domingo, 12 de agosto de 2012



Sempre achei um exagero esse apelido, cabeça grande, eu? Acho que não. Será?  Está certo, sempre usei os bonés no grau máximo de alargamento, também sempre encontrei dificuldades na hora comprar chapéus; na praia, por exemplo, experimentava uma média de vinte até encontrar um que ficasse menos apertado e não interferisse na circulação sangüínea, mas daí a ser cabeção já é um pouco de maledicência dessa gente.
Desde que eu era criança, meus tios, especialmente tio Marcos, irmão mais novo de meu pai, me brindavam com esse apelido, mas eu nunca acreditei ser verdade. Eu achava que eles, por não ter o que falar de mim, apegavam-se ao ínfimo detalhe, que era a pequena e quase imperceptível diferença de tamanho da minha cabeça em relação às demais cabeças existentes no mundo.
O fato é que os membros da minha família vêm “matando” Freud há várias gerações; a prática de apelidar as crianças, que apresentem qualquer característica fora do convencional, rotulando assim os pequenos seres, vem de muito tempo, é quase uma tradição.
Eles fazem questão de chamar o baixinho de baixinho, o gordo de gordo e obviamente o cabeçudo de cabeçudo, no meu caso, cabeção; ou seja, criatividade zero, mas falta de tato mil.
É a categoria Bullying Familiar. As crianças da minha família já são esclarecidas desde muito cedo sobre seus defeitos ou características bizarras, tudo com muita delicadeza e ternura, portanto, quando forem à escola não mais se importarão ao serem chamadas seja lá do que for, pois já saberão exatamente o que são, evitando desta forma, surpresas para os pequenos não mais desavisados.
Segundo os membros de minha família, esta prática garante aos pais das crianças uma considerável economia com psicólogos e/ou psiquiatras.
 Fora do núcleo familiar ninguém nunca mencionou absolutamente nada a respeito do tamanho de minha cabeça; ninguém me chamava de cabeção, mas dentro dele, cabeção era praticamente meu nome de batismo, depois vinham as versões: resumida cabeça e a internacional: big had, criadas e adotadas também pelo nefasto tio Marcos.
Eu nunca me importei com nenhuma delas, pois insistia em achar que era apenas uma questão de pura falta do que falar. Piadas do tipo bonezinho na feira ou que espaço tem essa sala, quando eu entrava eram corriqueiras, apelidos como caixa d’água e tapinhas na nuca para ver se eu virava “cambalhotinha” eram coisas que nada me incomodavam, até mesmo o título de Lua dado por meu tio Victor, irmão de minha mãe, que pertencia a outra ala da família, não me convencia. Eu e meu superego jamais acreditamos nessa conversa de cabeção; estávamos certos de que éramos “o máximo” e que tais apelidos eram apenas uma alusão a minha inteligência privilegiada, mas quando meu humor não estava muito afável eu usava meu cabeção para acabar logo com a brincadeira, pois dentro dele, depois de demorada busca devido ao tamanho e ao excesso de informações armazenadas, eu sempre achava uma resposta capaz de fazer o apelido de cabeção parecer bem leve, quase um elogio. Eu sabia bater forte, fui treinada para isso desde muito cedo e aprendi com meu pai que “quem fala o que quer acaba ouvindo o que não quer”; assim eu conseguia colocar um pouco de respeito naquela baixaria toda.
O tempo foi passando e o cabeção foi ficando; ou melhor, a versão resumida dele.
Até hoje eu atendo quando meus primos ou meus tios me chamam de cabeça, não vejo o menor problema nisso, pelo contrário, acho até carinhoso, pois me levam de volta aos tempos de minha infância.
Mas, o que pouca gente sabia é que desde a idade de doze anos comecei a sentir muitas dores na tal cabeça. No início, meus pais acharam que talvez fosse necessidade de uso de óculos e me levaram ao oftalmologista. A suspeita foi confirmada, eu tinha mesmo necessidade deles e passei a usá-los apenas para leitura, pois apresentei um pequeno grau de miopia e astigmatismo, mas as dores continuavam e minha mãe costumava dizer que eu estava “fazendo fita”, então eu tomava alguns analgésicos, que me livravam por algumas horas e com sorte, por alguns dias, das dores e dos comentários de minha mãe.

* fazer fita: termo usado por minha mãe para desvalorizar ou menosprezar a dor e/ou o sofrimento alheio. *

 Eu achava que realmente não era nada, pois na maioria das vezes esquecia de usar os óculos e atribuía as dores a esses esquecimentos.
Os anos foram passando e as dores começaram a ficar cada vez mais fortes e eu só fazia aumentar as doses de analgésicos. Nas fases mais agudas, meu café da manhã era um copo d’água e quatro comprimidos de analgésico, até que aos quarenta e quatro anos de idade pude experimentar a pior dor de cabeça de toda minha vida, aumentei ainda mais a dose dos comprimidos mas eles não deram conta de tanta dor.
Meu marido ficou muito preocupado, entrou em contato com uma amiga que é médica e pela descrição dos sintomas, ela deduziu que poderia ser algum problema relacionado à ATM e indicou um especialista que me atendeu prontamente.
Cheguei ao consultório médico num estado que até Deus, que testemunhava tudo, duvidava, era difícil não chorar, pois naquela hora doía tudo, especialmente o último dente da arcada superior. O Dr. Cláudio me tirou daquela crise depois de receitar remédios bombas e sessões de fisioterapias. Fiquei, por algum tempo, ligada a um aparelhinho tomando choques no rosto e juntando todos os choques àquela dor comecei a acreditar que Deus estava me puxando e pela cabeça, claro.
O Dr. Cláudio me indicou um outro especialista, desta vez um ortodontista, Dr. Walter, que iria estudar meu caso.
O Dr. Walter era um homem jovem e de serenidade jamais vista antes por mim, sua fala era mansa e seu jeito muito calmo. Ele fez a primeira consulta e pediu uma série de exames para ajudar no diagnóstico. Com os exames em mãos, o Dr. Walter começou a estudar o caso e depois de algumas semanas, me chamou até seu consultório para me comunicar sobre a origem do problema que causava tantas dores e o tratamento indicado para saná-lo.
Eu e meu marido atendemos imediatamente ao chamado do Dr. Walter e depois da ansiedade da sala de espera nos dirigimos ao seu consultório, onde nos posicionamos de frente a ele separados por uma mesa com um grande tampo de vidro.
O médico com muita seriedade e concentração foi esclarecendo o problema e explicando cada termo técnico com muita paciência, até que ao final de todas as explicações, ele retirou de um envelope pardo, a radiografia da minha cabeça.
Naquela hora, pude ver com meus próprios olhos: meu tio Marcos não estava certo, quem foi realmente preciso na definição foi meu tio Victor ao me apelidar de Lua, pois à medida que Dr. Walter puxava o exame de dentro do envelope um clarão surgia bem ali, na minha frente; era o nascimento da própria Lua iluminada e cheia contrastando com o acetato negro.
 Acabava naquele momento, a minha ilusão, eu deixara pra trás a alegria da ignorância e constatava: minha cabeça era enorme mesmo!
Enquanto o Dr. Walter prosseguia com as explicações, mil pensamentos me visitavam. Todas as lembranças das piadas e das brincadeiras que meus tios e primos faziam comigo ressurgiam e se embaralhavam como ecos difusos e irônicos, que reverberavam dentro da minha super cabeça e bem ali, naquele consultório em meio àquele assunto tão importante.
Eu me esforçava para segurar o riso, que estava prestes a explodir, afinal era uma situação que exigia seriedade, mas quando aquele especialista deu o diagnóstico não consegui mais me conter; pedi licença, deitei o cabeção sobre o tampo de vidro da mesa com muito cuidado para não quebrar-lo e ri descontroladamente.
Meu marido, que já conhecia todas as histórias e o próprio cabeção, também não se conteve e foi tomado pelo riso o que contribuía para dificultar ainda mais o meu autocontrole.
As palavras do Dr. Walter foram as seguintes: “Marta, pelo que pude analisar através de seus exames, constatei que sua mandíbula é muito pequena em relação ao tamanho da sua cabeça”.
Ao ouvir aquela “sentença” só me vinha à mente a cara debochada do meu tio Marcos, que a partir daquele momento poderia contar com documentos que comprovavam através de cálculos, fotos e radiografias que eu era mesmo um cabeção e isso desencadeou em mim aquela gargalhada inoportuna.
O Dr. Walter fez silêncio enquanto esperava que eu e meu marido cessássemos o riso. Fiz esforço sobre humano para controlar a imensa vontade de rir que me acometia e depois de alguns minutos, consegui me acalmar.
 Diante daquele vexame, me senti na obrigação de justificar o ataque de riso para o Dr. Walter, que me olhava fixamente querendo entender minha reação; e expliquei:
_ Me desculpe por isso, Dr. Walter, mas é que eu tenho um tio que sempre me chamou de cabeção, desde criança e eu me lembrei dele bem agora.
Ele aparentemente entendeu, foi simpático e sorriu meio desconcertado e eu fiquei muito mais envergonhada, agora não só pela risada em hora imprópria, mas pela justificava grosseira, afinal, quem tem um tio dessa laia?

“Acho que nem todo mundo tem a chance de ter uma estreita amizade com um tio como eu tenho com meu tio Marcos; pra começar a diferença de idade entre nós é pequena considerando nosso grau de parentesco, além disso, quando eu entrei na faculdade ele estava no último ano e às vezes nos encontrávamos lá, naquele ambiente onde era comum encontrar amigos e colegas, não um tio. Também trabalhei durante alguns anos num jornal da cidade cuja sede era em frente à loja do meu avô, onde trabalhava meu tio. Essas situações somadas a outras afinidades que tínhamos como: o gosto pela música, arte, estética e a nossa tendência a brincadeiras “ácidas”, acabou nos aproximando muito durante uma fase de nossas vidas; Sempre que nos encontrávamos tínhamos o que conversar. Falávamos sobre tudo e tínhamos intimidade o suficiente para brincarmos um com o outro da maneira que bem quiséssemos, mas para quem não sabia desta nossa ligação, ficava no mínimo estranho saber que um tio tem a coragem de apelidar a própria sobrinha de cabeção, por isso, aquele momento e naquele consultório, a minha explicação para justificar o ataque de riso que tive só deixou tudo mais constrangedor”.

Após o comentário desastroso sobre meu tio e meu cabeção, percebei pela expressão do Dr. Walter, que se eu dissesse uma só palavra para justificar ou tentar explicar mais alguma coisa, acabaria passando uma vergonha muito maior, então resolvi me calar e me concentrar nos esclarecimentos sobre meu problema.
 Resumindo a história, depois de três anos de aparelho nos dentes e de uma cirurgia que durou mais de oito horas tive o tamanho da mandíbula aumentado, uma vez que era impossível diminuir o tamanho da cabeça.
Ganhei duas placas e seis pinos nos ossos da face, mas perdi alguns dentes, que já estão sendo implantados.
 Hoje, passo muito bem; nunca mais tive dores de cabeça muito fortes, além disso, a freqüência delas também diminuiu consideravelmente.
Doei para o Dr. Walter toda a documentação dos estudos e todos os exames que pudessem comprovar a veracidade dessa história, inclusive a radiografia comprobatória do tamanho exacerbado do cabeção, pois o ortodontista precisava daqueles documentos para ilustrar um trabalho.
Não fui bondosa, apenas achei prudente mantê-los o mais longe possível do meu tio Marcos, pois não quis entregar de mãos beijadas, um material rico e fundamentado para o deleite de seu sarcasmo, achei melhor deixá-los em território mais seguro e neutro.
A cabeça continua do mesmo tamanho, mas agora a mandíbula é compatível e me sinto mais proporcional.
Enfim, tudo fica bem quando acaba bem.

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