sábado, 20 de outubro de 2012



Toda mulher merece uma biba. É incrível, mas somente uma boa biba pode fazer com que uma mulher se sinta realmente mulher; homem nenhum tem esse poder. Só uma biba sabe nos dar o devido valor, a atenção merecida e a dedicação que nós mulheres esperamos, muitas vezes em vão, dos homens.
Ter uma biba amiga é ter orientação. A biba te situa, te corrige, te aplaude e te repreende quando todos estão com “peninha” de você.
Com franqueza contundente, a biba é capaz de criticar sua roupa, seu cabelo, suas atitudes e sua postura sem jamais te ofender ou diminuir.  Ela espera e exige mais de você, pois acredita e sabe que você pode dar.
Uma biba franca vale mais que qualquer manual de comportamento ou consultoria de moda. A bibaantecede”, está ligada no que acontece e no que ainda vai acontecer. Ela tem sexto, sétimo e oitavo sentidos e não pensa duas vezes antes de mandar pro quintos dos infernos todos aqueles que ela pressente que te farão algum mal. A biba te protege e te alerta.
Dizem que quando Deus fecha uma porta Ele abre uma janela, pois bem, minha janela tinha o nome de Silvio. Quando todas as portas pareciam se fechar bem na minha cara, Silvio chegou colorido, alegre, esfuziante e ensolarado. Através dele pude enxergar muitas coisas que ainda não tinha visto no mundo e em mim mesma.
Essa janela me deu a visão das possibilidades.
Silvio é a biba do meu coração; só ele foi capaz de me entender numa fase em que eu mesma não me entendia.
Divertido, inteligente, sagaz e disposto, Silvio tinha sempre a solução; dormiu várias noites em minha casa só para me fazer companhia ou cuidar de Bruno quando eu tinha trabalho para fazer.
Enquanto eu passava a noite redigindo um jornal que ia ao ar às seis da manhã, Silvio e Bruno aprontavam de tudo naquele apartamento: faziam bolo de madrugada e acabavam com a cozinha, jogavam videogame e discutiam o tempo todo, assistiam a filmes de aventura com direito à pipoca e inventavam brincadeiras ativas e barulhentas.
Silvio promovia todo tipo de bagunça para deixar Bruno feliz e isso era tudo que o menino precisava naquela fase.  
Era comum ouvir alguns berros de Silvio dizendo: Bruno, “traz” água pra Tata. Ah, menino, obedece a Tata.
Bruno rindo muito atendia ao comando. Era muito bom ter minha casa alegre novamente.
 A energia de Silvio tomava conta de todo o ambiente. Eu me sentia segura e tranqüila e podia trabalhar despreocupada, pois sabia que meu filho estava em boas mãos.
Toda a dedicação e carinho que Silvio dispensava a mim e a Bruno tinha um preço: torta de atum. Silvio era apaixonado por minha torta de atum e praticamente me obrigava a fazê-la todas as vezes que estava em casa.
Ele gostava mais de torta de atum que as Tartarugas Ninjas gostavam de pizza.
Era lei: todo final de semana eu tinha que fazer a “bendita” torta de atum e vê-lo devorá-la se derretendo em elogios, o que me deixava muito contente, afinal era o mínimo que eu podia fazer por ele.
Dei a receita dessa torta mais de mil vezes para Silvio, mas ele sempre dizia que a minha era melhor. Eu sabia que aquilo era um truque, mas fingia acreditar e continuava a presenteá-lo com minhas tortas.
Silvio estava sempre em casa e participava da minha vida como fazem os bons amigos.
Saíamos juntos aos finais de semana e tínhamos um barzinho de nossa preferência. Falávamos sobre livros, música e dança uma de suas paixões. Também conversávamos muito sobre nós mesmos, gostávamos de nos confessar.
Ele era um aplicado aluno de ballet e adorava fazer coreografias malucas para as músicas de Caetano Veloso, especialmente, Estrangeiro. Suas coreografias quase sempre me matavam de rir. Era muito engraçado ver minha sala sendo ocupada por um metro e noventa de pura palhaçada.   
Minha amizade com Silvio ficou mais estreita na ocasião da morte de meu pai; foi nesta fase que ele generosamente se aproximou de mim, pois sabia que eu estava frágil e  precisaria dele.
Já no velório ele compareceu e deixou claro que eu poderia contar com sua amizade.
Sua presença voluntária e sóbria naquele velório: um metro e noventa trabalhados na mais pura elegância negra, conquistou não somente minha amizade, mas também minha admiração.
O corpo de meu pai foi velado na capela do hospital onde ele morreu. A equipe médica que cuidou dele era constituída por muitos de seus amigos que quiseram prestar a última homenagem. Assim, abriram a pequenina capela do hospital para que o corpo de meu pai fosse velado.
A capelinha era ligada a um amplo saguão, que foi pequeno para acomodar tantas pessoas que vieram para a despedida de meu amado pai.
A noite era fria, chuvosa e triste e eu sentia uma dor em meu peito que nunca havia experimentado antes e jamais poderia imaginar que alguma coisa ou alguém pudesse arrancar de mim um sorriso naquela hora. Minha tristeza era imensa e parecia irreversível.
Vi de longe quando Silvio chegou ao velório, foi muito bom ver aquele rosto amigo se aproximando e assim como eu, todas as pessoas perceberam sua chegada, afinal não se tratava de uma pessoa comum; era a versão dark de Silvio; e isso era grande e escuro demais para passar despercebido numa aglomeração brasileira. Algumas pessoas juraram que Darth Vader tinha estado no velório de meu pai, mas eu sabia que se tratava de Silvio, meu grande amigo.
 Consternado pela minha dor, Silvio chegou ao velório compenetrado. Nunca tinha visto aquela biba tão sóbria e tão séria.   
Velório lotado, os amigos e parentes estavam muito triste pela grande perda. A morte de meu pai pegou todos nós de surpresa. É sempre difícil “acreditar” na morte, mais ainda quando ela chega de repente.
Eu estava sentada ao lado do caixão, com meu coração em pedaços e tentando agüentar a dor que me abatia. Recebia os pêsames de todos com o corpo anestesiado pela dor de minha alma.
Silvio, com todos os seus sentidos alerta, percebeu a dimensão de meu sofrimento e também quis mostrar o seu pesar. Ele se aproximou de mim como se eu fosse a única naquele lugar e com muita disposição preparou um forte abraço, o que com certeza me confortaria.
No ímpeto do abraço confortante, a “pequena biba” inclinou seu “pequeno corpo” para frente, projetando assim sua “pequena bunda” para trás e o improvável aconteceu: uma das coroas de flores que homenageava meu pai veio abaixo, produzindo um barulho inesperado e nada apropriado para o momento. Todos os olhares se voltaram para aquela criatura, que definitivamente não precisava de mais nada para chamar a atenção do que tudo aquilo que a natureza já havia lhe dado.
A expressão no rosto de Silvio eu jamais vou esquecer. Seu constrangimento e sua cara de “e agora” ainda guardo na lembrança.
Silvio estava desconcertado e pedia desculpas até ao defunto, ao mesmo tempo em que se apressava para catar do chão a coroa derrubada.
Eu, que achava que nunca mais sorriria me vi sorrindo. Um sorriso espontâneo, um sorriso possível em meio a tanta dor.
Somente Silvio poderia ter conseguido tal mágica, somente ele era dono de tanto poder. Mais uma vez, através dele, minha janela, vislumbrei por um instante fugaz a possibilidade de sorrir novamente.
Obrigada, amigo.
     

ps. Silvio vive hoje em Nova York. É um profissional bem sucedido e ainda mantemos contato e nos falamos sempre que possível. Ele é o primeiro a ler tudo que escrevo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário