Através do Facebook começamos a
programar nosso encontro.
Vinte cinco anos havia se passado
desde nossa formatura e durante esse tempo, muitas vezes, a gente se perde
entre aquilo que achávamos que seríamos e aquilo em que realmente nos
transformamos. Eu confesso, imaginei pra mim muitas coisas que jamais
aconteceram e tantas outras aconteceram sem que nunca tivesse imaginado.
Eu temia reencontrar a jovem que
deixei num dos bancos da faculdade. Temia que ela me cobrasse por não tê-la
conduzido como sonhara. Temia não reconhecê-la.
Imaginei que assim como eu, meus
colegas talvez não me reconhecessem, afinal, eu vestia um outro corpo, bem mais
denso e o rosto já estava marcado pelos anos vividos.
A data do encontro se aproximava
e por várias vezes pensei em faltar.
“Deixa pra lá, ninguém vai sentir minha falta”.
Pura covardia, puro medo. Sei lá, medo da
rejeição, medo da emoção.
Achei que seria desconcertante encarar meu
passado e como justificar o futuro promissor que jamais aconteceu.
Na minha cabeça tola, presunçosa, vaidosa,
apenas eu havia envelhecido, apenas eu havia passado por dificuldades, perdas e
decepções. Esqueci das pessoas que vivem e sobrevivem
em cada um de nós. Não me dei conta que a vida acontece para todos.
O dia do encontro estava cada vez
mais perto e eu não conseguia me decidir se ia ou não. Foi um longo talvez, até
que a saudade e a insistência de Lucila, amiga querida, me fizeram colocar no
comando, aquele que nunca deveria ter saído: o meu coração.
Sorte. Muita sorte ter a lúcida Lucila como
amiga e um coração ainda corajoso pra
obedecer.
O dia do encontro finalmente
chegou e eu acordei misteriosamente feliz. Revirei meus guardados a procura do
suvenir há vinte e cinco anos esquecido: uma toalha, que revestia a mesa do bar
no último encontro logo após nossa formatura. Nela havia assinaturas e recados
de todos que compareceram àquele encontro.
Enquanto eu procurava pensava nos
amigos, Marcelo, Uel, Adriana, Claudia, Ailson, Gandhi, Crescenzo, Cristina, Zé
Márcio e tantos outros que há muito não via.
Agora sim, minha alma estava no comando. Era
ela quem iria me guiar.
Já no caminho me percebi feliz.
Cheguei.
Coração disparado. Muita emoção.
Respirei fundo e fui entrando no local do evento com calma, queria observar
antes de me aproximar.
Que lindo! Quase todos estavam
lá. Gente alegre, gente inteligente, gente criativa e irreverente. Gente
saudável, gente do bem. De longe, pude ouvir o falatório e as mesmas
gargalhadas que costumava ouvir no pátio da universidade. Eles estavam lá,
amigos queridos.
Apressei o passo, queria muito abraçá-los.
Fui recebida com carinho surpreendente e quis
muito todos os beijos e abraços que ganhei.
Aquela era
minha tribo e claro, todos me reconheceram apesar dos anos, pois ali
estavam nossas almas e almas não envelhecem e as almas afins sempre se
reconhecem.
Nosso coração de estudante estava lá e ainda batia forte, franco,
fresco.
Durante seis horas tive de volta
meus vinte e poucos anos.
Nada mais envelhecera. Naquelas
horas o tempo jamais havia existido.
Muita conversa e muita cerveja,
muito carinho, muita alegria. Tudo como antes. Até Marcelo incorporou o famoso, o incomparável, o inimitável Mário
Lúcio e cantou seus hits.
Saí daquele encontro sentindo, no
corpo e na mente, a idade da minha alma: vinte
e poucos anos...
Comecei a caminhar “jovem e displicente” em direção a saída, mas antes precisava ir ao
sanitário e resolvi pedir informação a jovem recepcionista, que gentilmente me
apontou a direção dizendo: a senhora pode ir por ali. Senhora? Senhora?
“Aquele” senhora ficou reverberando na minha
cabeça: ora, ora, ora...
Naquele momento, caí em mim, e
acredite, caí tão forte que pude ouvir até o barulho.
Como pode? Não era assim que eu estava! Definitivamente eu não estava
senhora! Eu tinha acabado de resgatar os meus vinte
e poucos anos! Será que não dava pra ver?
Pra completar o choque de realidade, na
direção indicada pela moça, havia uma enorme porta de vidro que impiedosamente me refletiu, me revelou...
Lastimei:
Que pena...
Os espelhos não refletem a alma.
Obs. A toalha, que guardei
durante vinte e cinco anos, confiei à minha amada Adriana, a quem julguei ser
sucessora natural.
Gandhi, em sua infinita sabedoria, tratou logo de
apelidar a relíquia de “toalha sudário”.
Ele foi preciso, pois aquele pedaço de pano envolveu e preservou intactos os
melhores anos de nossas vidas.
TEXTO DEDICADO À TURMA DE 1984 DO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINAS.

Em poucos dias teremos esse texto publicado, juntamente com a foto da turma na Revista Stamppa. Obrigada Marta Porto, bom demais estar com todos vocês! Beijos
ResponderExcluirBju,Rose
ExcluirNão esquece da correção,tá.
Muito legal o texto Marta !!Gostoso de ler , gostoso de reviver ..obrigado.
ResponderExcluirObrigada MEU AMIGO, não falte no próximo tá. Quero te vê, bju.
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