domingo, 29 de abril de 2012

 Quando eu era criança, isso significa anos sessenta, a indústria brasileira não produzia muitos brinquedos como produz hoje, não havia tantas opções no mercado. As bonecas, por exemplo, eram lançadas no final do ano, na época do Natal e eram sempre dois ou três tipos que faziam a cabeça das meninas, além disso, eram bem caras. Mesmo sendo caras, eu tinha muitas e elas viviam em pares, uma vez que eu ganhava sempre uma boneca igual a da minha irmã. Era sempre o mesmo modelo de boneca, que se diferenciava por pequenos detalhes como a cor do vestido ou dos cabelos.
Todos esses pares de bonecas caras ficavam empilhados em cima de um guarda-roupa do único quarto do pequeno apartamento que eu morava com minha família.
Incrível, mas aquelas bonecas não admitiam brincadeira. Ficavam lá, no alto, inacessíveis, todas muito bem guardadas esperando o dia de poderem sair da caixa para enfeitar o quarto novo da casa nova.
Já sei, não deu pra entender. Vou explicar melhor:
Todo Natal, eu e minha irmã ganhávamos uma boneca nova de presente do então queridíssimo e aguardadíssimo Papai Noel. Durante aquele dia, nós brincávamos felizes com nossas novas bonecas, mesmo tendo a nítida impressão que alguém nos observava. E observava mesmo!
A brincadeira estava ainda no ensaio, quando ouvíamos:
Não vai estragar, brinca direitinho.
 Não suja a roupinha (das bonecas).
Cuidado com o cabelinho (das bonecas).
Não, não tira a fita. Se tirar, o cabelo fica feio.
Tira do chão.
Segura no colo, mas não amassa o vestidinho (das bonecas), é claro.
Sua mão não tá suja, não?
Deixa eu” ver.
Melhor lavar.
Bem, como deu pra notar, depois de aproveitarmos “pra caramba” nossas bonecas novas, elas eram recolhidas e já no dia 26 de dezembro, eram embaladas e colocadas em cima do guarda-roupa aumentando assim, aquela pilha de caixas sem lógica. Sem lógica porque as crianças estavam no chão e as bonecas lá no alto do guarda-roupa.
O mais grave é que quem nos impunha toda essa “infanto-tortura” era nossa própria mãe.
 Ela tinha uma ilusão: “a casa nova” com o quarto das filhas todo enfeitado por bonecas bonitas e por isso não deixava a gente brincar, pois as bonecas deveriam estar novas para serem colocadas no quarto novo da casa nova.
Legal! A ilusão dela valia, a nossa, “esquece”.
*obs: peço aos psicólogos e psiquiatras que estiverem lendo esse texto que mande e-mail para: filhasequelada@com.br. Aceito conselhos, técnicas de exercícios de relaxamento e/ou receitas de remédios controlados, se acharem necessário. *
Só há bem pouco tempo, “passando a vida a limpo”, me dei conta de um detalhe curioso dessa história sórdida, que me escapou durante anos: Nós guardávamos as bonecas para o quarto novo da casa nova, mas até então, não havia nenhum projeto, nenhuma planta, nem se quer um terreno, enfim, nada, absolutamente nada, que sugerisse a possibilidade de uma casa nova.
Passaram-se alguns anos e meu pai finalmente comprou, num excelente bairro, uma boa casa, que reformou todinha, claro que, sob a supervisão hiper detalhista da minha mãe, para que pudéssemos nos mudar.
 Minha mãe acompanhou bem de perto a tal reforma e caprichou nos detalhes. Escolheu tudo literalmente a dedo. Ela classificava os pedaços de mármore um a um, para que os pedreiros não errassem na colocação. Tudo tinha que seguir exatamente aquela ordem. Os tons das cores dos pedaços mármore eram previamente estipulados, separados e organizados por ela.  Os azulejos também eram separados, analisados, cheirados, organizados e só depois de quase lambidos eram, ou não, aprovados por ela.
 Eu, tolinha, observava tudo achando minha mãe o máximo. Pra mim, aquilo ainda não era TOC, ela entendia mesmo de construção.
A casa ficou pronta e a dedicação de minha mãe valeu a pena. Tudo ficou muito bonito e só depois de minha mãe se dedicar a outros tantos detalhes que compunham a decoração da nova casa, finalmente nos mudamos.
 Eu tinha mais ou menos uns oito anos quando fui morar naquela casa, minha irmã, mais velha que eu dois anos tinha dez, logicamente. Isso tudo somado, “deixa” ver? Ah! Eram, aproximadamente, dezessete bonecas num quarto, que acabou ficando relativamente pequeno. Digo relativamente porque eu e minha irmã também tínhamos que caber no mesmo quarto das dezessete bonecas.
 O “Malandrinho”, por exemplo, um boneco grande que eu tinha ganhado sabe-se lá em qual Natal e de que ano, foi parar no quartinho da empregada, pois não havia nem lugar e nem par para ele, uma vez que a boneca “Amiguinha”, que era seu par, teve que sair da caixa antes da hora prevista por minha mãe, para que pudesse cessar o choro descontrolado e birrento de minha irmã.
Conclusão: o Malandrinho ficou sem par e por tanto sem lugar no quarto, afinal, fazia-se necessário uma simetria, isso era importantíssimo para o conceito estético de minha mãe; do contrário, tudo poderia entrar em combustão espontânea.
Injusto, depois de tanta espera, o pobre Malandrinho foi excluído.
Bem, enfim moramos apenas oito meses na “casa nova”, que em minha memória permanece nova até hoje.
 Mudamos para outro apartamento, só que bem maior que o primeiro; o de origem.
As bonecas se mudaram com a gente, mas não ficavam mais inacessíveis como antes. Já podiam ser tocadas, contudo, não tinham mais o mesmo encanto e nem o mistério que as envolvera durante anos. Eu e minha irmã já não sentíamos mais a mesma vontade de brincar com elas como nos Natais passados.
Aquelas bonecas ficaram lá paradas, intactas, esperando por um pedacinho da infância que nem elas, nem minha irmã e nem eu jamais tivemos.
A ilusão de minha mãe também durou pouco, apenas alguns meses.
Todo aquele capricho e dedicação, que envolveram a reforma da “casa nova”, ficaram para os próximos moradores; um casal amigo que comprou aquela casa. 
Quanto a nós, continuamos bem, morando em outro apartamento no centro da mesma cidade.

domingo, 22 de abril de 2012


AS TREZE GOIABAS


Quando eu era criança meu mundo era bem pequeno e constituído, na sua maioria, por pessoas grandes; isto é, os adultos, exceto pelos meus dois irmãos, que dividiam e viviam comigo naquele mundo pequeno.
 Os adultos que viviam no meu mundo pequeno moravam quase todos no mesmo prédio no centro da cidade e entre eles estavam os que eu mais amava, além de meu pai e minha mãe: meus avós maternos.
Meus avós eram acolhedores e estar perto deles era tão reconfortante quanto tirar uma soneca no meio da tarde.
Meu avô tinha um jeito especial, ele era especial e pronunciava as palavras impecavelmente. Podia-se perceber cada letra de cada palavra, sua pronúncia perfeita não era apenas uma aula de fonética, era também uma aula de ortografia, pois para ele, o L era L mesmo e não U como que para a maioria das pessoas.
Um dia, eu ouvi meu avô pronunciar a palavra mal estar. Era mais ou menos assim: “malestar”. Sem conseguir desmembrá-la: mal estar; não consegui entendê-la, apenas guardei na memória aquele som: malestar.
Eu prestava muita atenção no meu avô, alguma coisa dentro de mim dizia que era ele quem guardava a chave de todos os segredos e mistérios da vida, mas isso é outra história.

Dias depois...

Geladeira cheia de frutas, minha mãe tinha ido à feira, o que me deixava muito feliz porque além de gulosa, esganada segundo minha avó, eu gostava muito de frutas. A mais conhecida até então e de minha preferência, até então, era a maçã. Eu comia muita maçã, e diferentemente daquilo que aconteceu com Adão, essas frutinhas eram consumidas por mim sem causar problema algum. Comer maçãs nunca me expulsou do paraíso, ao contrário, as tentadoras maçãs eram saboreadas e perfeitamente digeridas sem que nada de mal acontecesse comigo. 
Naquele dia de festival de frutas, resolvi me apresentar a uma outra espécie: as goiabas.
Pra mim, elas eram tão inofensivas quanto as maçãs, mas bem mais interessantes pois eram quase amarelinhas por fora e bem vermelhinhas por dentro. Isso me chamou atenção porque eu estava acostumada com a estética oposta; ou seja: a cor “viva” por fora da fruta e a cor neutra pó dentro. Vez por outra, eu pegava uma que era branquinha por dentro e essa brincadeira começou a ficar bem legal.
 De que cor será próxima? Hum! E esses carocinhos, que desafio mastigá-los. E assim, continuei a comer desmedidamente; e nessa alternância, goiabas vermelhas e/ou brancas foram passando, uma, duas, três, treze goiabas, que mal mastigadas, acumularam-se no meu estômago uma a uma; uma sobre a outra, num amontoado indigesto que iria me surpreender muito e em pouco tempo.

Algumas horas depois, uma tontura e um peso no estômago, o peso de treze goiabas com milhões de carocinhos, começavam a me causar certo desconforto. Eu ainda não sabia, mas aquele desconforto era só o começo do que poderia ter sido o meu fim.
O desconforto logo deu lugar à indisposição e dores abdominais, que eu nunca tinha experimentado ao longo dos meus sete anos de vida.
A sensação foi ficando cada vez mais forte, nunca havia sentido aquilo com as maçãs.
Meus pais logo perceberam, pela minha palidez e pelo meu silêncio, nada habitual, que alguma coisa muito errada estava acontecendo comigo, eles só não podiam imaginar, nem em seus mais loucos devaneios, que eu havia comido treze goiabas.
Eu não sabia e ainda não sei definir o que senti naquele dia, só sei que até hoje não consigo esquecer aquela sensação; basta fechar os olhos e buscar na “memória dos sentidos” aquilo que já na infância me fez entender porque gula é pecado.
Lembro-me que, gradativamente, as vozes dos meus pais começaram a ficar cada vez mais longe, e as palavras cada vez mais indecifráveis.
Enquanto meu corpo reagia à burrice do meu cérebro guloso, expelindo por todas as vias o que estava me entupindo, eu já começava a desconfiar daquelas frutas malditas. Somente elas poderiam ser as responsáveis pelo que estava acontecendo comigo.
Tenho certeza que se Adão tivesse comido goiaba ao invés de maçã, ele jamais teria comido a Eva depois e, provavelmente nós ainda estaríamos no Paraíso.
Meus pais, por outro lado, já haviam “matado a charada”. Isso foi possível depois de uma análise mais detalhada do conteúdo do material expelido por mim. 
É, é horrível, mas não há outra forma de dizer. Meu organismo se defendia da única forma possível: presenteando-me com a maior diarréia seguida por vômito que tive em toda minha vida; isso já considerando todos os “porres” que viriam a fazer parte dela no futuro, e assim me servirem de parâmetro de comparação.
Entre a consciência e o torpor, eu ouvia minha mãe perguntar para meu pai:
- Quantas sobraram!
-Eu comprei 24.
E ele incrédulo dizia:
-Ela comeu treze, treze!
Alguém disse:
-Meu Deus!
Depois disso, a única lembrança que tenho é de meu pai e minha mãe me sustentando pelos ombros para fazer com que eu caminhasse por todo o pequeno apartamento e por toda noite.
 Durante essa caminhada noturna ouvi meu pai comentar com minha mãe:
- Ela deve estar sentindo um mal estar muito grande.
Ah! Agora sim, consegui desmembrar a palavra e entender com exatidão o que ela significava.
Meu pai tinha razão: foi sem dúvida, o maior malestar que já senti até hoje.