domingo, 30 de setembro de 2012

Quando o Bruno era criança ele questionava tudo. Fazia perguntas das mais variadas formas e de todos os tipos, desde as mais simples às mais constrangedoras. Ele tinha uma curiosidade além do normal; aliás, ele tinha muitas coisas além do normal, incluindo uma incomum capacidade de compreensão sobre muitos assuntos, o que me fazia, muitas vezes, exagerar nas explicações.

Ainda bem pequeno, por volta dos quatro anos, ele queria por que queria saber onde estava antes de estar na minha barriga. Claro que eu não podia dar a resposta real: no saco do seu pai, resolvi então dizer que ele era um anjinho, que estava no céu e de lá veio parar direto na minha barriga.
Senti-me um pouco pretensiosa com essa explicação; afinal, de certa forma, eu estava comparando o nascimento do Bruno ao nascimento do menino Jesus, e acredite, não há e nunca houve qualquer semelhança entre mim e a Virgem Maria, mas de qualquer forma, minha resposta foi suficiente para sossegar um pouco a criança.
Os anos foram passando e o repertório de perguntas só fazia aumentar: mãe, minha avó “atinge” o cabelo pra fingir que é moça? Mãe, por que a Cristina tem bigode se ela é mulher? É claro que ele perguntava isso olhando pra cara da própria Cristina. Mãe, por que ele não tem dente. Mãe, por que o nariz dela parece morango? Mãe, por que ele é feio. Mãe, por que a nonna é murchinha? Mãe, por que ela é velha? E daí por diante.
Quanto mais eu temia suas perguntas, mais ele caprichava.
Algumas perguntas eram verdadeiras “pegadinhas”; por exemplo: Mãe o que é lenda? Depois de ouvir minha longa explicação sobre o surgimento e as inverdades a respeito dessas lendas ele perguntou: Mãe, Papai Noel é lenda? Pronto eu estava encurralada. Se dissesse a verdade acabaria precocemente com a deliciosa fantasia do Natal, que é o acalento da infância de todos nós, além de funcionar muito bem como instrumento de chantagem para os pais durante quase todo o ano. Por outro lado, se eu mentisse e ele já suspeitasse da verdade, o que me parecia bem provável, eu seria a mãe mentirosa e correria o risco de perder a confiança do meu único filho. Sem saída e buscando uma solução rápida, optei pela verdade, que me pareceu o mais correto a fazer naquele momento. Péim, errei o botão, pois  imediatamente após ouvir a resposta verdadeira nu e cruamente, Bruno concluiu: então, Papai Noel não existe? Com os olhos cheios de lágrimas, o menino correu para o quarto e passou dois dias me olhando com olhinhos decepcionados; o que “acabou” comigo.
Depois disso, descobri que muitas vezes, a resposta errada é justamente a opção mais correta e durante alguns anos, na época do Natal, eu me sentia muito mal e culpada por ter errado na opção.

É impressionante como as mães erram por medo de errar. Meu coração pedia para eu mentir, mas a “merda” da minha consciência me aconselhou a dizer a verdade e eu acatei o conselho e acabei pondo fim à fantasia de um garotinho; o meu filho.
 Eu deveria ter deixado minha intuição tomar conta daquela situação, ao invés disso resolvi pensar e fiz a pior escolha.
Por essas e por outras é que acredito quando dizem que é tão bom ser avó.
As avós estão comprometidas com a alegria e com a fantasia, elas querem a felicidade dos netos e nada mais importa. Vó é a mãe que “fechou pra balanço”; é a mulher que aprendeu a ser mãe, ela teve tempo de pensar, de ponderar, de respeitar os sentimentos e de pesar na real importância das coisas nesta tão breve vida.
Acho que ser avó é a possibilidade de nos redimir pelos erros que cometemos como mãe, ser avó é conseguir da vida uma raríssima segunda chance.

Meus amigos e meus familiares costumavam dizer que eu tinha sempre uma boa resposta para tudo, mas Bruno veio para por fim de vez a esse conceito sobre a minha pessoa.
Ele conseguia me deixar literalmente sem resposta.
Certo dia, Bruno me perguntou se eu trabalhava para “comprar dinheiro” e eu disse que não, que eu não comprava dinheiro, mas sim trocava meu trabalho por dinheiro e que era assim que as pessoas faziam; trabalhavam para ganhar dinheiro em troca.
Continuando o assunto ele perguntou se eu usava o dinheiro para “comprar cheques” e eu expliquei que não e que o dinheiro que ganhava com meu trabalho, eu guardava no banco. O banco me dava talões de cheque para que eu pagasse minhas compras; e as pessoas das lojas eram quem trocavam os cheques que eu passava pelo meu dinheiro que ficava guardado no banco e me alonguei um pouco mais na explicação dizendo que quando havia dinheiro para ser trocado por cheque nós adultos costumávamos dizer que o cheque tinha fundo e quando o dinheiro acabava, lá no banco, o cheque ficava sem fundo.
Bruno prestava atenção em tudo que eu dizia e logo após minha explicação ele perguntou se meu cheque tinha fundo para eu comprar um estojo igual ao que ele tinha visto com um coleguinha no colégio. Eu disse que sim, mas que ele teria que esperar até a próxima semana, pois no momento eu estava com pouco fundo; ou seja, pouco dinheiro e não queria ficar sem fundo; portanto meus cheques estavam com pouco fundo e era melhor esperar que ele tivesse mais fundo.
Depois de um tempo percebi que foi uma “over explicação” para uma criança de cinco anos.
O estojo que meu filho queria era muito cobiçado pelos alunos da sua escola, pois contava com uma gama de inutilidades jamais vista. O tal estojo tinha de tudo: tesoura, lente de aumento, espelho, lanterna, cortador de grama, cortador de unha, cortador de charuto, pé de cabra, pé de coelho, chave inglesa, chave Phillips, trio elétrico, desembaçador, desfibrilador, abridor de latas, de garrafa, lixadeira, furadeira, enfim, todo tipo de inutilidade que uma criança cursando o pré-primário nunca precisaria.
Aquele estojo era surrel; era a versão retangular doInspetor Bugiganga”. Era praticamente um “Inspetor Bugiganga pra viagem” e com tantos acessórios desnecessários, é claro que não sobrava muito espaço para se colocar coisas importantes para sua vidinha acadêmica como lápis, borracha, canetas, giz de cera, etc.
 Além de absolutamente desnecessário o preço de lançamento do estojo era proporcional ao tamanho e à quantidade de seus acessórios inúteis. Mas fazer o que, aquele objeto era, naquele momento, o sonho de consumo do meu filho e isso, pra mim, valia muito.
Pedi então que ele esperasse apenas alguns dias e nós iríamos até a loja para comprar o tão desejado estojo.
Assim que recebi meu salário convidei Bruno para irmos até a loja a fim de compramos o cobiçado estojo. Mais que depressa o menino aceitou o convite e saímos de casa conversando como era de costume. Ele me contava como era o estojo que tinha em mente, a cor que ele iria escolher e o quanto eram importantes todos aqueles acessórios. Eu me divertia com a conversa do menino.
 Chegamos à loja e uma vendedora muito simpática e solícita veio nos atender prontamente. Eu lhe pedi que mostrasse os modelos de estojo daquele tipo que ela dispunha. A moça apresentou com presteza todos os modelos e demonstrou todas as funções idiotas daquele objeto inacreditavelmente absurdo.
Bruno olhava maravilhado para todos eles e depois de pensar um pouco optou pelo mais completo; ou seja, o que continha o maior número de inutilidades. Pedi então que ela o embrulhasse e abri minha bolsa para dar início ao pagamento da mercadoria bizarra.
Naquela época não usávamos cartões de crédito para as compras, a função dos cartões era basicamente retirar dinheiro dos caixas eletrônicos.
Enquanto eu tirava o talão de cheques da bolsa, a vendedora se desmanchava em sorrisos e rasgava elogios ao meu filho dizendo o quanto ele era bonito e esperto por escolher aquele estojo. Eu retribuía a simpatia a mim oferecida e agradecia também com sorrisos, fingindo não perceber sua estratégia de vendas.
Tudo corria civilizadamente bem, tudo estava formalmente perfeito, parecia até um diálogo de compra de “lição de livrinho de inglês”, recheado de por favores e obrigados, até que no momento exato em que eu iniciei o preenchimento do cheque, Bruno fez a seguinte pergunta em alto e bom tom: Mãe, tem fundo?
Aquelas palavras reverberaram por toda loja; undo, undo, undo. A vendedora, que antes se desmanchava em amabilidades, me olhou como se eu fosse o Rabino Henry Sobel, é aquele das gravatas. Pude ver claramente a desconfiança em seus olhos e o seu rosto, a partir daquele instante, não insinuou mais nem um sorrisinho, nem que por educação ou solidariedade pelo meu constrangimento.
Fique ali, sem graça, sem jeito, sem ação e mais uma vez sem resposta.
Que situação, que vergonha!
A pergunta do Bruno não deixava dúvidas para ninguém naquela loja e eu podia até ouvir o pensamento das pessoas: essa mulher é uma tremenda 171, ela faz isso todo dia, dá cheques sem fundos em todas as lojas da cidade. Se não fosse assim, essa criança não estaria falando isso. Que criança pergunta para a mãe se o cheque tem fundo; só mesmo filhos de estelionatário têm essa preocupação. Crianças não mentem, mas adultos dão cheque sem fundo, ah, se dão! Olha ela ali. Vigarista!
Acho que foi isso que o Ronaldo Ésper sentiu quando foi pego roubando vasos de túmulos no cemitério de São Paulo.
Eu, totalmente desconcertada, quis amenizar a situação com o clássico comentário: Ah, esse menino! Constatei que não convenci e “cretinamente” continuei: Quem te disse isso, filho?  Resposta: você
Aquela foi a pior pergunta que eu poderia ter feito para Bruno naquele momento. A péssima escolha me deixou encurralada de novo e com cara de anus bem ali no meio da loja; resolvi dizer: Claro que tem fundo, filho, do contrário eu não estaria aqui comprando esse estojo pra você. Não podemos comprar nada sem dinheiro.
-Mas você “tá” dando cheque.
-Mas o cheque tem fundo e chega. Vamos embora.
Depois dessa última observação, a vendedora pediu para que eu colocasse no verso do cheque o meu telefone, meu endereço, RG, CPF, só faltou pedir atestado de bons antecedentes, o meu tipo sanguíneo e fator rh.
 Atendi ao pedido desconfiado da moça, que continuava me olhando seriamente; ela estava ficando com cara de “boi zebu” e eu já estava até vendo a hora que ela ia arrancar aquele estojo das minhas mãos.
Eu queria sair logo daquele lugar, mas resolvi não deixar que meu desejo transparecesse. Agradeci a vendedora e saí da loja com a calma dos justos, afinal, estava tudo certo, meu cheque tinha fundo, eu tinha dinheiro para comprar aquela mercadoria, não havia do que me envergonhar, não sei por que me senti tão constrangida.
Ninguém sabia, mas a pergunta do meu filho tinha um fundamento e não queria dizer que eu era uma caloteira.
Ao deixar aquela loja comecei a ver o fato com outros olhos e percebi que damos importância excessiva à opinião alheia.
Bruno estava feliz com seu novo estojo, era a felicidade e a leveza da inocência, inocência essa que o protegia dos olhares desconfiados e nem de longe deixava que ele percebesse as suspeitas e as deduções injustas dos pensamentos dos adultos. Ele estava blindado pela infância e pela alegria.
Ele tinha um estojo novo, cheio de funções inúteis, que eram imprescindíveis para alimentar sua imaginação e isso me bastava.
Dane-se a opinião dos outros.

Dias depois, passei na mesma loja para comprar uma agenda e fui atendida com muita simpatia pela mesma vendedora, afinal, ela havia constatado: meu cheque tinha fundo.

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