domingo, 29 de julho de 2012



Eu sempre acreditei na sorte. Ter ou não ter sorte, para mim, independe da vontade ou do trabalho de qualquer ser humano. Alguns dizem que a sorte é apenas uma questão de postura otimista em relação à vida, ou seja; pensamentos positivos que atraem atitudes positivas que atraem sorte. Outros dizem que pra ter sorte não há que se fazer nada, é só relaxar e não pensar no amanhã. Há ainda os que não acreditam em sorte; para esses, tudo o que acontece em nossas vidas é de alguma forma, fruto de nossos esforços ou de nossas escolhas.
Eu não tenho nenhuma opinião embasada em alguma teoria sobre esse assunto, não sei qual é o caminho para chegar à sorte, mas mesmo assim, acredito nela e às vezes penso que tudo pode ser bem mais simples: o Cara lá de cima fica com uma roleta girando nosso destino e determinando se hoje vamos ou não ter sorte. 
O fato é que a gente nunca sabe qual será o dia de nossa sorte; o dia em que ela vai brilhar para nós, pois assim como a morte, a sorte não pode ser programada ou determinada e nunca saberemos quando e como uma delas vai chegar.
Acho que já nascemos prontos para aceitar essas incertezas, nunca pensamos que hoje, justamente hoje, pode ser o último dia de nossas vidas ou o primeiro de uma vida bem melhor. Temos que aceitar cada dia como ele vem: bom ou ruim, alegre ou triste. É assim, teremos que enfrentá-lo da forma que ele se mostrar, contudo, aceitar não significa concordar e confesso existem fatos e acontecimentos no mundo e na vida de algumas pessoas que eu não concordo, pois não entendo. Não consigo entender porque determinadas coisas acontecem da forma que acontecem.
Um exemplo disso foi a morte do médium Chico Xavier. Esse homem veio pra Terra com a missão de fortalecer a fé, de pedir para que o mundo desse uma chance ao perdão, de tentar minimizar o sofrimento daqueles, que perderam entes queridos e de nos ensinar que a vida não se resume a essa nosso plano, há algo mais.
Ele passou seus dias dedicando-se integralmente ao próximo, a estranhos que acolhia e considerava sinceramente irmãos.
Pois bem, no dia de sua morte, o Brasil estava em festa; era Copa de 2002 e o País todo festejava a conquista de mais um título; em meio àquele torpor, com o povo embriagado pela alegria da vitória brasileira, morre Chico Xavier.
 A mídia noticiou sua morte sem dar a devida dimensão àquela perda, talvez para não macular o brilho da festa da conquista do novo título ou porque, a notícia e as imagens da alegria nas ruas do País do Futebol dessem mais “IBOP”.
 A perda daquele homem, que por lógica deveria causar uma comoção nacional, foi timidamente anunciada, poucos lamentaram sua morte, poucos perceberam que o Brasil sem Chico Xavier não seria o mesmo Brasil, seria um Brasil mais triste, mais desamparado, mesmo possuindo mais uma taça.
A imprensa pouco divulgou a importância das obras do médium e durante semanas exibiu a imagem da taça e dos jogadores tratados como heróis nacionais.
Injusto. Posso até arriscar dizer que foi falta de sorte morrer num dia de tanta festa, mesmo achando que Chico Xavier estava muito além de tudo isso.
O mesmo aconteceu com o prefeito de Campinas: Antônio da Costa Santos, conhecido como Toninho, que foi covardemente assassinado na noite de dez de setembro de dois mil e um; ou seja, horas antes da queda das Torres Gêmeas nos EUA, fato que ocupou e ainda ocupa os noticiários de todo o mundo. O mundo parou estarrecido para assistir às cenas da queda das torres.
 O horror das imagens das torres desabando se sobrepôs ao horror do assassinato de Toninho, com isso, a imprensa não deu a cobertura que poderia ter dado ao assassinato do prefeito, o que provavelmente, levaria a sociedade a cobrar atitudes enérgicas das autoridades para o esclarecimento desse crime, que até hoje permanece impune.
 O assassinato do prefeito de Campinas não era um assassinato qualquer como tantos que infelizmente já estamos acostumamos a ver; tratava-se do assassinato do prefeito de uma cidade importante do interior do maior ou mais desenvolvido estado brasileiro. O que diminuiu a importância deste fato foi outro de maior brutalidade.
 Não estou aqui questionando a importância nem o “peso” dos fatos, tampouco afirmando que um mereça mais cobertura da imprensa que outro, apenas quero localizar no tempo e no espaço tais fatos e a conseqüência de terem acontecido no momento em que aconteceram. 
Se Chico Xavier morresse em outra data, uma ou duas semanas depois, por exemplo, sua morte não dividiria a atenção com nada, portanto, sua história e seus feitos poderiam ser mais divulgados. O Brasil saberia mais sobre sua vida, sua fé e suas obras. O mesmo aconteceria com Toninho; se a imprensa não tivesse assunto tão brutal quanto a derrubada das Torres Gêmeas, a indignação com as circunstâncias da morte de um homem público descente, íntegro e tão bem intencionado, teria maior destaque nas mídias nacionais, deixaria indignado um maior número de pessoas e possivelmente, a pressão da sociedade escandalizada “exigiria” uma investigação mais clara, mais honesta e mais eficaz. Se tudo tivesse acontecido em outro dia, em outra hora, talvez hoje o verdadeiro assassino de Toninho tivesse sido punido.
É triste constatar, mas nesse caso, o assassino do prefeito teve mais sorte que sua vítima; sem saber, ele escolheu um dia propício para cometer aquele crime.
A sorte é aleatória e por isso não contempla apenas os justos, os bons ou os que trabalham, ela não funciona dentro da lógica da recompensa, ela tem uma lógica própria que eu nunca entenderei.
 Alguns cientistas, por exemplo, passam a vida estudando e pesquisando, a fim de encontrar soluções para questões humanas sérias ou curas de doenças graves e mesmo que consigam sucesso, não têm o devido reconhecimento, enquanto outros, sem grandes esforços ficam famosos e enriquecem rapidamente.
Vamos pensar no que aconteceu com o autor da música Feelings. Esse homem tem uma sorte descomunal! Essa música foi composta em mil novecentos e setenta e cinco, ou seja, há quase quarenta anos; vendeu mais de cento e sessenta milhões de cópias e foi tocada em cinqüenta países. Está entre as cem músicas mais conhecidas de todos os tempos. É realmente um fenômeno, praticamente o mundo inteiro conhece Feelings; todo mundo sabe cantar, nem que seja um pedacinho dessa música. 
Seu autor, Maurício Alberto Kaisermann, mais conhecido como Morris Albert, não conta com um vasto repertório em seu currículo; suas músicas mais famosas são Feelings e She’s My Girl. Essas são suas grandes obras. Pois bem, este homem vive hoje na Itália aproveitando a fortuna que “construiu” através de sua obra.
Resumindo: o cara compôs uma mísera música, que “sabe-se” lá por que fez esse sucesso estrondoso e vive confortavelmente, até hoje, dos lucros do inexplicável sucesso.
Pode se dizer que esse homem vive há décadas de “Feelings; nothing more than fillings”.  

Com licença, mas tenho que comentar: Esse sujeito nasceu virado pra lua; é muita sorte! Se não é sorte, então o que é?  Pacto com Ele, o Cão, o Demo, o Tinhoso? Só pode ser isso! Ou então o “Caboclo Cantadô” baixou e soprou essa música na orelha dele, só na orelha dele, na de mais ninguém. Não tem outra explicação. Como ele conseguiu tanto sucesso e tanto dinheiro com essa musiquinha tonta? E esse Michel Teló? Dá pra alguém me explicar... Como uma músiquinha de mau gosto, com quatro frases e cinco notas foi capaz de fazer tanto sucesso?
Francamente, não consigo entender.

E o que falar sobre Van Gogh? Tem coisa mais injusta que essa? O cara morreu na miséria, esquecido, abandonado, sofrido, atormentado, em toda sua vida vendeu apenas um quadro e depois de sua morte, claro; seus quadros não têm preço, o valor de sua obra é inestimável. Que sacanagem! Chega a ser revoltante! Dá até pra entender; até eu, vivendo nessa miséria e nessa falta de sorte, tomaria um porre de absinto e cortaria um “leio” da orelha!
Eu segui esse texto até agora sem mencionar a palavra azar e mantendo a educação, mas não tem jeito; agora eu tenho que dizer: vai ter azar assim na casa do cacete, porra!
Não dá pra agüentar isso! É muita injustiça.

 Que sorte é essa? E não venha me falar de talento; Morris Albert não é mais talentoso que Van Gogh. Assim não dá! A gente tem que se estressar mesmo! Até porque, vamos combinar: que puta música chata! Aquele negócio entra na cabeça e gruda! Fica lá três dias se deixar; só sai se a gente escutar Rebolation, que também gruda. E Rebolation? Alguém pode me explicar o que é isso e como essa coisa foi parar na mídia fazendo o sucesso que fez? Valha-me Deus Nossa Senhora! Assim não dá pra ser feliz!

Pode parecer desdém, mas não é; todo esse meu discurso foi uma introdução para apresentar a sorte do Tobias.
Tobias era um gatinho que eu achei encostado ao pneu de um caminhão num posto de gasolina à beira da estrada. Chovia muito naquele dia e eu estava voltando da Unicamp, Universidade de Campinas, com meu namorado, o qual, eu ainda não sabia, mas a minha “sorte” tinha me reservado como marido, quando o pneu de nosso carro furou e ele teve que parar naquele posto imundo para trocá-lo.
Nessa hora que eu ouvi um miado que de tão fraco parecia distante. Aquele miado era muito insistente e resolvi descer do carro, mesmo com toda chuva, para ver de onde ele vinha. Deparei-me com um filhotinho de gato vira-lata branquinho e fofinho. Aquele serzinho estava faminto e tremia de frio.
Acho que se eu tivesse demorado algumas horas para encontrá-lo ele teria morrido, mas, mais uma vez o destino interferiu e lá estava eu para impedir a morte do bichinho.
Penalizada e disposta a cuidar daquele gatinho branquinho, fofinho e fraquinho, eu o recolhi. Comprei leite no posto, pedi para esquentar e fui alimentando o animalzinho bem lentamente, com muita paciência e zelo. Limpei e sequei o bichano e o acomodei dentro da minha blusa para aquecê-lo com o calor da minha pele.
Durante todo o caminho que me levava de volta pra casa, uma pergunta não saía da minha cabeça: e agora? O que eu vou fazer com esse gato?
Meu irmão era alérgico a pelos de animais; eu já pegara, contra a vontade de meu pai, uma cachorrinha de nome Fafá, que certamente comeria aquele gatinho indefeso. Era claro que ele estava frágil e precisava de muitos cuidados; cuidados de pessoas especiais, pessoas com muito amor... Pronto! Quando pensei em amor meus avós maternos me vieram imediatamente à mente. Estava ali a solução do meu problema e do problema do gato.
Nessa época, meus avós estavam morando numa casa muito ampla e confortável, bem perto da minha; eles poderiam muito bem acolher aquele gatinho, havia espaço para ele, além disso, eu também ficaria perto do animalzinho que já me conquistara.
A idéia me parecia ótima, mas eu ainda tinha dúvidas, fiquei com um pouco de receio que minha avó se negasse a ficar com o bichinho, pois até onde eu sabia, ela gostava de cachorros e nunca tinha se mostrado fã de gatos, mas mesmo assim, resolvi arriscar.
Coloquei no rosto uma expressão muito mais comovente que a expressão de abandono da cara do gato; fui até a casa de meus avós disposta a comovê-los e assim convencê-los a adotar aquela criaturinha.
Para minha alegria, ao chegar, constatei que a casa estava vazia. Aquilo era mais um ponto pra sorte do gato, uma vez que, com a casa vazia não haveria chance de recusa, era só colocar o gatinho pra dentro e pronto. Eu sabia que se ele conseguisse entrar, meus avós jamais teriam coragem de colocá-lo pra fora. Isso foi fácil, através de uma fresta na janela grande da sala de jantar, coloquei enrolado nuns trapinhos, o gatinho sortudo para dentro e fui embora tranqüila, pois algo me dizia que meus avós cuidariam dele.
Dito e feito, aquele gato também nasceu virado pra lua, meus avós chegaram e encontraram o serzinho carente bem no meio da sala de jantar. Foi incrível! Os velhos ficaram numa alegria como a de quem ganha um prêmio. Durante semanas eles só falavam no gatinho que havia surgido do nada, espontaneamente!
 Meu avô tratou logo de escolher um nome para o bichano e o batizou o com o imponente nome de Tobias. Minha avó acordava de madrugada para alimentar e verificar se o gato estava bem, o casal estava feliz por ter de novo de quem cuidar e assim, o pequeno felino se tornou rapidamente o xodó da casa.
 Tobias foi crescendo e sendo tratado como lorde. Era alimentado com leite integral e carne de primeira cortada em pedacinhos bem miudinhos para que ele não engasgasse.
Tobias ficou grande, forte, mimado e feio. Gente, como era feio! Ele tinha uma cara triangular e meio amassada e até os olhos do gato eram feios.
Juro, se eu soubesse que aquele animal iria ficar tão feio eu jamais teria deixado na casa de meus avós, teria largado num trem fantasma e ele que se virasse pra sobreviver.
Às vezes sentia até remorso por ter dado coisa tão feia aos meus avós. Coitados dos velhos, dedicando tanto amor pra aquele filhote de “Deus que me Perdoe”, dava até dó. Mas eles pareciam não se importar com a feiúra do gato e amavam aquele bichinho incondicionalmente.
Tobias tinha mais sorte e mais amor que muita gente nesse mundo e claro que isso só fortalecia aquela criatura horrorosa. Além de feio ele ficou “metido”: pulava no colo de todo mundo, miava quando alguém sentava em sua poltrona predileta; fazia o que queria e meus avós achavam tudo uma gracinha.
O tempo foi passando e o gato chegou à idade adulta. Todas as noites ele saia para namorar. Inacreditável, mas ele arrumava namorada mesmo com aquela feiúra desengonçada.
Algumas noites ele voltava pra casa machucado, pois frequentemente apanhava ou das gatas que namorava ou de seu rival, um gato preto bem maior que rondava aquela vizinhança.
Tobias já era feio, imagina como ele ficava machucado!
Muitas foram as noites que meu avô saiu no frio para defender o bichano. Era doloroso para o velho ver o feioso “levar a pior” na disputa pelas gatas. Era sério, meus avós gostavam mesmo daquele gato.
 Tobias envelheceu e morreu na casa de meus avós, sempre cercado de amor e conforto. Aquele gatinho vira-lata teve uma vida invejável; nasceu na rua, passou fome, frio, escapou da morte e foi parar num lar caloroso e confortável.
 Ninguém; nem mesmo o próprio gato, poderia supor o tamanho de sua sorte.  Ele estava tentando sobreviver ao frio e a chuva embaixo do pneu daquele caminhão. O minuto, a hora e os anos seguintes estavam nas mãos do destino.
 Eu imagino que quando ele achou que tudo estava perdido e que não sobreviveria, eu cheguei e o levei da chuva para um lar, do abandono para a sorte.
Gosto de acreditar que coisas assim podem acontecer com a gente também e sempre que posso, recorro à lembrança de Tobias para reforçar a esperança que tudo que não está muito bem pode e vai melhorar.
Se hoje estamos no frio e na chuva, amanhã poderemos não estar. 
É só uma questão de sorte.

domingo, 22 de julho de 2012



Durante minha infância e até boa parte da minha juventude, as comemorações de final de ano foram festejadas na chácara da tia Neide. Todos se reuniam na chácara Lili para passar alguns dias e comemorar a virada do ano. Quando eu digo todos, eram todos mesmo. Eu venho de uma família muito grande por parte de pai; eram seis irmãos e cada irmão tem uma média de dois filhos. Além dos seis irmãos de meu pai e suas respectivas famílias, havia meus avós paternos, a família do irmão da minha avó, com seus dois filhos, a irmã de minha avó também com seus dois filhos e minha bisavó, a Nonna, que não falava quase nada em português, mesmo estando no Brasil há muitos milênios.
Tinha também a família do meu tio Hélio, suas irmãs e primos, por parte de pai, das minhas primas Liane e Lílian: Clerson, Cleber e a menina Clessi. Não, isto não é a escalação de um time de futebol irlandês, esses são os nomes de batismo dos primos da Liane. É um curioso caso de criatividade atropelando o bom senso, mas não é pra ficar penalizado, Deus compensou os nomes dessas crianças dando-lhes uma beleza estonteante. Eles eram e ainda são pessoas belíssimas.
Além dos familiares, existiam também os namorados e as namoradas dos primos e primas que iam passar o reveillon naquela chácara, os chamados agregados.

* agregado: termo usado principalmente pelos tios para se referirem pejorativamente aos namorados das sobrinhas, deixando bem claro que eles não eram da família e assim, poderiam sofrer a qualquer momento, toda sorte de brincadeiras e humilhações até se casarem com elas, ou não. *

 Era uma espécie de bullying que testava eficazmente o interesse dos pretendentes à mão das meninas.
 Ao agregado ficava reservada a função de ouvir todos os tipos de gracinha e nada dizer; simplesmente sorrir com simpatia e nunca, jamais responder ou tentar a ousadia de fazer uma gracinha maior que a dos tios, mesmo que essa gracinha fosse engraçada; aliás, principalmente se essa gracinha fosse engraçada. Ninguém tinha o direito de ser engraçado, só nossos tios.
O agregado não tinha vez, tinha regras e uma delas, a principal, dizia que ele não tinha vez. A ele cabia apenas a vocação para a paciência. Se ele reagisse seria remetido ao limbo da indiferença e desprezo total dos tios e com o tempo, isso se estenderia a toda a família, daí eles seriam transferidos da categoria agregado para a categoria maldito.
O maldito era tão maldito que não prestava pra mais nada, nem mesmo para ser vítima das brincadeiras dos tios.
Quando um agregado atingia a categoria maldito, ele já estava condenado, quer dizer, até a sobrinha, a quem ele dedicara todo o amor, iria desprezá-lo completamente; era apenas uma questão de tempo até que ela o expulsasse definitivamente daquele clã.
Isso ocorria geralmente após as festas de final de ano, conclusão: os coitados já começavam o ano levando o pé na bunda.
Alguns agregados sobreviviam à prova do Reveillon e eram finalmente aceitos, passando para a categoria de ex-agregado e “quase” da família, o que lhes conferia o direito de, no ano seguinte, responder mais ou menos a altura algumas das gracinhas dos tios, além de estar liberado para humilhar os outros candidatos a agregados; os novatos.
O Reveillon na chácara da tia Neide era uma espécie de prova final a que todos os agregados teriam que ser submetidos, onde os “fanfarrões” mais fracos pediam para sair, afinal, seria uma média de quatro dias de duros testes e provações.
Antes disso, vinha a fase preparatória: o aniversário do tio Marcos: dia doze de dezembro e em seguida o aniversário da minha avó paterna, vinte e três de dezembro.
No Natal, graças ao espírito cristão, os agregados eram poupados.
Além das gracinhas e das constantes avacalhações que sofriam, os agregados eram obrigados a dormirem na chácara, o que acontecia na suave companhia dos tios e dos outros primos que às vezes, penalizados, tentavam inserir os pobres e intimidados agregados na roda.
A chácara da tia Neide era bem grande, mas mesmo com muito espaço, faltava lugar para acomodar tanta gente. A prioridade era sempre os mais velhos e as crianças, depois vinham as mulheres e o resto, quero dizer, os homens se ajeitavam como podiam. Eles tinham que se virar se quisessem ter um pouquinho de descanso. Assim sendo não faltava criatividade na hora de acomodar os marmanjos.
A mesa de bilhar, a de ping-pong e até a mesa de jantar virava cama. O chão era completamente tomado por colchonetes onde dormia a maioria dos homens, que àquela altura, já tinham bebido e comido exageradamente e o resultado dos excessos era percebido a distância.  
A casa de bonecas, com pé direito de um metro e meio, que atingia uma temperatura de aproximadamente cinqüenta graus centígrados, também era completamente ocupada, por alguns homens que se julgavam muito mais espertos que os outros.
Os homens que escolhiam a casinha das bonecas para passar a noite tinham que ser socorridos nas primeiras horas da manhã seguinte. Eles eram devidamente hidratados, depois de receberem massagem cardíaca e respiração boca a boca, do contrário simplesmente morreriam. Os “sortudos” que conseguiam um espaço na casinha de bonecas saíam de lá, no dia seguinte, pálidos, pingando de suor e com a pressão arterial a quase zero, mas o curioso é que, às vezes era travada uma verdadeira batalha para ver quem iria ficar na casinha das bonecas, por aí dá pra perceber o tamanho do desconforto causado principalmente pela espessa densidade do ar na sala daquela chácara.
Naquele irrespirável recinto, durante a noite, se estabelecia uma competição bizarra; era um desafio saber qual daqueles “porcos” roncava mais e os pobres agregados eram obrigados a dormirem naquela pocilga.
No dia seguinte, sempre acontecia uma discussão que nunca levava ninguém a lugar algum: um acusava o outro de ter roncado e ninguém percebia que todos tinham roncado na mesma proporção; isto é, na proporção de um mamute com estômago cheio.
Depois do café da manhã, o dia nos reservava muita diversão: piscina, sol, passeio de lancha, brincadeiras e conversas com os primos. Tudo era tão bom que a gente se esquecia que outra noite estava por vir e o sofrimento do desconforto seria inevitável.
Os agregados, depois da noite escura pareciam até mais animadinhos à medida que o dia ia se revelando claro e alegre. Todos se divertiam muito, mas quando a noite chegava, as opções de lazer ficavam restritas aos jogos e brincadeiras que inventávamos.
Uma de nossas brincadeiras preferidas era “Matador Killer”, tem coisa mais redundante que essa? Matador killer, traduzindo: matador/matador, ou talvez, matador assassino.
Mas tudo bem, ninguém ali tinha nem obrigação nem idade para ser muito coerente, éramos adolescentes e acho que não há nada no mundo que seja mais “desobrigado” que um adolescente.
A brincadeira de Matador Killer não exigia muita esperteza, na verdade devo dizer que exigia sim um pouco de idiotice de seus participantes, pois era um “bando” de gente calada, sentada em circulo e que se olhava atentamente para descobrir quem era o matador, o qual assassinava suas vítimas literalmente, num piscar de olhos.
Todos os participantes tiravam de uma caixinha um papelzinho e em um deles estaria a senha do matador e em outro a senha do detetive, que teria, como missão, descobrir quem era o matador.
O segredo da brincadeira era matar o maior número de pessoas sem ser descoberto pelo detetive, que também tinha sua identidade preservada.
Dependendo da habilidade ocular do matador a brincadeira poderia durar horas, isso claro se meu irmão não estivesse brincando. Ele era mestre em estragar brincadeiras como essa. Ele sempre fazia um comentário breve e arrasador que rapidamente punha tudo a perder como pro exemplo: “morrer eu morri, mas quem deu o pisco”?
Além de desconcentrar os participantes que eram tomados por acessos de risos não só pelo teor absurdo da pergunta, uma vez que ele tinha morrido, mas principalmente pela palavra pisco, que ele tinha acabado de inventar; pior, ele dizia isso olhando diretamente para a pessoa que havia piscado; ou seja, o matador que via todo seu empenho em ser discreto jogado subitamente no lixo depois daquele comentário. Assim era necessário começar uma nova rodada da brincadeira que quase sempre era interrompida novamente com a mesma sutileza e pela mesma pessoa: meu irmão. Depois disso, ele sempre arrematava com o seguinte comentário: “puta brincadeira idiota” e saia indignado.
De certa forma ele tinha razão, era mesmo uma brincadeira idiota, mas era tudo que nós tínhamos naquele momento, já que a tecnologia da época se resumia a TV, que não “pegava” muito bem na chácara. Outras opções seriam: baralho e outros jogos de tabuleiro, mas não haveria nenhum jogo capaz de incluir aquela quantidade de participantes.
Outra brincadeira que muito nos divertia, até o momento que não acabava em briga era a brincadeira de mímica, mas quase sempre os grupos acabavam travando longas e perigosas discussões. Assim, por incrível que possa parecer a brincadeira de Matador Killer era mesmo a melhor opção, além de ser a mais segura.
De brincadeira idiota em brincadeira mais idiota ainda os dias iam passando e a gente ia se conhecendo melhor e se gostando mais.
Pelo menos no começo era mesmo um Feliz Ano Novo.
Todos os anos esperávamos ansiosos o dia de irmos àquela chácara onde nos reuníamos somente para passar um tempo feliz.
Curiosamente, mesmo com a interferência dos tios em todas as comemorações de passagem de ano, todas as minhas primas, assim como eu casaram-se; algumas, assim como eu, mais de uma vez. Nossos “agregados” saíram-se muito bem em todas as provas dos Reveillons na chácara, que infelizmente não existem mais.
Muitas pessoas que faziam a alegria daquelas festas já não estão mais entre nós e uma delas é meu pai.
Das festas de final de ano ficaram apenas as lembranças, que nos divertem até hoje.

domingo, 15 de julho de 2012



Minha avó materna era uma mulher de muita fé, ela rezava com tanta certeza que conseguia alcançar quase tudo que pedia. Foi com ela que aprendi a acreditar, ela me ensinou como, quando e porque rezar. Essa é uma das maiores gratidões que tenho, pois enfrentei momentos em minha vida, que francamente, não sei como teriam sido se eu não tivesse aprendido a ter fé.
 Meus avós maternos eram meus padrinhos de batismo e eu sempre me senti abençoada por isso e por causa da fé de minha avó eu tinha uma constante sensação de proteção, pois sempre que precisava pedia que ela rezasse por mim.
Minha avó era uma espécie de atalho entre mim e o sagrado e hoje graças a ela, eu também sou uma mulher de fé e também rezo, mas na minha adolescência eu achava muito mais fácil pegar carona na fé da minha avó.
Eu encomendava rezas de todos os tipos: vó, reza pra eu conseguir colar na prova? Eu não estudei. “Vó, reza pra professora faltar, hoje? Vou ter prova oral e não estudei. Pede pro pneu do carro dela furar, assim ela chega atrasada. Vó, eu briguei com o namorado, reza pra ele ficar muito mal e pedir pra voltar? Vó, reza pro pai da Filó não arrancar as orelhas dela? Vó, nasceu uma espinha no meu rosto, reza pra ela secar até amanhã?”
 E assim seguiam os pedidos mais absurdos e minha avó me garantia que ia rezar e que, se eu acreditasse, iria conseguir sempre o que precisava. Muitas vezes, a maioria delas, o meu pedido era alcançado e eu acreditava piamente que era por causa das orações de minha avó. Eu tinha certeza que ela tinha esse poder. Ela era minha fada e eu era encantada por ela. Ficar perto da minha avó me dava paz... Muita, muita paz.
Até hoje não consigo calcular muito bem a idade da minha avó, me parece que ela sempre teve a minha idade, não importando a idade que eu tivesse; quando eu era criança ela era apenas uma menina e sabia brincar, quando eu fiz quinze anos ela estava no auge de sua adolescência e queria saber de tudo que se passava comigo e quando eu fui mãe ela era mãe também e compreendia todas as minhas angústias e meus tolos orgulhos.
Minha avó não tinha idade, tinha cumplicidade e queria viver comigo todas as minhas fases.
Eu nunca menti para minha avó, ela merecia só a minha verdade, pois sabia sempre o que fazer com ela; à minha avó eu declarava sem pudor os meus sentimentos mais secretos, os meus medos mais ocultos, as minhas angústias, os meus desejos e as minhas alegrias, somente ela tinha tudo de mim.
Minha avó, assim como as fadas, não tinha qualidades, tinha dons: o dom de acolher, o dom de compreender, o dom de transformar, o dom de alegrar e o principal, o dom de fazer a gente acreditar que nessa vida nada é definitivo e amanhã tudo será diferente e melhor, esse era o precioso dom da esperança.
Minha avó era mesmo dona de uma magia poderosa. Transformava um simples almoço em um farto banquete, um pequeno bolo numa festa inesquecível, uma corriqueira visita num acontecimento raro.
Ela vivia tudo com intensidade, era alegre, adorava dançar, adorava vinhos e doces, mas minha avó tinha um lado transgressor e claro, era o meu preferido. Percebi esta outra faceta de minha avó aos sete anos, quando minha mãe decidiu que já havia chegado a minha hora de abandonar o hábito de chupar chupeta.
Eu vivia pela casa com uma chupeta na boca e um cobertorzinho imundo que eu arrastava por onde passava. Não era permitido se quer lavar aquele paninho nojento, eu não admitia limpeza quando se tratava do meu cobertorzinho; pois bem, aos sete anos veio a sentença: acabou o paninho e a chupeta. Você já está grande demais.
Aquela notícia me enlouqueceu, só uma pessoa poderia me ajudar, minha avó.
Subi apressada as escadas do prédio onde morávamos e fui pedir ajuda a ela, que rapidamente encontrou a solução para meu grande problema, costurando uma chupeta nova na bainha do meu vestido curto e ainda me instruiu a ser muito cuidadosa: “Não deixe sua mãe perceber, só use a chupeta quando for dormir, promete”? Eu fiz exatamente o que ela me pediu e em pouco tempo, sem me dar conta, tinha abandonado a chupeta até para dormir.
Sem perceber, bem aos poucos deixei aquele vício; nada drástico, ela havia suavizado tudo pra mim.
Aos treze anos, comecei a fumar e ela, com uma habilidade que até então eu desconhecia, roubava cigarros do maço de minha mãe, que também fumava para dá-los a mim.
Naquela época os males que o cigarro causava não eram divulgados e quase ninguém sabia o quanto o vício de fumar era prejudicial, a intenção de minha avó era, mais uma vez, dar o que eu queria, sem saber que aquilo estava me prejudicando.
 Foram muitas as vezes que eu matei aula e fui me abrigar na casa de minha avó. Quando eu chegava, ela dizia com um sorriso satisfeito no rosto: “quando tinha sua idade eu também adorava bater falhão”. Aquela observação quase me matava de rir, que termo era aquele? “Bater falhão”? Logo em seguida, nos juntávamos para passar trotes pelo telefone para a irmã dela, tia Risoleta, uma mulher também de muita fé, mas de lucidez um pouco comprometida, pois esperava que, algum dia, iria chegar um aviso dos céus.
Ela acreditava mesmo naquilo e curioso que neste caso, até o telefone valia; até ele poderia ser um instrumento escolhido pelos deuses para passar mensagens cifradas para a tia Risoleta.
Eu e minha avó ligávamos pra casa dela e ficávamos alguns segundos falando: “cacá, cacá, cacá”. Isso não tinha significado algum, era apenas uma bobagem que eu e minha avó inventamos, mas que deixava a tia Risoleta ocupada, tentando desvendar a mensagem cifrada.
Logo depois dos nossos telefonemas, tia Risoleta ligava pra minha avó, contava o ocorrido e perguntava:
-Será que é algum aviso, Leonor. O que será que significa cacá. Será que é alguma pessoa? Quem será cacá?
 Minha avó, como quem não sabia de nada e com toda a calma do mundo dizia: Não sei Riso, nem imagino o que isso pode significar.
Agora calcule: se os deuses estavam usando o telefone para se comunicar com a tia Risoleta, por que eles usariam códigos, no caso cacá? Por que eles não falavam direito com ela dizendo logo o que queriam? Afinal, o mais difícil foi fazer a ligação do além.
 Claro que questões tão obvias nem passavam pela cabeça torturada da tia Risoleta e claro que minha avó não iria alertá-la, pois se fizesse nosso trote perderia totalmente a função.
Pobre tia Risoleta, nunca descobriu o que o cacá significava, tampouco quem eram as autoras daqueles telefonemas indecifráveis.
Eu e minha avó levamos essa brincadeira por algum tempo, depois achamos prudente parar, antes que tia Risoleta apresentasse mais alguma seqüela além das que já demonstrava ter.
Pode parecer maldade, mas não era; minha avó sabia dar a dosagem certa àquela brincadeira, ela também sabia que aquilo distrairia a tia Risoleta dos problemas diários e da infelicidade sacramentada que vivia.
Aquela brincadeira ocupava minha tia e a tirava da freqüência daqueles dias igualmente infelizes. O cacá alimentava a esperança de que um dia sua vida iria mudar e que ela já havia recebido o primeiro sinal.
Mas, o lado transgressor de minha avó não se limitava costurar chupetas na barra do meu vestido ou passar trotes por telefone; meus avós estavam envolvidos em causas políticas muito nobres, que lhes renderam alguns problemas.
Meu avô era fundador, na minha cidade, do Partido Comunista e sua casa vivia cheia de militantes que se reuniam quase todas as noites para discutir os rumos políticos de nosso país. Eles conspiravam e lutavam contra a ditadura militar, e a casa da minha avó era praticamente um “aparelho”, expressão usada pelos chamados “comunistas” para se referirem aos locais destinados às reuniões do Partido.
Algumas vezes, militantes do partido se esconderam na casa de minha avó, pois estavam sendo procurados e claro que a casa de meus avós sempre esteve disponível para abrigá-los ou socorrê-los.
Meu avô e minha avó eram, para mim, uma espécie de Bonnie & Clyde da época, com a diferença de serem os mocinhos da história e não os bandidos. Eles lutavam contra um regime injusto e cruel, porém muito forte que não tratava nada bem quem se opunha a ele.
Aos nove anos, acompanhei meus pais e minha avó a uma visita ao meu avô no DOPS. Minha mãe dizia que meu avô estava em “férias forçadas”. Eu não compreendia muito bem aquilo, afinal, quem queria passar férias naquele lugar horrível?
Lembro-me muito bem do clima tenso e triste daquele lugar sinistro; do piso de cimento velho e sujo e das paredes úmidas e opressoras.
Lembro-me da expressão sofrida das pessoas; eram muitas, muitos jovens; lembro-me do semblante abatido de meu avô e da dor nos olhos expressivos de minha avó.
A ditadura militar tinha mais esse poder: entristecer e quase apagar o brilho dos olhos da minha fada.
Era Copa de Setenta e a Nação parecia estar em festa, ninguém notava; ninguém percebia o que acontecia por trás da alegria do time campeão que impressionava o País.
Minha avó estava triste, estava sem par, mas logo meu avô seria posto em liberdade e tudo iria recomeçar com a mesma força e esperança de quem acreditava na mudança possível. Ele retomava as reuniões e todas as atividades relacionadas ao Partido e minha avó, fingindo repreendê-lo dizia: “o lobo perde o pêlo, mas não perde o vício”.
Assim eles prosseguiam com sua luta sigilosa e legítima; meu avô tomava a frente seguro, convicto e sem medo, pois sabia que tinha a melhor camarada do mundo na retaguarda. 

domingo, 8 de julho de 2012


 De todas as amizades que fiz na minha passagem pelo Culto à Ciência nenhuma foi igual à amizade de Filomena, mais conhecida por Filó.
Conheci Filó durante uma aula de francês na oitava série do ensino fundamental, na época, quarta série do ginásio. Ela era nova naquele colégio, estava chegando de uma escola de freiras com disciplina também muito rígida, na qual não estava se adaptando muito bem e não foi muito difícil perceber por que. 
Na minha sala de aulas havia quarenta e cinco lugares e adivinhe aonde a nova aluna iria se sentar? Bem atrás de mim.
Tem coisa que a gente vive e que não se pode negar que foi o destino que preparou. Acredito que foi ele que nos posicionou cuidadosamente para que déssemos prosseguimento à sua obra, pois com tantas classes naquele colégio e tantas carteiras naquela sala ela iria sentar-se bem ali, atrás de mim.
Eu ainda não havia trocado uma só palavra com aquela menina quando, de repente, no meio da aula, ela me fez a seguinte pergunta: “mas o que esta filha da puta está falando?” Era aula de francês, a professora lia um texto de Victor Hugo e Filó, que nunca tinha tido esta matéria na escola de onde vinha não conseguia entender uma só palavra que a D. Maria de Lourdes, mais conhecida como Maria Bon Jour, dizia.
Respondi que não fazia a menor idéia do que a professora falava, afinal, como era de meu costume, eu não estava prestando muita atenção, estava mais uma vez fazendo uma de minhas longas viagens mental, que sempre me levavam para muito longe das explicações dos professores.
Não sei o que aconteceu, mas as palavras da menina realmente me comoveram e naquele momento uma estranha química começava surgir entre nós. Os elementos da minha alma se fundiram aos elementos da alma daquela menina, numa mistura homogenia e forte o bastante para resistir aos longos anos que estavam por vir.
Foi uma espécie de amor à primeira vista ou amizade à primeira vista.
Eu ainda não sabia, mas a partir dali, estava formada uma dupla imbatível, uma amizade rara que sobreviveria por muito tempo.
Filó e eu nos tornamos uma espécie de “Don Quixote e Sancho Pança”, “Batman e Robin”, ou ainda se preferir, “Claudinho e Bochecha”, não importa, o que realmente interessa é que daquele momento em diante eu não estava mais sozinha, tinha encontrado a pessoa perfeita para seguir comigo os longos anos de caminhada naquele colégio tão tradicional e tão exigente, que pouco tinha de inovador ou interessante para oferecer a uma adolescente sonhadora como eu era.
No colégio estávamos sempre juntas, trocávamos confidências e segredos guardados há tempos. Aos poucos nossas afinidades foram se evidenciando e fomos descobrindo que tínhamos muito em comum, especialmente nosso humor e nossa alegria, mas a descoberta  que mais nos impressionou e que provavelmente nos uniu definitivamente, foi perceber que o pai de Filó estava para minha mãe, assim como a mãe dela estava para meu pai. Em casa, tínhamos o mesmo problema e a mesma solução só que invertidos.
A mãe de Filó, assim como meu pai era uma criatura cordata, carinhosa, compreensiva e mais centrada, já o pai dela, assim como minha mãe era pessoa desconfiada, extremamente exigente e costumava perder o humor com facilidade. Assim como minha mãe o pai da Filomena tinha uma postura enérgica com relação aos estudos e aos assuntos referentes à escola. Estavam sempre em estado de alerta, prontos para fazerem questionários intermináveis, que mais pareciam interrogatórios.
Aqueles dois desconfiavam de tudo, qualquer atitude nossa rapidamente se transformava em alguma suspeita, que era motivo suficiente para a instauração de uma CPI, com direito a acareação entre as partes, no caso, eu e Filomena.
Eles sempre tinham a certeza que nós estávamos fazendo coisas que na realidade, jamais havíamos se quer pensado em fazer.
 Implicavam com tudo e com todos, mas por estranha coincidência, nunca se opuseram a nossa amizade, muito pelo contrário, faziam muito gosto nela. Assim, Filó se tornara a amiga perfeita para freqüentar minha casa, pois tinha anos de treinamento de “respostas rápidas” e, portanto, poderia entrar em contato com minha mãe sem colocar em risco minha integridade física. Ela, assim como eu, sobrevivera aos anos de convivência com criaturas do tipo..., sei lá, tipo minha mãe e o pai dela.
Eles perguntavam muito e tínhamos que saber a resposta exata na hora certa. Não podíamos pensar demais nem de menos, era preciso uma sincronia perfeita entre o tempo da pergunta e o tempo da elaboração da resposta; isto é, tínhamos que produzir em tempo adequado a resposta satisfatória. Se pensássemos demais, era mentira; por outro lado, se respondêssemos muito rápido já havíamos combinado a resposta, portanto era mentira. Falar com eles era mesmo uma ciência que exigia habilidade específica, reflexos rápidos e muita, muita agilidade mental.  Era coisa pra profissional.
O pai da Filó tinha um vício a mais que minha mãe, ele queria porque queria arrancar as orelhas da menina; isto é, a qualquer deslize a garota faria companhia a Van Gogh na foto. Já pensou uma adolescente sem orelhas? É rezar para não precisar usar óculos.
Sr. Luiz era temido por todos, principalmente por Filó e eu também temia pelas orelhas da minha amiga. Nem pensar ter uma amiga sem orelhas. Tudo que acontecia de errado no colégio ou fora dele, Filó dizia: agora meu pai me arranca as orelhas. Agora foi! Não tem mais jeito!
Embora as orelhas de Filó estivessem sempre na reta nós não parávamos de desafiar a sorte e a disciplina ultrapassada daquele colégio.
 O Culto à Ciência tinha uma regra: depois de três advertências levaríamos uma suspensão de um dia; depois da suspensão de um dia, cada desacato às normas seria punido automaticamente com três dias de suspensão. Eu e Filó fomos advertidas e/ou suspensas todos os anos de nossa vida estudantil naquele colégio e às vezes tomávamos logo uma suspensão sem mesmo sermos advertidas.
Ora porque estávamos conversando muito, ora porque não entrávamos em aula, ora porque tínhamos “feito algum comentário impertinente”, ora porque alguém pôs fogo nas cortinas da classe.
De alguma forma sempre estávamos envolvidas em incidentes que nos levavam à diretoria e às suspensões. Éramos muito boas na criação e execução de coisas mal feitas, como por exemplo: a abertura da passagem secreta para facilitar nossa fuga nos dias que matávamos aula, ou empilhar as carteiras da sala antes do início de cada aula, ou ainda, desenhar caricaturas dos professores na lousa durante os intervalos. Também fazia parte de nosso repertório de atividades, murchar os pneus dos carros estacionados em frente ao colégio.
Fomos também as responsáveis pela criação, formação e ensaio do coro do hum. Explico: o coro do hum era formado por nós e por outros integrantes escolhidos a dedo, quero dizer, outros alunos de nossa total confiança e com as mesmas tendências a delinqüência que eu e Filomena.
Esses alunos a certa altura da aula começavam a fazer o seguinte som: huuuuummmm, huuuuuummmmm, o segredo do sucesso do coro do hum era produzir esse som com a boca fechada e olhando fixamente para o professor como quem presta muita atenção à aula. A prática do coro do hum, quando bem sucedida, levava a classe à suspensão coletiva.
 Suspensão coletiva, na minha casa era justificada da seguinte maneira: eu não fiz nada, mas “tava” todo mundo fazendo então eu também fui punida. Meus pais fingiam comprar essa idéia, lamentavam o ocorrido e nada mais acontecia.
Já na casa de Filó, com a mesma justificativa, as orelhas dela eram quase arrancadas. O pai dela tinha mesmo obsessão nas orelhas da menina.
Filó e eu nunca terminávamos o ano letivo no prazo normal, sempre estávamos de “segunda época”, que era a chance derradeira de recuperação para alunos como nós. Nós aproveitávamos essa chance e sempre conseguíamos passar de ano, exceto no segundo colegial, quando nos deparamos com nossa primeira reprovação e com o perigo real de ver as orelhas de Filó arrancadas.
Na metade da segunda vez que cursava o segundo colegial decidi mudar de escola, fui para o Ateneu Campinense, escola recém inaugurada, localizada bem perto da minha casa. Foi uma separação muito difícil para nós.
Filó tentava convencer seu pai a deixá-la mudar de escola também, eu ajudava nos argumentos e depois de muitas e exaustivas conversas, o pai de Filomena finalmente concordou com a mudança, mas impôs uma condição: a menina estava obrigada a entrar na faculdade, do contrário teria suas orelhas arrancadas.
Graças a Deus, aos nossos esforços e às orações de minha avó, seis meses depois, minha amiga também se matriculava na mesma escola e pudemos seguir juntas novamente.
No Ateneu as coisas melhoraram muito, pois a nova escola era bem mais liberal que o tradicional Culto à Ciência. Os professores eram jovens e já não éramos suspensas a todo instante; nossos professores eram bem mais abertos e até se divertiam com nosso jeito descontraído. 
Nesta época já havíamos amadurecido um pouco e começávamos a pensar na faculdade que iríamos cursar.
Prestamos vestibular, eu para Comunicação Social,  mas Filó resolveu garantir as orelhas e prestar Administração que era bem menos concorrido na época.
Em 1980 entrávamos na faculdade, na Pontifícia Universidade Católica de Campinas, e Filó logo conseguiria transferência para o curso de Comunicação Social. Nossa intenção era seguirmos juntas, mas o destino iria se manifestar em breve e teríamos então que nos separar por um tempo.
De lá para cá muitos anos se passaram e vários acontecimentos marcaram nossas vidas: casamento, maternidade, separação, mudanças, perdas e desilusões. Muita coisa mudou, mas quando estou com minha amiga tenho a nítida sensação que ainda sou aquela menina e quando olho pra ela também consigo enxergar a menina Filó, com a alegria e a beleza de seus quinze anos. Por mais que o tempo marque implacavelmente nossos rostos e nossos corpos, quando nos encontramos conseguimos reviver um pouco nossa adolescência. Juntas, somos e seremos sempre jovens e estamos prontas pra mais uma gargalhada. Em nosso sorriso terá, pelo menos naquele momento, o mesmo brilho e a mesma alegria que há trinta e oito anos atrás.
O tempo pode ter interferido e transformado muito nossas vidas, transformou nossa aparência, nossas mentes e nossos conceitos, mas nunca conseguiu mudar aquela química. Tivemos grandes perdas, durante esses anos de amizade, mas não perdemos a alegria, as desilusões existiram, mas foram diluídas, nossas lágrimas lavaram nossas dores e assim, preservamos intactas na nossa essência.
Lá no fundo, bem no íntimo, eu e Filó somos meninas e ainda vamos brincar juntas por muito tempo, se Deus quiser. 

domingo, 1 de julho de 2012


Com o interesse de meu irmão pelos esportes, nosso contato não era mais tão freqüente quanto na época em que morávamos no apartamento, o qual por pouco não “demolimos”. Ele passava quase todas as tardes no clube praticando basquete, natação, futebol, enfim, todas as modalidades de esporte que o clube oferecia. Já eu preferia me dedicar aos estudos, claro que das matérias que mais gostava: história, algumas partes da biologia, e a preferida, português.
Eu amava português e passava horas do meu dia fingindo que era professora de uma classe fantasma com alunos invisíveis a quem eu ministrava longas aulas de português. Pra incentivar a brincadeira, meu pai me presenteou com uma lousa bem grande, assim eu poderia dar mais realidade àquela fantasia, que ele julgava muito saudável.
Eu estudava tanto que geralmente estava à frente das aulas da professora de verdade na minha classe de verdade.
Durante muito tempo, a língua portuguesa foi minha paixão, em compensação, a matemática, era e ainda é meu grande desafeto.
Já nos primeiros anos de minha vida acadêmica, percebi essa deficiência. Lembro-me muito bem das primeiras aulas que me colocaram em contato com essa matéria demoníaca, era tudo muito difícil de assimilar, era um mistério que eu não estava preparada para desvendar.
Eu ainda estava aprendendo as operações básicas: somar, subtrair, dividir e multiplicar e já me sentia perdida. Também não conseguia entender que negócio era aquele de unidade, dezena e centena, mas tudo ficou muito pior quando fui apresentada aos problemas.
Quando a professora escrevia na lousa: problema, já sabia que, pelo menos eu teria mais de um.
Ela escrevia:

Sr. José comprou balas, deu cinco balas para Paulinho, seu filho mais velho e nove balas para João, seu filho mais novo. Quantas balas o Sr. José comprou?”
 Pronto, a partir desse momento dava-se a mixórdia... Milhares de imagens começavam a se formar dentro da minha cabeça. Ao invés de focar no raciocínio lógico do problema, eu começava logo a imaginar: Por que o Sr. José havia dado mais balas para um filho e menos para o outro? Por que o Sr. José fez essa divisão tão injusta? Será que o filho mais velho do Sr. José não podia comer muitas balas? Será que ele era doente; diabético, talvez? Tendência às cáries? Será que ele tinha feito alguma “malcriação” para o pai e por isso merecia menos balas? Será que o Sr. José não gostava muito do filho mais velho e por quê? Seria o filho mais velho adotivo ou fruto de um relacionamento extraconjugal da mulher do Sr. José? Que critério misterioso era esse que o Sr. José usava para distribuir as balas desigualmente entre os filhos? Por que, por que o Sr. José fazia tal diferença entre seus próprios filhos? Isso não era atitude de um bom pai. Que dó do filho que ganhou menos balas! E como será que ele se sentia diante daquilo? Será que ele chorou ou fingiu que não se importou por ser orgulhoso e não querer demonstrar a decepção? Talvez não tenha ligado mesmo. Talvez não gostasse muito de doces.
Será que ele estava acostumado a ser preterido? Será que isso sempre acontecia? E o filho que ganhou mais balas? Será que foi até o irmão e redistribuiu as balas igualmente, como deveria ter feito o Sr. José, ou será que ele ficou fazendo “fusquinha” para o irmão que ganhou menos balas? Coisa do tipo: eu ganhei nove, você ganhou só cinco, lá, lá, lá, lá, lá, lá!
 E onde estava a mãe dos meninos que não tomava uma atitude? Cadê essa mulher? Meu Deus! Será que ela morreu? Coitado do irmão mais velho, sem mãe e com poucas balas.

Toda essa viagem mental era um desgaste emocional e me tirava de vez o foco do raciocínio lógico que a matemática exigia além de me fazer perder a explicação que a professora estava se esforçando em dar aos alunos. Aliás, perder o foco era tudo o que eu sabia fazer durante as aulas de matemática, eu não conseguia me concentrar em absolutamente nada que a professora estava falando, eu não tinha o menor interesse por aquele assunto.
Todos os dias, antes de começar a aula de matemática eu fechava os olhos e prometia a mim mesma que iria prestar atenção, que não iria pensar em mais nada além dos assuntos referentes à aula, mas eu nunca conseguia cumprir a promessa; a vida alheia, mesmo que fictícia, como a dos filhos do Sr. José, me era muito mais fascinante muito mais emocionante e eu não conseguia controlar a minha imaginação.
No ginásio, a coisa se complicou ainda mais, pois a matemática nunca sabia quanto valia o x; era eu que tinha que calcular. Ela exigia isso de mim e não era nada fácil, pois eu ainda não tinha entendido os problemas de “quadradinho” do primário e já aparecia o x pra acabar comigo. Pior, eu ainda não tinha entendido nem pra que eles queriam saber o valor do x e já chegava o y e o z pra eu calcular; aí, a coisa “fedeu” de vez.
 Até hoje não sei como cheguei à faculdade com toda essa deficiência, não sei como fiz pra me livrar da matemática, só sei que consegui e isso me dá um grande alívio.
 A única coisa que consegui assimilar durante os muitos anos de estudo de matemática foi regra de três. Tudo pra mim, até hoje, funciona dentro desta lógica: se tal coisa está para outra coisa, assim como uma coisa está para outra tal coisa, então essa coisa será alguma outra coisa qualquer. Só consigo entender essa idéia porque tudo está relacionado.
Mas, deixando de lado as aulas de matemática e de língua portuguesa, o fato é que eu e meu irmão já não tínhamos mais tempo um para o outro, nossos interesses haviam seguido caminhos opostos: ele gostava de testar os limites do corpo e eu os da mente, ele era do tipo ativo e eu bem acomodada. Mas, num dia nublado e de muito frio eu e meu irmão nos vimos juntos novamente, estávamos em casa, totalmente desocupados, e quando isso acontecia, não podia dar em boa coisa: eu e meu irmão juntos e com tempo sobrando... Que perigo...
 Nós buscávamos atividades para nos entreter. Já havíamos jogado nosso joguinho de tabuleiro, com aquele maldito copinho, já havíamos brincado com a cachorrinha Fafá, pobre cachorrinha Fafá; já havíamos verificado a programação da TV, mas ainda estávamos entediados. Foi quando uma idéia me ocorreu:
Nossa casa ficava quase em frente a um ponto de ônibus muito movimentado. Nem bem um lotação parava para um grupo de pessoas, outras tantas já se organizavam em fila para pegar o próximo carro, que passaria em meia hora.
Vendo aquele movimento todo bem na porta da minha casa, comecei imaginar como seria se as pessoas achassem objetos no ponto de ônibus, provavelmente elas ficariam muito contentes com sua sorte. Resolvi então, fabricar os pacotinhos vazios e deixá-los no ponto de ônibus só para observar a reação das pessoas. Enquanto fabricava os pacotinhos uma idéia complementar me ocorreu: e se no interior do pacotinho tivesse alguma coisa interessante... Mas o que? Ah!  Cocô! Como seria a reação das pessoas encontrando cocô embrulhado em pacotinhos de presentes? Era hora de averiguar, afinal, eu tinha o laboratório ideal para por em prática tal experimento: o ponto de ônibus.
Assim, meu irmão e eu dávamos início a nosso mais novo empreendimento: A Fábrica de Cocô.
Algodão, pó de café e água morna eram a matéria prima para a confecção de nosso produto. O algodão era molhado e moldado em forma de cocô; o tamanho variava de acordo com a embalagem onde o produto ia ser colocado. Depois de moldado, o algodão era tingido e empanado em pó de café, e só depois de passar por um processo rápido de secagem era acomodado na embalagem e embrulhado cuidadosamente.
Os cocôs ficavam perfeitos. Era o “próprio troço”. Dedicávamos-nos seriamente àquela atividade; eu mais habilidosa, me concentrava na fabricação dos cocôs, enquanto meu irmão, com velocidade e destreza, colocava os pacotinhos em posição estratégica no ponto de ônibus. Estávamos ficando “craques” naquilo, éramos os melhores fabricantes de cocôs falsos de toda a região.
 Ríamos muito cada vez que um pacotinho era achado e carregado, o mais curioso era, que antes de pegá-los, as pessoas olhavam discretamente à sua volta como quem disfarça a atitude esperta. Isso deixava a brincadeira muito mais excitante, pena que quase ninguém abria o pacote de imediato, a maior parte das pessoas camuflava o achado em meio aos seus pertences e controlava a curiosidade para não abri-lo em público.
Eram raras as vezes que conseguíamos acompanhar a expressão de alguém ao abrir o pacotinho, quando isso finalmente acontecia eram momentos de tensão, pois os curiosos, irados, lançavam olhares minuciosos pela rua procurando os autores daquela brincadeira de mau gosto.
Naquele dia passamos a tarde toda brincando de fabricar cocô e acompanhar a reação das pessoas e ríamos muito do infortúnio alheio. Achávamos muita graça naquela brincadeira, era diversão garantida, mas como tudo na vida tem um fim, essa história de fábrica de cocô estava com os dias contados, pois não demorou a sermos desmascarados, pelo dono da venda da esquina, que ficava em frente ao ponto de ônibus. Ele foi uma das primeiras vítimas que fizemos e inconformado, iniciou uma investigação pela vizinhança, a fim de descobrir quem eram os autores daquele malfeito. Não foi difícil perceber que eram as crianças da casa da frente, afinal não éramos nenhum mestre do disfarces. Vivíamos “dando bandeira” cada vez que deixávamos um novo pacotinho no ponto de ônibus, além disso, nossas gargalhadas eram altas, o que despertavam a atenção das pessoas.
O dono da venda se solidarizava com todas as vítimas de nossa brincadeira e logo se apresentava, apressando-se em tranqüilizá-las.
Ele as alertava que se tratava de um falso cocô, pois, depois de analisar, revirar, cheirar e quase comer o nosso cocô, ele havia descoberto até nossa fórmula secreta.
A descoberta da fórmula secreta pelo dono da venda pôs fim ao nosso empreendimento e a fábrica de cocô teve que ser desativada, mas mesmo sem a fábrica, vez por outra eu fazia pacotinhos sacanas para deixar no ponto de ônibus.
 Certo dia ao invés de cocô, coloquei um pé de frango com as unhas pintadas de vermelho em um lindo pacotinho de presentes e isso surpreendeu até o dono da venda, que naquele dia acabou rindo muito.
 Logo meu irmão e eu perdemos o interesse pela fabricação de cocôs e fomos em busca de outro passatempo, mas confesso que não me lembro de ter inventado nenhuma outra brincadeira que fosse tão divertida quanto aquela.