Não tenho muitos arrependimentos
nessa vida, nunca me arrependi das decisões que tomei e nem das escolhas que
fiz, mas às vezes penso, com uma pequena dose de remorso, em alguns atos tolos
que pratiquei e que certamente não faria ou de novo.
Acho que quando se é jovem não
consideramos os motivos e as histórias dos outros, estamos mais prontos a
reagir do que a considerar os motivos pelo qual uma pessoa é dessa ou daquela
maneira. Eu, pelo menos era assim, reagia muito antes de pensar nas razões
alheias ou nas conseqüências de alguns de meus atos.
Quando se é jovem as pequenas
injustiças são difíceis de serem aceitas com passividade, parece urgente
revidá-las quando não conseguimos impedi-las, é quase impossível controlar os
impulsos próprios da adolescência e ter a consciência de que as conseqüências
de pequenos atos, como os que eu normalmente praticava, poderiam desestabilizar
até o humor mais “tibetano”.
Roubar o lanche da Dona Erotildes
era uma das coisas que eu fazia com muito prazer, mas hoje chego a sentir dó
daquela pobre mulher, pois agora entendo que ela deveria ter tido uma vida
muito dura capaz de justificar tanta aspereza em suas atitudes.
Dona Erotildes era uma senhora
que trabalhava no Culto à Ciência como inspetora de alunos. Ela gritava muito e
por qualquer coisa, uma simples pergunta era respondida com estupidez e aos
berros. Se você perguntasse pra Dona Erotildes que hora eram, ela responderia
gritando: Não tá vendo que são dez horas, menina? “Presta” atenção.
Eu nunca gostei de gritos, sempre
achei que eles eram desnecessários, mas era assim que aquela mulher se
relacionava com os alunos e acredito que com tudo na vida, pois a grosseria já
era parte do seu ser.
Ela era grossa, mal educada, mal
humorada e por isso merecia ficar sem lanche. Deixar aquela mulher faminta foi
durante muito tempo foi a minha vingança, o meu desabafo.
Tudo começou quando, sem querer, descobri que
Dona Erotildes guardava seu lanche: um pão com manteiga, uma banana mais que madura e um ovo cozido ainda
com casca, numa das gavetinhas do imenso armário com centenas de gavetinhas que
ficava no corredor do segundo andar do colégio onde eu estudava. Praticamente
toda semana eu roubava o lanche da velha e jogava na lixeira do banheiro
feminino. Quem sabe assim, fraca e faminta ela não encontraria energia
suficiente para gritar tanto.
Confesso que este feito me dava
um prazer fenomenal, eu me sentia com a alma lavada a ponto de nem me importar
mais com os gritos e com a falta de educação da “bedel”. Quanto mais ela gritava mais lanches eu roubava e mais fome
ela sentia. Que alegria! Curioso é
que ela não era capaz de pensar em guardar o lanche em outro lugar, ela
insistia em deixá-lo na mesma gavetinha do mesmo armário, assim, eu virei freguesa.
Outra vítima do meu desabafo foi
o zelador do prédio de uma amiga. Ele adorava “puxar o saco” do pai dela
e mostrar serviço dando conta de todos os movimentos da menina. Até a
respiração da Luíza ele controlava. A
coitada não podia aparecer na porta do prédio que o zelador contava com detalhes
tudo que ela tinha feito: a que horas saiu, a que horas voltou, o que vestia,
quantas vezes piscou, com que conversou, para quem sorriu, para que lado olhou.
As coisas mais banais assumiam um caráter suspeito e preocupante depois de
serem relatadas por ele com um tom gravíssimo na fala. Após ouvir o zelador, o
pai da Luíza, homem sisudo e severo, costumava castigar ou dar “altas broncas” na menina que não havia
feito absolutamente nada para merecê-las.
Assistir a tudo aquilo me incomodava demais e
mesmo sem ser da minha conta, eu sentia uma vontade imensa de fazer alguma
coisa para dar o troco, uma vez que Luíza era submissa demais para isso.
Não foi difícil encontrar o canal
da vingança, foi só observar por alguns minutos aquele homenzinho desprezível
para saber como agir.
O fofoqueiro de plantão costumava ler livros baratos comprados em
bancas, lia um atrás do outro, ele era viciado neste tipo de leitura e eu
achava que era dali que ele tirava inspiração para seus devaneios maledicentes,
que atormentavam tanto a vida da minha amiga, então era ali que eu deveria
agir. A menor distração do “delator
capachildo”, eu arrancava as últimas páginas do livro que ele estava lendo
e jogava no vão do elevador, pois lá no fosso elas talvez nunca fossem achadas
e já que ele tinha tanta história pra contar para o pai da Luíza que usasse sua
imaginação para inventar o final das histórias imbecis que lia.
Devo confessar que eu e minha amiga nos
divertíamos muito com aquilo; era o doce
sabor da vingança e que muito nos alegrava.
Repeti várias vezes esse feito e
em todas senti uma enorme satisfação, acho que era isso que o Zorro sentia quando “ferrava” o sargento Garcia para defender os fracos e oprimidos.
Era muito bom ferrar esses fdp.
Mas, ao contrário desses bastardos havia meu pai, a quem eu devo muitas desculpas. Eu fazia com ele uma
brincadeira que hoje, tenho certeza, jamais faria de novo; pois, diferente do
que eu sentia com relação às outras pessoas a quem eu dirigia minhas
brincadeiras vingativas, meu pai era quem eu mais amava e admirava no mundo,
portanto não havia nenhum caráter de revanchismo ou vingança, era a brincadeira
pela brincadeira, apenas o meu pequeno demônio nem sempre adormecido se
manifestando.
Nós morávamos num sobrado com uma
escada de madeira muito bonita, mas um pouco perigosa. Os quartos ficavam no
andar de cima e o do meus pais ficava no final do longo corredor, bem distante
da escada. Havia no meu quarto uma tomada que estava em curto, não entendo bem
dessas coisas, mas acho que o fio da campainha passava por ela e qualquer
eletrodoméstico que se ligasse ali, acionava a campainha. Eu descobri o defeito
da tomada quando fui ouvir minha “fita
cassete” preferida. Foi só apertar o botão “play” e peim, a campainha tocou. Repeti a operação só para confirmar e de
novo, peim, a campainha soou. Cheguei
a ficar brava com aquilo; eu sempre fui um pouco maníaca com organização e ali
era o lugar perfeito para acomodar meu tape e minhas fitas cassete; só mudei de
humor quando tive a idéia de brincar um pouquinho com aquilo.
Fui logo mostrando a descoberta para minha
irmã e explicando o que poderíamos fazer a partir dela; então ficou combinado,
iríamos por em prática nosso plano maligno naquela noite.
A noite chegou e todos se
recolheram. Minha irmã e eu esperamos meus pais se deitarem e vimos quando eles
apagaram as luzes; esperamos alguns minutos e apertamos o botão play do tape,
que já estava devidamente posicionado e de novo a campainha disparou.
Meu pai se levantou apressado,
percorreu o corredor e desceu as escadas; passou pela sala de jantar,
atravessou a sala de estar, para chegar à varanda e finalmente abrir a porta da
frente. Assim que ele passava pelo living, eu e minha irmã desligávamos o tape
e a campainha parava de tocar. Ele abria a porta e para sua surpresa não
encontrava ninguém; então o pobre homem começava a fazer o caminho de volta até
chegar à sua cama, quando eu e minha irmã ligávamos de novo o tape e a
campainha novamente disparava e seguindo o destino de Cícefo, meu pai recomeçava sua jornada noturna que mais uma vez, ia
dar em nada.
Ele já muito nervoso, depois de
repetir o trajeto árduo, voltava ao quarto dizia a minha mãe:
“Nete, se eu pego quem tá brincando há essa hora, eu arrebento”.
Meu pai estava muito longe
de ser um homem violento, mas adorava dizer essa frase.
Eu e minha irmã achávamos muita
graça naquela brincadeira malvada.
Não nos dávamos conta do cansaço
de meu pai nem do stress que o
submetíamos quase todas as noites. Queríamos apenas brincar e repetimos durante
um bom tempo essa brincadeira de mau gosto e disso sim eu me arrependo e muito.
Meu pai nunca mereceu ser vitima
deste tipo de “sacanagem”. Não
tínhamos o direito fazer aquilo com o pobre, e pior, não tínhamos porque fazer
tamanha malvadeza, pois ele foi o melhor pai do mundo. Ele tinha todas as
qualidades de um pai exemplar; era amoroso, carinhoso, zeloso, compreensivo,
amigo, dedicado e extremamente generoso. Não havia nada que ele nos negasse,
ele se desdobrava para fazer nossas vontades e satisfazer todos os nossos
desejos, Estava sempre pronto a demonstrar o quanto se orgulhava de seus filhos
e nem assim eu consegui poupá-lo.
Só uma coisa me consola: ter
tido, depois de alguns anos, a oportunidade de confessar que éramos nós que
tocávamos a campainha daquela casa. Ele não se importou muito com aquela
confissão, apenas sorriu e disse que sempre suspeitou que eu e minha irmã
fôssemos as autoras daquela “pegadinha”.
Não sei se ele realmente sabia
que éramos nós que tocávamos aquela campainha, só sei que ainda hoje me
arrependo do que fiz, mas agora, depois de “colocar
no papel” e confessar o meu remorso, me sinto aliviada e pronta para
escrever mais uma história.

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