A nova casa era, na verdade uma
casa bem antiga e de tão pequena não havia lugar para tristezas. Ficava num
bairro muito bom e bem perto dela moravam algumas pessoas, que eu viria a
conhecer e que iriam, de alguma forma, ser muito importantes na minha vida.
Antes disso, devo explicar que eu
também atravessava uma fase de transição. Passava por mudanças físicas, que
ficavam muito mais difíceis, às vezes constrangedoras, quando se tem um irmão
mais novo.
Meu irmão fazia musiquinhas indecentes descrevendo em
verso e prosa todas as transformações do meu corpo. Cada vez que alguém chegava
à minha casa ele cantarolava aquela musiquinha
e só parou quando meu pai conversou seriamente com ele, explicando que não
era correto expor certas intimidades da irmã; mesmo assim ele só tirou a letra
da música e ficava naquele lá, lá, lá
torturante e ameaçador, que me fazia congelar diante “de estranhos”, pois eu
sempre temia que ele decidisse, de última hora acrescentar a letra a tal
musiquinha.
Uma outra mudança não menos
importante também estava por acontecer na minha vida. Era a mudança de curso e
no meu caso de escola.
Já era início dos anos setenta e
naquela época, o estudo dividia-se em: curso primário, ginasial e colegial.
O melhor colégio da cidade era um
colégio estadual, de disciplina muito rígida e que oferecia apenas os cursos
ginasial e colegial. Para ingressar nessa escola tão tradicional era preciso
fazer o “exame de admissão”; uma
espécie de vestibular muito concorrido na época e mais concorrido ainda, quando
se tratava do exame de admissão do famoso
“Culto à Ciência”.
A prova de admissão não só
selecionava os alunos que ingressariam ao Culto à Ciência, como também
determinava o período que eles iriam estudar. As primeiras notas iam para o
período da manhã, depois seguiam as notas referentes ao período da tarde,
vespertino e noturno.
Minha irmã havia entrado neste colégio
no período vespertino e eu, mesmo estudando numa escola muito boa tinha vontade
de seguir o exemplo dela. Prestei o exame amedrontador e acabei me
classificando com uma boa nota, que me colocou no período matutino.
Todos reconheciam aquilo como uma
grande conquista e durante um bom tempo fui o orgulho do papai e da mamãe.
Entrar no Culto à Ciência no período da manhã,
poderia ser para muitos um grande feito, mas para mim não era tão bom assim,
pois de agora em diante eu teria que acordar mais cedo ainda, uma vez que a nova
escola ficava bem mais distante da minha casa.
Acordar e dormir cedo sempre foi uma
verdadeira tortura para mim, mas mesmo com o horário não me favorecendo, os
anos de Culto á Ciência, foram anos maravilhosos, talvez os melhores da minha
vida. Tudo conspirava a meu favor, tinha conquistado o respeito de meus pais e
a admiração dos meus avós, especialmente de meu avô materno, que costumava recompensar
com presentes especiais os netos que conseguissem entrar nessa tão conceituada escola.
- Minha irmã, por exemplo, ganhou uma TV
em preto e branco, portátil, marca Colorado RQ, um modelo de designe
arrojado e tecnologia avançada. Vez ou outra era necessário recorrer ao
bom e velho Bom-Brill, para melhorar o sinal.
- Eu ganhei um toca fitas também moderníssimo com cinco botões, sendo um deles de cor laranja, marca Crown, o melhor em reprodução e gravação de som, vinha com fone de ouvido e microfone com suporte, mais a imprescindível função auto-stop; era o auge da tecnologia bem ali no meu quarto. Aquele aparelho gravava a minha voz. Era comovente!
Fiz novas e grandes amizades
nessa escola e quase todas moravam bem perto da casinha onde eu vivia.
Sônia, Liliana e Cristiana, todas
colegas queridas que moravam bem perto. Tinha também a Názia. Ah! Názia! Não sei como acabei o ginásio sem estrangulá-la.
Conheci a Názia graças a minha
mãe. Devo mais isso a ela.
A Názia era uma criatura doce,
mas de aparência no mínimo estranha. Aos onze anos ela já tinha “cara de mãe” e “corpo de vó”. Ela era o que
hoje chamamos de nerd.
Muito tímida, desengonçada e
insegura, a menina tentava passar despercebida, mas minha mãe tinha que
perceber a pobre. A garota tentando se esconder do mundo e minha mãe, pimba, achou!
Vou explicar melhor:
Meu pai me levava de carro para o
colégio todas as manhãs, mas as aulas de educação física eram no período da
tarde e eu tinha que tomar o ônibus de um bairro para outro, o que significava
uma distância relativamente grande, além disso, o Culto à Ciência ficava num
bairro considerado meio perigoso e minha mãe se preocupava por ter que me
deixar ir sozinha para ao colégio; foi quando ela viu aquela menina estranha,
vestindo o mesmo uniforme que eu usava, parada no ponto de ônibus que ficava
quase em frente à minha casa. Minha mãe não perdeu tempo e resolveu nos
apresentar.
Ela achava que se fôssemos juntas
para o colégio correríamos menos risco. Eu tentei argumentar dizendo que aquela “figura”
poderia até dar azar; eu disse que poderia ser até mais perigoso ficar perto
dela que ir sozinha para o colégio, mas enquanto eu falava, minha mãe me
ignorava e apressava-se em atravessar a rua pra fazer um contato imediatíssimo de segundo grau.
Para completar o quadro de mico que ela, minha própria mãe, pintava
para mim, ofereceu “carona”, claro que sem perguntar para meu pai, todas as
manhãs para Názia, que aceitou prontamente.
Minha mãe tinha acabado de
resolver um problema dela criando um para mim
Por dentro eu sentia vontade de
fugir, de sair correndo e me perder. Não era possível que aquilo estivesse
acontecendo comigo! Ter que ir à
escola todos os dias grudada na Názia
era o fim. Só minha mãe pra fazer aquilo comigo.
Além disso, eu já pressentia devido à disciplina severa do Culto à Ciência, que
algum dia eu iria precisar mentir ou omitir
certas coisas de minha mãe e com a Názia sempre por perto isso poderia ficar
bem complicado. Aquela menina tinha cara de quem não sabia “se safar” e minha mãe adorava fazer questionários imensos que
exigiam respostas rápidas e seguras e isso, claramente não era o forte da Názia.
Driblar minha mãe exigia um preparo que obviamente aquela menina não tinha.
Perguntas como: quando vai ser a próxima reunião de pais e
mestres? Quando vai ser a prova de matemática? Já chegou o boletim? Vocês ainda
não receberam as cadernetas de presença! Como assim? Por que está demorando
tanto?
Essas perguntas todas emendadas
eram para profissionais; ou seja, era para pessoas criadas por mães como minha
mãe e que foram obrigadas a desenvolver certas habilidades e uma rapidez de
raciocínio necessária para sobrevivência. Seres amedrontados como a Názia não
estavam preparados para encarar pessoas como minha mãe.
Eu já podia ver a cara da pobre
Názia ficando zonza e quase chorando dizendo:
eu não sei, eu não sei! Pare com
isso, já disse que não sei!
Minha mãe é capaz de emendar uma
pergunta à outra sem ao menos respirar. A gente mal acabava de responder a
primeira e ela já está no final da segunda. É
um dom impressionante esse da minha mãe. Ela não pergunta; ela interroga.
Eu nunca conheci os pais da Názia,
mas tenho certeza que eram bem diferentes dos meus, especialmente a mãe. Tenho
certeza que a mãe dela em nada se parecia com a minha.
Depois do primeiro choque, eu já
começava a me acostumar com a presença da Názia. Eu até tentava conversar com
ela, mas nem sempre conseguia. Ela respondia a tudo com monossílabos: sim, não, é, foi às vezes ela abusava
das palavras e usava logo dois ou três: não
sei ou acho que sim. Isso era tão estimulante que logo eu desistia do
diálogo, ou melhor, da tentativa dele.
Com o tempo fui me acostumando e
me apegando àquele jeito desajeitado
da Názia e comecei a gostar dela a minha maneira. Só uma coisa me deixava muito irada: era quando batia à janela
do meu quarto todas as manhãs e ela, que falava tão baixinho, gritava com voz
estridente: Martá!
Meu Deus! Aquilo mexia com os
meus nervos, principalmente quando estava frio e chovendo e eu queria muito
ficar na cama e perder hora de propósito.
A Názia nunca
perdia hora, nunca faltava, nunca ficava doente! Cheguei a desconfiar
que ela fosse um ET imortal, ou uma
espécie de Highlander, condenada a ficar
pra sempre naquela idade e naquela forma.
Como pode alguém nunca ficar
doente? Além disso, ela não tem sono, preguiça ou coisas mais interessantes a
fazer que ir à escola? Como pode? E por
que ela fazia questão de colocar um acento agudíssimo
no último A do meu nome?
Infelizmente, no hall dos que me
irritavam naquela vizinhança, a Názia não estava sozinha, ela fazia companhia a
triste e sombria figura de um outro vizinho: o Fausto.
O Fausto era um outro nerd que havia estudado comigo na escola
onde eu fiz o primário. Esse menino seguiu me assombrando por todo o curso; fui
obrigada a dançar quadrilha com ele, carrego essa vergonha até hoje. Devo dizer
que ele contribuiu muito para aumentar meu desejo de mudar de escola. Ao entrar
no Culto à Ciência achei que tivesse me livrado da criatura. Mas quem pode
controlar o destino? Não é que eu iria reencontrá-lo mesmo mudando de escola.
Foi a maior e mais desagradável surpresa que tive no auge dos meus então onze
anos de vida.
O Fausto era meu vizinho de
frente. Eu disse de frente! Ele
passava o dia todo vigiando minha casa. Se eu ameaçasse colocar o pescocinho
pra fora da janela, logo via a carinha irritante do Fausto me espreitando, com
um sorrisinho nos lábios, numa tentativa inútil de ser simpático. Ele fazia de
tudo para se aproximar de mim, até que conseguiu.
Numa manhã de sábado ele, mal intencionado,
aproximou-se de meu inocente irmãozinho
e rapidamente, sem que eu pudesse impedir, apresentou um jogo de botões
convidando-o para brincar. Meu pequeno e, repito inocente irmão, sem se dar conta da artimanha daquele ser abissal metido
a esperto, aceitou o convite.
Aquilo me revoltou. Como aquela
criatura conseguiu atingir seu objetivo tão rápido? Como ele tinha ido parar
dentro da minha casa? Ele estava lá, bem na minha sala, gritando com voz aguda: gooool!
Esforçando-me para manter a calma
e fingindo indiferença, resolvi não falar nada para meu irmão. Minha intenção
era ignorar o sujeito até que ele desistisse de mim. Foi aí que aprendi a primeira lição sobre os homens: quanto mais você os ignora,
mais eles insistem e investem em você.
Comecei, então a tratá-lo muito,
mas muito mal. E aí aprendi a segunda lição
sobre os homens: se quiser manter um
homem literalmente babando por você,
não basta ignorá-lo, há que mal tratá-lo.
Eu tentei de tudo, tudo mesmo:
desprezo, ofensas, caretas e até sinais obscenos e atitudes nojentas, mas nada,
absolutamente nada fazia o Fausto se afastar de mim e da minha casa. Eu vivia
um filme de horror intitulado “O DESPERTAR COM OS NERDS”
De segunda à sexta era a Názia,
que gritava na minha janela acentuando o último A do meu nome, e aos sábados, bem
cedo, vinha o Fausto com aquela voz fina, gritando e batendo na janela. “Zezinho, vamos jogar botão”? Deus do céu,
o que havia acontecido com minhas manhãs?
Acho que por culpa do Fausto
desenvolvi uma rejeição por homens de voz fina.
Ainda hoje acho inadmissível um homem de voz
fina. Que me perdoem Anderson Silva e
todos os outros “fala fina” do
planeta, mas o mínimo que um homem
tem que fazer é falar grosso.
O Michel Jackson, por exemplo, tenho pra mim, que ele só morreu porque
tinha voz fina. Provavelmente, ele deve ter atormentado aquele pobre médico a
madrugada inteira, repetindo com aquela vozinha: Não consigo dormir, não
consigo dormir! Quero mais Demerol, quero mais Demerol! Me dá Demerol, me dá
Demerol!
Daí deu no que deu, ninguém
agüenta isso. Uma hora a gente mata mesmo. Dá pra entender o estado de
saturação do médico, que a certa altura da madrugada pensou: agora você vai ter o que merece, vou te
espetar uma overdose de “nunca mais falou pra ele”, mais conhecido como Propofol.
Se o advogado do médico tivesse embasado sua defesa no argumento do grau
de irritabilidade que um homem de voz fina pode causar nas pessoas, eu aposto que o Dr. Conrad Murray seria absolvido por unanimidade.
Mas, graças a Deus, eu não
precisei matar o Fausto. Logo, as coisas se ajeitaram, pois meu irmão começou a
se interessar por esportes e trocou as manhãs de sábado de jogos de botão por
atividades esportivas no clube que ficava bem próximo a nossa casa.
O Fausto teve que se conformar em
me vigiar a distância, da varanda de sua casa.
Quanto a Názia, bem, essa
continuou fiel e assídua, comparecendo à minha janela todas as manhãs e
cuidando para que eu nunca, nunca mesmo,
perdesse hora.
Enquanto morei naquela casinha
fomos à escola juntas todos os dias e quer saber, eu gostava da companhia dela
e às vezes me pego pensando no que será que foi feito de Názia? Como será que
ela está hoje? Será que casou e tem filhos?
Nunca mais tive notícias dela ou
de Fausto. Espero, sinceramente, que eles estejam bem e felizes, pois, não sei
por que, não há como não gostar desses nerds;
eles são parte de minha adolescência e embora não pareça, tenho carinho por
eles.
Às vezes gosto de fantasiar e
imaginar que Fausto e Názia se conheceram durante um “simpósio sobre bullying”. Eles teriam se apaixonado, em função das
muitas experiências parecidas que viveram, teriam se casado e estão felizes até
hoje vivendo no Mundo Encantado dos Nerds.

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