Quando eu entrei no Culto à
Ciência coisas diferentes começaram a acontecer na minha vida, conheci pessoas
e fiz novas amizades. Foi nessa escola que também conheci minha melhor amiga,
uma amizade que dura até hoje, mas essa história vai ficar para depois.
Foi no Culto à Ciência que
comecei a me dar conta que chamava a atenção dos meninos. Comecei a perceber
que as mudanças no meu corpo eram a grande responsável por aquele sucesso. Eu
passei a ser notada e admirada por eles, principalmente de costas, se é
que vocês me entendem.
Durante toda minha juventude e
boa parte da idade adulta pude sentir os olhares masculinos me seguindo depois que eu passava e devo confessar:
tenho saudade daquela sensação. Foi nesta fase que aprendi mais uma lição sobre
homens e mulheres que iria ser exaustivamente reforçada nos anos que viriam: a felicidade de uma mulher está diretamente
ligada ao tamanho e a forma da bunda que ela tem; isto é, quanto maior e mais redonda a bunda mais feliz ela
será. Percebi também que uma mulher com uma bela bunda só ficará sozinha se
quiser. Já as mulheres “sem bunda” apresentam uma tendência maior à solidão e à
amargura; estão sempre sofrendo de amor, ou de raiva por invejarem as bundudas.
Não sei se por ingenuidade ou por deformação no senso de observação, essas
mulheres sem bunda sempre fazem a clássica pergunta: “o que ela tem que eu não
tenho”? Ora, amiga. Como assim? Bunda!
Se além da bunda essa mulher tiver cabelos compridos, que cheguem
abaixo das omoplatas, aí ela será endeusada pelos homens, e vou além: se ela
tiver tudo isso e ainda for loira, acabou amiga, não tem pra mais ninguém; ela
será objeto da fantasia de noventa e nove por cento da espécie masculina.
Mas menino é um ser no mínimo
curioso. Eles querem a atenção das meninas e pra isso, têm o comportamento mais
reprovável diante delas. Escolhem um repertório de graça absolutamente sem
graça e esperam que elas riam; pulam, gritam e
gargalham esperando que aquilo atraia a atenção delas, são desagradáveis,
mal educados, fogem do banho, mas querem o carinho, a admiração e a atenção das
meninas e pior, alguns gostam de contar vantagens sobre paqueras e casos amorosos
que jamais tiveram com aquelas meninas.
Pois bem, isso aconteceu comigo,
fui vítima deste tipo de calúnia aos doze anos de idade. Na minha classe do ginásio também estudava um japonesinho
fortinho, que sentava a algumas fileiras atrás de mim. Eu, como ainda fazia com a maioria dos meninos, o
desprezava completamente, mas ele fazia de tudo pra chamar minha atenção.
Quando mais ele se expunha, mais conquistava minha indiferença.
Eu não sei que “karma” era esse meu: todos aos garotos
que eu elegia secretamente como os mais
bobos, encasquetavam que queriam me namorar e pior, levavam essa obsessão
durante muito tempo. Mais curioso ainda é que na maioria das vezes eu nem havia
percebido a presença dessas criaturas. Era esse o caso, eu mal tinha notado a
presença daquele japonês na minha sala, mas ele já espalhara para toda a escola
que nós estávamos namorando.
Eu, indiferente, desavisada e
distraída no meu mundinho infanto-juvenil,
até percebia o cochicho dos meninos quando passava, mas ainda não tinha atinado
que aquele japonês safado estava divulgando inverdades sobre minha pequena, e
até então, pura pessoa. Eu, na minha
tola e pretensiosa imaginação, estava sendo olhada pelos meninos porque era
bela e porque tinha um bom bundão,
apenas isso, nada mais. Quanto mais eles me olhavam mais eu me enchia dessa
tola vaidade.
Quando a notícia do falso namoro
chegou até mim precisei me esforçar para identificar de quem minhas amigas
falavam, uma vez que ainda não tinha notado aquele japonês atrás de mim. Quando finalmente identifiquei a pessoa; ou
seja, o desprezível japa, uma revolta teem
se apoderou rapidamente de todo meu ser. Eu não podia admitir que o menino
continuasse com aquela mentira.
Aquele japonês infame foi o
primeiro canalha que encontrei na vida e eu tinha que me defender dele, não
podia deixar que tal mentira durasse nem mais um segundo, o suposto namoro já
tinha ido longe demais e eu tinha que reagir imediatamente.
Aguardei o intervalo maior entre
as aulas e quando todos os alunos se reuniram para tomar o lanche, fui até a
cantina e avistei aquele japonês 171,
acompanhado de seus comparsas. Eu também estava acompanhada de minha amiga
Cristiana, que me incentivava e quem havia me contado sobre o boato. Aproximei-me
dele e disse tudo que uma mulher de doze
anos sabe dizer para deixar um homem de doze
anos constrangido e envergonhado.
Feito isso, o japa passou a ser
motivo de chacota entre seus colegas de escola. Eu não sabia, mas o problema
com aquele indivíduo estava só começando.
Eu também não sabia, mas por
coincidência, aquele ser nipônico morava perto da minha casa, freqüentava o
mesmo clube que eu e meu irmão freqüentávamos e passeava de bicicleta pelas
ruas do meu bairro, incluindo a rua da minha casa, então, era apenas uma
questão de tempo para que nos encontrássemos outras vezes e em outras
circunstâncias; eu só não esperava que fosse tão rápido.
Meu irmão ia diariamente ao clube,
pois fazia parte do time de basquete, esporte que seguiu treinando até os vinte
e um anos, o que deixava meu pai orgulhoso, uma vez que ele havia sido jogador
de futebol e dava muito valor aos esportes.
Certa tarde, depois do treino de
basquete, meu irmão comentou comigo sobre um japonês que o perturbara. Ele
dizia: “vou ter de pegar aquele japonês
na porrada”
Meu irmão não era de briga, até então, e dizia aquilo meio
aborrecido, pois não gostava muito de confrontos, ele estava no início de sua
vida de macho alfa, mais tarde ele
iria perceber que no mundo dos machos,
quem não bate, apanha e claro que ele aprendeu muito bem a bater.
Confesso que não me dei conta da
coincidência, nunca poderia imaginar que o mesmo japonês que me atormentava com
mentiras de namoro no colégio, também incomodava meu irmão no clube, até que
numa tarde, meu irmão saiu de bicicleta para dar uma volta pelo bairro, ele foi
até o clube, encontrou com os amigos e quando voltava para casa, foi perseguido
por aquele nipônico safado e mau caráter, que num ato covarde, se aproveitou da
distração de meu irmão derrubando-o da bicicleta para poder agredi-lo no chão.
Eu estava na varanda da minha casa e pude ver toda a cena de covardia que se
apresentava bem ali na minha frente; devo dizer que meu irmão era três anos mais
novo que o japa, o que deixava a covardia ainda mais evidente.
Naquela hora, não sei o que deu
em mim, fui tomada por uma fúria que poucas vezes senti na vida, só sei que
quando me dei conta, eu também estava derrubando o japonês de sua bicicleta e
em seguida, desferindo uma seqüência de socos naquele indivíduo.
Tenho que confessar que poucas
coisas na vida me deram tanto prazer.
Bater naquele japa era muito bom,
naquele momento eu tinha pás de razões para acabar com a graça e com os dentes
daquele serzinho, que claramente não tinha a menor noção de ética.
Poder defender meu irmão também
me deu muita alegria, pois eu sempre fui louca por ele embora, naquela época,
eu ainda não confessasse esse tipo de sentimento, especialmente para um irmão
mais novo.
Naquele dia, o japonês apanhou
por tudo, pelas mentiras que contou sobre mim, pelo empurrão que deu no meu
irmão e por todas as coisas erradas que certamente iria fazer na vida.
Bater no nipo, como já disse, foi
muito bom, mas nada se comparava a alegria de vê-lo desmoralizado no colégio,
no bairro e no clube, afinal, para os meninos daquela idade, nada poderia ser
mais humilhante que apanhar de uma menina.
A notícia da surra que o japa
levou de uma menina se espalhou rapidamente pelo clube, pelo bairro e pelo
colégio. A partir daí ele ficou quietinho e acuado durante um bom tempo e
quando ele passava por mim, eu fazia questão de lançar o “olhar de poucos amigos”,
que aprendi com minha mãe.
Aquele japonês era baixinho, mas bem fortinho
e até hoje não sei como consegui espancá-lo. Não sei se fui movida pela
indignação da mentira, que na minha tola concepção colocava minha moral em
dúvida, não sei se fui movida pelo senso de proteção e pelo amor ao irmão mais
novo ou pelo sentimento de repúdio à covardia da atitude daquele menino. Não
importa, o fato é que bati nele e nunca me arrependi disso, pelo contrário,
ainda hoje tenho a sensação de que deveria ter batido mais naquele nipônico.
Depois disso, mais um laço de
união se fazia entre mim e meu irmão, que até hoje se lembra e comenta esse
fato.
Com
o passar do tempo, os laços entre nós foram se fortalecendo cada vez mais e estão
fortemente atados até hoje.



