domingo, 6 de maio de 2012



No mundo pequeno, daquele apartamento pequeno, naquele edifício no centro da cidade, viviam, além de nós, Dona Maria e Dona Hercília.
Sim, isso mesmo, Maria e Hercília. Não, não estou no século passado, ainda estou nos anos sessenta.

*Tudo bem. É século passado, eu deveria ter dito: século dezenove. *

Mas, o fato é que essas mulheres eram parentes diretas, como elas mesmas gostavam de dizer, de pasmem: Carlos Gomes. Isso, ele mesmo o famoso e imortal maestro, e pelo que pude verificar, anos depois, era verdade: Dona Maria e Dona Hercília eram primas de Carlos Gomes.
Pra mim, aquele parentesco, deixava as duas senhoras muito, mas muito mais velhas do que elas realmente eram; afinal, a Escola primária onde eu estudava, chamava-se: Instituto de Educação Estadual Carlos Gomes.
Naquela idade, eu acreditava que dar nome a uma escola ou a uma rua era coisa de gente morta.
Se elas eram primas de Carlos Gomes, como poderiam estar vivas? Como?
Eu tinha quase a mesma idade dos meus primos e pela minha lógica infantil, elas deveriam ter a mesma idade do primo delas, Carlo Gomes, portanto, deveriam estar como ele, mortas.
Além disso, eu já estava estudando os “vultos históricos” e já tinha aparecido a figura de Carlos Gomes. Ele já estava nos livros de história e elas estavam bem ali, no apartamento de frente! Era assustador tê-las como vizinhas.
Aquelas mulheres eram, aos meus olhos, zumbis. Parecia que eu estava assistindo a um episódio de: “A Volta dos Mortos Vivos”
Foram poucas as vezes que entrei no apartamento das irmãs e em todas tive a mesma impressão: a de estar entrando na casa da bruxa da estorinha de João e Maria.
O apartamento era sombrio, nas paredes retratos emoldurados dos parentes mortos, dividiam espaço com um telefone preto lá no alto, longe do alcance de qualquer criança. Era impossível pedir socorro. Que medo!
Minha irmã parecia não se importar com aquele clima e passava horas dentro do apartamento macabro das irmãs zumbis.
 Não demorou muito e começaram a aparecer os primeiros sintomas da influência mórbida que as irmãs macabras estavam exercendo na personalidade de minha irmã.
Minha irmã chorava muito e sem motivo; quer dizer, sem motivo para nós que ainda não sabíamos de nada. Ela começou a sofrer de insônia, o que me obrigava a passar as noites segurando sua mão; medo do escuro, o que me obrigava a dormir sempre com uma luz acesa, explosões de raiva, bem, isso ela tem até hoje. Tudo, tudo nela começou a mudar.
Depois de algum tempo, meus pais perceberam que aquele comportamento só podia ter tido origem lá, no apartamento daquelas duas velhas pilantras e safadas.
Dito e feito: As duas senhoras contavam com detalhes, para minha pequena irmã, as mortes de todos os seus entes queridos, antepassados e serviçais da fazenda onde passaram a infância e, na versão das velhinhas, todas aquelas pessoas de bem, depois de mortas, haviam virado almas penadas.
Minha irmã sofria muito com todos aqueles relatos, mas curiosamente sempre voltava à casa das velhas. Ela ia à casa das irmãs quase todos os dias e sofria mais e mais.
Não havendo outra maneira, minha mãe proibiu “terminantemente”, minha irmã de voltar ao apartamento sombrio das irmãs zumbis e quando minha mãe usava esse termo, mesmo sem saber o que significava, nós entendíamos que era prudente não desobedecer.
A frase ficava mais ou menos assim:

Você está terminantemente proibida de voltar ao apartamento da D. Maria e de D. Hercília, entendeu?”

*Quando o termo terminantemente vinha acoplado ao verbo entender, nós, crianças mais ou menos inteligentes, sinalizávamos com a cabeça que sim, afinal assim fazem os sobreviventes. *

Dona Maria e Dona Hercília não faziam aquilo por mal, mas por total despreparo. Elas só queriam de um modo “torto”, entreter as crianças e de certa forma conseguiam, pois não há no mundo nenhuma criança que não se encante por uma boa história de terror.
Elas eram solitárias e continuaram convidando a mim e muito mais à minha irmã para ir ao seu apartamento e só desistiram após muitas recusas e às “caras de poucos amigos” da minha mãe.

*Vocês não conhecem “a cara de poucos amigos da minha mãe”. *

Minha irmã acabou superando aqueles medos. Hoje ela está bem, superou problemas bem maiores e se transformou numa mulher forte, que não tem tempo para acreditar em fantasmas ou em almas penadas.                                   

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