sábado, 22 de dezembro de 2012



Eu posso dizer que durante minha infância tive tudo que desejei. Tá certo, os desejos eram bem simples: uma boneca Suzi e todas as cartelinhas com as roupinhas que deixavam a bonequinha mais antipática do que já era, os bonequinhos dos ídolos da Jovem Guarda, Roberto Carlos, O Tremendão e outros, todos cabeçudos e vestindo terninhos justos, outra bonequinha de papel pra gente encaixar as roupinhas também de papel, joguinho de “Resta Um”, livrinhos de colorir e tantas outras bugigangas que nem me lembro mais. Tudo era bem simples e estava ao meu alcance, era só pegar aquele telefone preto e pesado, “discar” quatro ou cinco números (não me lembro ao certo) e pronto, meu desejo se realizava como num passe de mágica.
Quem realizava sem demora todos os meus desejos era meu pai. Ele estava sempre de prontidão quando se tratava de me fazer feliz. Bastava um telefonema e na hora do almoço ou do jantar, ele aparecia com meu pedido.
Meu pai era um homem lindo, inteligente, bem nascido muito bem educado, simpático, gentil e comunicativo. Ele falava muito bem, exceto por um probleminha na fala, coisa boba, sem importância, quase imperceptível.
 Era muito comum ouvi-lo dizer que abasteceu o carro a caminho de casa, no posto Atrantic, que mascava chicrete só de vez em quando, que não falava quase nada de ingrês, ou ainda, que precisava comprar um broquinho para suas anotações.
Para mim, meu pai era perfeito, e se isso for algum defeito, então era esse o defeito de meu pai.
Claro que ninguém é perfeito, mas eu olhava meu pai com o coração e era assim que ele o via; perfeito.
Ele era o homem da minha vida; dele eu tinha tudo, colo, carinho, conselhos e o mais importante: exemplos. Ele me ensinava o que sabia, mas eu aprendia através do que ele me mostrava.
Ele me dava tudo, menos uma coisa, uma coisa que eu desejava demais: “A BICICRETA”.
Saímos do apartamento onde morávamos e nos mudamos para uma casa, cuja vizinhança era repleta de crianças, na maioria meninos. Eu adorava as brincadeiras dos meninos e participava de quase todas, pulava o muro das casas e roubava romã, tocava as campainhas e corria, jogava queimada com bola de meia molhada, enfim, fazia tudo que os meninos da rua faziam, mas ficava sempre de fora quando a brincadeira era andar de bicicleta pelo bairro. Meu pai era radicalmente contra bicicletas e por mais que eu pedisse, por mais que eu implorasse, ele não se comovia, estava irredutível e dizia: “Me peça o que quiser, mas bicicreta nem pensar. Bicicreta é a coisa mais perigosa do mundo”!  Devia ser crime dar bicicreta pra criança. E continuava: “Meu pai também nunca me deu bicicreta e hoje eu entendo o porquê, já vi gente se arrebentar andando de bicicreta, bicicreta não, bicicreta é um perigo!”
Meu pai tinha muita certeza do que dizia e seria difícil convencê-lo do contrário; ele sabia de tudo, mas desconhecia um detalhe. Ele nem desconfiava, mas na minha vida havia  um outro homem: meu avô Victorio.
 Esse era meu mago, tão poderoso que era capaz de curar todas as minhas dores com apenas um punhado de “pó invisível”. Qualquer arranhão, qualquer hematoma logo eram curados com apenas uma aplicação daquela poção, que curiosamente estava sempre no seu bolso. Ele aplicava a magia e avisava: “já vai passar”. Meu avô, pai de minha mãe, era tão poderoso que podia desobedecer a minha mãe e até o meu pai, e ele o fez.
Ao saber do meu desejo frustrado, o velho tratou logo de providenciar a bicicleta mais bonita de todas e fez surpresa. 
Ouvi a campainha e corri para atender. O entregador dizia em voz alta: “entrega para Dona Marta Porto”. Minha mãe chegou logo em seguida e recebeu também curiosa, a encomenda.
 Lembro-me muito bem da grande caixa de papelão marrom com letras azuis que diziam: Casas Lunarde.
 Eu estava tão eufórica que abri o imenso pacote ali mesmo, no portão da minha casa. Não podia acreditar, era ela, a bicicleta mais linda do mundo, com pneus “tala-larga” e pintura branca e verde tinindo, brilhando ao sol. Aquela pintura só não brilhava mais que os meus olhos. Era muita alegria.
Não perdi tempo, montei na minha “bike” e fui chamar meus amigos pra pedalar pelas ruas, ignorei completamente as proibições de meu pai.
Depois de feito, não havia mais o que contestar. Meu pai foi se acostumando com a idéia e percebeu que seu medo era mesmo exagerado, contudo ele sempre aconselhava, me indicava a melhor maneira de pedalar pela rua e pedia pra que eu não fosse muito longe. Ele continuava a zelar pela filha e eu começava a dar ares de independência.
Como esses homens foram importantes na minha vida... Como eles foram importantes pra minha vida. Eles determinaram o meu “jeito” de amar, eles me deram o modelo e eu ainda não sabia, mas o meu amor estaria reservado pra sempre aos nobres de alma, aos homens de bem. Só por eles eu me apaixonaria.
Essa história, embora tola, também me faz pensar que a vida é um eterno aprender, pois se por um lado meu pai temia me perder, por outro, meu avô cuidava pra que eu não perdesse absolutamente nada da minha infância.
Meu pai, mais jovem, achava que podia controlar as perdas e impedir meus tombos. Meu avô, mais velho, já sabia que os tombos fatalmente aconteceriam e seriam necessários pra que eu aprendesse a me levantar.
O exemplo destes homens não teve importância apenas na minha formação, ele foi um pouco mais além e alcançou meu filho, pois me serviram de base, de referência de inspiração.
Desde a infância eu aprendera o que é e como é um homem nobre, um homem de bem, havia visto de perto e pude passar ao meu filho ensinamentos preciosos pra que ele também se tornasse um homem de bem.
 Perdi meu pai muito cedo e esse foi o maior tombo de minha vida. Nenhuma bicicleta me derrubaria com tanta força, com tanta fúria.
 Meu avô também não estava mais, tampouco seu pó invisível pra aplacar tamanha dor, mas havia um menino a quem eu pretendia transformar num homem de bem. Esse menino foi o braço que me apoiou pra que eu me levantasse, foi minha razão, foi o meu alento.
Num certo dia, que tinha tudo para ser um dia qualquer, igual àquela manhã em que ganhei minha bicicleta, a vida me sorriu e me “entregou” um outro homem, não menos nobre que aqueles que eu tanto amara, diferente em alguns aspectos e que me despertou pra um amor um outro amor, um amor que eu nunca havia experimentado: o amor de mulher.
 Esse homem tinha tudo o que eu buscava e parte do que eu havia perdido. Pra esse homem havia apenas uma possibilidade: ser meu marido, pois desde a primeira vez que o encontrei eu o vi com meu coração e sabe de uma coisa?  Pra mim, ele também era perfeito.

sábado, 1 de dezembro de 2012



Através do Facebook começamos a programar nosso encontro.
Vinte cinco anos havia se passado desde nossa formatura e durante esse tempo, muitas vezes, a gente se perde entre aquilo que achávamos que seríamos e aquilo em que realmente nos transformamos. Eu confesso, imaginei pra mim muitas coisas que jamais aconteceram e tantas outras aconteceram sem que nunca tivesse imaginado.
Eu temia reencontrar a jovem que deixei num dos bancos da faculdade. Temia que ela me cobrasse por não tê-la conduzido como sonhara. Temia não reconhecê-la.
Imaginei que assim como eu, meus colegas talvez não me reconhecessem, afinal, eu vestia um outro corpo, bem mais denso e o rosto já estava marcado pelos anos vividos.
A data do encontro se aproximava e por várias vezes pensei em faltar.
Deixa pra lá, ninguém vai sentir minha falta”.
 Pura covardia, puro medo. Sei lá, medo da rejeição, medo da emoção.
 Achei que seria desconcertante encarar meu passado e como justificar o futuro promissor que jamais aconteceu.
 Na minha cabeça tola, presunçosa, vaidosa, apenas eu havia envelhecido, apenas eu havia passado por dificuldades, perdas e decepções. Esqueci das pessoas que vivem e sobrevivem em cada um de nós. Não me dei conta que a vida acontece para todos.
O dia do encontro estava cada vez mais perto e eu não conseguia me decidir se ia ou não. Foi um longo talvez, até que a saudade e a insistência de Lucila, amiga querida, me fizeram colocar no comando, aquele que nunca deveria ter saído: o meu coração.
 Sorte. Muita sorte ter a lúcida Lucila como amiga e um coração ainda corajoso pra obedecer.
O dia do encontro finalmente chegou e eu acordei misteriosamente feliz. Revirei meus guardados a procura do suvenir há vinte e cinco anos esquecido: uma toalha, que revestia a mesa do bar no último encontro logo após nossa formatura. Nela havia assinaturas e recados de todos que compareceram àquele encontro. 
Enquanto eu procurava pensava nos amigos, Marcelo, Uel, Adriana, Claudia, Ailson, Gandhi, Crescenzo, Cristina, Zé Márcio e tantos outros que há muito não via.
 Agora sim, minha alma estava no comando. Era ela quem iria me guiar.
Já no caminho me percebi feliz.
Cheguei.
Coração disparado. Muita emoção. Respirei fundo e fui entrando no local do evento com calma, queria observar antes de me aproximar.
Que lindo! Quase todos estavam lá. Gente alegre, gente inteligente, gente criativa e irreverente. Gente saudável, gente do bem. De longe, pude ouvir o falatório e as mesmas gargalhadas que costumava ouvir no pátio da universidade. Eles estavam lá, amigos queridos.
 Apressei o passo, queria muito abraçá-los.
 Fui recebida com carinho surpreendente e quis muito todos os beijos e abraços que ganhei.
 Aquela era minha tribo e claro, todos me reconheceram apesar dos anos, pois ali estavam nossas almas e almas não envelhecem e as almas afins sempre se reconhecem.
Nosso coração de estudante estava lá e ainda batia forte, franco, fresco.
Durante seis horas tive de volta meus vinte e poucos anos.
Nada mais envelhecera. Naquelas horas o tempo jamais havia existido.
Muita conversa e muita cerveja, muito carinho, muita alegria. Tudo como antes. Até Marcelo incorporou o famoso, o incomparável, o inimitável Mário Lúcio e cantou seus hits.

Saí daquele encontro sentindo, no corpo e na mente, a idade da minha alma: vinte e poucos anos...
 Comecei a caminhar “jovem e displicente” em direção a saída, mas antes precisava ir ao sanitário e resolvi pedir informação a jovem recepcionista, que gentilmente me apontou a direção dizendo: a senhora pode ir por ali. Senhora? Senhora?
 “Aquele” senhora ficou reverberando na minha cabeça: ora, ora, ora...
Naquele momento, caí em mim, e acredite, caí tão forte que pude ouvir até o barulho.
Como pode? Não era assim que eu estava! Definitivamente eu não estava senhora! Eu tinha acabado de resgatar os meus vinte e poucos anos! Será que não dava pra ver?
 Pra completar o choque de realidade, na direção indicada pela moça, havia uma enorme porta de vidro que impiedosamente me refletiu, me revelou...
 Lastimei:
 Que pena... Os espelhos não refletem a alma.

Obs. A toalha, que guardei durante vinte e cinco anos, confiei à minha amada Adriana, a quem julguei ser sucessora natural.
Gandhi, em sua infinita sabedoria, tratou logo de apelidar a relíquia de “toalha sudário”. Ele foi preciso, pois aquele pedaço de pano envolveu e preservou intactos os melhores anos de nossas vidas.
 

TEXTO DEDICADO À TURMA DE 1984 DO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINAS.

domingo, 18 de novembro de 2012



 Era noite de verão e eu havia sido convidada para assistir a um show de MPB que iria acontecer num barzinho bem perto de minha casa. Do conjunto, que ia se apresentar naquela noite tão quente fazia parte o irmão de uma amiga, a quem eu queria muito prestigiar.
Eu estava diante de tudo que gostava: uma noite quente com cerveja gelada e a possibilidade de ouvir boa música, num ambiente muito acolhedor: um bar. Pra mim, naquela época, nada poderia ser melhor.
Para garantir minha presença ao evento, contratei uma senhora de minha confiança que costumava cuidar de Bruno nas noites em que eu precisava ou queria sair; Dona Nice, ela dormia em casa e isso me deixava mais tranqüila enquanto eu estivesse fora.
Dona Nice era uma senhora muito responsável e paciente, tinha jeito com crianças, mas sua aparência... Bem, digamos que sua aparência não era recomendada para crianças menores de oito anos: A pele daquela mulher era branca; muito branca e já bastante “frisada” pela idade, os cabelos extremamente vermelhos e arrepiados, de evidente rebeldia, revestidos por uma generosa camada de laquê aplicada pela senhora; na inútil tentativa de contê-los junto à cabeça; contudo, no decorrer do dia, mechas, ainda mais rebeldes iam, pouco a pouco se libertando, se desprendendo da “nave mãe” e sustentando-se em pé, compondo assim, um visual no mínimo estranho. Observar Dona Nice me fazia pensar que natureza, quando quer, sabe ser sarcástica.
 Além disso, pela manhã, o nariz de Dona Nice ficava muito vermelho, como se toda circulação sanguínea da senhora se concentrasse apenas na região central da face. A vermelhidão naquele nariz conferia-lhe um brilho descomunal e era impossível deixar de notar tamanha esquisitice.
Ver Dona Nice acordando, vestindo um peignoir azul Royal, de gola e punhos brancos que ela insistia em usar era como dar de cara com o Bozzo logo pela manhã.
Mesmo sendo dona deste visual, digamos pouco comum, aparentemente, Bruno não se importava com a aparência da senhora, mas, só pra garantir, todas as vezes que eu a contratava rezava pra que o menino não fizesse nenhum de seus comentários, com observações sempre tão francas e precisas, pois tinha medo que ele ofendesse aquela senhora.
Essa era minha maior preocupação quando deixava Bruno aos cuidados de Dona Nice e foi justamente graças a essa preocupação que resolvi, naquela noite, levá-lo comigo, mesmo tendo Dona Nice a minha disposição.
O esquema já estava montado na minha cabeça: a apresentação era cedo, o barzinho era bem perto de casa; se Bruno não quisesse ficar comigo ou ficasse com sono, eu poderia levá-lo pra casa e deixá-lo aos cuidados de Dona Bozza, digo, de Dona Nice, desta forma eu reduziria o tempo de contato entre Bruno e Dona Nice, o que poderia poupá-la da precisão impiedosa das observações, muitas vezes desconcertantes, de meu filho.
Enquanto eu tomava as devidas precauções e “montava esquemas” para preservar Dona Nice da franqueza de Bruno, nem de longe eu imaginava que desta vez eu seria seu alvo.
Assim foi feito, fomos ao tal barzinho prestigiar o amigo. Bruno estava contente por fazer um programa de adulto com a mãe, isso sem mencionar que o vovô e a vovó estariam no tal barzinho, pois também haviam sido convidados.
Bruno estava bem e prestava atenção em tudo, como era de seu costume, era um ambiente novo pra ele e havia muito que observar. Mas, logo após o final da segunda música, o menino começou a demonstrar os primeiros sinais de cansaço, até que pouco tempo depois, deitou a cabeça sobre a mesa, demonstrando claramente que havia chegado ao seu limite. Nessa hora, eu resolvi levá-lo para casa e deixá-lo na companhia de Dona Nice.
Ele não relutou, fez cara de bravo, o que pra mim era sono, mas acatou a ordem sem protestos, me acompanhando serenamente até nossa casa.
Chegamos ao apartamento; eu o coloque na cama e me despedi com um beijinho, como era de costume e ele retribuiu o beijo, o que me fez acreditar que tudo estava surpreendentemente bem.  Apaguei a luz e saí do quarto satisfeita.  Dei as últimas instruções a Dona Nice e voltei ao barzinho.
A noite foi ótima, música boa, amigos, conversa divertida, pessoas inteligentes e alegres, mas já era hora de voltar para casa.
Entrei no meu apartamento caminhando na ponta dos pés para não acordar nem Bruno e nem Bozza, que provavelmente já dormiam há horas.
Eu me preparava para dormir quando vi em cima de minha cama uma folha de caderno com a letrinha de meu filho, alfabetizado há bem pouco tempo. Pensei que era uma cartinha de amor, a primeira e esperava frase do tipo: “boa noite, mamãe, eu te amo”; ou ainda, “boa noite mamãe, senti sua falta”.  Com um sorriso satisfeito no rosto, interrompi o que estava fazendo e fui ansiosa em direção ao bilhete. Ao ler o seu conteúdo fui tomada por um incontrolável ataque de risos, pois nada poderia ser mais surpreendente que as palavras que nele estavam registradas.
 O bilhete dizia o seguinte:

“Mãe, você é muito chata.
 Você me manda embora do bar só por que eu dormi um pouco na mesa.
Isso que é ter mãe chata. Pode me bater por eu dizer isso, só que é isso que sinto em relação a você. Você é a mãe mais chata do mundo.
Eu acho que tenho hodio (ódio) de você, pois só por isso você me manda embora, mãe!(?)
Pode me bater quando você acordar. Eu acho você uma metida e tonta.
Chata, chata, metida e tonta.
Escreva no verço (verso) sua opinião idiota.”

Depois do primeiro impacto comecei a analisar o que aquele bilhete queria me dizer e me dei conta que Bruno, embora tenha feito tudo que eu havia determinado, estava profundamente contrariado e não teve o menor pudor em registrar sua indignação. Também achei muito engraçado a dúvida com relação ao ódio, com h, que ele sentia por mim, naquele momento e percebi o quanto ele estava enciumado por eu não estar totalmente disponível naquela noite, ou talvez por perceber que havia um mundo “além Bruno”, ao qual eu também pertencia. Daí eu também percebi que nós filhos, somos egoístas e pretensiosos, pois nos achamos merecedores da atenção integral de nossos pais. Exigimos muito, sempre, a qualquer hora, a qualquer preço. Nunca paramos pra perceber que nossos pais existem além de nós. Mas o que realmente me deixou impressionada, foi a coragem que Bruno teve de me enfrentar, mesmo achando que corria risco de apanhar, ele fez questão de me direcionar suas piores ofensas: chata, metida e tonta. Ele registrou claramente seu descontentamento com minha atitude e até desenhou para que eu não tivesse dúvidas.
Pode parecer incoerente, mas naquele momento tive orgulho de meu filho, pois ele tinha clareza, ele tinha coragem. Ele se expôs e me colocou de frente com os seus e com os meus sentimentos. Ele me fez inverter a ordem e pensar, pensar em mim, pensar em meus pais, pensar nos nossos papéis.
Meus pensamentos e o calor daquela noite me impediram de dormir. O verso, com ç, do bilhete permaneceu em branco, pois depois do desabafo do menino, que despertou minha lucidez e da demonstração de coragem, que me encheu de orgulho, qualquer coisa que eu escrevesse naquele bilhete no sentido de reprimir sua atitude ou tentar me desculpar pela minha, iria ser de fato, uma opinião idiota.

                          * Segue foto do bilhete original, na íntegra e sem cortes.*


domingo, 28 de outubro de 2012



Aos cinqüenta anos a visão que se tem da vida assume um caráter de “balanço geral”. É impossível seguir em frente sem comparar as mudanças de comportamento que marcaram as décadas vividas. No meu caso foram necessárias cinco décadas pra constatar que o mundo está ficando um lugar cheio de gente muito chata. As exigências com tudo que é politicamente correto, com a boa forma e com a boa saúde me irritam um pouco.
Quem nasceu na década de sessenta herdou um mundo em plena transformação, as pessoas buscavam novas formas de vida, questionavam velhos conceitos e tentavam romper com os moldes impostos por uma sociedade extremamente conservadora. Aparece então “a juventude transviada” e o cigarro está em todas as bocas, como símbolo e modernidade, charme e emancipação.
 Na década seguinte esses conceitos, que inauguraram grandes mudanças, somaram-se a outros movimentos e a sociedade assume outra forma. As pessoas, especialmente os jovens buscavam verdades mais filosóficas e menos materialistas. Aparecem as drogas e os hippies que achavam ingenuamente que estavam construindo um mundo melhor, livre de preconceitos. O lema era paz e amor.
Na década de oitenta, tudo isso começa a ficar fora de moda e a grande mudança fica por conta da busca da realização profissional e começam a aparecer os yuppies, que bem mais conservadores que os hippies valorizam os bens materiais e, sobretudo, o sucesso profissional.
Os jovens deixam para trás o conceito de “sociedade alternativa” e passam a ter um comportamento mais individualista e mais competitivo. O lema agora é: “money, money, money”
Na década de noventa alguns yuppies ainda sobrevivem, mas assumem um perfil mais irreverente e bem humorado; uma produção descontrolada de publicitários começa a enfestar o mercado de trabalho e sem lema algum e os jovens começam a se dividir em tribos.
Aparece então todo tipo de babaca: gótico, punk, grunge, e encabeçando a lista dos imbecis, os novos Skinheads.  Nesta época, o feminino assume um perfil mais despojado e o masculino não é mais tão viril como era no tempo da vovó.
No começo do novo milênio a sociedade começa a buscar outros valores e a aparência passa a ser extremamente valorizada. A inteligência, o raciocínio, a sensibilidade e a civilidade são deixados um pouco de lado.
O Axé está em alta e começam a aparecer músicas com letras monossilábicas de significado, forma e conteúdo questionáveis como: “Aê aê aê aê, ê ê ê ê, oeo, oeo, oeo, eo. Ê, olha eeeeo, olha eeeeo aqui”. Jovens sarados e bombados e poposudas balançando seus traseiros avantajados e ofensivamente duros, começam a ocupar grande espaço na mídia e preenchendo nossas telinhas, que em breve serão bem maiores de led ou plasma.
Hoje em dia, o Axé nem pensa em acabar; os bundões continuam na mídia e foram batizados com nomes de frutas: é mulher jaca pra cá, mulher melancia pra lá, e tem até mulher samambaia, para aqueles que ao invés de comer, preferem deixar num canto só para enfeitar o ambiente.
 Homens frutinhas também começam a “pipocar” pra tudo quanto é lado, esses receberam o rótulo de metrossexual, que juram que não são veados, mas não têm certeza se são homens. Eles flutuam num vácuo entre fazer parte de uma torcida organizada ou fazer uma progressiva no cabeleireiro mais famoso da cidade.   
Num desmembramento da busca pela aparência perfeita, surge a obsessão pela saúde e com ela o Dr. Drauzio Varella, que chega para acabar com a festa dos remanescentes da década de sessenta e setenta; ou seja, eu.
Ele sai do Carandiru e vai direto para a Rede Globo de Televisão a fim de nos transformar em pessoas cada vez mais culpadas pela vida errante que estamos levando.
O Dr. Drauzio consegue me entristecer; ele transformou meu prazer em culpa, além de me dar nítida impressão de que tenho feito tudo errado até agora: eu durmo errado, sento errado, me movimento errado, como errado, bebo errado; enfim, eu vivo errado.
Segundo o modelo de vida sugerido pelo Dr. Drauzio Varella fica proibido para todos da raça humana: beber, fumar e fritar; ou seja, tudo que eu costumo fazer aos finais de semana. E agora? O que eu faço com o meu sábado e meu domingo? Será que terei que cortar também as amizades que me acompanham nesses péssimos hábitos?
Corta a bebida, corta a fritura, corta o cigarro, corta os amigos; corta os pulsos de uma vez!
Sem amigo, sem cigarro, sem bebida, sem aperitivos, sem salgadinhos; vida sem sal e sem açúcar; restando-me apenas um ensopadinho de repolho e claro, a solidão, pois quem vai querer me acompanhar num ensopadinho de repolho?
O Dr. Drauzio também sugere que o cigarro seja substituído por cenoura, pepino e água. Hummm, agora sim eu largo esse vício! Que delícia! Como não pensei nisso antes?
De repente o cigarro passou a ser a maldição do século XXI. Os fumantes passaram a ser os malditos sem vergonha e sem direito a nada.
Primeiro veio a segregação e o mundo ficou dividido em ala de fumantes e ala de não fumantes. Até aí, tudo certo, afinal ninguém é obrigado a suportar o hábito alheio, até porque, fumante nunca gostou de não fumante; menos ainda de ex-fumante. Depois criaram o tal do fumódromo, que nada mais era que um recinto isolado e feio, cuja decoração se resumia a um cinzeiro gigante, geralmente sujo e onde, na maioria das vezes, não eram oferecidos nem bancos ou cadeiras para o execrado fumante sentar-se enquanto saciava seu vício. O pobre fumante tinha que permanecer em pé, sem direito ao mínimo de conforto naquele espaço restrito, que demonstrava claramente a falta de consideração que o mundo já começava a ter por ele.
Hoje, acabaram até com os fumódromos e fumar só é possível em lugares totalmente descobertos; ou seja, o fumante desrespeitado, maldito e execrado fica exposto a todo tipo de intempérie: chuva, sol, tempestade de areia, tempestade de neve, vendaval, chuva de granizo, avalanche, tsuname, terremoto, furação, etc. Que se dane, ele fuma mesmo!
Aos poucos a sociedade está colocando o fumante pra fora: pra fora do restaurante, da lanchonete, dos cafés e até das tabacarias; pra fora das lojas, das ruas, dos bairros, das cidades, do país e finalmente do mundo. Já estou vendo a hora que vão criar um planeta pra enviar os fumantes; aliás, acho que essa obsessão frenética dos cientistas em descobrir novos planetas é pra isso, para enviar os fumantes pra lá.  Quero só ver como é que nós vamos fazer para vir comprar cigarro aqui na Terra.
De uma hora pra outra, o fumante passou a ser amaldiçoado e não há espaço e nem perdão para ele. Todo mundo merece perdão, menos o fumante. Até quem torturou e matou durante o regime militar foi anistiado e teve seus direitos garantidos, mas fumante não; esse tem que se ferrar. Às vezes acho que nem Jesus Cristo teria perdoado os dois ladrões se soubesse que eles eram fumantes. Em vez de: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso”, o mesmo ladrão, depois de confessar que era fumante ouviria: “Em verdade te digo, “fumantis fedorentus”. Hoje, não irás comigo a parte alguma, pois no paraíso não encontrarás ala de fumante. Acho melhor que vás para o inferno mesmo e vê se morre de boca fechada, baforentus”.
Neste século, os fumantes foram condenados por todos a todo tipo de humilhação, andam por aí à deriva numa sociedade que os excluiu e os marginalizou e que resolveu acabar com quem fuma, mas nunca pensou em acabar com o cigarro.
O poder público achou mais eficaz fazer o processo inverso: acabar com o fumante que dá prejuízo para os cofres públicos antes de acabar com os fabricantes de cigarros que dão grande lucro aos cofres públicos.
O fato é que nós, cinquentões fumantes estamos ofendidos diante da falta de respeito com que somos tratados. Tudo bem, cigarro é mesmo uma merda, mas eu não sou. Eu sou uma cidadã digna, mereço e exijo respeito. Respeitem meus cabelos brancos e, sobretudo meus pulmões pretos; afinal eu sou de um tempo em que fumar era bonito; balançar a bunda e os seios siliconados em rede nacional é que era feio. Eu sou de um tempo em que falar em rede nacional que faz sexo anal era extremamente feio, mas fumar era charmoso.
Hoje, tudo mudou, as pessoas podem falar sem o menor constrangimento que “dão o cu”, agora, experimenta falar que é fumante pra ver o que acontece, neguinho te chama de indecente, depravada, devassa etc.
De repente os conceitos se invertem e eu é que sofro preconceito por acender um simples cigarrinho de tabaco?
Eu não estou fazendo apologia ao cigarro, muito menos questionando os males causados por ele; eu sei que os especialistas têm razão ao alertar que cigarro causa vários tipos de câncer, enfarto, derrames, enfisemas etc. Tudo isso já foi mais que comprovado e exaustivamente divulgado, inclusive na própria embalagem de cigarros o fumante pode contar com um leque de fotos desagradáveis e de profundo mau gosto, que em nada contribuem para a decisão de parar de fumar. Pulmão preto, feto no vidrinho, pé podre, neguinho entubado, rato morto e torso costurado de nada sevem para quem ainda não decidiu ou não se sente apto a parar de fumar.
Também não discuto e nem ouso discordar dos terapeutas quando alegam que cigarro é uma droga e é uma forma de fuga; aliás, sobre esse assunto posso dar meu testemunho e citar um caso clássico de cigarro como forma de fuga, pois conheci uma senhora, cujo marido saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou; ele fugiu e largou a pobrezinha com um casal de filhos. Ah! Se ele não fumasse talvez as coisas teriam sido diferentes, talvez ele nem tivesse pensado em fugir, maldito cigarro!  
 Brincadeiras à parte, o fato é que já estão discutindo a descriminalização da maconha e daqui a pouco até maconheiro vai ter mais respeito e mais espaço no mundo do que fumante. Até maconheiro vai poder existir e se ver no direito de olhar para o “desprezível” fumante e dizer: sai pra lá com esse cigarro, por favor, não quero ser um fumante passivo. Como diria minha avó, mó! (depois eu explico esse mó).
Antigamente, quando a gente via alguém fumando um baseado era comum dizer: “olha, aquele cara é maconheiro”; hoje os maconheiros olham para gente com cara de nojinho e falam: “olha, aquela véia é fumante”.
Hoje a sociedade tem mais preconceito de fumante que de maconheiro. Não tenho absolutamente nada contra os maconheiros, mas eles alimentam o tráfico enquanto os fumantes alimentam a Souza Cruz e a Phillip Morris, que pagam altos impostos; portanto nada mais justo que os fumantes, que sustentam empresas que pagam altos impostos para o governo, tivessem direito, pelo menos a uma ala de fumantes no mundo.
 Minha revolta será completa se um dia criarem uma ala de maconheiros e outra de não maconheiros nos bares e restaurantes e nem quero pensar na possibilidade de se criar um maconhódromo. Aí sim eu vou sair desvairada quebrando tudo, até lá, o melhor que eu tenho a fazer é me conformar com os rumos injustos que as “coisas” tomaram e começar a considerar a possibilidade de parar de fumar para poder viver mais, melhor e em sociedade.

* mó: interjeição polivalente, importada da Itália e adotada por minha avó para exprimir inconformismo, espanto, absurdo ou constatação do óbvio ululante. * 

sábado, 20 de outubro de 2012



Toda mulher merece uma biba. É incrível, mas somente uma boa biba pode fazer com que uma mulher se sinta realmente mulher; homem nenhum tem esse poder. Só uma biba sabe nos dar o devido valor, a atenção merecida e a dedicação que nós mulheres esperamos, muitas vezes em vão, dos homens.
Ter uma biba amiga é ter orientação. A biba te situa, te corrige, te aplaude e te repreende quando todos estão com “peninha” de você.
Com franqueza contundente, a biba é capaz de criticar sua roupa, seu cabelo, suas atitudes e sua postura sem jamais te ofender ou diminuir.  Ela espera e exige mais de você, pois acredita e sabe que você pode dar.
Uma biba franca vale mais que qualquer manual de comportamento ou consultoria de moda. A bibaantecede”, está ligada no que acontece e no que ainda vai acontecer. Ela tem sexto, sétimo e oitavo sentidos e não pensa duas vezes antes de mandar pro quintos dos infernos todos aqueles que ela pressente que te farão algum mal. A biba te protege e te alerta.
Dizem que quando Deus fecha uma porta Ele abre uma janela, pois bem, minha janela tinha o nome de Silvio. Quando todas as portas pareciam se fechar bem na minha cara, Silvio chegou colorido, alegre, esfuziante e ensolarado. Através dele pude enxergar muitas coisas que ainda não tinha visto no mundo e em mim mesma.
Essa janela me deu a visão das possibilidades.
Silvio é a biba do meu coração; só ele foi capaz de me entender numa fase em que eu mesma não me entendia.
Divertido, inteligente, sagaz e disposto, Silvio tinha sempre a solução; dormiu várias noites em minha casa só para me fazer companhia ou cuidar de Bruno quando eu tinha trabalho para fazer.
Enquanto eu passava a noite redigindo um jornal que ia ao ar às seis da manhã, Silvio e Bruno aprontavam de tudo naquele apartamento: faziam bolo de madrugada e acabavam com a cozinha, jogavam videogame e discutiam o tempo todo, assistiam a filmes de aventura com direito à pipoca e inventavam brincadeiras ativas e barulhentas.
Silvio promovia todo tipo de bagunça para deixar Bruno feliz e isso era tudo que o menino precisava naquela fase.  
Era comum ouvir alguns berros de Silvio dizendo: Bruno, “traz” água pra Tata. Ah, menino, obedece a Tata.
Bruno rindo muito atendia ao comando. Era muito bom ter minha casa alegre novamente.
 A energia de Silvio tomava conta de todo o ambiente. Eu me sentia segura e tranqüila e podia trabalhar despreocupada, pois sabia que meu filho estava em boas mãos.
Toda a dedicação e carinho que Silvio dispensava a mim e a Bruno tinha um preço: torta de atum. Silvio era apaixonado por minha torta de atum e praticamente me obrigava a fazê-la todas as vezes que estava em casa.
Ele gostava mais de torta de atum que as Tartarugas Ninjas gostavam de pizza.
Era lei: todo final de semana eu tinha que fazer a “bendita” torta de atum e vê-lo devorá-la se derretendo em elogios, o que me deixava muito contente, afinal era o mínimo que eu podia fazer por ele.
Dei a receita dessa torta mais de mil vezes para Silvio, mas ele sempre dizia que a minha era melhor. Eu sabia que aquilo era um truque, mas fingia acreditar e continuava a presenteá-lo com minhas tortas.
Silvio estava sempre em casa e participava da minha vida como fazem os bons amigos.
Saíamos juntos aos finais de semana e tínhamos um barzinho de nossa preferência. Falávamos sobre livros, música e dança uma de suas paixões. Também conversávamos muito sobre nós mesmos, gostávamos de nos confessar.
Ele era um aplicado aluno de ballet e adorava fazer coreografias malucas para as músicas de Caetano Veloso, especialmente, Estrangeiro. Suas coreografias quase sempre me matavam de rir. Era muito engraçado ver minha sala sendo ocupada por um metro e noventa de pura palhaçada.   
Minha amizade com Silvio ficou mais estreita na ocasião da morte de meu pai; foi nesta fase que ele generosamente se aproximou de mim, pois sabia que eu estava frágil e  precisaria dele.
Já no velório ele compareceu e deixou claro que eu poderia contar com sua amizade.
Sua presença voluntária e sóbria naquele velório: um metro e noventa trabalhados na mais pura elegância negra, conquistou não somente minha amizade, mas também minha admiração.
O corpo de meu pai foi velado na capela do hospital onde ele morreu. A equipe médica que cuidou dele era constituída por muitos de seus amigos que quiseram prestar a última homenagem. Assim, abriram a pequenina capela do hospital para que o corpo de meu pai fosse velado.
A capelinha era ligada a um amplo saguão, que foi pequeno para acomodar tantas pessoas que vieram para a despedida de meu amado pai.
A noite era fria, chuvosa e triste e eu sentia uma dor em meu peito que nunca havia experimentado antes e jamais poderia imaginar que alguma coisa ou alguém pudesse arrancar de mim um sorriso naquela hora. Minha tristeza era imensa e parecia irreversível.
Vi de longe quando Silvio chegou ao velório, foi muito bom ver aquele rosto amigo se aproximando e assim como eu, todas as pessoas perceberam sua chegada, afinal não se tratava de uma pessoa comum; era a versão dark de Silvio; e isso era grande e escuro demais para passar despercebido numa aglomeração brasileira. Algumas pessoas juraram que Darth Vader tinha estado no velório de meu pai, mas eu sabia que se tratava de Silvio, meu grande amigo.
 Consternado pela minha dor, Silvio chegou ao velório compenetrado. Nunca tinha visto aquela biba tão sóbria e tão séria.   
Velório lotado, os amigos e parentes estavam muito triste pela grande perda. A morte de meu pai pegou todos nós de surpresa. É sempre difícil “acreditar” na morte, mais ainda quando ela chega de repente.
Eu estava sentada ao lado do caixão, com meu coração em pedaços e tentando agüentar a dor que me abatia. Recebia os pêsames de todos com o corpo anestesiado pela dor de minha alma.
Silvio, com todos os seus sentidos alerta, percebeu a dimensão de meu sofrimento e também quis mostrar o seu pesar. Ele se aproximou de mim como se eu fosse a única naquele lugar e com muita disposição preparou um forte abraço, o que com certeza me confortaria.
No ímpeto do abraço confortante, a “pequena biba” inclinou seu “pequeno corpo” para frente, projetando assim sua “pequena bunda” para trás e o improvável aconteceu: uma das coroas de flores que homenageava meu pai veio abaixo, produzindo um barulho inesperado e nada apropriado para o momento. Todos os olhares se voltaram para aquela criatura, que definitivamente não precisava de mais nada para chamar a atenção do que tudo aquilo que a natureza já havia lhe dado.
A expressão no rosto de Silvio eu jamais vou esquecer. Seu constrangimento e sua cara de “e agora” ainda guardo na lembrança.
Silvio estava desconcertado e pedia desculpas até ao defunto, ao mesmo tempo em que se apressava para catar do chão a coroa derrubada.
Eu, que achava que nunca mais sorriria me vi sorrindo. Um sorriso espontâneo, um sorriso possível em meio a tanta dor.
Somente Silvio poderia ter conseguido tal mágica, somente ele era dono de tanto poder. Mais uma vez, através dele, minha janela, vislumbrei por um instante fugaz a possibilidade de sorrir novamente.
Obrigada, amigo.
     

ps. Silvio vive hoje em Nova York. É um profissional bem sucedido e ainda mantemos contato e nos falamos sempre que possível. Ele é o primeiro a ler tudo que escrevo.

domingo, 30 de setembro de 2012

Quando o Bruno era criança ele questionava tudo. Fazia perguntas das mais variadas formas e de todos os tipos, desde as mais simples às mais constrangedoras. Ele tinha uma curiosidade além do normal; aliás, ele tinha muitas coisas além do normal, incluindo uma incomum capacidade de compreensão sobre muitos assuntos, o que me fazia, muitas vezes, exagerar nas explicações.

Ainda bem pequeno, por volta dos quatro anos, ele queria por que queria saber onde estava antes de estar na minha barriga. Claro que eu não podia dar a resposta real: no saco do seu pai, resolvi então dizer que ele era um anjinho, que estava no céu e de lá veio parar direto na minha barriga.
Senti-me um pouco pretensiosa com essa explicação; afinal, de certa forma, eu estava comparando o nascimento do Bruno ao nascimento do menino Jesus, e acredite, não há e nunca houve qualquer semelhança entre mim e a Virgem Maria, mas de qualquer forma, minha resposta foi suficiente para sossegar um pouco a criança.
Os anos foram passando e o repertório de perguntas só fazia aumentar: mãe, minha avó “atinge” o cabelo pra fingir que é moça? Mãe, por que a Cristina tem bigode se ela é mulher? É claro que ele perguntava isso olhando pra cara da própria Cristina. Mãe, por que ele não tem dente. Mãe, por que o nariz dela parece morango? Mãe, por que ele é feio. Mãe, por que a nonna é murchinha? Mãe, por que ela é velha? E daí por diante.
Quanto mais eu temia suas perguntas, mais ele caprichava.
Algumas perguntas eram verdadeiras “pegadinhas”; por exemplo: Mãe o que é lenda? Depois de ouvir minha longa explicação sobre o surgimento e as inverdades a respeito dessas lendas ele perguntou: Mãe, Papai Noel é lenda? Pronto eu estava encurralada. Se dissesse a verdade acabaria precocemente com a deliciosa fantasia do Natal, que é o acalento da infância de todos nós, além de funcionar muito bem como instrumento de chantagem para os pais durante quase todo o ano. Por outro lado, se eu mentisse e ele já suspeitasse da verdade, o que me parecia bem provável, eu seria a mãe mentirosa e correria o risco de perder a confiança do meu único filho. Sem saída e buscando uma solução rápida, optei pela verdade, que me pareceu o mais correto a fazer naquele momento. Péim, errei o botão, pois  imediatamente após ouvir a resposta verdadeira nu e cruamente, Bruno concluiu: então, Papai Noel não existe? Com os olhos cheios de lágrimas, o menino correu para o quarto e passou dois dias me olhando com olhinhos decepcionados; o que “acabou” comigo.
Depois disso, descobri que muitas vezes, a resposta errada é justamente a opção mais correta e durante alguns anos, na época do Natal, eu me sentia muito mal e culpada por ter errado na opção.

É impressionante como as mães erram por medo de errar. Meu coração pedia para eu mentir, mas a “merda” da minha consciência me aconselhou a dizer a verdade e eu acatei o conselho e acabei pondo fim à fantasia de um garotinho; o meu filho.
 Eu deveria ter deixado minha intuição tomar conta daquela situação, ao invés disso resolvi pensar e fiz a pior escolha.
Por essas e por outras é que acredito quando dizem que é tão bom ser avó.
As avós estão comprometidas com a alegria e com a fantasia, elas querem a felicidade dos netos e nada mais importa. Vó é a mãe que “fechou pra balanço”; é a mulher que aprendeu a ser mãe, ela teve tempo de pensar, de ponderar, de respeitar os sentimentos e de pesar na real importância das coisas nesta tão breve vida.
Acho que ser avó é a possibilidade de nos redimir pelos erros que cometemos como mãe, ser avó é conseguir da vida uma raríssima segunda chance.

Meus amigos e meus familiares costumavam dizer que eu tinha sempre uma boa resposta para tudo, mas Bruno veio para por fim de vez a esse conceito sobre a minha pessoa.
Ele conseguia me deixar literalmente sem resposta.
Certo dia, Bruno me perguntou se eu trabalhava para “comprar dinheiro” e eu disse que não, que eu não comprava dinheiro, mas sim trocava meu trabalho por dinheiro e que era assim que as pessoas faziam; trabalhavam para ganhar dinheiro em troca.
Continuando o assunto ele perguntou se eu usava o dinheiro para “comprar cheques” e eu expliquei que não e que o dinheiro que ganhava com meu trabalho, eu guardava no banco. O banco me dava talões de cheque para que eu pagasse minhas compras; e as pessoas das lojas eram quem trocavam os cheques que eu passava pelo meu dinheiro que ficava guardado no banco e me alonguei um pouco mais na explicação dizendo que quando havia dinheiro para ser trocado por cheque nós adultos costumávamos dizer que o cheque tinha fundo e quando o dinheiro acabava, lá no banco, o cheque ficava sem fundo.
Bruno prestava atenção em tudo que eu dizia e logo após minha explicação ele perguntou se meu cheque tinha fundo para eu comprar um estojo igual ao que ele tinha visto com um coleguinha no colégio. Eu disse que sim, mas que ele teria que esperar até a próxima semana, pois no momento eu estava com pouco fundo; ou seja, pouco dinheiro e não queria ficar sem fundo; portanto meus cheques estavam com pouco fundo e era melhor esperar que ele tivesse mais fundo.
Depois de um tempo percebi que foi uma “over explicação” para uma criança de cinco anos.
O estojo que meu filho queria era muito cobiçado pelos alunos da sua escola, pois contava com uma gama de inutilidades jamais vista. O tal estojo tinha de tudo: tesoura, lente de aumento, espelho, lanterna, cortador de grama, cortador de unha, cortador de charuto, pé de cabra, pé de coelho, chave inglesa, chave Phillips, trio elétrico, desembaçador, desfibrilador, abridor de latas, de garrafa, lixadeira, furadeira, enfim, todo tipo de inutilidade que uma criança cursando o pré-primário nunca precisaria.
Aquele estojo era surrel; era a versão retangular doInspetor Bugiganga”. Era praticamente um “Inspetor Bugiganga pra viagem” e com tantos acessórios desnecessários, é claro que não sobrava muito espaço para se colocar coisas importantes para sua vidinha acadêmica como lápis, borracha, canetas, giz de cera, etc.
 Além de absolutamente desnecessário o preço de lançamento do estojo era proporcional ao tamanho e à quantidade de seus acessórios inúteis. Mas fazer o que, aquele objeto era, naquele momento, o sonho de consumo do meu filho e isso, pra mim, valia muito.
Pedi então que ele esperasse apenas alguns dias e nós iríamos até a loja para comprar o tão desejado estojo.
Assim que recebi meu salário convidei Bruno para irmos até a loja a fim de compramos o cobiçado estojo. Mais que depressa o menino aceitou o convite e saímos de casa conversando como era de costume. Ele me contava como era o estojo que tinha em mente, a cor que ele iria escolher e o quanto eram importantes todos aqueles acessórios. Eu me divertia com a conversa do menino.
 Chegamos à loja e uma vendedora muito simpática e solícita veio nos atender prontamente. Eu lhe pedi que mostrasse os modelos de estojo daquele tipo que ela dispunha. A moça apresentou com presteza todos os modelos e demonstrou todas as funções idiotas daquele objeto inacreditavelmente absurdo.
Bruno olhava maravilhado para todos eles e depois de pensar um pouco optou pelo mais completo; ou seja, o que continha o maior número de inutilidades. Pedi então que ela o embrulhasse e abri minha bolsa para dar início ao pagamento da mercadoria bizarra.
Naquela época não usávamos cartões de crédito para as compras, a função dos cartões era basicamente retirar dinheiro dos caixas eletrônicos.
Enquanto eu tirava o talão de cheques da bolsa, a vendedora se desmanchava em sorrisos e rasgava elogios ao meu filho dizendo o quanto ele era bonito e esperto por escolher aquele estojo. Eu retribuía a simpatia a mim oferecida e agradecia também com sorrisos, fingindo não perceber sua estratégia de vendas.
Tudo corria civilizadamente bem, tudo estava formalmente perfeito, parecia até um diálogo de compra de “lição de livrinho de inglês”, recheado de por favores e obrigados, até que no momento exato em que eu iniciei o preenchimento do cheque, Bruno fez a seguinte pergunta em alto e bom tom: Mãe, tem fundo?
Aquelas palavras reverberaram por toda loja; undo, undo, undo. A vendedora, que antes se desmanchava em amabilidades, me olhou como se eu fosse o Rabino Henry Sobel, é aquele das gravatas. Pude ver claramente a desconfiança em seus olhos e o seu rosto, a partir daquele instante, não insinuou mais nem um sorrisinho, nem que por educação ou solidariedade pelo meu constrangimento.
Fique ali, sem graça, sem jeito, sem ação e mais uma vez sem resposta.
Que situação, que vergonha!
A pergunta do Bruno não deixava dúvidas para ninguém naquela loja e eu podia até ouvir o pensamento das pessoas: essa mulher é uma tremenda 171, ela faz isso todo dia, dá cheques sem fundos em todas as lojas da cidade. Se não fosse assim, essa criança não estaria falando isso. Que criança pergunta para a mãe se o cheque tem fundo; só mesmo filhos de estelionatário têm essa preocupação. Crianças não mentem, mas adultos dão cheque sem fundo, ah, se dão! Olha ela ali. Vigarista!
Acho que foi isso que o Ronaldo Ésper sentiu quando foi pego roubando vasos de túmulos no cemitério de São Paulo.
Eu, totalmente desconcertada, quis amenizar a situação com o clássico comentário: Ah, esse menino! Constatei que não convenci e “cretinamente” continuei: Quem te disse isso, filho?  Resposta: você
Aquela foi a pior pergunta que eu poderia ter feito para Bruno naquele momento. A péssima escolha me deixou encurralada de novo e com cara de anus bem ali no meio da loja; resolvi dizer: Claro que tem fundo, filho, do contrário eu não estaria aqui comprando esse estojo pra você. Não podemos comprar nada sem dinheiro.
-Mas você “tá” dando cheque.
-Mas o cheque tem fundo e chega. Vamos embora.
Depois dessa última observação, a vendedora pediu para que eu colocasse no verso do cheque o meu telefone, meu endereço, RG, CPF, só faltou pedir atestado de bons antecedentes, o meu tipo sanguíneo e fator rh.
 Atendi ao pedido desconfiado da moça, que continuava me olhando seriamente; ela estava ficando com cara de “boi zebu” e eu já estava até vendo a hora que ela ia arrancar aquele estojo das minhas mãos.
Eu queria sair logo daquele lugar, mas resolvi não deixar que meu desejo transparecesse. Agradeci a vendedora e saí da loja com a calma dos justos, afinal, estava tudo certo, meu cheque tinha fundo, eu tinha dinheiro para comprar aquela mercadoria, não havia do que me envergonhar, não sei por que me senti tão constrangida.
Ninguém sabia, mas a pergunta do meu filho tinha um fundamento e não queria dizer que eu era uma caloteira.
Ao deixar aquela loja comecei a ver o fato com outros olhos e percebi que damos importância excessiva à opinião alheia.
Bruno estava feliz com seu novo estojo, era a felicidade e a leveza da inocência, inocência essa que o protegia dos olhares desconfiados e nem de longe deixava que ele percebesse as suspeitas e as deduções injustas dos pensamentos dos adultos. Ele estava blindado pela infância e pela alegria.
Ele tinha um estojo novo, cheio de funções inúteis, que eram imprescindíveis para alimentar sua imaginação e isso me bastava.
Dane-se a opinião dos outros.

Dias depois, passei na mesma loja para comprar uma agenda e fui atendida com muita simpatia pela mesma vendedora, afinal, ela havia constatado: meu cheque tinha fundo.

domingo, 23 de setembro de 2012



No terceiro andar do prédio no centro da cidade onde passei a maior parte de minha infância morava também minha tia Nely, mãe de Carlos Alberto, o Bird, meu primo irmão, que passou alguns anos de sua infância calçando uma botinha ortopédica, cuja função não era apenas corrigir os “pés chatos”, mas também atingir impiedosamente a canela de todos, indistintamente.
O Bird, literalmente, marcou a infância de todos nós, pois era comum apresentarmos hematomas depois das festas de aniversários de família, ou dos encontros casuais nos fins de semanas na casa dos meus avós paternos.
Carlos Alberto, o Bird, adquiriu uma espécie de cacoete do joelho pra baixo: era só avistar uma canelinha desavisada que ele “pimba”, ia logo carimbando com uma mancha roxa produzida pela ponta de sua botinha ortopédica. O Bird tinha verdadeira obsessão por canelas, o menino chutava até canela em pó.
 Durante toda infância, Bird se dedicou a um único objetivo: transformar todas as crianças da família em dálmatas.
 Ele nunca teve justificativas ou motivos aparentes para aqueles chutes era apenas um vício adquirido durante os anos de uso daquelas botinhas assassinas.
Liane era seu dálmata predileto, pois era doce demais para revidar os pontas-pés de Bird e por isso, tornou-se a prima mais malhada de todas.
Comigo era um pouco diferente; eu também usava botinhas ortopédicas...
 Carlos Alberto era um garoto nada fácil de lidar, ele insistia em marcar as pessoas justamente quando elas estavam bem distraídas e não esperavam pelo ataque. Qualquer um, a qualquer momento poderia tomar uma botinada impiedosa do pequeno Bird.
Velhos, jovens, crianças, qualquer um, bastava ter uma canela, que ele dava logo uma botinada pra quebrar. Aquele menino não respeitava nem perna mecânica, ele bicava sem dó.
Bird só não apanhava como deveria e precisava por causa de sua mãe; tia Nely, tia muito querida por todos os sobrinhos, que muitas vezes deixavam de revidar os “bicos” desferidos por Carlos Alberto só para não aborrecê-la, pois ela não reagia muito bem quando seu único filho levava a pior. O senso de proteção e o amor de tia Nely pelo filho eram tão grandes que ela não agüentava vê-lo apanhar, mesmo que merecidamente.
Tia Nely, irmã de meu pai, era e ainda é uma tia extremamente amorosa, presente e disponível. Ela está sempre por perto, oferecendo ajuda, oferecendo colo e oferecendo amor. Embora adorando crianças, optou por ter apenas um filho, o terrível Carlos Alberto, e talvez por isso, tenha resolvido adotar em seu coração todos os sobrinhos, especialmente as meninas, a quem sempre dedicou toda atenção e carinho, que só uma tia muito amorosa é capaz de dar.
Tia Nely é acolhedora e sempre esteve por perto, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza. Ela sim é fiel; ela sim merece um adesivo colado no carro com os dizeres: Tia Nely é Fiel.

Tia Nely me ensinou muitas coisas. A primeira foi logo na infância, quando eu ainda estava sendo alfabetizada, ela me alertou que a palavra rato não se escreve com dois erres.
Na adolescência ela me ensinou a fazer escova nos cabelos com o pente! Técnica muito importante e que faz toda a diferença no estilo de vida de uma mulher inteligente e independente.
Quando me tornei mãe, ela me ensinou a bater o purê de batatas com leite morno para que ele ficasse fofinho e mais gostoso, a fim de melhor alimentar o pequeno Bruno. Tinha que ser leite; tinha que ser morno e tinha que bater se não, não seria digno de alimentar um bebê.
Também me ensinou a fazer bolinho de arroz, moldando a massa com duas colheres para dar um formato uniforme às porções, coisa muito séria na formação dos bolinhos de arroz.
Graças à tia Nely, também adquiri a mania de colocar azeite em tudo.
Ela também me ensinou a burlar a receita e falsificar uma “schiacciata”, comprando massa de pizza pronta na padaria da esquina, regando com um fio de azeite, claro, e salpicando sal grosso antes de assar.
Dentre todas as coisas importantes que aprendi com minha querida tia uma com certeza iria mudar para sempre minha maneira de conduzir a vida. Era a lição máster, a lição imprescindível e que nem meu pai, nem minha mãe estavam aptos a me ensinar, mas como sempre, tia Nely estava lá, ela não ia me faltar e assim, ainda na minha adolescência, ela, cumprindo seu papel de tia e madrinha, me apresentou ao mundo alcoólico.
O universo das biritas, mais especificamente, das caipirinhas, estava bem ali, sendo apresentado com muita doçura por tia Nely. Mais tarde, minha tia Lia irmã de minha mãe, aprimorou as lições acrescentando ao meu cardápio etílico, outras bebidas como: vinhos importados, espumantes, frisantes e até atingir o nível máximo: o wisky.
Eu e tia Nely costumávamos passar algumas tardes no clube de campo que éramos sócias e nos dias de semana a cantina deste clube, quase sempre estava fechada, mas tia Nely, que pensava em tudo, preparava sempre um lanchinho e as doces caipirinhas para levar ao passeio.
Eu adorava tudo aquilo e sentia que éramos amigas, mais do que isso; éramos cúmplices; afinal nós estávamos bebendo juntas e isso era um elo indestrutível.  
Nós ríamos e conversávamos a tarde toda. Não me lembro muito bem sobre o que falávamos, mas sei que essas idas ao clube e as conversas regadas a caipirinhas fracas e doces, nos aproximaram ainda mais.
Tia Nely sempre gostou de conversas animadas e de uma cervejinha nas tardes quentes, tudo na dose certa, pois é muito comedida em tudo que faz.
Os anos passaram e minha afeição por essa tia tão querida só aumentou, pois a cada ano passado ela demonstrava mais e mais o seu carinho e sua dedicação para com as muitas sobrinhas que a vida lhe deu.
No decorrer de sua vida, entre todas as batalhas que venceu, tia Nely arranjou tempo para conquistar o amor e a admiração de cada uma das sobrinhas, sempre com amizade e companheirismo, sempre presente, sempre constante.
Tenho certeza que não sou a única a reconhecer seu valor e que tem por ela um carinho especial; tenho certeza que tia Nely já esteve presente para apoiar incondicionalmente todos os seus sobrinhos nos momentos difíceis que passaram, assim como nas alegrias que viveram.
Tenho certeza que ela conquistou para sempre o nosso amor e nossa gratidão.
Um beijo e obrigada, tia.

Obs. Quanto ao Bird, Carlos Alberto, bem... Ele cresceu.

domingo, 9 de setembro de 2012


Entrar para o Mundo de Marlboro nem sempre é fácil. No meu caso, só foi possível por ter um irmão que me colocava diretamente em contato com meus primos e alguns de seus amigos.

O Mundo de Marlboro é um lugar interessante e ao mesmo tempo bizarro. Lá, os conceitos são muitas vezes invertidos e o que nos parece desprezível e abominável é enaltecido pela maioria de seus membros.
Os membros do Mundo de Marlboro se recusam a aceitar a evolução das relações humanas; especialmente no que diz respeito ao relacionamento entre homens e mulheres. É como se uma mentalidade primitiva regesse o comportamento das pessoas daquele mundo tão “masculino”.
Para se perceber isso, não basta apenas entrar no Mundo de Marlboro, há que participar dele e para tanto faz-se necessário conquistar a plena confiança de seus membros, a ponto de ser considerada mais um “brother”.
Se ainda quisermos aprender alguma coisa com e sobre esses brothers, é preciso que eles, “esqueçam” que você é mulher; o que só é possível se existir um grau de parentesco capaz de inibir o interesse sexual por você, portanto, já deu pra perceber que nós mulheres, só entramos em Terra de Marlboro pelas mãos de um homem, que seja da família, do contrário, você não entra e se entrar, cuidado, será como caça.
Desde criança eu costumava brincar com meu irmão e com meus primos, especialmente o Bird, com quem passei boa parte da minha infância.
Crescemos juntos e isso foi fator determinante para anular definitivamente qualquer possibilidade de interesse sexual entre as partes.
Com Marcos, passei a conviver mais intensamente depois da adolescência, mesmo assim, ainda deu tempo de criarmos um laço de amizade bem forte, mas que não impedia que, de vez em quando, ele se arriscasse em alguma gracinha machista, só para não perder a prática. Essas gracinhas eram encaradas por mim como doces tolices de primo homem e mais novo e em nada interferiam no amor, na amizade, na confiança e na admiração que eu sentia e sinto por ele. Eu amo esse meu primo e até hoje, conservamos nossas afinidades e conseguimos conversar com total honestidade por horas, principalmente depois de algumas “doses”.
Conviver de perto com o sexo oposto me ajudou muito nas relações com outros homens. Para mim, esta convivência foi fundamental para aprender a lidar com eles e entender a sua natureza e a sua linguagem.
Desde cedo percebi que os homens funcionam no sistema binário; por exemplo: ou dá, ou desce.
Outra coisa muito importante que aprendi a respeito dos homens foi que eles mentem, todos eles mentem. Alguns ainda, são capazes de adequarem com velocidade e destreza espantosas o seu raciocínio ao que eles acham que “aquela mulher”, que “naquele momento” lhes interessa quer ouvir; isso é pior que mentir; é iludir.
Mentir e/ou iludir é uma unanimidade entre os homens; é um cacoete da alma masculina.
Transitando por Terra de Marlboro também pude constatar o que há tempos desconfiava: príncipe encantado não existe, pois como o próprio nome diz, ele é encantado; ou seja, está sob efeito de encantamento, portanto, logo irá “acordar” e das profundezas deste ser emergirá seu sapo interior mostrando de vez o seu caráter e as suas intenções; e digo mais, nem príncipe Willian é encantado; por baixo daquela roupinha real é bem provável que more um sapo verde, feio, desajeitado e gosmento.   
Aliás, quem inventou essa história de príncipe encantado? Por que fizeram isso com a gente? Por causa desta crença tem muita mulher que passa a vida beijando sapo na esperança dele virar príncipe um dia.
Pobres tolinhas, que ilusão!
 A verdade é que o mundo está repleto de sapos. Vivemos na Sapolândia desde os primórdios da humanidade e falando em primórdios da humanidade, justiça seja feita, dizer que os homens sempre mentiram é exagero; houve uma época em que eles não mentiam: a Pré-história
Nesta época, eles não mentiam por que ainda não sabiam falar e porque não tinham que convencer a gente de nada; usavam a força e pronto. Era comum ver os futuros príncipes puxando suas escolhidas pelos cabelos e arrastando-as até a caverna mais próxima, sem “xavequinho”, sem luz de velas e sem música ambiente e sem papinho do tipo: eu sou o último romântico. Faziam tudo rapidinho e depois sumiam sem se quer dar um telefonema no dia seguinte. Depois de alguns meses nascia outra coisinha pré-histórica, que iria crescer e ficar igualzinho a todos os outros “uga-bugas” que povoavam a Terra.
Nessa época não adiantava reclamar, ainda não existiam nem delegacia da mulher e nem a Lei Maria da Penha; tudo era na base da força mesmo e quem podia mais, chorava menos.

Chocante é constatar que muito pouco mudou de lá pra cá. Para boa parte dos homens o que interessa ainda é: afogar o ganso, molhar o biscoito, descabelar o palhaço. “É disso que o veio gosta”.
Alguns homens ainda conservam o inacreditável hábito “pegar” animaizinhos inocentes e fazem isso na maior cara-de-pau. Não sei se por comodidade ou por bizarra preferência, esses homens correm para “pegar” pobres ovelhinhas.
Você já pensou?
Coloque-se no lugar desses animaizinhos e imagine que você é uma ovelhinha fofinha e bonitinha, de lãzinha branquinha e carinha rosadinha, que está distraída saltitando livremente pelos pastos verdejantes, quando de repente aparece uma criatura que tem duas vezes o seu tamanho que nem é da sua espécie, é de outra categoria, de um outro mundo que nada tem a ver com o seu, que produz sons que você nunca ouviu e nem sabe decodificar; pois bem, essa criatura sem noção te pega e enquanto você tenta correr, ele creu. Você, pobre ovelhinha branquinha de carinha cor-de-rosa, fica ali, impotente, com os olhinhos lacrimejantes, com carinha de ovelhinha que comeu e não gostou, ou melhor, que foi comida e não gostou. Sua “dignidade ovelhal” dói e tudo que consegue dizer é: mééééé! Méééééé! 
Que sina essa a das ovelhinhas.
O fato é que bicho homem não tem jeito mesmo, já estamos no século XXI e ele se recusa a evoluir. Ainda não tratam com o devido respeito nem as mulheres e nem as ovelhinhas.
Dentro do casamento é um pouco diferente; a questão não é mais evolução, é crescimento, pois ele se recusa a crescer e espera que você seja ao mesmo tempo: mãe, amante, psicóloga, enfermeira, cozinheira, arrumadeira e trepadeira.
No papel de mãe, ele espera que você ache bonitinhos todos os seus gases, assim como a mãe dele achava quando ele era bebê: Ah! Que lindo! O neném da mamãe arrotou! Hum, que fedorzinho, o nenê fez punzinho?
Ele faz questão de mostrar o bilau e espera que você diga: Ah! Que lindo! É seu?
Quando ele sai do banho e não joga a toalha no chão ou arruma muito mal e porcamente a própria cama, ou ainda, quando executa qualquer tarefa absolutamente banal, ele espera que você diga: Ah! Que lindo! Foi você que fez? Sozinho? Muito bem!
Ainda no papel de mãe ele espera que você coloque limites em suas atitudes inconseqüentes e egoístas: O que significa essa marca de batom na sua camisa? Muito bem, você vai ficar de castigo e não vai “encostar” em mim até o Natal do ano que vem, só pra aprender a não sujar a camisa, desmazelado! Vai já lavar isso.
No papel de amante, você terá que ter sempre os cabelos arrumados, as pernas depiladas os olhos maquiados, além de alguma frase de efeito como: Uau! Nunca vi tão grande!
No papel de arrumadeira é preciso dedicar horas de seu dia para manter todas suas coisinhas em ordem: a coleção de latinhas de cerveja, os bonecos G.I.Joe e toda coleção do Comandos em Ação, além das miniaturas de carrinhos, que um dia ele jurou que teria. Também é preciso dobrar suas meias e cuecas, pois muitas vezes falta-lhes coordenação para isso. 
No papel de psicóloga você deverá entender tudo, além de adivinhar o que significa seus braços cruzados, o seu silêncio, sua cara amarrada e suas respostas vagas.
No papel de cozinheira você deve preparar com esmero seu prato predileto e achar ótimo quando ele disser que está “quase” igual ao da mãe dele. Não parece, mas isso é um elogio.
No papel de enfermeira você deverá ter disposição para cuidar de cada resfriado do seu marido como se ele tivesse acabado de sair de uma seção de quimioterapia, pois é assim que ele reage aos resfriados.
Já no papel de trepadeira, às vezes é necessário muito talento, pois você deve fazê-lo crer que ele é o mais gostoso do planeta e que te dá mais tesão que o Brad Pitt em Tróia.
Como ficou claro, os homens além de mentirem necessitam que você também minta pra eles.
Essas mentiras alimentam o seu ego, bem como os relacionamentos e se você teimar em dizer a verdade tudo desanda, pois o equilíbrio dos mundos e das relações entre homens e mulheres está, há séculos, baseado em papéis pré-determinados por nossas expectativas, por nossas fantasias.
Sabemos que é mentira, mas não ousamos desmenti-las. Isso poderia por fim às nossas verdades.

domingo, 2 de setembro de 2012



Em mil novecentos e noventa e quatro eu já estava recuperada, quer dizer, não chorava todos os dias a morte do meu pai; já conseguia chorar dia sim, dia não. Estava trabalhando em outro jornal e estava até namorando um bonitão que morava no meu prédio.
Aos poucos as coisas iam se encaixando e eu e Bruno seguíamos em frente, sem pressa e recuperando nossa habitual tranqüilidade.
Eu já sentia vontade de ir às festas e de receber pessoas em minha casa que, aliás, nesta época era muito movimentada não só pela da localização, como pela enorme quantidade de amigos que eu tinha. Agora eu estava à vontade para recebê-los em minha casa, pois não havia mais a figura mal humorada e às vezes até mal educada de meu ex-marido, que quase sempre me deixava constrangida.
Era uma outra fase de vida, a fase da leveza, da liberdade e da possibilidade de alegria e se não fosse pela imensa saudade que eu sentia de meu pai, seria sem dúvida, a melhor fase da minha vida.  Finalmente eu era “quase totalmente” feliz.
Mil novecentos e noventa e quatro também foi o ano que o Brasil ganhou mais uma Copa do Mundo e em um dos jogos, resolvi convidar meus primos e meu irmão para assistirem ao futebol em meu apartamento.
Preparei tudo, cerveja, salgadinhos e o espírito de festa para receber bem a todos; eu me programava para uma tarde divertida com meus primos e meu irmão, mas não podia imaginar que iria ter muito mais que futebol e cerveja para me divertir.
Eu sempre gostei da companhia de meus primos e do meu irmão. Sentia-me uma Smurfete em meio aos Smurfs; ou seja, a única mulher que podia entrar naquele universo tão masculino. Era muito bom poder participar das conversas e saber como os homens realmente pensam. Era como estar no “Mundo de Marlboro” sem precisar fumar nenhum daqueles cigarros horrorosos ou domar qualquer cavalo selvagem.
Os primeiros a chegar foram meus primos, Marcos e Carlos, o Bird. Não demorou muito, chegou meu irmão, José, dizendo que havia convidado Carlos, o Espanhol para assistir ao jogo em minha casa.
Carlos, o Espanhol, era um amigo de meu irmão que por sua vez era irmão de um amigo meu de nome Inácio. Sugeri, então que meu irmão ligasse Inácio e também o convidasse para assistir ao jogo conosco.  Meu irmão mais que depressa, acatou a sugestão, mas naquela pressa desnecessária, ele acabou ligando, por engano, para a casa de uma senhora, que atendeu ao telefone aos berros e sem nenhum motivo, mandou que meu irmão fosse pra pqp, assim que ele perguntou se era da casa do Inácio. Detalhe: esta senhora também achou que meu irmão fosse um “filho da Guta”.
Pasmo com as ofensas gratuitas, ele desligou o telefone e ficou em silêncio por alguns segundos, como quem tenta entender o que tinha acontecido e em seguida, começou a desabafar:
-“Essa mulher é louca”; por que ela me xingou  tanto? Eu só perguntei se era da casa do Inácio. Não havia motivo pra ela gritar comigo. Fui educado, usei o “por favor”, por que essa agressão? Ah não! Eu tenho que ligar pra ela de novo e saber por que ela me xingou tanto!
Meu irmão sempre teve a mania de querer entender o porquê da atitude alheia. Pra que ele queria entender as razões de uma mulher tão mal educada e totalmente desconhecida e que obviamente não estava disponível para conversas.
Até hoje, quando penso nessa história, não entendo por que ele queria entender a “Maleducada”, pra que tentar entender pessoas que não interessam, não basta ter que tentar entender as atitudes dos pais, dos filhos, dos maridos, das esposas, dos chefes, dos parentes? Pra que ele queria entender aquela mulher?
Mas meu irmão não ia deixar barato, ele precisava saber por que tinha sido destratado.
Pressionando o botão redial do telefone, meu irmão, sem saber dava início a uma história que se estenderia por todo o dia e só terminaria de madrugada.
Depois de apertar o “famigerado” botão, o inconformado José esperou que a “Miss Candura” atendesse e disse:
-Por que a senhora me xingou? Eu só liguei errado, estava tentando falar com meu amigo Inácio e a senhora começou a gritar e me xingar; teria sido bem mais fácil se a senhora dissesse: não, aqui não tem nenhum Inácio, pronto, eu teria agradecido, me desculpado e tudo teria acabado bem, mas agora eu quero saber por que a senhora me xingou?
*Cá entre nós, seria ainda mais fácil se ele esquecesse essa história e ligasse logo pro Inácio. *
Enquanto meu irmão falava e pedia explicações, a mulher gritava e insistia em dizer que ele era um “filho da Guta”, a partir daí, a sorte da “Maleducada” estava lançada.
 Aquela mulher não podia imaginar, nem nos seus maiores devaneios, como seu dia iria acabar. Ela acabava de cruzar um dos arcos do portão do Inferno de Dante; assim que gritou pela segunda vez com meu irmão; sem saber, “abandonou para sempre a esperança de rever o céu”. Ela acabara de entrar no Inferno.
A falta de educação da tele-senhora foi determinante para que eu e meu irmão retomássemos a energia de nossa infância; aquela que nos unia em torno dos ideais mais sórdidos. Foi como se de repente voltássemos no tempo e subitamente despertasse em nós o exu-mirim há anos adormecido.
Imediatamente após o telefonema que libertou nossos instintos há anos trancados no porão do nosso passado, eu e meu irmão começamos a cronometrar o dia e a cada quarto de hora, um de nós ligava para a casa da “Lady da Telefonia Fixa”  perguntando se era da casa do Inácio.
Havia um revezamento organizado entre as ligações, pois meus primos também entraram na brincadeira.
Meu aparelho de telefone tinha um visor bem grande na frente que registrava o último número que havia sido discado, com isso, foi possível anotá-lo e passar para outros amigos que prontamente aderiram à brincadeira e entraram para a turma do “é da casa do Inácio?”.
Até o Inácio ligou para a mulher para perguntar se era da casa do Inácio.
Algumas vezes encontrávamos o telefone ocupado, acho que ela exausta tirava o fone do gancho para ter alguns minutos de paz, mas nós não desistíamos; éramos muitos e estávamos empenhados em fazer daquele dia um inferno para ser guardado para sempre na memória da “serena senhora”.
Essa brincadeira começou mais ou menos às duas horas da tarde; já eram sete horas da noite e ela estava longe de terminar.
Sob efeito da cerveja e da euforia por mais uma vitória do Brasil, atormentar a “Maleducada” ia ficando cada vez mais engraçado. Ríamos muito enquanto aquela criatura exibia sem pudor os muitos palavrões que colecionou ao longo da vida. O repertório era imenso e confesso que algumas combinações eu desconhecia.
Já estávamos exaustos de tanto rir, o jogo de futebol havia acabado e a cerveja também; resolvemos então que era hora de acabar com aquela “festa”; afinal era sábado e outras festas nos esperavam.
Todos se despediram e foram embora, mas não sem antes dar mais uma rodada de telefonemas.
 Na despedida, Bird perguntou se eu não queria acompanhá-lo à boate do clube que éramos sócios. Eu aceitei o convite, pois não tinha nada programado para aquela noite.
Cada um foi pra sua casa e eu e Bird combinamos de nos encontrar mais tarde, por volta das onze horas da noite.
Cumprindo o combinado, Bird passou para me pegar às onze horas e seguimos para a tal boate não muito animados.
Ficamos por lá um pouco, dançamos mais um pouco e depois de algum tempo, resolvemos que era hora de irmos embora, pois já passava das duas da madrugada e o programa não estava muito divertido.
No caminho, eu e meu primo resolvemos parar num auto-lanche para comermos um sanduíche, pois até aquele momento nós só havíamos nos alimentado basicamente de cerveja e algumas besteiras, como: amendoins, castanhas, essas bobagens.
Chegamos à lanchonete e escolhemos o que queríamos comer. Conversávamos distraídos enquanto esperávamos famintos pelo nosso lanche.
O cheiro da comida sendo preparada aguçava ainda mais nosso apetite e ficamos alegres ao avistar de longe o garçom chegando com nossa bandeja. Mais alegres ainda ficamos ao colocarmos as mãos nos nossos lanches e levá-los à boca na intenção da primeira mordida, mas a tão esperada mordida inaugural não aconteceu.
Parecia que nossos movimentos haviam sido ensaiados, pois ao levarmos os lanches à boca, avistamos ao mesmo tempo um orelhão e simultaneamente, a mesma idéia maligna nos ocorreu e imediatamente fomos tomados por um ataque de risos que nos impossibilitou de morder aquele tão desejado lanche. Não conseguíamos nos controlar, mas depois de alguns minutos de riso intenso, nossa euforia diminuiu e foi possível executar nossa idéia sórdida.
Tentando ainda controlar o riso, meu primo discou para a casa da mulher “fina senhora” e disse: Alô, aqui é o Inácio, tem algum recado pra mim?
Não foi possível nem ouvir a resposta para cínica pergunta tampouco os palavrões que a mulher berrava ao telefone às três da madrugada, pois um novo ataque de riso, muito mais intenso, tomou conta de nós e em seguida, de todas as pessoas que estavam naquela lanchonete, só que desta vez parecia que eu não ia conseguir parar de rir. Isso nunca tinha acontecido antes comigo; eu realmente pensei que fosse morrer de tanto rir, meu diafragma doía muito e mesmo assim era impossível parar.
Meu primo também estava passando mal e com sacrifício dizia:
 - Pára, por favor, pára.
Quanto mais ele pedia, mais eu ria; não estava mesmo conseguindo parar.
Depois de um bom tempo de sonoras gargalhadas eu e Bird, finalmente conseguimos nos controlar. Fomos aos poucos nos acalmando para conseguirmos comer nossos lanches e voltarmos para casa.
É espantoso, mesmo com a “barriga cheia” e depois de ter encerrado meu dia com uma má ação, consegui dormir o sono dos justos. Tive uma noite serena e de muita paz.
*Acho que há alguma coisa de muito errado comigo!*