domingo, 17 de junho de 2012


Dizem que a adolescência é a pior idade do ser humano. Eu discordo, a pior idade de uma pessoa, na minha opinião, é a pré-adolescência. A gente fareja a mudança, mas não sabe quando ela vai acontecer efetivamente, a gente sente que a transformação está próxima, mas não conseguimos definir nem quando e nem no que vamos nos transformar e pior, não sabemos nem se vamos gostar do que está por vir; não teremos nenhuma opção, “a gente vai ter que se engolir”.
Não nos reconhecemos mais, não sabemos mais quem somos, do que gostamos e do que vamos gostar dali por diante.
A pré-adolescência chega acabando com a graça da infância, com a belezinha que você era até então e com a paciência que os adultos costumavam ter com você.
Sua ignorância não é mais sinal de inocência, é burrice mesmo, suas manhas e desejos, não são mais necessidades ou sinal de algum desconforto, é falta de sova mesmo, seus gestos desengonçados, não são mais perdoados, é falta de “modos” mesmo e merece uma sova mesmo.
Seu cabelo fica diferente, sua pele fica “crespa”, seu nariz vira uma bolinha e aquela “carinha de anjo” subitamente se transforma em carinha de banjo.
No seu corpo, aparecem carocinhos, que logo se transformarão em seios, mas você ainda não sabe disso, por enquanto são só carocinhos doloridos, começa o surgimento de pelinhos, um aqui, outro acolá, e não adianta removê-los, eles voltarão, em bando e bem, bem mais fortes.
Tudo que tentamos esconder fica ainda mais evidente e tudo que se faz para melhorar o que parece tão ruim pode ter um efeito inesperado e contrário. Nesta fase, tudo pode e vai dar errado.
Você faz graça e ninguém ri, você chora e ninguém se importa, você grita e ninguém te ouve, você vai fazer pose e cai, então o remédio é fugir de casa para alguém sentir sua falta.  Você “foge” de casa e ninguém vai te buscar. O dia acaba; você sente medo e é obrigada a voltar com cara de fezes e ainda, enfrentar o olhar de reprovação de seus pais, isso sem mencionar a cara de deboche dos seus irmãos.
Tem vergonha maior que essa? Não, pelo menos não nessa idade.
Na pré-adolescência, o que é bom fica ruim e o que é ruim fica pior. Essa regra vai valer depois dos 50, mas graças a Deus, a gente ainda não sabe disso.
Bem, eu estava cara a cara com minha pré-adolescência e percebi que se não fizesse alguma coisa por mim, ninguém mais faria. Percebi que apenas eu poderia saber exatamente do que precisava. Somente eu saberia como melhorar aquela situação. Somente eu sabia o que deveria ser mudado em mim e decidi: daquele dia em diante eu seria uma nova pessoa.
Seria linda, inteligente e graciosa e para isso, iria me trancar no banheiro, realizar alguns procedimentos e reaparecer diante dos olhos de todos transformada em uma nova e admirável pessoa.
Ao banheiro... Lá estavam todas as ferramentas que eu precisava para a transformação. Tranquei a porta. Precisava de total solidão e concentração para por em prática o plano que me levaria ao sucesso total. Separei com cuidado: tesoura, aparelho de barbear e pinça.
Antes de dar início a transformação, ensaiei gestos de efeito, caras e bocas, que certamente me tornariam mais charmosa, mais glamourosa, mais fashion. Eu sabia o que queria e sabia por onde começar.
Comecei pelas pernas. Armei o aparelho de barbear, aquele com lâmina dos dois lados e fui feroz e velozmente raspando todos os pelos ralos das pernas grossas. Acabei o serviço, aquilo ardia muito, mas tudo bem, achei que era assim mesmo; aqueles pelos estavam lá há anos e a pele só ressentiu a remoção.
Pernas feitas. Vamos lá, chegou a vez das sobrancelhas. Era preciso arrancar todo aquele excesso; era muito pelo só pra ficar acima dos olhos, que utilidade eles poderiam ter, afinal? Eu tinha que acabar com aquilo. Comecei pela sobrancelha direita e tirei o que julguei necessário, passei para a esquerda, e comecei a copiar o trabalho que tinha feito na direita. Tira de um lado, arranca de outro, acerta daqui, compensa dali, pronto! Serviço feito.
Era a vez dos cabelos, esses mereciam mais atenção e cuidado, afinal, é como mamãe sempre diz: eles são a moldura do rosto. Temos que cuidar muito bem dos cabelos, pois são eles que nos enfeitam, e os meus enfeitavam mesmo; eram fortes, lisos, fartos e brilhantes.
Tesoura na mão, preparar, pronto! O primeiro talho já foi. Só mais um pouquinho, pronto! Agora o golpe final. Acabou!
Meu Deus! Acabou mesmo...
Em menos de meia hora, eu tinha acabado com as sobrancelhas, com o cabelo e com as minhas pernas, que ardiam desesperadamente. Percebi rapidamente que a função das sobrancelhas é, sobretudo, manter a harmonia e a estética facial. Era triste admitir eu não havia me transformado, eu tinha me deformado. Nunca vi nada mais feio do que aquilo que se refletia no espelho daquele banheiro. Ele me mostrava claramente a cara da burrada que eu acabara de fazer. Fiquei perplexa. Eu ainda não sabia que a franqueza de um espelho pode acabar com a gente. Eu não sabia que cabelo errado magoava tanto. E minhas sobrancelhas; o que era aquilo?
Mil pensamentos me atormentavam naquele momento, uma sensação de desespero me invadia: E agora? Como vou sair deste banheiro? Como vou enfrentar o mundo lá fora? E minha mãe?
Gente, Minha mãe... Agora ela me mata!
Foi só pensar nela e pimba! Ela começou a bater na porta perguntando:
- Marta, por que você está demorando tanto?
-Nada, mãe, já vou.
-O que você tá fazendo?
Ela nunca fazia uma pergunta só.
-Nada, já to saindo!
-Só vou tomar um banho e já vou.
-“Ta” bom, então não demora, seu pai “ta” chegando e a Celina já vai servir o almoço.
Celina era a empregada, que eu adorava e que trabalhou anos em casa, mas esta história fica pra depois, o que interessa agora é como eu vou sair dessa.
Liguei o chuveiro para ganhar tempo e pensar como eu poderia disfarçar todas as burradas que acabara de fazer. Era preciso calma, muito calma. Entrei no banho, achei que se lavasse os cabelos poderia secá-los e arrumá-los de maneira que ninguém percebesse o que eu tinha feito. As pernas ardiam ainda mais em contato com a água quente e com o sabonete Phebbo; nessa hora nada podia acrescenta mais ardor às minhas pernas esfoladas do que aquele sabonete.
Pronto, acabei o banho, as pernas ainda ardiam e os cabelos pareciam um caso perdido; e eram mesmo.
Achei que se passasse um creme nas pernas poderia aliviar a dor, sempre via minha mãe fazer aquilo. Que nada, consegui piorar ainda mais a sensação de ardência.
Eu já estava com vontade de chorar, a dor das pernas se misturava ao desgosto da minha aparência e ao medo de encarar minha mãe, que certamente, iria acabar de me esfolar. Mas não dava tempo para chorar eu tinha que agir.
Peguei o secador e a escova e mãos a obra, comecei a secar os cabelos. Naquela época os secadores de cabelo eram fracos, pesados e nada práticos de usar, mas eu tinha que conseguir. Era minha única chance. Sequei bem os cabelos e os penteei com muito capricho e quando me observei no espelho tive um choque de realidade. O banho, o secador, a escova haviam sido em vão, estava tudo um horror.
O cabelo liso tinha tomado a forma de algo que lembrava muito o forro de uma casinha de sapê. A franja inclinada na diagonal, parecia a parte inferior de uma flauta peruana e estava acima do meio da testa, as sobrancelhas lembravam dois bigodinhos de Hitler ou Chaplin, como preferir, a essa altura, o detalhe de quem era o bigode não faria diferença alguma. As pernas, agora muito mais vermelhas que antes, pareciam terem sido passadas em um ralador.
Eu já estava esgotada, cansada de tentar consertar tanto estrago e resolvi encarar o que estava reservado pra mim lá do lado de fora daquele banheiro. Eu tinha que sair de uma vez por todas daquele recinto, não podia ficar pra sempre protegida por aquelas paredes. Criei coragem e saí.
Meu pai já havia chegado e já se sentara à mesa. Celina começava a servir o almoço. Foi ela a primeira a notar que havia algo errado com minha aparência, mas fez o que era de costume: lançou-me um olhar de cumplicidade e tentando controlar o riso frouxo, não fez nenhum comentário.
Minha mãe estava ocupada ajudando Celina a servir o almoço e não reparou muito em mim, mas meu pai colocava o arroz no prato enquanto me observava com estranheza.  A cada colher de arroz que se servia me lançava um olhar analítico. Ele só estava tentando entender e foi só minha mãe senta-se à mesa e começar a comer, que meu pai fez a pergunta que lhe intrigava há alguns minutos:
 -Nete, o que aconteceu no rosto dessa menina?
Minha mãe deu um espiadinha em mim e:
-Não! Eu não acredito! O que foi que você fez?
-“Ta” louca, por que você fez isso?
-Ela “ta” sem sobrancelha, Zé!
- O que é isso?
- O que você fez com seu cabelo? Olha essa franja!
Eu não tinha nenhuma resposta para todas aquelas perguntas, não sabia justificar nada daquilo e só conseguia pensar que pelo menos ela não tinha visto as minhas pernas, que ainda ardiam.
Meu pai rindo disse:
-Isso tem conserto?
-Não, agora tem que esperar crescer. Só o tempo vai melhorar isso aí.
-Então vamos almoçar em paz.
Minha mãe deu seu último parecer e com bastante ênfase:
-Você está horrível!
Meu pai não conseguia mais olhar pra mim sem ter acessos de riso. De repente estavam todos me olhando e rindo muito da minha cara esquisita, e uma vez que risada é contagiosa, também comecei a rir de mim mesma, mas no fundo eu estava triste, muito aborrecida.
Naquele dia achei que a comida da Celina, que cozinhava tão bem, não estava muito boa. Nada poderia melhorar o dissabor que eu acabava de experimentar. Teria que conviver durante meses com aquele cabelo torto, com um toco de franja e com aquelas sobrancelhas aleijadas.
Fiquei triste por algumas horas, mas depois resolvi brincar com meu irmão, que ainda não se importava com meu cabelo errado e muito menos com minhas sobrancelhas cotós.
Eu ainda era criança e me divertir era muito mais importante.
Daquele dia em diante, minha mãe ficava muito atenta cada vez que eu entrava no banheiro, eu sentia os seus olhos de águia me vigiando através da fechadura e cada vez que eu me demorava um pouco mais para sair de lá de dentro.
Meu pai passou meses rindo cada vez que olhava pra mim; seu riso simplesmente acontecia quando ele me via.
Toda a tensão de minha mãe e o deboche do meu pai duraram o tempo necessário para os cabelos e as sobrancelhas crescerem.  Depois disso, tudo voltou ao normal.
Aquela não foi a única vez que estraguei ou tive meus cabelos estragados, mas com certeza foi a mais grave e a lembrança daquele dia ainda me faz rir.

Nenhum comentário:

Postar um comentário