Era noite de verão e eu havia sido convidada
para assistir a um show de MPB que iria acontecer num barzinho bem perto de
minha casa. Do conjunto, que ia se apresentar naquela noite tão quente fazia
parte o irmão de uma amiga, a quem eu queria muito prestigiar.
Eu estava diante de tudo que
gostava: uma noite quente com cerveja gelada e a possibilidade de ouvir boa
música, num ambiente muito acolhedor: um bar. Pra mim, naquela época, nada
poderia ser melhor.
Para garantir minha presença ao
evento, contratei uma senhora de minha confiança que costumava cuidar de Bruno
nas noites em que eu precisava ou queria sair; Dona Nice, ela dormia em casa e
isso me deixava mais tranqüila enquanto eu estivesse fora.
Dona Nice era uma senhora muito
responsável e paciente, tinha jeito com crianças, mas sua aparência... Bem,
digamos que sua aparência não era recomendada para crianças menores de oito
anos: A pele daquela mulher era branca; muito branca e já bastante “frisada” pela idade, os cabelos
extremamente vermelhos e arrepiados, de evidente rebeldia, revestidos por uma
generosa camada de laquê aplicada pela senhora; na inútil tentativa de
contê-los junto à cabeça; contudo, no decorrer do dia, mechas, ainda mais
rebeldes iam, pouco a pouco se libertando, se desprendendo da “nave mãe” e sustentando-se em pé,
compondo assim, um visual no mínimo estranho. Observar Dona Nice me fazia
pensar que natureza, quando quer, sabe ser sarcástica.
Além disso, pela manhã, o nariz de Dona Nice
ficava muito vermelho, como se toda circulação sanguínea da senhora se
concentrasse apenas na região central da face. A vermelhidão naquele nariz
conferia-lhe um brilho descomunal e era impossível deixar de notar tamanha
esquisitice.
Ver Dona Nice acordando, vestindo
um peignoir azul Royal, de gola e punhos brancos que ela insistia em usar era
como dar de cara com o Bozzo logo pela manhã.
Mesmo sendo dona deste visual,
digamos pouco comum, aparentemente, Bruno não se importava com a aparência da
senhora, mas, só pra garantir, todas as vezes que eu a contratava rezava pra
que o menino não fizesse nenhum de seus comentários, com observações sempre tão
francas e precisas, pois tinha medo que ele ofendesse aquela senhora.
Essa era minha maior preocupação
quando deixava Bruno aos cuidados de Dona Nice e foi justamente graças a essa
preocupação que resolvi, naquela noite, levá-lo comigo, mesmo tendo Dona Nice a
minha disposição.
O esquema já estava montado na
minha cabeça: a apresentação era cedo, o barzinho era bem perto de casa; se
Bruno não quisesse ficar comigo ou ficasse com sono, eu poderia levá-lo pra
casa e deixá-lo aos cuidados de Dona Bozza, digo, de Dona Nice, desta forma eu
reduziria o tempo de contato entre Bruno e Dona Nice, o que poderia poupá-la da
precisão impiedosa das observações, muitas vezes desconcertantes, de meu filho.
Enquanto eu tomava as devidas
precauções e “montava esquemas” para preservar Dona Nice da franqueza de Bruno,
nem de longe eu imaginava que desta vez eu seria seu alvo.
Assim foi feito, fomos ao tal
barzinho prestigiar o amigo. Bruno estava contente por fazer um programa de
adulto com a mãe, isso sem mencionar que o vovô e a vovó estariam no tal
barzinho, pois também haviam sido convidados.
Bruno estava bem e prestava
atenção em tudo, como era de seu costume, era um ambiente novo pra ele e havia
muito que observar. Mas, logo após o final da segunda música, o menino começou
a demonstrar os primeiros sinais de cansaço, até que pouco tempo depois, deitou
a cabeça sobre a mesa, demonstrando claramente que havia chegado ao seu limite.
Nessa hora, eu resolvi levá-lo para casa e deixá-lo na companhia de Dona Nice.
Ele não relutou, fez cara de
bravo, o que pra mim era sono, mas acatou a ordem sem protestos, me
acompanhando serenamente até nossa casa.
Chegamos ao apartamento; eu o
coloque na cama e me despedi com um beijinho, como era de costume e ele
retribuiu o beijo, o que me fez acreditar que tudo estava surpreendentemente
bem. Apaguei a luz e saí do quarto
satisfeita. Dei as últimas instruções a
Dona Nice e voltei ao barzinho.
A noite foi ótima, música boa,
amigos, conversa divertida, pessoas inteligentes e alegres, mas já era hora de
voltar para casa.
Entrei no meu apartamento
caminhando na ponta dos pés para não acordar nem Bruno e nem Bozza, que
provavelmente já dormiam há horas.
Eu me preparava para dormir
quando vi em cima de minha cama uma folha de caderno com a letrinha de meu
filho, alfabetizado há bem pouco tempo. Pensei que era uma cartinha de amor, a
primeira e esperava frase do tipo: “boa
noite, mamãe, eu te amo”; ou ainda, “boa noite mamãe, senti sua falta”. Com um sorriso satisfeito no rosto,
interrompi o que estava fazendo e fui ansiosa em direção ao bilhete. Ao ler o
seu conteúdo fui tomada por um incontrolável ataque de risos, pois nada poderia
ser mais surpreendente que as palavras que nele estavam registradas.
O bilhete dizia o seguinte:
“Mãe, você é muito chata.
Você me manda embora do bar só
por que eu dormi um pouco na mesa.
Isso que é ter mãe chata. Pode me bater por eu dizer isso, só que é
isso que sinto em relação a você. Você é a mãe mais chata do mundo.
Eu acho que tenho hodio (ódio)
de você, pois só por isso você me manda embora, mãe!(?)
Pode me bater quando você acordar. Eu acho você uma metida e tonta.
Chata, chata, metida e tonta.
Escreva no verço (verso) sua
opinião idiota.”
Depois do primeiro impacto
comecei a analisar o que aquele bilhete queria me dizer e me dei conta que
Bruno, embora tenha feito tudo que eu havia determinado, estava profundamente
contrariado e não teve o menor pudor em registrar sua indignação. Também achei
muito engraçado a dúvida com relação ao ódio, com h, que ele sentia por mim, naquele momento e percebi o quanto ele
estava enciumado por eu não estar totalmente disponível naquela noite, ou
talvez por perceber que havia um mundo “além
Bruno”, ao qual eu também pertencia. Daí eu também percebi que nós filhos,
somos egoístas e pretensiosos, pois nos achamos merecedores da atenção integral
de nossos pais. Exigimos muito, sempre, a qualquer hora, a qualquer preço.
Nunca paramos pra perceber que nossos pais existem além de nós. Mas o que
realmente me deixou impressionada, foi a coragem que Bruno teve de me
enfrentar, mesmo achando que corria risco
de apanhar, ele fez questão de me direcionar suas piores ofensas: chata,
metida e tonta. Ele registrou
claramente seu descontentamento com minha atitude e até desenhou para que eu
não tivesse dúvidas.
Pode parecer incoerente, mas
naquele momento tive orgulho de meu filho, pois ele tinha clareza, ele tinha
coragem. Ele se expôs e me colocou de frente com os seus e com os meus
sentimentos. Ele me fez inverter a ordem e pensar, pensar em mim, pensar em
meus pais, pensar nos nossos papéis.
Meus pensamentos e o calor
daquela noite me impediram de dormir. O verso, com ç, do bilhete permaneceu em branco, pois depois do desabafo do
menino, que despertou minha lucidez e da demonstração de coragem, que me encheu
de orgulho, qualquer coisa que eu escrevesse naquele bilhete no sentido de
reprimir sua atitude ou tentar me desculpar pela minha, iria ser de fato, uma opinião idiota.
* Segue foto do
bilhete original, na íntegra e sem cortes.*


kkkkkk....o MÁXIMO!!! e vc colocou sua opiniao o verso. cabeção?
ResponderExcluirO Cabeção, vc não leu até o final?
ExcluirSe leu sabe que não.
Obrigada pelo "máximo", Cabeção.
Muito bom Marta!!! Adorei, mas vou publicar pelo link do face pois aqui pra mim tb tá saindo sem a Ilustração!!!! Bjão!!!! :)
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