Sempre achei um exagero esse
apelido, cabeça grande, eu? Acho que não. Será?
Está certo, sempre usei os bonés no grau máximo de alargamento, também
sempre encontrei dificuldades na hora comprar chapéus; na praia, por exemplo,
experimentava uma média de vinte até encontrar um que ficasse menos apertado e
não interferisse na circulação sangüínea, mas daí a ser cabeção já é um pouco
de maledicência dessa gente.
Desde que eu era criança, meus
tios, especialmente tio Marcos, irmão mais novo de meu pai, me brindavam com
esse apelido, mas eu nunca acreditei ser verdade. Eu achava que eles, por não
ter o que falar de mim, apegavam-se ao ínfimo detalhe, que era a pequena e
quase imperceptível diferença de tamanho da minha cabeça em relação às demais
cabeças existentes no mundo.
O fato é que os membros da minha
família vêm “matando” Freud há várias
gerações; a prática de apelidar as crianças, que apresentem qualquer
característica fora do convencional, rotulando assim os pequenos seres, vem de
muito tempo, é quase uma tradição.
Eles fazem questão de chamar o
baixinho de baixinho, o gordo de gordo e obviamente o cabeçudo de cabeçudo, no
meu caso, cabeção; ou seja,
criatividade zero, mas falta de tato mil.
É a categoria Bullying Familiar. As crianças da minha
família já são esclarecidas desde muito cedo sobre seus defeitos ou
características bizarras, tudo com muita delicadeza e ternura, portanto, quando
forem à escola não mais se importarão ao serem chamadas seja lá do que for,
pois já saberão exatamente o que são, evitando desta forma, surpresas para os
pequenos não mais desavisados.
Segundo os membros de minha
família, esta prática garante aos pais das crianças uma considerável economia
com psicólogos e/ou psiquiatras.
Fora do núcleo familiar ninguém nunca mencionou
absolutamente nada a respeito do
tamanho de minha cabeça; ninguém me chamava de cabeção, mas dentro dele,
cabeção era praticamente meu nome de batismo, depois vinham as versões: resumida
cabeça e a internacional: big had, criadas e adotadas também pelo
nefasto tio Marcos.
Eu nunca me importei com nenhuma
delas, pois insistia em achar que era apenas uma questão de pura falta do que
falar. Piadas do tipo bonezinho na feira ou que espaço tem essa sala, quando eu
entrava eram corriqueiras, apelidos como caixa
d’água e tapinhas na nuca para ver se eu virava “cambalhotinha” eram coisas que nada me incomodavam, até mesmo o
título de Lua dado por meu tio
Victor, irmão de minha mãe, que pertencia a outra ala da família, não me
convencia. Eu e meu superego jamais acreditamos nessa conversa de cabeção; estávamos certos de que éramos
“o máximo” e que tais apelidos eram
apenas uma alusão a minha inteligência privilegiada, mas quando meu humor não estava
muito afável eu usava meu cabeção para acabar logo com a brincadeira, pois
dentro dele, depois de demorada busca devido ao tamanho e ao excesso de
informações armazenadas, eu sempre achava uma resposta capaz de fazer o apelido
de cabeção parecer bem leve, quase um elogio. Eu sabia bater forte, fui
treinada para isso desde muito cedo e aprendi com meu pai que “quem fala o que quer acaba ouvindo o que não
quer”; assim eu conseguia colocar um pouco de respeito naquela baixaria
toda.
O tempo foi passando e o cabeção
foi ficando; ou melhor, a versão resumida dele.
Até hoje eu atendo quando meus
primos ou meus tios me chamam de cabeça,
não vejo o menor problema nisso, pelo contrário, acho até carinhoso, pois me
levam de volta aos tempos de minha infância.
Mas, o que pouca gente sabia é
que desde a idade de doze anos comecei a sentir muitas dores na tal cabeça. No
início, meus pais acharam que talvez fosse necessidade de uso de óculos e me
levaram ao oftalmologista. A suspeita foi confirmada, eu tinha mesmo necessidade
deles e passei a usá-los apenas para leitura, pois apresentei um pequeno grau
de miopia e astigmatismo, mas as dores continuavam e minha mãe costumava dizer
que eu estava “fazendo fita”, então
eu tomava alguns analgésicos, que me livravam por algumas horas e com sorte,
por alguns dias, das dores e dos comentários de minha mãe.
* fazer fita: termo usado por
minha mãe para desvalorizar ou menosprezar a dor e/ou o sofrimento alheio. *
Eu achava que realmente não era nada, pois na
maioria das vezes esquecia de usar os óculos e atribuía as dores a esses
esquecimentos.
Os anos foram passando e as dores
começaram a ficar cada vez mais fortes e eu só fazia aumentar as doses de
analgésicos. Nas fases mais agudas, meu café da manhã era um copo d’água e
quatro comprimidos de analgésico, até que aos quarenta e quatro anos de idade
pude experimentar a pior dor de cabeça de toda minha vida, aumentei ainda mais
a dose dos comprimidos mas eles não deram conta de tanta dor.
Meu marido ficou muito
preocupado, entrou em contato com uma amiga que é médica e pela descrição dos
sintomas, ela deduziu que poderia ser algum problema relacionado à ATM e indicou um especialista que me
atendeu prontamente.
Cheguei ao consultório médico num
estado que até Deus, que testemunhava tudo, duvidava, era difícil não chorar,
pois naquela hora doía tudo, especialmente o último dente da arcada superior. O
Dr. Cláudio me tirou daquela crise depois de receitar remédios bombas e sessões de fisioterapias. Fiquei, por algum
tempo, ligada a um aparelhinho tomando choques no rosto e juntando todos os
choques àquela dor comecei a acreditar que Deus estava me puxando e pela
cabeça, claro.
O Dr. Cláudio me indicou um outro
especialista, desta vez um ortodontista, Dr. Walter, que iria estudar meu caso.
O Dr. Walter era um homem jovem e
de serenidade jamais vista antes por mim, sua fala era mansa e seu jeito muito
calmo. Ele fez a primeira consulta e pediu uma série de exames para ajudar no
diagnóstico. Com os exames em mãos, o Dr. Walter começou a estudar o caso e
depois de algumas semanas, me chamou até seu consultório para me comunicar
sobre a origem do problema que causava tantas dores e o tratamento indicado
para saná-lo.
Eu e meu marido atendemos
imediatamente ao chamado do Dr. Walter e depois da ansiedade da sala de espera
nos dirigimos ao seu consultório, onde nos posicionamos de frente a ele
separados por uma mesa com um grande tampo de vidro.
O médico com muita seriedade e
concentração foi esclarecendo o problema e explicando cada termo técnico com
muita paciência, até que ao final de todas as explicações, ele retirou de um
envelope pardo, a radiografia da minha cabeça.
Naquela hora, pude ver com meus
próprios olhos: meu tio Marcos não estava certo, quem foi realmente preciso na
definição foi meu tio Victor ao me apelidar de Lua, pois à medida que Dr. Walter puxava o exame de dentro do
envelope um clarão surgia bem ali, na minha frente; era o nascimento da própria
Lua iluminada e cheia contrastando
com o acetato negro.
Acabava naquele momento, a minha ilusão, eu
deixara pra trás a alegria da ignorância e constatava: minha cabeça era enorme mesmo!
Enquanto o Dr. Walter prosseguia
com as explicações, mil pensamentos me visitavam. Todas as lembranças das
piadas e das brincadeiras que meus tios e primos faziam comigo ressurgiam e se
embaralhavam como ecos difusos e irônicos, que reverberavam dentro da minha super cabeça e bem ali, naquele
consultório em meio àquele assunto tão importante.
Eu me esforçava para segurar o
riso, que estava prestes a explodir, afinal era uma situação que exigia
seriedade, mas quando aquele especialista deu o diagnóstico não consegui mais
me conter; pedi licença, deitei o cabeção sobre o tampo de vidro da mesa com muito cuidado para não quebrar-lo e
ri descontroladamente.
Meu marido, que já conhecia todas
as histórias e o próprio cabeção, também não se conteve e foi tomado pelo riso
o que contribuía para dificultar ainda mais o meu autocontrole.
As palavras do Dr. Walter foram
as seguintes: “Marta, pelo que pude analisar
através de seus exames, constatei que sua mandíbula é muito pequena em relação
ao tamanho da sua cabeça”.
Ao ouvir aquela “sentença” só me vinha à mente a cara
debochada do meu tio Marcos, que a partir daquele momento poderia contar com
documentos que comprovavam através de cálculos, fotos e radiografias que eu era
mesmo um cabeção e isso desencadeou em mim aquela gargalhada inoportuna.
O Dr. Walter fez silêncio
enquanto esperava que eu e meu marido cessássemos o riso. Fiz esforço sobre
humano para controlar a imensa vontade de rir que me acometia e depois de
alguns minutos, consegui me acalmar.
Diante daquele vexame, me senti na obrigação
de justificar o ataque de riso para o Dr. Walter, que me olhava fixamente
querendo entender minha reação; e expliquei:
_ Me desculpe por isso, Dr. Walter, mas é que eu tenho um tio que sempre
me chamou de cabeção, desde criança e eu me lembrei dele bem agora.
Ele aparentemente entendeu, foi
simpático e sorriu meio desconcertado e eu fiquei muito mais envergonhada, agora
não só pela risada em hora imprópria, mas pela justificava grosseira, afinal,
quem tem um tio dessa laia?
“Acho que nem todo mundo tem a chance de ter uma estreita amizade com
um tio como eu tenho com meu tio Marcos; pra começar a diferença de idade entre
nós é pequena considerando nosso grau de parentesco, além disso, quando eu
entrei na faculdade ele estava no último ano e às vezes nos encontrávamos lá,
naquele ambiente onde era comum encontrar amigos e colegas, não um tio. Também
trabalhei durante alguns anos num jornal da cidade cuja sede era em frente à
loja do meu avô, onde trabalhava meu tio. Essas situações somadas a outras
afinidades que tínhamos como: o gosto pela música, arte, estética e a nossa
tendência a brincadeiras “ácidas”, acabou nos aproximando muito durante uma
fase de nossas vidas; Sempre que nos encontrávamos tínhamos o que conversar.
Falávamos sobre tudo e tínhamos intimidade o suficiente para brincarmos um com
o outro da maneira que bem quiséssemos, mas para quem não sabia desta nossa
ligação, ficava no mínimo estranho saber que um tio tem a coragem de apelidar a
própria sobrinha de cabeção, por isso, aquele momento e naquele consultório, a
minha explicação para justificar o ataque de riso que tive só deixou tudo mais
constrangedor”.
Após o comentário desastroso
sobre meu tio e meu cabeção, percebei pela expressão do Dr. Walter, que se eu
dissesse uma só palavra para justificar ou tentar explicar mais alguma coisa,
acabaria passando uma vergonha muito maior, então resolvi me calar e me
concentrar nos esclarecimentos sobre meu problema.
Resumindo a história, depois de três anos de
aparelho nos dentes e de uma cirurgia que durou mais de oito horas tive o
tamanho da mandíbula aumentado, uma vez que era impossível diminuir o tamanho
da cabeça.
Ganhei duas placas e seis pinos
nos ossos da face, mas perdi alguns dentes, que já estão sendo implantados.
Hoje, passo muito bem; nunca mais tive dores
de cabeça muito fortes, além disso, a freqüência delas também diminuiu
consideravelmente.
Doei para o Dr. Walter toda a
documentação dos estudos e todos os exames que pudessem comprovar a veracidade
dessa história, inclusive a radiografia
comprobatória do tamanho exacerbado do cabeção, pois o ortodontista
precisava daqueles documentos para ilustrar um trabalho.
Não fui bondosa, apenas achei
prudente mantê-los o mais longe possível do meu tio Marcos, pois não quis
entregar de mãos beijadas, um
material rico e fundamentado para o deleite de seu sarcasmo, achei melhor
deixá-los em território mais seguro e neutro.
A cabeça continua do mesmo
tamanho, mas agora a mandíbula é compatível e me sinto mais proporcional.
Enfim,
tudo fica bem quando acaba bem.

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