domingo, 22 de abril de 2012


AS TREZE GOIABAS


Quando eu era criança meu mundo era bem pequeno e constituído, na sua maioria, por pessoas grandes; isto é, os adultos, exceto pelos meus dois irmãos, que dividiam e viviam comigo naquele mundo pequeno.
 Os adultos que viviam no meu mundo pequeno moravam quase todos no mesmo prédio no centro da cidade e entre eles estavam os que eu mais amava, além de meu pai e minha mãe: meus avós maternos.
Meus avós eram acolhedores e estar perto deles era tão reconfortante quanto tirar uma soneca no meio da tarde.
Meu avô tinha um jeito especial, ele era especial e pronunciava as palavras impecavelmente. Podia-se perceber cada letra de cada palavra, sua pronúncia perfeita não era apenas uma aula de fonética, era também uma aula de ortografia, pois para ele, o L era L mesmo e não U como que para a maioria das pessoas.
Um dia, eu ouvi meu avô pronunciar a palavra mal estar. Era mais ou menos assim: “malestar”. Sem conseguir desmembrá-la: mal estar; não consegui entendê-la, apenas guardei na memória aquele som: malestar.
Eu prestava muita atenção no meu avô, alguma coisa dentro de mim dizia que era ele quem guardava a chave de todos os segredos e mistérios da vida, mas isso é outra história.

Dias depois...

Geladeira cheia de frutas, minha mãe tinha ido à feira, o que me deixava muito feliz porque além de gulosa, esganada segundo minha avó, eu gostava muito de frutas. A mais conhecida até então e de minha preferência, até então, era a maçã. Eu comia muita maçã, e diferentemente daquilo que aconteceu com Adão, essas frutinhas eram consumidas por mim sem causar problema algum. Comer maçãs nunca me expulsou do paraíso, ao contrário, as tentadoras maçãs eram saboreadas e perfeitamente digeridas sem que nada de mal acontecesse comigo. 
Naquele dia de festival de frutas, resolvi me apresentar a uma outra espécie: as goiabas.
Pra mim, elas eram tão inofensivas quanto as maçãs, mas bem mais interessantes pois eram quase amarelinhas por fora e bem vermelhinhas por dentro. Isso me chamou atenção porque eu estava acostumada com a estética oposta; ou seja: a cor “viva” por fora da fruta e a cor neutra pó dentro. Vez por outra, eu pegava uma que era branquinha por dentro e essa brincadeira começou a ficar bem legal.
 De que cor será próxima? Hum! E esses carocinhos, que desafio mastigá-los. E assim, continuei a comer desmedidamente; e nessa alternância, goiabas vermelhas e/ou brancas foram passando, uma, duas, três, treze goiabas, que mal mastigadas, acumularam-se no meu estômago uma a uma; uma sobre a outra, num amontoado indigesto que iria me surpreender muito e em pouco tempo.

Algumas horas depois, uma tontura e um peso no estômago, o peso de treze goiabas com milhões de carocinhos, começavam a me causar certo desconforto. Eu ainda não sabia, mas aquele desconforto era só o começo do que poderia ter sido o meu fim.
O desconforto logo deu lugar à indisposição e dores abdominais, que eu nunca tinha experimentado ao longo dos meus sete anos de vida.
A sensação foi ficando cada vez mais forte, nunca havia sentido aquilo com as maçãs.
Meus pais logo perceberam, pela minha palidez e pelo meu silêncio, nada habitual, que alguma coisa muito errada estava acontecendo comigo, eles só não podiam imaginar, nem em seus mais loucos devaneios, que eu havia comido treze goiabas.
Eu não sabia e ainda não sei definir o que senti naquele dia, só sei que até hoje não consigo esquecer aquela sensação; basta fechar os olhos e buscar na “memória dos sentidos” aquilo que já na infância me fez entender porque gula é pecado.
Lembro-me que, gradativamente, as vozes dos meus pais começaram a ficar cada vez mais longe, e as palavras cada vez mais indecifráveis.
Enquanto meu corpo reagia à burrice do meu cérebro guloso, expelindo por todas as vias o que estava me entupindo, eu já começava a desconfiar daquelas frutas malditas. Somente elas poderiam ser as responsáveis pelo que estava acontecendo comigo.
Tenho certeza que se Adão tivesse comido goiaba ao invés de maçã, ele jamais teria comido a Eva depois e, provavelmente nós ainda estaríamos no Paraíso.
Meus pais, por outro lado, já haviam “matado a charada”. Isso foi possível depois de uma análise mais detalhada do conteúdo do material expelido por mim. 
É, é horrível, mas não há outra forma de dizer. Meu organismo se defendia da única forma possível: presenteando-me com a maior diarréia seguida por vômito que tive em toda minha vida; isso já considerando todos os “porres” que viriam a fazer parte dela no futuro, e assim me servirem de parâmetro de comparação.
Entre a consciência e o torpor, eu ouvia minha mãe perguntar para meu pai:
- Quantas sobraram!
-Eu comprei 24.
E ele incrédulo dizia:
-Ela comeu treze, treze!
Alguém disse:
-Meu Deus!
Depois disso, a única lembrança que tenho é de meu pai e minha mãe me sustentando pelos ombros para fazer com que eu caminhasse por todo o pequeno apartamento e por toda noite.
 Durante essa caminhada noturna ouvi meu pai comentar com minha mãe:
- Ela deve estar sentindo um mal estar muito grande.
Ah! Agora sim, consegui desmembrar a palavra e entender com exatidão o que ela significava.
Meu pai tinha razão: foi sem dúvida, o maior malestar que já senti até hoje.









Um comentário:

  1. hahahaha! Adorei,Marta! Vou passar para minha mãe, ela vai rir mto! hahaha. Beijos, Marina. =)

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