domingo, 26 de agosto de 2012



Depois do fim do meu casamento, da morte do meu pai e de tantas outras perdas que “carimbaram” todo o ano de 1992 e o começo de 1993, eu achei que já tinha vivido minha cota de desgraça por pelo menos uma década, mas eu estava enganada.
 No meio de 1993 eu ainda tentava me reequilibrar no salto e seguir em frente, mas em setembro, depois de um feriado prolongado, o qual eu aproveitei para fazer uma cirurgia, me deparei com mais uma surpresinha nada agradável.
A data da cirurgia foi escolhida propositalmente para que eu não perdesse nenhum dia de trabalho, afinal, eu já havia faltado várias vezes ao longo do ano anterior devido aos muitos velórios que tive de comparecer.
Sabe como é, né? Tem gente que não combina o horário e nem a data que vai morrer; esse povo não quer nem saber; vai morrendo e pronto, você que se vire para ir ao velório, ao enterro ou à missa de sétimo dia; esse tipo de gente não quer saber se você tem chefe, trabalho, ou tempo para velórios; morrem até às segundas-feiras; tem gente que morre até na final de Copa do Mundo, no jogo do Brasil x Argentina, não dá nem pra acreditar, mas é verdade, tem gente que acha de morrer no meio do jogo.
Mesmo tendo todo cuidado para não exceder nas faltas; submetendo-me a uma cirurgia no único feriado prolongado daquele ano, fui demitida logo na segunda-feira, e claro, no final do dia, depois de ter cumprido todo o horário de trabalho.
Foi um dia sacrificado, pois eu fui trabalhar toda costurada. Tinha pontos no rosto, nas orelhas, nas costas, na virilha, no ombro e nas pernas; eu estava mais costurada e remendada que o monstro do Jovem Frankstein.
Depois da demissão anunciada, tudo o que eu conseguia pensar era: se iam me demitir, porque não fizeram isso logo de manhã, ou melhor, porque não me demitiram antes do feriado? Assim, teriam me poupado do vexame de ter que ir trabalhar de moletom e sem calcinha.
Mas tudo bem, afinal, não tem outro jeito mesmo, não tem como não aceitar uma demissão, é como levar o pé na bunda de namorado, você pode até chorar, mas isso é tudo que dá pra fazer; quer dizer, existem as malucas que querem se matar, que quebram tudo, que gritam muito e arranham todo o pretendente a ex-namorado e o carro dele; tem também as auto-destrutivas, que ameaçam grampear a xoxota pra sempre, mas quando se trata de uma pessoa mais ou menos normal, ela sabe que não há nada que se possa fazer além de lamentar e partir pra outra.
Enfim, voltando ao assunto, a demissão foi sem justa causa; a empresa havia sido vendida e passava por mudanças e eu era uma dessas mudanças; isto é, me mudaram de dentro para fora dela; assim, só me restava correr atrás do seguro desemprego, que me garantiria mais uns meses de sobrevivência antes de achar um novo emprego.
Foi justamente nesta ocasião, devido a esta demissão, que eu percebi que era pobre. Até então eu não havia me dado conta desta realidade; sempre morei bem, sempre tive acesso à boa escola, boa comida, boas roupas e nunca tinha enfrentado uma fila de seguro desemprego antes.
Foi ali que a visão de mim mesma mudou para sempre. De repente eu percebi o tamanho da minha insignificância social; eu era apenas uma unidade demográfica pobre, que precisava entrar numa fila com tantas outras unidades demográficas também pobres, a fim de pegar um dinheirinho para garantir minha sobrevivência por alguns poucos meses. Isso mesmo, todo aquele sacrifício garantiria apenas alguns meses de sobrevivência; isso se eu adotasse uma forma franciscana de ser e de viver.
Depois de pegar o endereço, os papéis necessários e os documentos exigidos, me dirigi ao banco. Ao chegar à instituição financeira em questão, me deparei com uma fila mais ou menos do tamanho da Muralha da China. Era a maior fila que eu já tinha experimentado em toda minha vida, e nela havia uma das maiores concentrações de pobres por metro quadrado do planeta; pior, era a maior concentração de pobre mal humorado por metro quadrado.
Aquela era a fila dos desgraçados; era como estar num pedacinho do umbral, pois ali, naquele lugar, naquela hora e naquela fila estavam todos pagando algum tipo de penitência, exceto o Robson esse, coitado, teve que pagar uma penitência a mais que todos os outros; a vida já se mostrava dura para o pequeno Robson.

Já sei, eu não expliquei quem é o Robson, mas calma. Tudo tem sua hora. Agora é hora de continuar falando da fila.

A fila era quilométrica, o calor insuportável, a lentidão do serviço público indescritível e a energia das pessoas era no mínimo densa.
Eu observei, não havia ninguém sorrindo, ninguém era simpático, ninguém esboçava o menor sinal felicidade ou gentileza, era nível de satisfação zero. Somente com esses fatores, o Robson já poderia ter passado mal, mas ainda faltava mais um componente no seu miserável dia.
Eu já conhecia a fama da fila do seguro desemprego, já havia sido alertada por outros ex-colegas de trabalho, que haviam sido demitidos antes de mim; assim fui prevenida para um dia longo e estafante. Tinha comigo: o jornal do dia, um livro, água, chocolate e cigarro, claro.
Eu já estava naquela fila há mais ou menos duas horas e muito pouco havia mudado, parecia que eu não tinha avançado nem um milímetro, eu estava no mesmo lugar e mais pessoas chegavam; sempre com as mesmas perguntas: é o fim da fila? Minha vontade era responder: não, é o começo; tá todo mundo de costas. Ou então: cê tá aqui pro seguro desemprego? Não, pra cirurgia do abdome. Cê também tá sem emprego; não, meu emprego é esse mesmo; eu sou “filalóloga”. Ah! Cê veio pra pegar um dinheirinho, né? Não, vim pra pagar promessa; sabe como é, na falta da Escadaria da Penha resolvi entrar nessa fila mesmo.
Eu também já estava ficando mal humorada.
Enquanto eu ouvia e respondia a essas perguntas, que definitivamente não mereciam respostas, o Robson não parava; pulava, corria até o começo da fila, lá na “casa do carvalho”, e voltava suado, rindo como tonto e com uma cara mais desgranhenta do que a que ele já tinha antes da corrida. O menino corria com um pé na calçada outro na rua, alternava as posições correndo de frente e de costas, pulava com os dois pés juntos da calçada para a rua e vice-versa, batia nas bolsas à tira-colo nos ombros das mulheres e às vezes se jogava pra cima das pessoas. Tanto fez o menino, até que caiu.
O Robson tinha uma energia irritante, especialmente para aquele momento que eu estava vivendo: sol quente, em pé, fila lenta, perguntas infames, etc. Cheguei a idealizar botinhas de concreto, achei que um par delas resolveria o problema da criança.

Apresentando o Robson:
Robson era um garotinho de aproximadamente oito anos que estava com a mãe e com a irmãzinha de uns cinco anos à minha frente naquela fila. A mãe do menino estava claramente cansada e irritada e já havia alertado o pequeno Robson que sua paciência estava por um fio. O menino literalmente não parava nem para ouvir o apelo da mãe e continuava pulando.
 Eu incrédula, observava aquela criança. Nenhum ser normal pula tanto num dia tão quente. Não é possível, aquilo era coisa de gente que não foi batizada, obviamente tratava-se de um pagão.
 A mãe do pagãozinho dizia: Robson, pára. Cê sabe que eu tenho “sistema nervoso”. Vai brincando comigo. Robson, se ocê cair de novo cê vai apanhar bem aqui, na frente de todo mundo. Continua, Robson, continua cê vai ver quando a gente chegar em casa.
A mãe falava e o menino ignorava.
Por alguns segundos, depois de quase cair pela segunda vez, o Robson parou ao lado da mãe, que perguntou: Cê tá com fome, fio?
Robson sacudiu a cabeça dizendo que sim. A mulher abriu a bolsa e de dentro dela, coisas bizarras começaram a surgir: um tubo de talco, fralda de pano, um exemplar da revista Contigo, uma mini-bíblia, três agasalhos, um saco plástico transparente onde pude ver muitos papéis que acreditei serem documentos, além de dois cones de fotografia, que eu já não via há pelo menos uns vinte anos, uma sacolinha plástica branca, onde só se via a sombra esverdeada de seu conteúdo e ela: a sombrinha, item obrigatório na bolsa de todo pobre.
Eu já havia notado que a bolsa daquela mulher estava estofada além do normal, pois as costuras estavam até esgarçando, era fácil concluir que coisas estranhas e desnecessárias poderiam sair de dentro dela, mas para meu espanto, de dentro daquela sacolinha plástica de conteúdo esverdeado, saíram as quatro bananas mais verdes que eu tinha visto em toda minha vida.
Aquelas bananas estavam absurdamente verdes. Tenho certeza que a mulher tirou da bananeira do quintal antes de sair de casa, pois não há no mercado banana tão verde daquele jeito; e digo mais, tenho certeza que a bananeira chorou ao golpe precipitado do facão.
 As bananas estavam tão verdes que reclamaram até para saírem da casca.
Pode-se ouvir o barulho quando aquela mãe começou a descascar a contrariada banana: chiiiiiek, chiiiiiek. A fruta estava até reclamando; cada chiiiiiek queria dizer: não, agora não! Volta semana que vem.
Eu tentei impedir e ofereci meu chocolate para o Robson, mas a mulher, orgulhosa, disse que preferia que o menino comesse a banana. Eu tentei mais uma vez e disse que aquela banana “parecia estar” muito verde, mas ela disse que o garoto estava acostumado a comer banana daquele jeito. Resolvi não interferir mais e só temia pela garotinha, que tinha menos idade, mas que, graças a Deus, não aceitou a banana, alegando não ter fome.
O anjo da guarda da garotinha funcionava, mas o do Robson estava bem distraído ou era mais inútil que o anjo da guarda da família Kennedy.
É incrível ver como tantas crianças sobrevivem à ignorância dos pais. O Robson era uma delas, quer dizer, eu acho que era uma delas, pois quero seguir acreditando que ele sobreviveu àquela banana e àquela mãe.
Robson demorou um pouco para conseguir consumir a fruta; era notório que estava difícil desgrudá-la da boca e mastigá-la apropriadamente, mas ele conseguiu e acabou comendo toda a banana sem parar de pular, o que me fez, por alguns instantes, acreditar que o menino estava mesmo acostumado a comer banana verde.
Minutos depois, quero dizer, poucos minutos depois, se pode ver uma mudança gradativa no comportamento do pequeno Robson.
Ele já não pulava mais como antes e foi ficando cada vez mais quieto, até que parou de vez e se encostou ao quadril da mãe. Subitamente, uma palidez tingiu-lhe o rosto moreno e o menino levou a mão à altura do estômago.
Era o primeiro sinal de que algo estava por vir.
A mãe com impaciência perguntou:
-Por que tá com esse beiço branco, Robson? Deixa eu vê. Abre essa boca.  
Até a “ginginva” tá branca, Robson! O que cê tem? Fala moleque!
E continuou:
-É por isso que eu não gosto de sair de casa com vocês. Tô falando pro cê pará de pular faz uma hora, mas cê não obedece, parece que eu tô falando cas parede;  tá vendo, agora tá com essa cara de filhote de cruz-credo, ô menino dos inferno.
 Fala, moleque, por que cê tá branco?
A cada frase que a mulher falava, dava um tapa nas costas do Robson. Podia se ouvir o eco dos pulmões do garoto a cada golpe. Tantos foram os tapas que o pobre Robson acabou vomitando no pé da mãe, não sem antes passar pelos cabelos da irmãzinha, que amedrontada assistia a tudo calada com os olhos arregalados.
Que tristeza presenciar aquilo. Eu me senti impotente diante da estupidez daquela criatura, que repreendia e cobrava explicações da criança, que estava passando mal à sua ignorância.
Não havia como interferir, não há argumento capaz de penetrar aquele grau de ignorância. Ela nunca iria admitir que o Robson vomitou por causa da banana; para aquela mulher, o garoto havia passado mal por “não parar quieto”, além disso, quem bate em alguém que está passando mal? Que loucura assistir àquela cena.
Por outro lado, o azarado e agora indisposto Robson nem de longe imaginava por que estava apanhando. Algumas crianças apanham simplesmente porque os pais estão com vontade de bater, de extravasar a raiva contida. Aquela foi a vez do Robson e eu só queria saber por quê? Por quê? Numa fila daquele tamanho aquilo tinha de acontecer bem na minha frente? Por quê? De que ia me servir assistir aquilo se eu pouco podia ajudar. Pode parecer egoísmo, mas porque eu? Eu não passo muito bem vendo essas coisas. 
Ela continuava:
-Eu devia ter deixado vocês na casa da vizinha. Bem que a Creide me avisou pra não trazer estorvo. Olha o que você fez “gumitô” tudo ni mim e na Kelly. Agora vamo ter de ir embora, moleque dos inferno. Vão bora, vão bora. Anda, peste!
Imediatamente, a mulher pegou as crianças e saiu apressada e vomitada daquela fila.
Antes que ela fosse embora, eu consegui dar minha garrafinha de água e meu chocolate para a menina Kelly, sem que a mãe percebesse; eu me sentia na obrigação de fazer alguma coisa e tentei “salvar”, pelo menos uma das crianças.
 A Kelly foi embora praticamente pendurada por um dos braços. Dava pra ver o omoplata saltando das costas magras enquanto as perninhas curtas se apressavam para acompanhar os passos largos e furiosos da mãe.
Robson ia mais atrás, enquanto a mãe gritava: anda moleque, anda logo. Depressa, cê
vai me fazer perder o ônibus, agora? Anda coisa ruim, peste do inferno... Bora, Kelly, apressa o passo, menina...
A mãe foi se afastando com as crianças enquanto mil pensamentos me ocorriam.
Embora não parecesse, aquela era uma boa mãe; estava com os filhos enfrentando dificuldades, estava à sua maneira educando as crianças e não tinha esquecido de levar uma merendinha para elas (as tais bananas verdes).
Mais uma vez eu estava mergulhando em pensamentos sem me dar conta que eu havia ficado para trás, lá, naquela fila sem fim, só que agora eu estava sem água e sem chocolate.
Só me restava fumar.

domingo, 19 de agosto de 2012


Durante alguns anos de minha infância eu e minha família passávamos as férias de final de ano na casa de campo de um tio de minha mãe; tio Geraldo, homem alegre e de sorriso fácil, que gentilmente nos cedia sua casa de campo todo janeiro.
Minha mãe tratava logo de convidar mais pessoas para nos acompanhar naquelas férias e eram quase sempre as mesmas; tia Neide e tio Hélio com as filhas Liane e Lílian, tia Nely e tio Nine com os filhos Nininho e Renata, tia Ivone e tio Juliano com as filhas Andréa e Vânia e a ala dos solteiros: tia Lia, irmã mais nova de minha mãe e seu então namorado João, tio Marcos e tio Nilton, irmãos de meu pai, Marcio, primo de meu pai, e às vezes as amigas de minha tia Lia: Joce, Louary e Isa. Era muita gente mesmo, mas a casa era grande e confortável o suficiente para acomodar todas essas pessoas.
O lugar era lindo; uma região de montanhas com vegetação rica que formava uma paisagem de beleza ímpar, mas não oferecia muita opção de lazer, por isso era importante que tivéssemos um bom número de pessoas, de preferência animadas, para garantir a diversão.
Havia companhia para todos e eu me dividia entre as brincadeiras perigosas com Nininho e as nem tão perigosas assim com Liane.
 Liane adorava subir em árvores, principalmente quando estava aborrecida, o que me causava admiração e inveja, pois eu, desde a mais tenra idade, fui instruída por minha mãe, de maneira bem didática que altura matava. Explico:
Nós morávamos no quinto andar de um prédio e nas janelas do apartamento não havia, nem nunca houve grade ou rede de proteção para prevenir algum acidente com uma das três crianças que habitavam aquele apartamento; minha mãe confiava mais no método desenvolvido e testado por ela, que consistia no seguinte: de tempos em tempos ela, a mamãe, colocava seus três filhinhos para darem uma espiadinha lá em baixo e dizia com voz carinhosa e convincente: “está vendo como é alto? As crianças tolas e já amedrontadas sinalizavam com a cabeça que sim; depois disso, ela prosseguia: é por isso que você não pode se debruçar na janela, pois se você cair vai chegar lá em baixo muito rápido, vai se espatifar no chão e não dá tempo de acudir porque a cabeça vai pra um lado, um braço vai pra cá, o outro vai pra lá e o corpo fica no meio; você morre e nunca mais vê o papai e a mamãe”.
 Com minha mãe aprendei as primeiras noções de física; isto é, massa vezes aceleração é igual à morte trágica e sangrenta. Ela confiava muito na eficácia desta fórmula, nenhuma criança era louca o bastante para ousar desafiá-la.
Por sorte, desenvolvi apenas medo de altura, pois analisando melhor discurso de minha mãe, poderia muito bem ter desenvolvido outras fobias como: medo de abandono, pânico de sangue, transtornos do sono, tiques e problemas na fala, mas Deus, na sua infinita sabedoria, me fez resistente à psicologia de minha mãe.

Lembro-me muito bem quando numa tarde eu voltava pra casa depois de ter ido nadar no rio com Nininho, escondida de meus pais e encontrei Liane chorando no alto de uma árvore batendo revoltada com um pauzinho em seu tronco. Parei e perguntei o que tinha acontecido, por que ela estava tão triste e ela explicou que estava ali porque tios Marcos e Marcio não a deixaram participar de alguma brincadeira, alegando que ela era muito criança, mas deixaram que minha irmã, que era apenas oito meses mais velha, participasse. Aquilo a magoara profundamente e enquanto chorava, repetia: “a Vanja é só oito meses mais velha que eu, só oito meses...”
Eu tentei consolá-la e convencê-la a descer da árvore, uma vez que, por motivos óbvios, eu jamais subiria até aquela altura, mas foi inútil; Liane havia “embirrado” e quando isso acontecia, ela permanecia irredutível por um período bem longo. Eu a deixei ali chorando e batendo com o pauzinho no tronco da pobre árvore e enquanto eu me afastava ouvia seus soluços e aquela vozinha inconformada se distanciando: só oito meses... Só oito meses.   Liane logo desistiria daquela tristeza, pois ser triste, já naquela época, não fazia parte de seus planos de vida, além disso, já estava quase escurecendo, o que sempre abreviava suas fugas.
A noite, como era de costume estávamos todos reunidos novamente e brincávamos juntos até sermos vencidos pelo cansaço e cairmos no sono pesadamente para repor as energias que seriam muito necessárias para o próximo dia.
Não havia televisão, apenas joguinhos, conversa e violão. Naquelas férias tínhamos todo tempo do mundo para aprender com o outro, para aprender o outro e isso nos divertia e nos bastava. Eram tempos menos eletrônicos, tínhamos que dividir o que havia dentro de nós, além dos joguinhos de tabuleiro, onde quanto mais crianças jogassem melhor seria. Às vezes até brigávamos, mas isso era parte do nosso entendimento e logo chegaria um adulto para conciliar e tudo voltava a ficar bem.
 Não sei se estou sendo nostálgica, mas tudo parecia mais simples, mais calmo e menos urgente. Não sei se é só uma impressão, mas na minha lembrança de infância, as crianças me pareciam menos exigentes, mais protegidas e talvez por isso mais felizes. Aos nossos olhos, nossos pais eram grandes, fortes e sábios deixavam bem claro o que queriam de nós, para eles, algumas coisas eram incontestáveis: o não era não, o depois era depois; o certo era certo e o errado era inaceitável, assim aprendíamos as acatar, a esperar e a respeitar. Sabíamos como e até onde ir; acho que regras claras na nossa infância fizeram de nós adultos mais seguros e mais livres, para fazermos escolhas.  
Nessas férias aprendíamos o que nenhuma escola era capaz ensinar: a delícia de estarmos em família, a convivência, o carinho pelos nossos primos e tios e a alegria por podermos estar juntos todos os dias, inventando brincadeiras e nos divertindo com nossas diferenças.
Eram dias de sol, de movimento de muito barulho, de muita alegria e que com certeza deixaram saudades em todos nós.
Não sei por que paramos de ir àquela casa nas férias de final de ano. Não me lembro por que aquelas férias pararam de existir, só sei que ficamos algum tempo sem viajar até que num certo ano, seguindo sugestão de minha tia Lia fomos acampar na praia de Maranduba.
Eram os anos setenta e acampar era uma novidade, essa era uma opção de férias bem alternativa e meu pai era um pouco resistente à idéia. Ele gostava de conforto e sossego, mas Lia e João, agora casados; convenceram-no a experimentar a novidade. Não demorou muito para que todos nós aprendêssemos a gostar daquele estilo de viagem, além disso, naquela época, o litoral Norte do estado de São Paulo era pouco explorado e suas praias eram belíssimas, o que levou meu pai a construir na praia da Lagoinha, que ficava bem próxima à praia de Maranduba.
Eu ainda não sabia, mas minhas férias iriam ficar ainda mais divertidas nessa nova praia, mas isso é uma outra história.

domingo, 12 de agosto de 2012



Sempre achei um exagero esse apelido, cabeça grande, eu? Acho que não. Será?  Está certo, sempre usei os bonés no grau máximo de alargamento, também sempre encontrei dificuldades na hora comprar chapéus; na praia, por exemplo, experimentava uma média de vinte até encontrar um que ficasse menos apertado e não interferisse na circulação sangüínea, mas daí a ser cabeção já é um pouco de maledicência dessa gente.
Desde que eu era criança, meus tios, especialmente tio Marcos, irmão mais novo de meu pai, me brindavam com esse apelido, mas eu nunca acreditei ser verdade. Eu achava que eles, por não ter o que falar de mim, apegavam-se ao ínfimo detalhe, que era a pequena e quase imperceptível diferença de tamanho da minha cabeça em relação às demais cabeças existentes no mundo.
O fato é que os membros da minha família vêm “matando” Freud há várias gerações; a prática de apelidar as crianças, que apresentem qualquer característica fora do convencional, rotulando assim os pequenos seres, vem de muito tempo, é quase uma tradição.
Eles fazem questão de chamar o baixinho de baixinho, o gordo de gordo e obviamente o cabeçudo de cabeçudo, no meu caso, cabeção; ou seja, criatividade zero, mas falta de tato mil.
É a categoria Bullying Familiar. As crianças da minha família já são esclarecidas desde muito cedo sobre seus defeitos ou características bizarras, tudo com muita delicadeza e ternura, portanto, quando forem à escola não mais se importarão ao serem chamadas seja lá do que for, pois já saberão exatamente o que são, evitando desta forma, surpresas para os pequenos não mais desavisados.
Segundo os membros de minha família, esta prática garante aos pais das crianças uma considerável economia com psicólogos e/ou psiquiatras.
 Fora do núcleo familiar ninguém nunca mencionou absolutamente nada a respeito do tamanho de minha cabeça; ninguém me chamava de cabeção, mas dentro dele, cabeção era praticamente meu nome de batismo, depois vinham as versões: resumida cabeça e a internacional: big had, criadas e adotadas também pelo nefasto tio Marcos.
Eu nunca me importei com nenhuma delas, pois insistia em achar que era apenas uma questão de pura falta do que falar. Piadas do tipo bonezinho na feira ou que espaço tem essa sala, quando eu entrava eram corriqueiras, apelidos como caixa d’água e tapinhas na nuca para ver se eu virava “cambalhotinha” eram coisas que nada me incomodavam, até mesmo o título de Lua dado por meu tio Victor, irmão de minha mãe, que pertencia a outra ala da família, não me convencia. Eu e meu superego jamais acreditamos nessa conversa de cabeção; estávamos certos de que éramos “o máximo” e que tais apelidos eram apenas uma alusão a minha inteligência privilegiada, mas quando meu humor não estava muito afável eu usava meu cabeção para acabar logo com a brincadeira, pois dentro dele, depois de demorada busca devido ao tamanho e ao excesso de informações armazenadas, eu sempre achava uma resposta capaz de fazer o apelido de cabeção parecer bem leve, quase um elogio. Eu sabia bater forte, fui treinada para isso desde muito cedo e aprendi com meu pai que “quem fala o que quer acaba ouvindo o que não quer”; assim eu conseguia colocar um pouco de respeito naquela baixaria toda.
O tempo foi passando e o cabeção foi ficando; ou melhor, a versão resumida dele.
Até hoje eu atendo quando meus primos ou meus tios me chamam de cabeça, não vejo o menor problema nisso, pelo contrário, acho até carinhoso, pois me levam de volta aos tempos de minha infância.
Mas, o que pouca gente sabia é que desde a idade de doze anos comecei a sentir muitas dores na tal cabeça. No início, meus pais acharam que talvez fosse necessidade de uso de óculos e me levaram ao oftalmologista. A suspeita foi confirmada, eu tinha mesmo necessidade deles e passei a usá-los apenas para leitura, pois apresentei um pequeno grau de miopia e astigmatismo, mas as dores continuavam e minha mãe costumava dizer que eu estava “fazendo fita”, então eu tomava alguns analgésicos, que me livravam por algumas horas e com sorte, por alguns dias, das dores e dos comentários de minha mãe.

* fazer fita: termo usado por minha mãe para desvalorizar ou menosprezar a dor e/ou o sofrimento alheio. *

 Eu achava que realmente não era nada, pois na maioria das vezes esquecia de usar os óculos e atribuía as dores a esses esquecimentos.
Os anos foram passando e as dores começaram a ficar cada vez mais fortes e eu só fazia aumentar as doses de analgésicos. Nas fases mais agudas, meu café da manhã era um copo d’água e quatro comprimidos de analgésico, até que aos quarenta e quatro anos de idade pude experimentar a pior dor de cabeça de toda minha vida, aumentei ainda mais a dose dos comprimidos mas eles não deram conta de tanta dor.
Meu marido ficou muito preocupado, entrou em contato com uma amiga que é médica e pela descrição dos sintomas, ela deduziu que poderia ser algum problema relacionado à ATM e indicou um especialista que me atendeu prontamente.
Cheguei ao consultório médico num estado que até Deus, que testemunhava tudo, duvidava, era difícil não chorar, pois naquela hora doía tudo, especialmente o último dente da arcada superior. O Dr. Cláudio me tirou daquela crise depois de receitar remédios bombas e sessões de fisioterapias. Fiquei, por algum tempo, ligada a um aparelhinho tomando choques no rosto e juntando todos os choques àquela dor comecei a acreditar que Deus estava me puxando e pela cabeça, claro.
O Dr. Cláudio me indicou um outro especialista, desta vez um ortodontista, Dr. Walter, que iria estudar meu caso.
O Dr. Walter era um homem jovem e de serenidade jamais vista antes por mim, sua fala era mansa e seu jeito muito calmo. Ele fez a primeira consulta e pediu uma série de exames para ajudar no diagnóstico. Com os exames em mãos, o Dr. Walter começou a estudar o caso e depois de algumas semanas, me chamou até seu consultório para me comunicar sobre a origem do problema que causava tantas dores e o tratamento indicado para saná-lo.
Eu e meu marido atendemos imediatamente ao chamado do Dr. Walter e depois da ansiedade da sala de espera nos dirigimos ao seu consultório, onde nos posicionamos de frente a ele separados por uma mesa com um grande tampo de vidro.
O médico com muita seriedade e concentração foi esclarecendo o problema e explicando cada termo técnico com muita paciência, até que ao final de todas as explicações, ele retirou de um envelope pardo, a radiografia da minha cabeça.
Naquela hora, pude ver com meus próprios olhos: meu tio Marcos não estava certo, quem foi realmente preciso na definição foi meu tio Victor ao me apelidar de Lua, pois à medida que Dr. Walter puxava o exame de dentro do envelope um clarão surgia bem ali, na minha frente; era o nascimento da própria Lua iluminada e cheia contrastando com o acetato negro.
 Acabava naquele momento, a minha ilusão, eu deixara pra trás a alegria da ignorância e constatava: minha cabeça era enorme mesmo!
Enquanto o Dr. Walter prosseguia com as explicações, mil pensamentos me visitavam. Todas as lembranças das piadas e das brincadeiras que meus tios e primos faziam comigo ressurgiam e se embaralhavam como ecos difusos e irônicos, que reverberavam dentro da minha super cabeça e bem ali, naquele consultório em meio àquele assunto tão importante.
Eu me esforçava para segurar o riso, que estava prestes a explodir, afinal era uma situação que exigia seriedade, mas quando aquele especialista deu o diagnóstico não consegui mais me conter; pedi licença, deitei o cabeção sobre o tampo de vidro da mesa com muito cuidado para não quebrar-lo e ri descontroladamente.
Meu marido, que já conhecia todas as histórias e o próprio cabeção, também não se conteve e foi tomado pelo riso o que contribuía para dificultar ainda mais o meu autocontrole.
As palavras do Dr. Walter foram as seguintes: “Marta, pelo que pude analisar através de seus exames, constatei que sua mandíbula é muito pequena em relação ao tamanho da sua cabeça”.
Ao ouvir aquela “sentença” só me vinha à mente a cara debochada do meu tio Marcos, que a partir daquele momento poderia contar com documentos que comprovavam através de cálculos, fotos e radiografias que eu era mesmo um cabeção e isso desencadeou em mim aquela gargalhada inoportuna.
O Dr. Walter fez silêncio enquanto esperava que eu e meu marido cessássemos o riso. Fiz esforço sobre humano para controlar a imensa vontade de rir que me acometia e depois de alguns minutos, consegui me acalmar.
 Diante daquele vexame, me senti na obrigação de justificar o ataque de riso para o Dr. Walter, que me olhava fixamente querendo entender minha reação; e expliquei:
_ Me desculpe por isso, Dr. Walter, mas é que eu tenho um tio que sempre me chamou de cabeção, desde criança e eu me lembrei dele bem agora.
Ele aparentemente entendeu, foi simpático e sorriu meio desconcertado e eu fiquei muito mais envergonhada, agora não só pela risada em hora imprópria, mas pela justificava grosseira, afinal, quem tem um tio dessa laia?

“Acho que nem todo mundo tem a chance de ter uma estreita amizade com um tio como eu tenho com meu tio Marcos; pra começar a diferença de idade entre nós é pequena considerando nosso grau de parentesco, além disso, quando eu entrei na faculdade ele estava no último ano e às vezes nos encontrávamos lá, naquele ambiente onde era comum encontrar amigos e colegas, não um tio. Também trabalhei durante alguns anos num jornal da cidade cuja sede era em frente à loja do meu avô, onde trabalhava meu tio. Essas situações somadas a outras afinidades que tínhamos como: o gosto pela música, arte, estética e a nossa tendência a brincadeiras “ácidas”, acabou nos aproximando muito durante uma fase de nossas vidas; Sempre que nos encontrávamos tínhamos o que conversar. Falávamos sobre tudo e tínhamos intimidade o suficiente para brincarmos um com o outro da maneira que bem quiséssemos, mas para quem não sabia desta nossa ligação, ficava no mínimo estranho saber que um tio tem a coragem de apelidar a própria sobrinha de cabeção, por isso, aquele momento e naquele consultório, a minha explicação para justificar o ataque de riso que tive só deixou tudo mais constrangedor”.

Após o comentário desastroso sobre meu tio e meu cabeção, percebei pela expressão do Dr. Walter, que se eu dissesse uma só palavra para justificar ou tentar explicar mais alguma coisa, acabaria passando uma vergonha muito maior, então resolvi me calar e me concentrar nos esclarecimentos sobre meu problema.
 Resumindo a história, depois de três anos de aparelho nos dentes e de uma cirurgia que durou mais de oito horas tive o tamanho da mandíbula aumentado, uma vez que era impossível diminuir o tamanho da cabeça.
Ganhei duas placas e seis pinos nos ossos da face, mas perdi alguns dentes, que já estão sendo implantados.
 Hoje, passo muito bem; nunca mais tive dores de cabeça muito fortes, além disso, a freqüência delas também diminuiu consideravelmente.
Doei para o Dr. Walter toda a documentação dos estudos e todos os exames que pudessem comprovar a veracidade dessa história, inclusive a radiografia comprobatória do tamanho exacerbado do cabeção, pois o ortodontista precisava daqueles documentos para ilustrar um trabalho.
Não fui bondosa, apenas achei prudente mantê-los o mais longe possível do meu tio Marcos, pois não quis entregar de mãos beijadas, um material rico e fundamentado para o deleite de seu sarcasmo, achei melhor deixá-los em território mais seguro e neutro.
A cabeça continua do mesmo tamanho, mas agora a mandíbula é compatível e me sinto mais proporcional.
Enfim, tudo fica bem quando acaba bem.

domingo, 5 de agosto de 2012



Não tenho muitos arrependimentos nessa vida, nunca me arrependi das decisões que tomei e nem das escolhas que fiz, mas às vezes penso, com uma pequena dose de remorso, em alguns atos tolos que pratiquei e que certamente não faria ou de novo.
Acho que quando se é jovem não consideramos os motivos e as histórias dos outros, estamos mais prontos a reagir do que a considerar os motivos pelo qual uma pessoa é dessa ou daquela maneira. Eu, pelo menos era assim, reagia muito antes de pensar nas razões alheias ou nas conseqüências de alguns de meus atos.
Quando se é jovem as pequenas injustiças são difíceis de serem aceitas com passividade, parece urgente revidá-las quando não conseguimos impedi-las, é quase impossível controlar os impulsos próprios da adolescência e ter a consciência de que as conseqüências de pequenos atos, como os que eu normalmente praticava, poderiam desestabilizar até o humor mais “tibetano”.    
Roubar o lanche da Dona Erotildes era uma das coisas que eu fazia com muito prazer, mas hoje chego a sentir dó daquela pobre mulher, pois agora entendo que ela deveria ter tido uma vida muito dura capaz de justificar tanta aspereza em suas atitudes.
Dona Erotildes era uma senhora que trabalhava no Culto à Ciência como inspetora de alunos. Ela gritava muito e por qualquer coisa, uma simples pergunta era respondida com estupidez e aos berros. Se você perguntasse pra Dona Erotildes que hora eram, ela responderia gritando: Não tá vendo que são dez horas, menina? “Presta” atenção.
Eu nunca gostei de gritos, sempre achei que eles eram desnecessários, mas era assim que aquela mulher se relacionava com os alunos e acredito que com tudo na vida, pois a grosseria já era parte do seu ser.
Ela era grossa, mal educada, mal humorada e por isso merecia ficar sem lanche. Deixar aquela mulher faminta foi durante muito tempo foi a minha vingança, o meu desabafo.
 Tudo começou quando, sem querer, descobri que Dona Erotildes guardava seu lanche: um pão com manteiga, uma banana mais que madura e um ovo cozido ainda com casca, numa das gavetinhas do imenso armário com centenas de gavetinhas que ficava no corredor do segundo andar do colégio onde eu estudava. Praticamente toda semana eu roubava o lanche da velha e jogava na lixeira do banheiro feminino. Quem sabe assim, fraca e faminta ela não encontraria energia suficiente para gritar tanto.
Confesso que este feito me dava um prazer fenomenal, eu me sentia com a alma lavada a ponto de nem me importar mais com os gritos e com a falta de educação da “bedel”. Quanto mais ela gritava mais lanches eu roubava e mais fome ela sentia. Que alegria! Curioso é que ela não era capaz de pensar em guardar o lanche em outro lugar, ela insistia em deixá-lo na mesma gavetinha do mesmo armário, assim, eu virei freguesa.
Outra vítima do meu desabafo foi o zelador do prédio de uma amiga. Ele adorava “puxar o saco” do pai dela e mostrar serviço dando conta de todos os movimentos da menina. Até a respiração da Luíza ele controlava.  A coitada não podia aparecer na porta do prédio que o zelador contava com detalhes tudo que ela tinha feito: a que horas saiu, a que horas voltou, o que vestia, quantas vezes piscou, com que conversou, para quem sorriu, para que lado olhou. As coisas mais banais assumiam um caráter suspeito e preocupante depois de serem relatadas por ele com um tom gravíssimo na fala. Após ouvir o zelador, o pai da Luíza, homem sisudo e severo, costumava castigar ou dar “altas broncas” na menina que não havia feito absolutamente nada para merecê-las.
 Assistir a tudo aquilo me incomodava demais e mesmo sem ser da minha conta, eu sentia uma vontade imensa de fazer alguma coisa para dar o troco, uma vez que Luíza era submissa demais para isso.
Não foi difícil encontrar o canal da vingança, foi só observar por alguns minutos aquele homenzinho desprezível para saber como agir.
O fofoqueiro de plantão costumava ler livros baratos comprados em bancas, lia um atrás do outro, ele era viciado neste tipo de leitura e eu achava que era dali que ele tirava inspiração para seus devaneios maledicentes, que atormentavam tanto a vida da minha amiga, então era ali que eu deveria agir. A menor distração do “delator capachildo”, eu arrancava as últimas páginas do livro que ele estava lendo e jogava no vão do elevador, pois lá no fosso elas talvez nunca fossem achadas e já que ele tinha tanta história pra contar para o pai da Luíza que usasse sua imaginação para inventar o final das histórias imbecis que lia.
 Devo confessar que eu e minha amiga nos divertíamos muito com aquilo; era o doce sabor da vingança e que muito nos alegrava.
Repeti várias vezes esse feito e em todas senti uma enorme satisfação, acho que era isso que o Zorro sentia quando “ferrava” o sargento Garcia para defender os fracos e oprimidos.
Era muito bom ferrar esses fdp.
Mas, ao contrário desses bastardos havia meu pai, a quem eu devo muitas desculpas. Eu fazia com ele uma brincadeira que hoje, tenho certeza, jamais faria de novo; pois, diferente do que eu sentia com relação às outras pessoas a quem eu dirigia minhas brincadeiras vingativas, meu pai era quem eu mais amava e admirava no mundo, portanto não havia nenhum caráter de revanchismo ou vingança, era a brincadeira pela brincadeira, apenas o meu pequeno demônio nem sempre adormecido se manifestando.
Nós morávamos num sobrado com uma escada de madeira muito bonita, mas um pouco perigosa. Os quartos ficavam no andar de cima e o do meus pais ficava no final do longo corredor, bem distante da escada. Havia no meu quarto uma tomada que estava em curto, não entendo bem dessas coisas, mas acho que o fio da campainha passava por ela e qualquer eletrodoméstico que se ligasse ali, acionava a campainha. Eu descobri o defeito da tomada quando fui ouvir minha “fita cassete” preferida. Foi só apertar o botão “play” e peim, a campainha tocou. Repeti a operação só para confirmar e de novo, peim, a campainha soou. Cheguei a ficar brava com aquilo; eu sempre fui um pouco maníaca com organização e ali era o lugar perfeito para acomodar meu tape e minhas fitas cassete; só mudei de humor quando tive a idéia de brincar um pouquinho com aquilo.
 Fui logo mostrando a descoberta para minha irmã e explicando o que poderíamos fazer a partir dela; então ficou combinado, iríamos por em prática nosso plano maligno naquela noite.
A noite chegou e todos se recolheram. Minha irmã e eu esperamos meus pais se deitarem e vimos quando eles apagaram as luzes; esperamos alguns minutos e apertamos o botão play do tape, que já estava devidamente posicionado e de novo a campainha disparou.
Meu pai se levantou apressado, percorreu o corredor e desceu as escadas; passou pela sala de jantar, atravessou a sala de estar, para chegar à varanda e finalmente abrir a porta da frente. Assim que ele passava pelo living, eu e minha irmã desligávamos o tape e a campainha parava de tocar. Ele abria a porta e para sua surpresa não encontrava ninguém; então o pobre homem começava a fazer o caminho de volta até chegar à sua cama, quando eu e minha irmã ligávamos de novo o tape e a campainha novamente disparava e seguindo o destino de Cícefo, meu pai recomeçava sua jornada noturna que mais uma vez, ia dar em nada. 
Ele já muito nervoso, depois de repetir o trajeto árduo, voltava ao quarto dizia a minha mãe:
Nete, se eu pego quem tá brincando há essa hora, eu arrebento”.
 Meu pai estava muito longe de ser um homem violento, mas adorava dizer essa frase.
Eu e minha irmã achávamos muita graça naquela brincadeira malvada.
Não nos dávamos conta do cansaço de meu pai nem do stress que o submetíamos quase todas as noites. Queríamos apenas brincar e repetimos durante um bom tempo essa brincadeira de mau gosto e disso sim eu me arrependo e muito.
Meu pai nunca mereceu ser vitima deste tipo de “sacanagem”. Não tínhamos o direito fazer aquilo com o pobre, e pior, não tínhamos porque fazer tamanha malvadeza, pois ele foi o melhor pai do mundo. Ele tinha todas as qualidades de um pai exemplar; era amoroso, carinhoso, zeloso, compreensivo, amigo, dedicado e extremamente generoso. Não havia nada que ele nos negasse, ele se desdobrava para fazer nossas vontades e satisfazer todos os nossos desejos, Estava sempre pronto a demonstrar o quanto se orgulhava de seus filhos e nem assim eu consegui poupá-lo.
Só uma coisa me consola: ter tido, depois de alguns anos, a oportunidade de confessar que éramos nós que tocávamos a campainha daquela casa. Ele não se importou muito com aquela confissão, apenas sorriu e disse que sempre suspeitou que eu e minha irmã fôssemos as autoras daquela “pegadinha”.
Não sei se ele realmente sabia que éramos nós que tocávamos aquela campainha, só sei que ainda hoje me arrependo do que fiz, mas agora, depois de “colocar no papel” e confessar o meu remorso, me sinto aliviada e pronta para escrever mais uma história.