No
mundo pequeno, daquele apartamento pequeno, naquele edifício no centro da cidade,
viviam, além de nós, Dona Maria e Dona Hercília.
Sim,
isso mesmo, Maria e Hercília. Não, não estou no século passado,
ainda estou nos anos sessenta.
*Tudo bem. É século passado, eu deveria ter
dito: século dezenove. *
Mas,
o fato é que essas mulheres eram parentes
diretas, como elas mesmas gostavam de dizer, de pasmem: Carlos Gomes. Isso, ele mesmo o famoso e imortal maestro, e
pelo que pude verificar, anos depois, era verdade: Dona Maria e Dona Hercília
eram primas de Carlos Gomes.
Pra
mim, aquele parentesco, deixava as
duas senhoras muito, mas muito mais velhas do que elas realmente eram; afinal,
a Escola primária onde eu estudava, chamava-se: Instituto de Educação
Estadual Carlos Gomes.
Naquela
idade, eu acreditava que dar nome a uma escola ou a uma rua era coisa de gente
morta.
Se
elas eram primas de Carlos Gomes, como poderiam estar vivas? Como?
Eu
tinha quase a mesma idade dos meus primos e pela minha lógica infantil, elas deveriam ter a mesma idade do primo delas,
Carlo Gomes, portanto, deveriam estar como ele, mortas.
Além
disso, eu já estava estudando os “vultos
históricos” e já tinha aparecido a figura de Carlos Gomes. Ele já estava
nos livros de história e elas estavam bem ali, no apartamento de frente! Era
assustador tê-las como vizinhas.
Aquelas
mulheres eram, aos meus olhos, zumbis.
Parecia que eu estava assistindo a um episódio de: “A Volta dos Mortos Vivos”
Foram
poucas as vezes que entrei no apartamento das irmãs e em todas tive a mesma
impressão: a de estar entrando na casa da bruxa
da estorinha de João e Maria.
O
apartamento era sombrio, nas paredes retratos emoldurados dos parentes mortos,
dividiam espaço com um telefone preto lá
no alto, longe do alcance de qualquer criança. Era impossível pedir
socorro. Que medo!
Minha
irmã parecia não se importar com aquele clima e passava horas dentro do apartamento macabro
das irmãs zumbis.
Não demorou muito e começaram a aparecer os
primeiros sintomas da influência mórbida que
as irmãs macabras estavam exercendo
na personalidade de minha irmã.
Minha
irmã chorava muito e sem motivo; quer dizer, sem motivo para nós que ainda não
sabíamos de nada. Ela começou a sofrer de insônia, o que me obrigava a passar as
noites segurando sua mão; medo do escuro, o que me obrigava a dormir sempre com
uma luz acesa, explosões de raiva, bem, isso ela tem até hoje. Tudo, tudo nela
começou a mudar.
Depois
de algum tempo, meus pais perceberam que aquele comportamento só podia ter tido
origem lá, no apartamento daquelas duas velhas pilantras e safadas.
Dito
e feito: As duas senhoras contavam com detalhes, para minha pequena irmã, as
mortes de todos os seus entes
queridos, antepassados e serviçais da fazenda onde passaram a infância e, na
versão das velhinhas, todas aquelas pessoas
de bem, depois de mortas, haviam
virado almas penadas.
Minha
irmã sofria muito com todos aqueles relatos, mas curiosamente sempre voltava à
casa das velhas. Ela ia à casa das irmãs quase todos os dias e sofria mais e
mais.
Não
havendo outra maneira, minha mãe proibiu “terminantemente”,
minha irmã de voltar ao apartamento sombrio das irmãs zumbis e quando minha mãe usava esse termo, mesmo sem saber o
que significava, nós entendíamos que era prudente não desobedecer.
A
frase ficava mais ou menos assim:
“Você está terminantemente proibida de voltar
ao apartamento da D. Maria e de D. Hercília, entendeu?”
*Quando o termo terminantemente vinha acoplado ao verbo entender, nós, crianças mais ou menos inteligentes, sinalizávamos
com a cabeça que sim, afinal assim fazem os sobreviventes. *
Dona
Maria e Dona Hercília não faziam aquilo por mal, mas por total despreparo. Elas
só queriam de um modo “torto”,
entreter as crianças e de certa forma conseguiam, pois não há no mundo nenhuma
criança que não se encante por uma boa história de terror.
Elas
eram solitárias e continuaram convidando a mim e muito mais à minha irmã para
ir ao seu apartamento e só desistiram após muitas recusas e às “caras de poucos amigos” da minha mãe.
*Vocês não conhecem “a cara de poucos amigos
da minha mãe”. *
Minha
irmã acabou superando aqueles medos. Hoje ela está bem, superou problemas bem
maiores e se transformou numa mulher forte, que não tem tempo para acreditar em
fantasmas ou em almas penadas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário