domingo, 24 de junho de 2012



Quando eu entrei no Culto à Ciência coisas diferentes começaram a acontecer na minha vida, conheci pessoas e fiz novas amizades. Foi nessa escola que também conheci minha melhor amiga, uma amizade que dura até hoje, mas essa história vai ficar para depois.
Foi no Culto à Ciência que comecei a me dar conta que chamava a atenção dos meninos. Comecei a perceber que as mudanças no meu corpo eram a grande responsável por aquele sucesso. Eu passei a ser notada e admirada por eles, principalmente de costas, se é que vocês me entendem.
Durante toda minha juventude e boa parte da idade adulta pude sentir os olhares masculinos me seguindo depois que eu passava e devo confessar: tenho saudade daquela sensação. Foi nesta fase que aprendi mais uma lição sobre homens e mulheres que iria ser exaustivamente reforçada nos anos que viriam: a felicidade de uma mulher está diretamente ligada ao tamanho e a forma da bunda que ela tem; isto é, quanto maior e mais redonda a bunda mais feliz ela será. Percebi também que uma mulher com uma bela bunda só ficará sozinha se quiser. Já as mulheres “sem bunda” apresentam uma tendência maior à solidão e à amargura; estão sempre sofrendo de amor, ou de raiva por invejarem as bundudas. Não sei se por ingenuidade ou por deformação no senso de observação, essas mulheres sem bunda sempre fazem a clássica pergunta: “o que ela tem que eu não tenho”? Ora, amiga. Como assim? Bunda!
Se além da bunda essa mulher tiver cabelos compridos, que cheguem abaixo das omoplatas, aí ela será endeusada pelos homens, e vou além: se ela tiver tudo isso e ainda for loira, acabou amiga, não tem pra mais ninguém; ela será objeto da fantasia de noventa e nove por cento da espécie masculina.
Mas menino é um ser no mínimo curioso. Eles querem a atenção das meninas e pra isso, têm o comportamento mais reprovável diante delas. Escolhem um repertório de graça absolutamente sem graça e esperam que elas riam; pulam, gritam e  gargalham esperando que aquilo atraia a atenção delas, são desagradáveis, mal educados, fogem do banho, mas querem o carinho, a admiração e a atenção das meninas e pior, alguns gostam de contar vantagens sobre paqueras e casos amorosos que jamais tiveram com aquelas meninas.
Pois bem, isso aconteceu comigo, fui vítima deste tipo de calúnia aos doze anos de idade. Na minha classe do ginásio também estudava um japonesinho fortinho, que sentava a algumas fileiras atrás de mim. Eu, como ainda fazia com a maioria dos meninos, o desprezava completamente, mas ele fazia de tudo pra chamar minha atenção. Quando mais ele se expunha, mais conquistava minha indiferença.
Eu não sei que “karma” era esse meu: todos aos garotos que eu elegia secretamente como os mais bobos, encasquetavam que queriam me namorar e pior, levavam essa obsessão durante muito tempo. Mais curioso ainda é que na maioria das vezes eu nem havia percebido a presença dessas criaturas. Era esse o caso, eu mal tinha notado a presença daquele japonês na minha sala, mas ele já espalhara para toda a escola que nós estávamos namorando.
Eu, indiferente, desavisada e distraída no meu mundinho infanto-juvenil, até percebia o cochicho dos meninos quando passava, mas ainda não tinha atinado que aquele japonês safado estava divulgando inverdades sobre minha pequena, e até então, pura pessoa.  Eu, na minha tola e pretensiosa imaginação, estava sendo olhada pelos meninos porque era bela e porque tinha um bom bundão, apenas isso, nada mais. Quanto mais eles me olhavam mais eu me enchia dessa tola vaidade. 
Quando a notícia do falso namoro chegou até mim precisei me esforçar para identificar de quem minhas amigas falavam, uma vez que ainda não tinha notado aquele japonês atrás de mim. Quando finalmente identifiquei a pessoa; ou seja, o desprezível japa, uma revolta teem se apoderou rapidamente de todo meu ser. Eu não podia admitir que o menino continuasse com aquela mentira.
Aquele japonês infame foi o primeiro canalha que encontrei na vida e eu tinha que me defender dele, não podia deixar que tal mentira durasse nem mais um segundo, o suposto namoro já tinha ido longe demais e eu tinha que reagir imediatamente.
Aguardei o intervalo maior entre as aulas e quando todos os alunos se reuniram para tomar o lanche, fui até a cantina e avistei aquele japonês 171, acompanhado de seus comparsas. Eu também estava acompanhada de minha amiga Cristiana, que me incentivava e quem havia me contado sobre o boato. Aproximei-me dele e disse tudo que uma mulher de doze anos sabe dizer para deixar um homem de doze anos constrangido e envergonhado.
Feito isso, o japa passou a ser motivo de chacota entre seus colegas de escola. Eu não sabia, mas o problema com aquele indivíduo estava só começando.
Eu também não sabia, mas por coincidência, aquele ser nipônico morava perto da minha casa, freqüentava o mesmo clube que eu e meu irmão freqüentávamos e passeava de bicicleta pelas ruas do meu bairro, incluindo a rua da minha casa, então, era apenas uma questão de tempo para que nos encontrássemos outras vezes e em outras circunstâncias; eu só não esperava que fosse tão rápido.
Meu irmão ia diariamente ao clube, pois fazia parte do time de basquete, esporte que seguiu treinando até os vinte e um anos, o que deixava meu pai orgulhoso, uma vez que ele havia sido jogador de futebol e dava muito valor aos esportes.
Certa tarde, depois do treino de basquete, meu irmão comentou comigo sobre um japonês que o perturbara. Ele dizia: “vou ter de pegar aquele japonês na porrada”
Meu irmão não era de briga, até então, e dizia aquilo meio aborrecido, pois não gostava muito de confrontos, ele estava no início de sua vida de macho alfa, mais tarde ele iria perceber que no mundo dos machos, quem não bate, apanha e claro que ele aprendeu muito bem a bater.
Confesso que não me dei conta da coincidência, nunca poderia imaginar que o mesmo japonês que me atormentava com mentiras de namoro no colégio, também incomodava meu irmão no clube, até que numa tarde, meu irmão saiu de bicicleta para dar uma volta pelo bairro, ele foi até o clube, encontrou com os amigos e quando voltava para casa, foi perseguido por aquele nipônico safado e mau caráter, que num ato covarde, se aproveitou da distração de meu irmão derrubando-o da bicicleta para poder agredi-lo no chão. Eu estava na varanda da minha casa e pude ver toda a cena de covardia que se apresentava bem ali na minha frente; devo dizer que meu irmão era três anos mais novo que o japa, o que deixava a covardia ainda mais evidente.
Naquela hora, não sei o que deu em mim, fui tomada por uma fúria que poucas vezes senti na vida, só sei que quando me dei conta, eu também estava derrubando o japonês de sua bicicleta e em seguida, desferindo uma seqüência de socos naquele indivíduo.
Tenho que confessar que poucas coisas na vida me deram tanto prazer.
Bater naquele japa era muito bom, naquele momento eu tinha pás de razões para acabar com a graça e com os dentes daquele serzinho, que claramente não tinha a menor noção de ética.
Poder defender meu irmão também me deu muita alegria, pois eu sempre fui louca por ele embora, naquela época, eu ainda não confessasse esse tipo de sentimento, especialmente para um irmão mais novo.
Naquele dia, o japonês apanhou por tudo, pelas mentiras que contou sobre mim, pelo empurrão que deu no meu irmão e por todas as coisas erradas que certamente iria fazer na vida.
Bater no nipo, como já disse, foi muito bom, mas nada se comparava a alegria de vê-lo desmoralizado no colégio, no bairro e no clube, afinal, para os meninos daquela idade, nada poderia ser mais humilhante que apanhar de uma menina.
A notícia da surra que o japa levou de uma menina se espalhou rapidamente pelo clube, pelo bairro e pelo colégio. A partir daí ele ficou quietinho e acuado durante um bom tempo e quando ele passava por mim, eu fazia questão de lançar o “olhar de poucos amigos”, que aprendi com minha mãe.
 Aquele japonês era baixinho, mas bem fortinho e até hoje não sei como consegui espancá-lo. Não sei se fui movida pela indignação da mentira, que na minha tola concepção colocava minha moral em dúvida, não sei se fui movida pelo senso de proteção e pelo amor ao irmão mais novo ou pelo sentimento de repúdio à covardia da atitude daquele menino. Não importa, o fato é que bati nele e nunca me arrependi disso, pelo contrário, ainda hoje tenho a sensação de que deveria ter batido mais naquele nipônico.
Depois disso, mais um laço de união se fazia entre mim e meu irmão, que até hoje se lembra e comenta esse fato.
Com o passar do tempo, os laços entre nós foram se fortalecendo cada vez mais e estão  fortemente atados até hoje. 

domingo, 17 de junho de 2012


Dizem que a adolescência é a pior idade do ser humano. Eu discordo, a pior idade de uma pessoa, na minha opinião, é a pré-adolescência. A gente fareja a mudança, mas não sabe quando ela vai acontecer efetivamente, a gente sente que a transformação está próxima, mas não conseguimos definir nem quando e nem no que vamos nos transformar e pior, não sabemos nem se vamos gostar do que está por vir; não teremos nenhuma opção, “a gente vai ter que se engolir”.
Não nos reconhecemos mais, não sabemos mais quem somos, do que gostamos e do que vamos gostar dali por diante.
A pré-adolescência chega acabando com a graça da infância, com a belezinha que você era até então e com a paciência que os adultos costumavam ter com você.
Sua ignorância não é mais sinal de inocência, é burrice mesmo, suas manhas e desejos, não são mais necessidades ou sinal de algum desconforto, é falta de sova mesmo, seus gestos desengonçados, não são mais perdoados, é falta de “modos” mesmo e merece uma sova mesmo.
Seu cabelo fica diferente, sua pele fica “crespa”, seu nariz vira uma bolinha e aquela “carinha de anjo” subitamente se transforma em carinha de banjo.
No seu corpo, aparecem carocinhos, que logo se transformarão em seios, mas você ainda não sabe disso, por enquanto são só carocinhos doloridos, começa o surgimento de pelinhos, um aqui, outro acolá, e não adianta removê-los, eles voltarão, em bando e bem, bem mais fortes.
Tudo que tentamos esconder fica ainda mais evidente e tudo que se faz para melhorar o que parece tão ruim pode ter um efeito inesperado e contrário. Nesta fase, tudo pode e vai dar errado.
Você faz graça e ninguém ri, você chora e ninguém se importa, você grita e ninguém te ouve, você vai fazer pose e cai, então o remédio é fugir de casa para alguém sentir sua falta.  Você “foge” de casa e ninguém vai te buscar. O dia acaba; você sente medo e é obrigada a voltar com cara de fezes e ainda, enfrentar o olhar de reprovação de seus pais, isso sem mencionar a cara de deboche dos seus irmãos.
Tem vergonha maior que essa? Não, pelo menos não nessa idade.
Na pré-adolescência, o que é bom fica ruim e o que é ruim fica pior. Essa regra vai valer depois dos 50, mas graças a Deus, a gente ainda não sabe disso.
Bem, eu estava cara a cara com minha pré-adolescência e percebi que se não fizesse alguma coisa por mim, ninguém mais faria. Percebi que apenas eu poderia saber exatamente do que precisava. Somente eu saberia como melhorar aquela situação. Somente eu sabia o que deveria ser mudado em mim e decidi: daquele dia em diante eu seria uma nova pessoa.
Seria linda, inteligente e graciosa e para isso, iria me trancar no banheiro, realizar alguns procedimentos e reaparecer diante dos olhos de todos transformada em uma nova e admirável pessoa.
Ao banheiro... Lá estavam todas as ferramentas que eu precisava para a transformação. Tranquei a porta. Precisava de total solidão e concentração para por em prática o plano que me levaria ao sucesso total. Separei com cuidado: tesoura, aparelho de barbear e pinça.
Antes de dar início a transformação, ensaiei gestos de efeito, caras e bocas, que certamente me tornariam mais charmosa, mais glamourosa, mais fashion. Eu sabia o que queria e sabia por onde começar.
Comecei pelas pernas. Armei o aparelho de barbear, aquele com lâmina dos dois lados e fui feroz e velozmente raspando todos os pelos ralos das pernas grossas. Acabei o serviço, aquilo ardia muito, mas tudo bem, achei que era assim mesmo; aqueles pelos estavam lá há anos e a pele só ressentiu a remoção.
Pernas feitas. Vamos lá, chegou a vez das sobrancelhas. Era preciso arrancar todo aquele excesso; era muito pelo só pra ficar acima dos olhos, que utilidade eles poderiam ter, afinal? Eu tinha que acabar com aquilo. Comecei pela sobrancelha direita e tirei o que julguei necessário, passei para a esquerda, e comecei a copiar o trabalho que tinha feito na direita. Tira de um lado, arranca de outro, acerta daqui, compensa dali, pronto! Serviço feito.
Era a vez dos cabelos, esses mereciam mais atenção e cuidado, afinal, é como mamãe sempre diz: eles são a moldura do rosto. Temos que cuidar muito bem dos cabelos, pois são eles que nos enfeitam, e os meus enfeitavam mesmo; eram fortes, lisos, fartos e brilhantes.
Tesoura na mão, preparar, pronto! O primeiro talho já foi. Só mais um pouquinho, pronto! Agora o golpe final. Acabou!
Meu Deus! Acabou mesmo...
Em menos de meia hora, eu tinha acabado com as sobrancelhas, com o cabelo e com as minhas pernas, que ardiam desesperadamente. Percebi rapidamente que a função das sobrancelhas é, sobretudo, manter a harmonia e a estética facial. Era triste admitir eu não havia me transformado, eu tinha me deformado. Nunca vi nada mais feio do que aquilo que se refletia no espelho daquele banheiro. Ele me mostrava claramente a cara da burrada que eu acabara de fazer. Fiquei perplexa. Eu ainda não sabia que a franqueza de um espelho pode acabar com a gente. Eu não sabia que cabelo errado magoava tanto. E minhas sobrancelhas; o que era aquilo?
Mil pensamentos me atormentavam naquele momento, uma sensação de desespero me invadia: E agora? Como vou sair deste banheiro? Como vou enfrentar o mundo lá fora? E minha mãe?
Gente, Minha mãe... Agora ela me mata!
Foi só pensar nela e pimba! Ela começou a bater na porta perguntando:
- Marta, por que você está demorando tanto?
-Nada, mãe, já vou.
-O que você tá fazendo?
Ela nunca fazia uma pergunta só.
-Nada, já to saindo!
-Só vou tomar um banho e já vou.
-“Ta” bom, então não demora, seu pai “ta” chegando e a Celina já vai servir o almoço.
Celina era a empregada, que eu adorava e que trabalhou anos em casa, mas esta história fica pra depois, o que interessa agora é como eu vou sair dessa.
Liguei o chuveiro para ganhar tempo e pensar como eu poderia disfarçar todas as burradas que acabara de fazer. Era preciso calma, muito calma. Entrei no banho, achei que se lavasse os cabelos poderia secá-los e arrumá-los de maneira que ninguém percebesse o que eu tinha feito. As pernas ardiam ainda mais em contato com a água quente e com o sabonete Phebbo; nessa hora nada podia acrescenta mais ardor às minhas pernas esfoladas do que aquele sabonete.
Pronto, acabei o banho, as pernas ainda ardiam e os cabelos pareciam um caso perdido; e eram mesmo.
Achei que se passasse um creme nas pernas poderia aliviar a dor, sempre via minha mãe fazer aquilo. Que nada, consegui piorar ainda mais a sensação de ardência.
Eu já estava com vontade de chorar, a dor das pernas se misturava ao desgosto da minha aparência e ao medo de encarar minha mãe, que certamente, iria acabar de me esfolar. Mas não dava tempo para chorar eu tinha que agir.
Peguei o secador e a escova e mãos a obra, comecei a secar os cabelos. Naquela época os secadores de cabelo eram fracos, pesados e nada práticos de usar, mas eu tinha que conseguir. Era minha única chance. Sequei bem os cabelos e os penteei com muito capricho e quando me observei no espelho tive um choque de realidade. O banho, o secador, a escova haviam sido em vão, estava tudo um horror.
O cabelo liso tinha tomado a forma de algo que lembrava muito o forro de uma casinha de sapê. A franja inclinada na diagonal, parecia a parte inferior de uma flauta peruana e estava acima do meio da testa, as sobrancelhas lembravam dois bigodinhos de Hitler ou Chaplin, como preferir, a essa altura, o detalhe de quem era o bigode não faria diferença alguma. As pernas, agora muito mais vermelhas que antes, pareciam terem sido passadas em um ralador.
Eu já estava esgotada, cansada de tentar consertar tanto estrago e resolvi encarar o que estava reservado pra mim lá do lado de fora daquele banheiro. Eu tinha que sair de uma vez por todas daquele recinto, não podia ficar pra sempre protegida por aquelas paredes. Criei coragem e saí.
Meu pai já havia chegado e já se sentara à mesa. Celina começava a servir o almoço. Foi ela a primeira a notar que havia algo errado com minha aparência, mas fez o que era de costume: lançou-me um olhar de cumplicidade e tentando controlar o riso frouxo, não fez nenhum comentário.
Minha mãe estava ocupada ajudando Celina a servir o almoço e não reparou muito em mim, mas meu pai colocava o arroz no prato enquanto me observava com estranheza.  A cada colher de arroz que se servia me lançava um olhar analítico. Ele só estava tentando entender e foi só minha mãe senta-se à mesa e começar a comer, que meu pai fez a pergunta que lhe intrigava há alguns minutos:
 -Nete, o que aconteceu no rosto dessa menina?
Minha mãe deu um espiadinha em mim e:
-Não! Eu não acredito! O que foi que você fez?
-“Ta” louca, por que você fez isso?
-Ela “ta” sem sobrancelha, Zé!
- O que é isso?
- O que você fez com seu cabelo? Olha essa franja!
Eu não tinha nenhuma resposta para todas aquelas perguntas, não sabia justificar nada daquilo e só conseguia pensar que pelo menos ela não tinha visto as minhas pernas, que ainda ardiam.
Meu pai rindo disse:
-Isso tem conserto?
-Não, agora tem que esperar crescer. Só o tempo vai melhorar isso aí.
-Então vamos almoçar em paz.
Minha mãe deu seu último parecer e com bastante ênfase:
-Você está horrível!
Meu pai não conseguia mais olhar pra mim sem ter acessos de riso. De repente estavam todos me olhando e rindo muito da minha cara esquisita, e uma vez que risada é contagiosa, também comecei a rir de mim mesma, mas no fundo eu estava triste, muito aborrecida.
Naquele dia achei que a comida da Celina, que cozinhava tão bem, não estava muito boa. Nada poderia melhorar o dissabor que eu acabava de experimentar. Teria que conviver durante meses com aquele cabelo torto, com um toco de franja e com aquelas sobrancelhas aleijadas.
Fiquei triste por algumas horas, mas depois resolvi brincar com meu irmão, que ainda não se importava com meu cabelo errado e muito menos com minhas sobrancelhas cotós.
Eu ainda era criança e me divertir era muito mais importante.
Daquele dia em diante, minha mãe ficava muito atenta cada vez que eu entrava no banheiro, eu sentia os seus olhos de águia me vigiando através da fechadura e cada vez que eu me demorava um pouco mais para sair de lá de dentro.
Meu pai passou meses rindo cada vez que olhava pra mim; seu riso simplesmente acontecia quando ele me via.
Toda a tensão de minha mãe e o deboche do meu pai duraram o tempo necessário para os cabelos e as sobrancelhas crescerem.  Depois disso, tudo voltou ao normal.
Aquela não foi a única vez que estraguei ou tive meus cabelos estragados, mas com certeza foi a mais grave e a lembrança daquele dia ainda me faz rir.

domingo, 10 de junho de 2012


 Na minha vida conheci poucas pessoas tão doces quanto tia Neide. A sua voz, o seu jeito e especialmente as suas atitudes são de doçura incomparáveis. Nem com todas as mazelas que a vida lhe impôs tia Neide perdeu a ternura. Parecia que tudo estava bem sempre, embora na realidade, nem sempre estivesse e eu só soube disso muitos anos depois, quando já estava numa idade que ela, sabiamente julgou que eu iria entender.
 A tia Neide conseguia juntar na mesma personalidade nobreza e humildade, delicadeza e força. Mesmo sendo uma mulher de muitas posses e aparência exuberante nunca testemunhei nenhuma atitude que menosprezasse ou hostilizasse alguém. Com licença, por favor e obrigada foram sempre palavras constantes em seu vocabulário, mesmo quando se dirigia aos mais humildes. Os mais velhos sempre mereceram ser tratados por senhor e senhora, não importando quem fossem.
 Ela tinha e tem uma nobreza rara na alma e um sorriso lindo no rosto. Não há uma vez se quer que eu tenha encontrado tia Neide sem que ela me fizesse um elogio e deixasse bem claro o quanto gosta de mim. Acho que por isso me transformei em sua maior fã.
 Por outro lado, minha tia sempre foi uma mulher com muitas dúvidas, que ainda hoje atormentam a sua vida, como por exemplo: dúvida com relação ao clima: será que vai esfriar? Parece que virou um ventinho. Dúvida com relação à prevenção: será que levo ou não o paletó? Dúvida noturna: tomo ou não tomo uma “aspirininha” antes de dormir? Dúvidas com relação às cores: será que eu gosto mais do sapato cinza chumbo, do preto claro ou do preto nem tão claro assim? Dúvida quanto à capacidade do seu estômago: será que eu como ou não mais um pedacinho? Dúvida com relação à medicina: será que eu tomo ou não tomo os remédios que o médico receitou? E assim por diante.  Ela resolveu dúvidas existenciais muito mais sérias e complexas no decorrer de sua vida, mas essas ainda persistem.
Com essa personalidade especial, minha tia Neide era e ainda é muito querida e ficar em sua casa era sempre muito bom.
Essa consciência eu só tive depois de adulta, quando eu era criança ir para a casa da tia Neide era apenas uma garantia de diversão; a começar pela própria casa: muito espaçosa com vários ambientes, piscina, balanço, enfim, tudo que criança gosta principalmente aquelas criadas em apartamento.
O lugar que eu mais gostava naquela casa era a sala do piano, onde eu ouvia admirada minha tia tocar músicas que eu só conheci através dela. Não era o repertório mais moderno do mundo e nem passava perto da Jovem Guarda, movimento muito popular naquela época, mas eram músicas belíssimas e que em muito contribuíram para enriquecer minha bagagem musical, que considero boa até hoje. Minha tia me incentivava a cantar e eu adorava cantar sendo acompanhada de seu belíssimo piano.
A casa da tia Neide tinha tudo que eu gostava especialmente a companhia de minhas primas: Liane e Lílian.  
A Liane me encantava. Ela era alegre e muito ativa; “topava” todas as brincadeiras, principalmente as de mau gosto, como ficar “grudada” na grade da janela da frente gritando pra quem passava na rua: “Moço, moço, eu sou um macaco, me dá uma banana”?
Eu e minha irmã adorávamos essa brincadeira idiota e também grudávamos na grade da janela para gritar bem alto essa sandice.
Que vergonha! Quando penso na mensagem subliminar dessas palavras, me dá vontade de chorar, juro!
A Lílian, bem a Lílian era o que a gente chamava de café com leite:

* Café com leite: expressão usada pelas crianças daquela época, para qualificar outras crianças antes de desprezá-las de vez. *

A Lílian era bem mais nova que eu, Liane e minha irmã, por isso não se encaixava muito nas brincadeiras que inventávamos como, por exemplo, essa genial brincadeira das bananas.
Outra brincadeira que nós adorávamos era a de super-herói. Sim, isso mesmo. Eram três meninas que brincavam de super-herói.
 Liane era o Batman, minha irmã era o Robin e eu, bem eu também era um pouco café com leite e se quisesse participar da brincadeira teria que me contentar com personagens menos nobres como: o Pingüim, o Charada, o Coringa, mas nunca a Mulher-Gato, essa era reservada à minha irmã, por causa dos olhos verdes. Quando minha irmã queria ser a Mulher-Gato, eu teria que me contentar em ser o Robin, o que quase sempre me deixava feliz porque eu não seria tão humilhada e massacrada como eram os vilões daquele seriado. Ser o Robin já era algum progresso afinal, naquela brincadeira os vilões acabavam sempre levando a pior, menos a Mulher-Gato, que sempre conseguia fugir.
Tive uma alegria imensa quando nos seriado de Batman e Robin apareceu a Batgirl, pensei: agora sim chegou a minha vez, mas que nada, minha irmã passou a ser a Batgirl e eu fiquei sendo definitivamente aquele idiota do Robin mesmo, uma vez que Liane nunca abriu mão de ser o Batmam.
Brincar de Batman e Robin na casa da tia Neide era perfeito, tinha espaço para tudo, o escritório era a Prefeitura de Gothan City, o corredor que dava acesso ao quarto da empregada era a Batcaverna e o resto da casa era usado como cenário para reproduzirmos as aventuras de Batman e Robin.
Quando cansávamos da brincadeira de super-herói mudávamos para a brincadeira de Shows da Jovem Guarda, onde minha irmã era Vanderléia, Liane, com sua tendência máscula, era Roberto Carlos e eu, obviamente era a Martinha. Todas tinham sua vez de se apresentar para a platéia fantasma, em cima do banco de alvenaria recoberto por pastilhas azuis que se transformava em palco na nossa imaginação.
Num rompante raro de feminilidade, às vezes usávamos este mesmo banco como passarela, para brincarmos de Concurso de Miss Universo.  
Outra brincadeira muito apreciada por nós e que também demonstrava com clareza nosso excelente desenvolvimento intelectual e motor era a competição saudável de lerdeza no consumo de picolé.
Explico:
Todas as tardes o mesmo sorveteiro passava com seu carrinho e sua gaitinha inconfundível e tia Neide se apressava para comprar sorvetes para as fofurinha, que a essa altura já estavam suadas e sujas de tanto brincar. Cada fofinha ganhava um sorvete e aquela que acabasse por último era a vencedora de uma competição velada e burra com o único propósito de fazer picuínha para aquelas que já haviam consumido seu sorvete em tempo normal. Por causa dessa competição totalmente sem sentido acabávamos por perder meio sorvete, pois nos dias mais quentes o alimento não suportava por muito tempo tanta idiotice.
Tudo na casa da tia Neide era perfeito, tudo era muito bom, o sorvete, a brincadeira das bananas, os super-heróis, Jovem Guarda, Concurso de Miss, o piano e a companhia de minhas primas, mas infelizmente isso não ia continuar assim por muito tempo. Nós ainda não sabíamos, mas toda a paz e alegria que habitavam aquela casa estavam com os dias contados. Estava para acontecer o “evento” Caco.
Caco era um cãozinho lindo da raça Basset, que iria chegar trazido pelo meu tio Hélio, marido de tia Neide, e acabar de vez com a graça de todas as pessoas que freqüentavam aquela bela casa. 
Aquele cãozinho meigo, pouco a pouco foi crescendo e mordendo quem se aproximasse dele. Eu fui uma das primeiras, pois sempre gostei muito de animais e desavisada, quis acariciá-lo assim que o vi na tola esperança de conquistar sua amizade. Tomei!
O cão mordia todas as pessoas, fossem da família ou não. Uma a uma ele cravava os dentes afiados sem dó nem piedade e sem nenhum motivo aparente. No começo ele era especialista em calcanhares, mas com o tempo ele passou a comer o membro todo.

 * Se o Dr. Patty ou o Encantador de Cães tivessem conhecido o Caco, tenho certeza que não teriam tido a carreira tão brilhante que têm hoje. O Caco era capaz de desencantar qualquer encantador, de acabar com a sabedoria de qualquer doutor. O Caco era uma mistura do diabo-da-tasmânia com o Cujo, o cão assassino. *

Ninguém podia se aproximar dele, mas em compensação, ninguém gostava dele só meu tio Hélio e a Lílian, que nunca se conformou com o fato de todos hostilizarem o cão demoníaco.
Ela tenta, até hoje em vão, justificar aquele comportamento diabólico.
Depois do Caco a casa da tia Neide nunca mais foi a mesma. A tranqüilidade e segurança daquele lar foram subtraídas assim que Caco se juntou aos integrantes daquela família.
A qualquer momento poderíamos ter um membro arrancado ou uma veia perfurada. Tínhamos que ficar atentos aos movimentos súbitos do Caco, principalmente, meu primo, Carlos, mais conhecido como Bird, que era a sua vítima preferencial.
 O Caco normalmente se alimentava de carne, legumes frescos e pedaços do Bird.
Empregada não parava mais na casa da tia Neide, mesmo com o salário adicional por insalubridade e periculosidade, todas desistiam depois de algumas mordidas, o que acontecia geralmente antes de terminar a primeira semana.
Também ficou terminantemente proibida a entrada de senhoras com varizes naquela casa. O Caco era quem mandava. Ele selecionava quem iria ou não freqüentar a casa e destes, quem iria ou não sair ileso depois de visitá-la.
Durante muitos anos o Caco reinou absoluto naquele lugar. Ele era “o cara”, muito antes do Lula. Ele era temido e se fazia mais poderoso a cada vítima.
Tudo isso só teve fim quando meus tios se mudaram para um apartamento e Caco foi parar na chácara da família vindo falecer alguns anos depois.
Dizem que seu espírito (de porco, diga-se de passagem) vaga até hoje pela Chácara Lili, nome de muita originalidade, escolhido pelos meus tios e inspirado nas iniciais dos nomes de suas filhas, para “batizar” a chácara da família que existe até hoje e que também guarda muitas lembranças, mas isso é uma outra história.

domingo, 3 de junho de 2012


A nova casa era, na verdade uma casa bem antiga e de tão pequena não havia lugar para tristezas. Ficava num bairro muito bom e bem perto dela moravam algumas pessoas, que eu viria a conhecer e que iriam, de alguma forma, ser muito importantes na minha vida.
Antes disso, devo explicar que eu também atravessava uma fase de transição. Passava por mudanças físicas, que ficavam muito mais difíceis, às vezes constrangedoras, quando se tem um irmão mais novo.
Meu irmão fazia musiquinhas indecentes descrevendo em verso e prosa todas as transformações do meu corpo. Cada vez que alguém chegava à minha casa ele cantarolava aquela musiquinha e só parou quando meu pai conversou seriamente com ele, explicando que não era correto expor certas intimidades da irmã; mesmo assim ele só tirou a letra da música e ficava naquele lá, lá, lá torturante e ameaçador, que me fazia congelar diante “de estranhos”, pois eu sempre temia que ele decidisse, de última hora acrescentar a letra a tal musiquinha.
Uma outra mudança não menos importante também estava por acontecer na minha vida. Era a mudança de curso e no meu caso de escola.
Já era início dos anos setenta e naquela época, o estudo dividia-se em: curso primário, ginasial e colegial.
O melhor colégio da cidade era um colégio estadual, de disciplina muito rígida e que oferecia apenas os cursos ginasial e colegial. Para ingressar nessa escola tão tradicional era preciso fazer o “exame de admissão”; uma espécie de vestibular muito concorrido na época e mais concorrido ainda, quando se tratava do exame de admissão do famoso “Culto à Ciência”.
A prova de admissão não só selecionava os alunos que ingressariam ao Culto à Ciência, como também determinava o período que eles iriam estudar. As primeiras notas iam para o período da manhã, depois seguiam as notas referentes ao período da tarde, vespertino e noturno.
Minha irmã havia entrado neste colégio no período vespertino e eu, mesmo estudando numa escola muito boa tinha vontade de seguir o exemplo dela. Prestei o exame amedrontador e acabei me classificando com uma boa nota, que me colocou no período matutino. 
Todos reconheciam aquilo como uma grande conquista e durante um bom tempo fui o orgulho do papai e da mamãe.
 Entrar no Culto à Ciência no período da manhã, poderia ser para muitos um grande feito, mas para mim não era tão bom assim, pois de agora em diante eu teria que acordar mais cedo ainda, uma vez que a nova escola ficava bem mais distante da minha casa.
 Acordar e dormir cedo sempre foi uma verdadeira tortura para mim, mas mesmo com o horário não me favorecendo, os anos de Culto á Ciência, foram anos maravilhosos, talvez os melhores da minha vida. Tudo conspirava a meu favor, tinha conquistado o respeito de meus pais e a admiração dos meus avós, especialmente de meu avô materno, que costumava recompensar com presentes especiais os netos que conseguissem entrar nessa tão conceituada escola.

  • Minha irmã, por exemplo, ganhou uma TV em preto e branco, portátil, marca Colorado RQ, um modelo de designe arrojado e tecnologia avançada. Vez ou outra era necessário recorrer ao bom e velho Bom-Brill, para melhorar o sinal.
  • Eu ganhei um toca fitas também moderníssimo com cinco botões, sendo um deles de cor laranja, marca Crown, o melhor em reprodução e gravação de som, vinha com fone de ouvido e microfone com suporte, mais a imprescindível função auto-stop; era o auge da tecnologia bem ali no meu quarto. Aquele aparelho gravava a minha voz. Era comovente!

Fiz novas e grandes amizades nessa escola e quase todas moravam bem perto da casinha onde eu vivia.
Sônia, Liliana e Cristiana, todas colegas queridas que moravam bem perto. Tinha também a Názia. Ah! Názia! Não sei como acabei o ginásio sem estrangulá-la.
Conheci a Názia graças a minha mãe. Devo mais isso a ela.
A Názia era uma criatura doce, mas de aparência no mínimo estranha. Aos onze anos ela já tinha “cara de mãe” e “corpo de vó”.  Ela era o que hoje chamamos de nerd.
Muito tímida, desengonçada e insegura, a menina tentava passar despercebida, mas minha mãe tinha que perceber a pobre. A garota tentando se esconder do mundo e minha mãe, pimba, achou!
Vou explicar melhor:
Meu pai me levava de carro para o colégio todas as manhãs, mas as aulas de educação física eram no período da tarde e eu tinha que tomar o ônibus de um bairro para outro, o que significava uma distância relativamente grande, além disso, o Culto à Ciência ficava num bairro considerado meio perigoso e minha mãe se preocupava por ter que me deixar ir sozinha para ao colégio; foi quando ela viu aquela menina estranha, vestindo o mesmo uniforme que eu usava, parada no ponto de ônibus que ficava quase em frente à minha casa. Minha mãe não perdeu tempo e resolveu nos apresentar.
Ela achava que se fôssemos juntas para o colégio correríamos menos risco. Eu tentei argumentar dizendo que aquela “figura” poderia até dar azar; eu disse que poderia ser até mais perigoso ficar perto dela que ir sozinha para o colégio, mas enquanto eu falava, minha mãe me ignorava e apressava-se em atravessar a rua pra fazer um contato imediatíssimo de segundo grau.
Para completar o quadro de mico que ela, minha própria mãe, pintava para mim, ofereceu “carona”, claro que sem perguntar para meu pai, todas as manhãs para Názia, que aceitou prontamente.
Minha mãe tinha acabado de resolver um problema dela criando um para mim
Por dentro eu sentia vontade de fugir, de sair correndo e me perder. Não era possível que aquilo estivesse acontecendo comigo! Ter que ir à escola todos os dias grudada na Názia era o fim. Só minha mãe pra fazer aquilo comigo. Além disso, eu já pressentia devido à disciplina severa do Culto à Ciência, que algum dia eu iria precisar mentir ou omitir certas coisas de minha mãe e com a Názia sempre por perto isso poderia ficar bem complicado. Aquela menina tinha cara de quem não sabia “se safar” e minha mãe adorava fazer questionários imensos que exigiam respostas rápidas e seguras e isso, claramente não era o forte da Názia. Driblar minha mãe exigia um preparo que obviamente aquela menina não tinha.
Perguntas como: quando vai ser a próxima reunião de pais e mestres? Quando vai ser a prova de matemática? Já chegou o boletim? Vocês ainda não receberam as cadernetas de presença! Como assim? Por que está demorando tanto?
Essas perguntas todas emendadas eram para profissionais; ou seja, era para pessoas criadas por mães como minha mãe e que foram obrigadas a desenvolver certas habilidades e uma rapidez de raciocínio necessária para sobrevivência. Seres amedrontados como a Názia não estavam preparados para encarar pessoas como minha mãe.
Eu já podia ver a cara da pobre Názia ficando zonza e quase chorando dizendo: eu não sei, eu não sei! Pare com isso, já disse que não sei!
Minha mãe é capaz de emendar uma pergunta à outra sem ao menos respirar. A gente mal acabava de responder a primeira e ela já está no final da segunda. É um dom impressionante esse da minha mãe. Ela não pergunta; ela interroga. 
Eu nunca conheci os pais da Názia, mas tenho certeza que eram bem diferentes dos meus, especialmente a mãe. Tenho certeza que a mãe dela em nada se parecia com a minha.
Depois do primeiro choque, eu já começava a me acostumar com a presença da Názia. Eu até tentava conversar com ela, mas nem sempre conseguia. Ela respondia a tudo com monossílabos: sim, não, é, foi às vezes ela abusava das palavras e usava logo dois ou três: não sei ou acho que sim. Isso era tão estimulante que logo eu desistia do diálogo, ou melhor, da tentativa dele.
Com o tempo fui me acostumando e me apegando àquele jeito desajeitado da Názia e comecei a gostar dela a minha maneira. Só uma coisa me deixava muito irada: era quando batia à janela do meu quarto todas as manhãs e ela, que falava tão baixinho, gritava com voz estridente: Martá!
Meu Deus! Aquilo mexia com os meus nervos, principalmente quando estava frio e chovendo e eu queria muito ficar na cama e perder hora de propósito.
 A Názia nunca perdia hora, nunca faltava, nunca ficava doente! Cheguei a desconfiar que ela fosse um ET imortal, ou uma espécie de Highlander, condenada a ficar pra sempre naquela idade e naquela forma. 
Como pode alguém nunca ficar doente? Além disso, ela não tem sono, preguiça ou coisas mais interessantes a fazer que ir à escola? Como pode?  E por que ela fazia questão de colocar um acento agudíssimo no último A do meu nome?  
Infelizmente, no hall dos que me irritavam naquela vizinhança, a Názia não estava sozinha, ela fazia companhia a triste e sombria figura de um outro vizinho: o Fausto.
O Fausto era um outro nerd que havia estudado comigo na escola onde eu fiz o primário. Esse menino seguiu me assombrando por todo o curso; fui obrigada a dançar quadrilha com ele, carrego essa vergonha até hoje. Devo dizer que ele contribuiu muito para aumentar meu desejo de mudar de escola. Ao entrar no Culto à Ciência achei que tivesse me livrado da criatura. Mas quem pode controlar o destino? Não é que eu iria reencontrá-lo mesmo mudando de escola. Foi a maior e mais desagradável surpresa que tive no auge dos meus então onze anos de vida.
O Fausto era meu vizinho de frente. Eu disse de frente! Ele passava o dia todo vigiando minha casa. Se eu ameaçasse colocar o pescocinho pra fora da janela, logo via a carinha irritante do Fausto me espreitando, com um sorrisinho nos lábios, numa tentativa inútil de ser simpático. Ele fazia de tudo para se aproximar de mim, até que conseguiu.
 Numa manhã de sábado ele, mal intencionado, aproximou-se de meu inocente irmãozinho e rapidamente, sem que eu pudesse impedir, apresentou um jogo de botões convidando-o para brincar. Meu pequeno e, repito inocente irmão, sem se dar conta da artimanha daquele ser abissal metido a esperto, aceitou o convite.
Aquilo me revoltou. Como aquela criatura conseguiu atingir seu objetivo tão rápido? Como ele tinha ido parar dentro da minha casa? Ele estava lá, bem na minha sala, gritando com voz aguda: gooool!
Esforçando-me para manter a calma e fingindo indiferença, resolvi não falar nada para meu irmão. Minha intenção era ignorar o sujeito até que ele desistisse de mim. Foi aí que aprendi a primeira lição sobre os homens: quanto mais você os ignora, mais eles insistem e investem em você.
Comecei, então a tratá-lo muito, mas muito mal. E aí aprendi a segunda lição sobre os homens: se quiser manter um homem literalmente babando por você, não basta ignorá-lo, há que mal tratá-lo.
Eu tentei de tudo, tudo mesmo: desprezo, ofensas, caretas e até sinais obscenos e atitudes nojentas, mas nada, absolutamente nada fazia o Fausto se afastar de mim e da minha casa.  Eu vivia um filme de horror intitulado “O DESPERTAR COM OS NERDS”
De segunda à sexta era a Názia, que gritava na minha janela acentuando o último A do meu nome, e aos sábados, bem cedo, vinha o Fausto com aquela voz fina, gritando e batendo na janela. “Zezinho, vamos jogar botão”? Deus do céu, o que havia acontecido com minhas manhãs?
 Acho que por culpa do Fausto desenvolvi uma rejeição por homens de voz fina.
 Ainda hoje acho inadmissível um homem de voz fina. Que me perdoem Anderson Silva e todos os outros “fala fina” do planeta, mas o mínimo que um homem tem que fazer é falar grosso.
O Michel Jackson, por exemplo, tenho pra mim, que ele só morreu porque tinha voz fina. Provavelmente, ele deve ter atormentado aquele pobre médico a madrugada inteira, repetindo com aquela vozinha: Não consigo dormir, não consigo dormir! Quero mais Demerol, quero mais Demerol! Me dá Demerol, me dá Demerol!
Daí deu no que deu, ninguém agüenta isso. Uma hora a gente mata mesmo. Dá pra entender o estado de saturação do médico, que a certa altura da madrugada pensou: agora você vai ter o que merece, vou te espetar uma overdose de “nunca mais falou pra ele”, mais conhecido como Propofol.
  Se o advogado do médico tivesse embasado sua defesa no argumento do grau de irritabilidade que um homem de voz fina pode causar nas pessoas, eu aposto que o Dr. Conrad Murray seria absolvido por unanimidade.
Mas, graças a Deus, eu não precisei matar o Fausto. Logo, as coisas se ajeitaram, pois meu irmão começou a se interessar por esportes e trocou as manhãs de sábado de jogos de botão por atividades esportivas no clube que ficava bem próximo a nossa casa.
O Fausto teve que se conformar em me vigiar a distância, da varanda de sua casa.
Quanto a Názia, bem, essa continuou fiel e assídua, comparecendo à minha janela todas as manhãs e cuidando para que eu nunca, nunca mesmo, perdesse hora.
Enquanto morei naquela casinha fomos à escola juntas todos os dias e quer saber, eu gostava da companhia dela e às vezes me pego pensando no que será que foi feito de Názia? Como será que ela está hoje? Será que casou e tem filhos?
Nunca mais tive notícias dela ou de Fausto. Espero, sinceramente, que eles estejam bem e felizes, pois, não sei por que, não há como não gostar desses nerds; eles são parte de minha adolescência e embora não pareça, tenho carinho por eles.
Às vezes gosto de fantasiar e imaginar que Fausto e Názia se conheceram durante um “simpósio sobre bullying”. Eles teriam se apaixonado, em função das muitas experiências parecidas que viveram, teriam se casado e estão felizes até hoje vivendo no Mundo Encantado dos Nerds.