Quando
eu era criança, isso significa anos sessenta, a indústria brasileira não
produzia muitos brinquedos como produz hoje, não havia tantas opções no mercado.
As bonecas, por exemplo, eram lançadas no final do ano, na época do Natal e
eram sempre dois ou três tipos que faziam a cabeça das meninas, além disso,
eram bem caras. Mesmo sendo caras, eu tinha muitas e elas viviam em pares, uma
vez que eu ganhava sempre uma boneca igual a da minha irmã. Era sempre o mesmo
modelo de boneca, que se diferenciava por pequenos detalhes como a cor do
vestido ou dos cabelos.
Todos
esses pares de bonecas caras ficavam empilhados em cima de um guarda-roupa do
único quarto do pequeno apartamento que eu morava com minha família.
Incrível,
mas aquelas bonecas não admitiam
brincadeira. Ficavam lá, no alto, inacessíveis, todas muito bem guardadas
esperando o dia de poderem sair da caixa para enfeitar o quarto novo da casa
nova.
Já
sei, não deu pra entender. Vou explicar melhor:
Todo
Natal, eu e minha irmã ganhávamos uma boneca nova de presente do então queridíssimo e aguardadíssimo Papai Noel.
Durante aquele dia, nós brincávamos felizes com nossas novas bonecas, mesmo
tendo a nítida impressão que alguém nos observava. E observava mesmo!
A
brincadeira estava ainda no ensaio, quando ouvíamos:
Não vai estragar, brinca direitinho.
Não suja
a roupinha (das bonecas).
Cuidado com o cabelinho (das bonecas).
Não, não tira a fita. Se tirar, o cabelo
fica feio.
Tira do chão.
Segura no colo, mas não amassa o vestidinho
(das bonecas), é claro.
Sua mão não tá suja, não?
“Deixa eu” ver.
Melhor lavar.
Bem,
como deu pra notar, depois de aproveitarmos “pra caramba” nossas bonecas novas, elas eram recolhidas e já no dia
26 de dezembro, eram embaladas e colocadas em cima do guarda-roupa aumentando
assim, aquela pilha de caixas sem lógica. Sem lógica porque as crianças estavam
no chão e as bonecas lá no alto do guarda-roupa.
O
mais grave é que quem nos impunha toda essa “infanto-tortura” era nossa própria mãe.
Ela tinha uma ilusão: “a casa nova” com o
quarto das filhas todo enfeitado por bonecas bonitas e por isso não deixava a
gente brincar, pois as bonecas deveriam estar novas para serem colocadas no quarto novo da casa nova.
Legal!
A ilusão dela valia, a nossa, “esquece”.
*obs:
peço aos psicólogos e psiquiatras que
estiverem lendo esse texto que mande e-mail para: filhasequelada@com.br. Aceito
conselhos, técnicas de exercícios de relaxamento e/ou receitas de remédios
controlados, se acharem necessário. *
Só
há bem pouco tempo, “passando a vida a
limpo”, me dei conta de um detalhe curioso dessa história sórdida, que me escapou durante anos: Nós
guardávamos as bonecas para o quarto novo
da casa nova, mas até então, não
havia nenhum projeto, nenhuma planta, nem se quer um terreno, enfim, nada,
absolutamente nada, que sugerisse a possibilidade de uma casa nova.
Passaram-se
alguns anos e meu pai finalmente comprou, num excelente bairro, uma boa casa,
que reformou todinha, claro que, sob a supervisão hiper detalhista da minha mãe, para que pudéssemos nos mudar.
Minha mãe acompanhou bem de perto a tal reforma e caprichou nos detalhes. Escolheu tudo
literalmente a dedo. Ela classificava os
pedaços de mármore um a um, para que os pedreiros não errassem na colocação. Tudo tinha que seguir exatamente aquela ordem. Os tons das cores dos pedaços mármore eram previamente
estipulados, separados e organizados
por ela. Os azulejos também eram separados, analisados, cheirados, organizados e só depois de quase
lambidos eram, ou não, aprovados por ela.
Eu, tolinha,
observava tudo achando minha mãe o máximo.
Pra mim, aquilo ainda não era TOC, ela
entendia mesmo de construção.
A
casa ficou pronta e a dedicação de minha mãe valeu a pena. Tudo ficou muito
bonito e só depois de minha mãe se dedicar a outros tantos detalhes que compunham a decoração da nova casa, finalmente
nos mudamos.
Eu tinha mais ou menos uns oito anos quando fui
morar naquela casa, minha irmã, mais velha que eu dois anos tinha dez,
logicamente. Isso tudo somado, “deixa”
ver? Ah! Eram, aproximadamente, dezessete bonecas num quarto, que acabou
ficando relativamente pequeno. Digo relativamente porque eu e minha irmã também tínhamos que caber no mesmo
quarto das dezessete bonecas.
O “Malandrinho”,
por exemplo, um boneco grande que eu tinha ganhado sabe-se lá em qual Natal e de que
ano, foi parar no quartinho da empregada, pois não havia nem lugar e nem par
para ele, uma vez que a boneca “Amiguinha”,
que era seu par, teve que sair da caixa antes da hora prevista por minha mãe,
para que pudesse cessar o choro descontrolado e birrento de minha irmã.
Conclusão: o Malandrinho ficou sem par e por tanto
sem lugar no quarto, afinal, fazia-se
necessário uma simetria, isso era importantíssimo para o conceito estético de
minha mãe; do contrário, tudo poderia entrar em combustão espontânea.
Injusto,
depois de tanta espera, o pobre
Malandrinho foi excluído.
Bem,
enfim moramos apenas oito meses na “casa nova”, que em minha memória permanece
nova até hoje.
Mudamos para outro apartamento, só que bem
maior que o primeiro; o de origem.
As
bonecas se mudaram com a gente, mas não ficavam mais inacessíveis como antes.
Já podiam ser tocadas, contudo, não tinham mais o mesmo encanto e nem o
mistério que as envolvera durante anos. Eu e minha irmã já não sentíamos mais a
mesma vontade de brincar com elas como nos Natais passados.
Aquelas
bonecas ficaram lá paradas, intactas, esperando por um pedacinho da infância
que nem elas, nem minha irmã e nem eu jamais tivemos.
A
ilusão de minha mãe também durou pouco, apenas alguns meses.
Todo
aquele capricho e dedicação, que envolveram a reforma da “casa nova”, ficaram para os próximos moradores; um casal amigo que
comprou aquela casa.
Quanto
a nós, continuamos bem, morando em outro apartamento no centro da mesma cidade.
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Adorei o texto! Só me ficou uma dúvida: depois de tanto trabalho e de excluir o malandrinho, pq se mudaram tão cedo da casa?
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