos todos os seus gases, assim como a mãe dele achava quando ele era bebê: Ah! Que lindo! O neném da mamãe arrotou! Hum, que fedorzinho, o nenê fez punzinho?
Ele faz questão de mostrar o bilau e espera que você diga: Ah! Que lindo! É seu?
Quando ele sai do banho e não joga a toalha no chão ou arruma muito mal e porcamente a própria cama, ou ainda, quando executa qualquer tarefa absolutamente banal, ele espera que você diga: Ah! Que lindo! Foi você que fez? Sozinho? Muito bem!
Ainda no papel de mãe ele espera que você coloque limites em suas atitudes inconseqüentes e egoístas: O que significa essa marca de batom na sua camisa? Muito bem, você vai ficar de castigo e não vai “encostar” em mim até o Natal do ano que vem, só pra aprender a não sujar a camisa, desmazelado! Vai já lavar isso.
No papel de amante, você terá que ter sempre os cabelos arrumados, as pernas depiladas os olhos maquiados, além de alguma frase de efeito como: Uau! Nunca vi tão grande!
No papel de arrumadeira é preciso dedicar horas de seu dia para manter todas suas coisinhas em ordem: a coleção de latinhas de cerveja, os bonecos G.I.Joe e toda coleção do Comandos em Ação, além das miniaturas de carrinhos, que um dia ele jurou que teria. Também é preciso dobrar suas meias e cuecas, pois muitas vezes falta-lhes coordenação para isso. 
No papel de psicóloga você deverá entender tudo, além de adivinhar o que significa seus braços cruzados, o seu silêncio, sua cara amarrada e suas respostas vagas.
No papel de cozinheira você deve preparar com esmero seu prato predileto e achar ótimo quando ele disser que está “quase” igual ao da mãe dele. Não parece, mas isso é um elogio.
No papel de enfermeira você deverá ter disposição para cuidar de cada resfriado do seu marido como se ele tivesse acabado de sair de uma seção de quimioterapia, pois é assim que ele reage aos resfriados.
Já no papel de trepadeira, às vezes é necessário muito talento, pois você deve fazê-lo crer que ele é o mais gostoso do planeta e que te dá mais tesão que o Brad Pitt em Tróia.
Como ficou claro, os homens além de mentirem necessitam que você também minta pra eles.
Essas mentiras alimentam o seu ego, bem como os relacionamentos e se você teimar em dizer a verdade tudo desanda, pois o equilíbrio dos mundos e das relações entre homens e mulheres está, há séculos, baseado em papéis pré-determinados por nossas expectativas, por nossas fantasias.
Sabemos que é mentira, mas não ousamos desmenti-las. Isso poderia por fim às nossas verdades.

domingo, 2 de setembro de 2012



Em mil novecentos e noventa e quatro eu já estava recuperada, quer dizer, não chorava todos os dias a morte do meu pai; já conseguia chorar dia sim, dia não. Estava trabalhando em outro jornal e estava até namorando um bonitão que morava no meu prédio.
Aos poucos as coisas iam se encaixando e eu e Bruno seguíamos em frente, sem pressa e recuperando nossa habitual tranqüilidade.
Eu já sentia vontade de ir às festas e de receber pessoas em minha casa que, aliás, nesta época era muito movimentada não só pela da localização, como pela enorme quantidade de amigos que eu tinha. Agora eu estava à vontade para recebê-los em minha casa, pois não havia mais a figura mal humorada e às vezes até mal educada de meu ex-marido, que quase sempre me deixava constrangida.
Era uma outra fase de vida, a fase da leveza, da liberdade e da possibilidade de alegria e se não fosse pela imensa saudade que eu sentia de meu pai, seria sem dúvida, a melhor fase da minha vida.  Finalmente eu era “quase totalmente” feliz.
Mil novecentos e noventa e quatro também foi o ano que o Brasil ganhou mais uma Copa do Mundo e em um dos jogos, resolvi convidar meus primos e meu irmão para assistirem ao futebol em meu apartamento.
Preparei tudo, cerveja, salgadinhos e o espírito de festa para receber bem a todos; eu me programava para uma tarde divertida com meus primos e meu irmão, mas não podia imaginar que iria ter muito mais que futebol e cerveja para me divertir.
Eu sempre gostei da companhia de meus primos e do meu irmão. Sentia-me uma Smurfete em meio aos Smurfs; ou seja, a única mulher que podia entrar naquele universo tão masculino. Era muito bom poder participar das conversas e saber como os homens realmente pensam. Era como estar no “Mundo de Marlboro” sem precisar fumar nenhum daqueles cigarros horrorosos ou domar qualquer cavalo selvagem.
Os primeiros a chegar foram meus primos, Marcos e Carlos, o Bird. Não demorou muito, chegou meu irmão, José, dizendo que havia convidado Carlos, o Espanhol para assistir ao jogo em minha casa.
Carlos, o Espanhol, era um amigo de meu irmão que por sua vez era irmão de um amigo meu de nome Inácio. Sugeri, então que meu irmão ligasse Inácio e também o convidasse para assistir ao jogo conosco.  Meu irmão mais que depressa, acatou a sugestão, mas naquela pressa desnecessária, ele acabou ligando, por engano, para a casa de uma senhora, que atendeu ao telefone aos berros e sem nenhum motivo, mandou que meu irmão fosse pra pqp, assim que ele perguntou se era da casa do Inácio. Detalhe: esta senhora também achou que meu irmão fosse um “filho da Guta”.
Pasmo com as ofensas gratuitas, ele desligou o telefone e ficou em silêncio por alguns segundos, como quem tenta entender o que tinha acontecido e em seguida, começou a desabafar:
-“Essa mulher é louca”; por que ela me xingou  tanto? Eu só perguntei se era da casa do Inácio. Não havia motivo pra ela gritar comigo. Fui educado, usei o “por favor”, por que essa agressão? Ah não! Eu tenho que ligar pra ela de novo e saber por que ela me xingou tanto!
Meu irmão sempre teve a mania de querer entender o porquê da atitude alheia. Pra que ele queria entender as razões de uma mulher tão mal educada e totalmente desconhecida e que obviamente não estava disponível para conversas.
Até hoje, quando penso nessa história, não entendo por que ele queria entender a “Maleducada”, pra que tentar entender pessoas que não interessam, não basta ter que tentar entender as atitudes dos pais, dos filhos, dos maridos, das esposas, dos chefes, dos parentes? Pra que ele queria entender aquela mulher?
Mas meu irmão não ia deixar barato, ele precisava saber por que tinha sido destratado.
Pressionando o botão redial do telefone, meu irmão, sem saber dava início a uma história que se estenderia por todo o dia e só terminaria de madrugada.
Depois de apertar o “famigerado” botão, o inconformado José esperou que a “Miss Candura” atendesse e disse:
-Por que a senhora me xingou? Eu só liguei errado, estava tentando falar com meu amigo Inácio e a senhora começou a gritar e me xingar; teria sido bem mais fácil se a senhora dissesse: não, aqui não tem nenhum Inácio, pronto, eu teria agradecido, me desculpado e tudo teria acabado bem, mas agora eu quero saber por que a senhora me xingou?
*Cá entre nós, seria ainda mais fácil se ele esquecesse essa história e ligasse logo pro Inácio. *
Enquanto meu irmão falava e pedia explicações, a mulher gritava e insistia em dizer que ele era um “filho da Guta”, a partir daí, a sorte da “Maleducada” estava lançada.
 Aquela mulher não podia imaginar, nem nos seus maiores devaneios, como seu dia iria acabar. Ela acabava de cruzar um dos arcos do portão do Inferno de Dante; assim que gritou pela segunda vez com meu irmão; sem saber, “abandonou para sempre a esperança de rever o céu”. Ela acabara de entrar no Inferno.
A falta de educação da tele-senhora foi determinante para que eu e meu irmão retomássemos a energia de nossa infância; aquela que nos unia em torno dos ideais mais sórdidos. Foi como se de repente voltássemos no tempo e subitamente despertasse em nós o exu-mirim há anos adormecido.
Imediatamente após o telefonema que libertou nossos instintos há anos trancados no porão do nosso passado, eu e meu irmão começamos a cronometrar o dia e a cada quarto de hora, um de nós ligava para a casa da “Lady da Telefonia Fixa”  perguntando se era da casa do Inácio.
Havia um revezamento organizado entre as ligações, pois meus primos também entraram na brincadeira.
Meu aparelho de telefone tinha um visor bem grande na frente que registrava o último número que havia sido discado, com isso, foi possível anotá-lo e passar para outros amigos que prontamente aderiram à brincadeira e entraram para a turma do “é da casa do Inácio?”.
Até o Inácio ligou para a mulher para perguntar se era da casa do Inácio.
Algumas vezes encontrávamos o telefone ocupado, acho que ela exausta tirava o fone do gancho para ter alguns minutos de paz, mas nós não desistíamos; éramos muitos e estávamos empenhados em fazer daquele dia um inferno para ser guardado para sempre na memória da “serena senhora”.
Essa brincadeira começou mais ou menos às duas horas da tarde; já eram sete horas da noite e ela estava longe de terminar.
Sob efeito da cerveja e da euforia por mais uma vitória do Brasil, atormentar a “Maleducada” ia ficando cada vez mais engraçado. Ríamos muito enquanto aquela criatura exibia sem pudor os muitos palavrões que colecionou ao longo da vida. O repertório era imenso e confesso que algumas combinações eu desconhecia.
Já estávamos exaustos de tanto rir, o jogo de futebol havia acabado e a cerveja também; resolvemos então que era hora de acabar com aquela “festa”; afinal era sábado e outras festas nos esperavam.
Todos se despediram e foram embora, mas não sem antes dar mais uma rodada de telefonemas.
 Na despedida, Bird perguntou se eu não queria acompanhá-lo à boate do clube que éramos sócios. Eu aceitei o convite, pois não tinha nada programado para aquela noite.
Cada um foi pra sua casa e eu e Bird combinamos de nos encontrar mais tarde, por volta das onze horas da noite.
Cumprindo o combinado, Bird passou para me pegar às onze horas e seguimos para a tal boate não muito animados.
Ficamos por lá um pouco, dançamos mais um pouco e depois de algum tempo, resolvemos que era hora de irmos embora, pois já passava das duas da madrugada e o programa não estava muito divertido.
No caminho, eu e meu primo resolvemos parar num auto-lanche para comermos um sanduíche, pois até aquele momento nós só havíamos nos alimentado basicamente de cerveja e algumas besteiras, como: amendoins, castanhas, essas bobagens.
Chegamos à lanchonete e escolhemos o que queríamos comer. Conversávamos distraídos enquanto esperávamos famintos pelo nosso lanche.
O cheiro da comida sendo preparada aguçava ainda mais nosso apetite e ficamos alegres ao avistar de longe o garçom chegando com nossa bandeja. Mais alegres ainda ficamos ao colocarmos as mãos nos nossos lanches e levá-los à boca na intenção da primeira mordida, mas a tão esperada mordida inaugural não aconteceu.
Parecia que nossos movimentos haviam sido ensaiados, pois ao levarmos os lanches à boca, avistamos ao mesmo tempo um orelhão e simultaneamente, a mesma idéia maligna nos ocorreu e imediatamente fomos tomados por um ataque de risos que nos impossibilitou de morder aquele tão desejado lanche. Não conseguíamos nos controlar, mas depois de alguns minutos de riso intenso, nossa euforia diminuiu e foi possível executar nossa idéia sórdida.
Tentando ainda controlar o riso, meu primo discou para a casa da mulher “fina senhora” e disse: Alô, aqui é o Inácio, tem algum recado pra mim?
Não foi possível nem ouvir a resposta para cínica pergunta tampouco os palavrões que a mulher berrava ao telefone às três da madrugada, pois um novo ataque de riso, muito mais intenso, tomou conta de nós e em seguida, de todas as pessoas que estavam naquela lanchonete, só que desta vez parecia que eu não ia conseguir parar de rir. Isso nunca tinha acontecido antes comigo; eu realmente pensei que fosse morrer de tanto rir, meu diafragma doía muito e mesmo assim era impossível parar.
Meu primo também estava passando mal e com sacrifício dizia:
 - Pára, por favor, pára.
Quanto mais ele pedia, mais eu ria; não estava mesmo conseguindo parar.
Depois de um bom tempo de sonoras gargalhadas eu e Bird, finalmente conseguimos nos controlar. Fomos aos poucos nos acalmando para conseguirmos comer nossos lanches e voltarmos para casa.
É espantoso, mesmo com a “barriga cheia” e depois de ter encerrado meu dia com uma má ação, consegui dormir o sono dos justos. Tive uma noite serena e de muita paz.
*Acho que há alguma coisa de muito errado comigo!*