Dizem que a adolescência é a pior
idade do ser humano. Eu discordo, a pior idade de uma pessoa, na minha opinião,
é a pré-adolescência. A gente fareja a mudança, mas não sabe quando ela vai acontecer
efetivamente, a gente sente que a transformação está próxima, mas não
conseguimos definir nem quando e nem no que vamos nos transformar e pior, não
sabemos nem se vamos gostar do que está por vir; não teremos nenhuma opção, “a gente vai ter que se engolir”.
Não nos reconhecemos mais, não
sabemos mais quem somos, do que gostamos e do que vamos gostar dali por diante.
A pré-adolescência chega acabando
com a graça da infância, com a belezinha que você era até então e com a
paciência que os adultos costumavam ter com você.
Sua ignorância não é mais sinal de inocência,
é burrice mesmo, suas manhas e
desejos, não são mais necessidades ou sinal de algum desconforto, é falta de sova mesmo, seus gestos desengonçados, não são mais perdoados, é falta de “modos” mesmo e merece uma sova mesmo.
Seu cabelo fica diferente, sua pele fica “crespa”,
seu nariz vira uma bolinha e aquela “carinha
de anjo” subitamente se transforma em carinha de banjo.
No seu corpo, aparecem carocinhos,
que logo se transformarão em seios, mas você ainda não sabe disso, por enquanto
são só carocinhos doloridos, começa o surgimento de pelinhos, um aqui, outro
acolá, e não adianta removê-los, eles voltarão, em bando e bem, bem mais fortes.
Tudo que tentamos esconder fica
ainda mais evidente e tudo que se faz para melhorar o que parece tão ruim pode
ter um efeito inesperado e contrário. Nesta fase, tudo pode e vai dar errado.
Você faz graça e ninguém ri, você chora e
ninguém se importa, você grita e ninguém te ouve, você vai fazer pose e cai,
então o remédio é fugir de casa para alguém sentir sua falta. Você “foge” de casa e ninguém vai te buscar.
O dia acaba; você sente medo e é obrigada a voltar com cara de fezes e ainda, enfrentar o olhar de
reprovação de seus pais, isso sem mencionar a cara de deboche dos seus irmãos.
Tem vergonha maior que essa? Não,
pelo menos não nessa idade.
Na pré-adolescência, o que é bom
fica ruim e o que é ruim fica pior. Essa
regra vai valer depois dos 50, mas
graças a Deus, a gente ainda não sabe disso.
Bem, eu estava cara a cara com
minha pré-adolescência e percebi que se não fizesse alguma coisa por mim,
ninguém mais faria. Percebi que apenas eu
poderia saber exatamente do que precisava. Somente
eu saberia como melhorar aquela
situação. Somente eu sabia o que deveria ser mudado em mim
e decidi: daquele dia em diante eu
seria uma nova pessoa.
Seria linda, inteligente e
graciosa e para isso, iria me trancar no banheiro, realizar alguns
procedimentos e reaparecer diante dos olhos de todos transformada em uma nova e
admirável pessoa.
Ao banheiro... Lá estavam todas
as ferramentas que eu precisava para a transformação. Tranquei a porta. Precisava
de total solidão e concentração para por em prática o plano que me levaria ao
sucesso total. Separei com cuidado: tesoura, aparelho de barbear e pinça.
Antes de dar início a
transformação, ensaiei gestos de efeito, caras e bocas, que certamente me
tornariam mais charmosa, mais glamourosa, mais fashion. Eu sabia o que queria e
sabia por onde começar.
Comecei pelas pernas. Armei o
aparelho de barbear, aquele com lâmina
dos dois lados e fui feroz e velozmente raspando todos os pelos ralos das
pernas grossas. Acabei o serviço, aquilo ardia muito, mas tudo bem, achei que
era assim mesmo; aqueles pelos estavam lá há anos e a pele só ressentiu
a remoção.
Pernas feitas. Vamos lá, chegou a
vez das sobrancelhas. Era preciso arrancar todo aquele excesso; era muito pelo
só pra ficar acima dos olhos, que utilidade eles poderiam ter, afinal? Eu tinha
que acabar com aquilo. Comecei pela sobrancelha direita e tirei o que julguei
necessário, passei para a esquerda, e comecei a copiar o trabalho que tinha
feito na direita. Tira de um lado, arranca de outro, acerta daqui, compensa dali,
pronto! Serviço feito.
Era a vez dos cabelos, esses
mereciam mais atenção e cuidado, afinal, é como mamãe sempre diz: eles são a moldura do rosto. Temos que cuidar muito bem dos cabelos, pois são
eles que nos enfeitam, e os meus enfeitavam mesmo; eram fortes, lisos, fartos e
brilhantes.
Tesoura na mão, preparar, pronto!
O primeiro talho já foi. Só mais um pouquinho, pronto! Agora o golpe final.
Acabou!
Meu Deus! Acabou mesmo...
Em menos de meia hora, eu tinha
acabado com as sobrancelhas, com o cabelo e com as minhas pernas, que ardiam
desesperadamente. Percebi rapidamente que a função das sobrancelhas é,
sobretudo, manter a harmonia e a estética facial. Era triste admitir eu não
havia me transformado, eu tinha me deformado.
Nunca vi nada mais feio do que aquilo que se refletia no espelho daquele banheiro.
Ele me mostrava claramente a cara da burrada que eu acabara de fazer. Fiquei
perplexa. Eu ainda não sabia que a franqueza de um espelho pode acabar com a
gente. Eu não sabia que cabelo errado magoava tanto. E minhas sobrancelhas; o
que era aquilo?
Mil pensamentos me atormentavam
naquele momento, uma sensação de desespero me invadia: E agora? Como vou sair
deste banheiro? Como vou enfrentar o mundo lá fora? E minha mãe?
Gente, Minha mãe... Agora ela me mata!
Foi só pensar nela e pimba! Ela começou a bater na porta
perguntando:
- Marta, por que você está demorando tanto?
-Nada, mãe, já vou.
-O que você tá fazendo?
Ela nunca fazia uma pergunta só.
-Nada, já to saindo!
-Só vou tomar um banho e já vou.
-“Ta” bom, então não demora, seu pai “ta” chegando e a Celina já vai
servir o almoço.
Celina era a empregada, que eu
adorava e que trabalhou anos em casa, mas esta história fica pra depois, o que
interessa agora é como eu vou sair dessa.
Liguei o chuveiro para ganhar
tempo e pensar como eu poderia disfarçar todas as burradas que acabara de fazer. Era preciso calma, muito calma.
Entrei no banho, achei que se lavasse os cabelos poderia secá-los e arrumá-los
de maneira que ninguém percebesse o que eu tinha feito. As pernas ardiam ainda
mais em contato com a água quente e com o sabonete Phebbo; nessa hora nada podia acrescenta mais ardor às minhas
pernas esfoladas do que aquele sabonete.
Pronto, acabei o banho, as pernas
ainda ardiam e os cabelos pareciam um caso perdido; e eram mesmo.
Achei que se passasse um creme
nas pernas poderia aliviar a dor, sempre via minha mãe fazer aquilo. Que nada,
consegui piorar ainda mais a sensação de ardência.
Eu já estava com vontade de
chorar, a dor das pernas se misturava ao desgosto da minha aparência e ao medo
de encarar minha mãe, que certamente, iria acabar de me esfolar. Mas não dava
tempo para chorar eu tinha que agir.
Peguei o secador e a escova e
mãos a obra, comecei a secar os cabelos. Naquela época os secadores de cabelo
eram fracos, pesados e nada práticos de usar, mas eu tinha que conseguir. Era
minha única chance. Sequei bem os cabelos e os penteei com muito capricho e
quando me observei no espelho tive um choque de realidade. O banho, o
secador, a escova haviam sido em vão, estava tudo um horror.
O cabelo liso tinha tomado a
forma de algo que lembrava muito o forro de uma casinha de sapê. A franja
inclinada na diagonal, parecia a parte inferior de uma flauta peruana e estava acima
do meio da testa, as sobrancelhas lembravam dois bigodinhos de Hitler ou Chaplin, como preferir, a essa altura, o detalhe de quem era o
bigode não faria diferença alguma. As pernas, agora muito mais vermelhas que
antes, pareciam terem sido passadas em um ralador.
Eu já estava esgotada, cansada de
tentar consertar tanto estrago e resolvi encarar o que estava reservado pra mim
lá do lado de fora daquele banheiro. Eu tinha que sair de uma vez por todas
daquele recinto, não podia ficar pra sempre protegida por aquelas paredes.
Criei coragem e saí.
Meu pai já havia chegado e já se
sentara à mesa. Celina começava a servir o almoço. Foi ela a primeira a notar
que havia algo errado com minha aparência, mas fez o que era de costume: lançou-me
um olhar de cumplicidade e tentando controlar o riso frouxo, não fez nenhum
comentário.
Minha mãe estava ocupada ajudando
Celina a servir o almoço e não reparou muito em mim, mas meu pai colocava o
arroz no prato enquanto me observava com estranheza. A cada colher de arroz que se servia me
lançava um olhar analítico. Ele só estava tentando entender e foi só minha mãe
senta-se à mesa e começar a comer, que meu pai fez a pergunta que lhe intrigava
há alguns minutos:
-Nete, o
que aconteceu no rosto dessa menina?
Minha mãe deu um espiadinha em mim e:
-Não! Eu não acredito! O que foi que você fez?
-“Ta” louca, por que você fez isso?
-Ela “ta” sem sobrancelha, Zé!
- O que é isso?
- O que você fez com seu cabelo? Olha essa franja!
Eu não tinha nenhuma resposta
para todas aquelas perguntas, não sabia justificar nada daquilo e só conseguia
pensar que pelo menos ela não tinha visto as minhas pernas, que ainda ardiam.
Meu pai rindo disse:
-Isso tem conserto?
-Não, agora tem que esperar crescer. Só o tempo vai melhorar isso aí.
-Então vamos almoçar em paz.
Minha mãe deu seu último parecer
e com bastante ênfase:
-Você está horrível!
Meu pai não conseguia mais olhar
pra mim sem ter acessos de riso. De repente estavam todos me olhando e rindo
muito da minha cara esquisita, e uma vez que risada é contagiosa, também
comecei a rir de mim mesma, mas no fundo eu estava triste, muito aborrecida.
Naquele dia achei que a comida da
Celina, que cozinhava tão bem, não estava muito boa. Nada poderia melhorar o
dissabor que eu acabava de experimentar. Teria que conviver durante meses com aquele
cabelo torto, com um toco de franja e com aquelas sobrancelhas aleijadas.
Fiquei triste por algumas horas,
mas depois resolvi brincar com meu irmão, que ainda não se importava com meu
cabelo errado e muito menos com minhas sobrancelhas cotós.
Eu ainda era criança e me
divertir era muito mais importante.
Daquele dia em diante, minha mãe
ficava muito atenta cada vez que eu entrava no banheiro, eu sentia os seus olhos de águia me vigiando através da
fechadura e cada vez que eu me demorava um pouco mais para sair de lá de
dentro.
Meu pai passou meses rindo cada
vez que olhava pra mim; seu riso simplesmente acontecia quando ele me via.
Toda a tensão de minha mãe e o
deboche do meu pai duraram o tempo necessário para os cabelos e as sobrancelhas
crescerem. Depois disso, tudo voltou ao
normal.
Aquela não foi a única vez que
estraguei ou tive meus cabelos estragados, mas com certeza foi a mais grave e a
lembrança daquele dia ainda me faz rir.

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