Eu posso dizer que durante minha
infância tive tudo que desejei. Tá certo, os desejos eram bem simples: uma boneca Suzi e todas as cartelinhas com
as roupinhas que deixavam a bonequinha mais antipática do que já era, os
bonequinhos dos ídolos da Jovem Guarda, Roberto Carlos, O Tremendão e outros,
todos cabeçudos e vestindo terninhos justos, outra bonequinha de papel pra
gente encaixar as roupinhas também de papel, joguinho de “Resta Um”, livrinhos
de colorir e tantas outras bugigangas que nem me lembro mais. Tudo era bem simples e estava ao meu
alcance, era só pegar aquele telefone preto e pesado, “discar” quatro ou cinco números (não me lembro ao certo) e pronto,
meu desejo se realizava como num passe de mágica.
Quem realizava sem demora todos
os meus desejos era meu pai. Ele estava sempre de prontidão quando se tratava
de me fazer feliz. Bastava um telefonema e na hora do almoço ou do jantar, ele
aparecia com meu pedido.
Meu pai era um homem lindo,
inteligente, bem nascido muito bem educado, simpático, gentil e comunicativo.
Ele falava muito bem, exceto por um probleminha na fala, coisa boba, sem
importância, quase imperceptível.
Era muito comum ouvi-lo dizer que abasteceu o
carro a caminho de casa, no posto Atrantic,
que mascava chicrete só de vez em
quando, que não falava quase nada de ingrês,
ou ainda, que precisava comprar um broquinho
para suas anotações.
Para mim, meu pai era perfeito, e
se isso for algum defeito, então era esse o defeito de meu pai.
Claro que ninguém é perfeito, mas
eu olhava meu pai com o coração e era assim que ele o via; perfeito.
Ele era o homem da minha vida;
dele eu tinha tudo, colo, carinho, conselhos e o mais importante: exemplos. Ele
me ensinava o que sabia, mas eu aprendia através do que ele me mostrava.
Ele me dava tudo, menos uma
coisa, uma coisa que eu desejava demais: “A
BICICRETA”.
Saímos do apartamento onde
morávamos e nos mudamos para uma casa, cuja vizinhança era repleta de crianças,
na maioria meninos. Eu adorava as brincadeiras dos meninos e participava de
quase todas, pulava o muro das casas e roubava romã, tocava as campainhas e
corria, jogava queimada com bola de meia molhada, enfim, fazia tudo que os
meninos da rua faziam, mas ficava sempre de fora quando a brincadeira era andar
de bicicleta pelo bairro. Meu pai era radicalmente contra bicicletas e por mais
que eu pedisse, por mais que eu implorasse, ele não se comovia, estava
irredutível e dizia: “Me peça o que
quiser, mas bicicreta nem pensar. Bicicreta é a coisa mais perigosa do mundo”! Devia
ser crime dar bicicreta pra criança. E continuava: “Meu pai também nunca me deu bicicreta e hoje eu entendo o porquê, já vi
gente se arrebentar andando de bicicreta, bicicreta não, bicicreta é um perigo!”
Meu pai tinha muita certeza do
que dizia e seria difícil convencê-lo do contrário; ele sabia de tudo, mas
desconhecia um detalhe. Ele nem desconfiava, mas na minha vida havia um outro homem: meu avô Victorio.
Esse era meu mago, tão poderoso que era capaz
de curar todas as minhas dores com apenas um punhado de “pó invisível”. Qualquer arranhão, qualquer hematoma logo eram
curados com apenas uma aplicação daquela poção, que curiosamente estava sempre
no seu bolso. Ele aplicava a magia e avisava: “já vai passar”. Meu avô, pai de minha mãe, era tão poderoso que podia
desobedecer a minha mãe e até o meu pai, e ele o fez.
Ao saber do meu desejo frustrado,
o velho tratou logo de providenciar a bicicleta mais bonita de todas e fez
surpresa.
Ouvi a campainha e corri para
atender. O entregador dizia em voz alta: “entrega para Dona Marta Porto”. Minha
mãe chegou logo em seguida e recebeu também curiosa, a encomenda.
Lembro-me muito bem da grande caixa de papelão
marrom com letras azuis que diziam: Casas
Lunarde.
Eu estava tão eufórica que abri o imenso
pacote ali mesmo, no portão da minha casa. Não podia acreditar, era ela, a
bicicleta mais linda do mundo, com pneus “tala-larga”
e pintura branca e verde tinindo, brilhando ao sol. Aquela pintura só não
brilhava mais que os meus olhos. Era muita alegria.
Não perdi tempo, montei na minha
“bike” e fui chamar meus amigos pra
pedalar pelas ruas, ignorei completamente as proibições de meu pai.
Depois de feito, não havia mais o
que contestar. Meu pai foi se acostumando com a idéia e percebeu que seu medo
era mesmo exagerado, contudo ele sempre aconselhava, me indicava a melhor
maneira de pedalar pela rua e pedia pra que eu não fosse muito longe. Ele
continuava a zelar pela filha e eu começava a dar ares de independência.
Como esses homens foram
importantes na minha vida... Como eles
foram importantes pra minha vida.
Eles determinaram o meu “jeito” de amar, eles me deram o modelo e eu ainda não
sabia, mas o meu amor estaria reservado pra sempre aos nobres de alma, aos
homens de bem. Só por eles eu me apaixonaria.
Essa história, embora tola,
também me faz pensar que a vida é um eterno aprender, pois se por um lado meu
pai temia me perder, por outro, meu avô cuidava pra que eu não perdesse
absolutamente nada da minha infância.
Meu pai, mais jovem, achava que podia controlar as perdas e
impedir meus tombos. Meu avô, mais velho, já sabia que os tombos fatalmente aconteceriam e seriam necessários
pra que eu aprendesse a me levantar.
O exemplo destes homens não teve
importância apenas na minha formação, ele foi um pouco mais além e alcançou meu
filho, pois me serviram de base, de referência de inspiração.
Desde a infância eu aprendera o
que é e como é um homem nobre, um homem de bem, havia visto de perto e pude
passar ao meu filho ensinamentos preciosos pra que ele também se tornasse um homem
de bem.
Perdi meu pai muito cedo e esse foi o maior
tombo de minha vida. Nenhuma bicicleta me derrubaria com tanta força, com tanta
fúria.
Meu avô também não estava mais, tampouco seu pó invisível pra aplacar tamanha dor, mas havia um menino a quem
eu pretendia transformar num homem de bem. Esse menino foi o braço que me
apoiou pra que eu me levantasse, foi minha razão, foi o meu alento.
Num certo dia, que tinha tudo
para ser um dia qualquer, igual àquela manhã em que ganhei minha bicicleta, a
vida me sorriu e me “entregou” um
outro homem, não menos nobre que aqueles que eu tanto amara, diferente em
alguns aspectos e que me despertou pra um amor um outro amor, um amor que eu nunca havia experimentado: o amor de
mulher.
Esse homem tinha tudo o que eu buscava e parte
do que eu havia perdido. Pra esse homem havia apenas uma possibilidade: ser meu
marido, pois desde a primeira vez que o encontrei eu o vi com meu coração e
sabe de uma coisa? Pra mim, ele também
era perfeito.









