domingo, 3 de junho de 2012


A nova casa era, na verdade uma casa bem antiga e de tão pequena não havia lugar para tristezas. Ficava num bairro muito bom e bem perto dela moravam algumas pessoas, que eu viria a conhecer e que iriam, de alguma forma, ser muito importantes na minha vida.
Antes disso, devo explicar que eu também atravessava uma fase de transição. Passava por mudanças físicas, que ficavam muito mais difíceis, às vezes constrangedoras, quando se tem um irmão mais novo.
Meu irmão fazia musiquinhas indecentes descrevendo em verso e prosa todas as transformações do meu corpo. Cada vez que alguém chegava à minha casa ele cantarolava aquela musiquinha e só parou quando meu pai conversou seriamente com ele, explicando que não era correto expor certas intimidades da irmã; mesmo assim ele só tirou a letra da música e ficava naquele lá, lá, lá torturante e ameaçador, que me fazia congelar diante “de estranhos”, pois eu sempre temia que ele decidisse, de última hora acrescentar a letra a tal musiquinha.
Uma outra mudança não menos importante também estava por acontecer na minha vida. Era a mudança de curso e no meu caso de escola.
Já era início dos anos setenta e naquela época, o estudo dividia-se em: curso primário, ginasial e colegial.
O melhor colégio da cidade era um colégio estadual, de disciplina muito rígida e que oferecia apenas os cursos ginasial e colegial. Para ingressar nessa escola tão tradicional era preciso fazer o “exame de admissão”; uma espécie de vestibular muito concorrido na época e mais concorrido ainda, quando se tratava do exame de admissão do famoso “Culto à Ciência”.
A prova de admissão não só selecionava os alunos que ingressariam ao Culto à Ciência, como também determinava o período que eles iriam estudar. As primeiras notas iam para o período da manhã, depois seguiam as notas referentes ao período da tarde, vespertino e noturno.
Minha irmã havia entrado neste colégio no período vespertino e eu, mesmo estudando numa escola muito boa tinha vontade de seguir o exemplo dela. Prestei o exame amedrontador e acabei me classificando com uma boa nota, que me colocou no período matutino. 
Todos reconheciam aquilo como uma grande conquista e durante um bom tempo fui o orgulho do papai e da mamãe.
 Entrar no Culto à Ciência no período da manhã, poderia ser para muitos um grande feito, mas para mim não era tão bom assim, pois de agora em diante eu teria que acordar mais cedo ainda, uma vez que a nova escola ficava bem mais distante da minha casa.
 Acordar e dormir cedo sempre foi uma verdadeira tortura para mim, mas mesmo com o horário não me favorecendo, os anos de Culto á Ciência, foram anos maravilhosos, talvez os melhores da minha vida. Tudo conspirava a meu favor, tinha conquistado o respeito de meus pais e a admiração dos meus avós, especialmente de meu avô materno, que costumava recompensar com presentes especiais os netos que conseguissem entrar nessa tão conceituada escola.

  • Minha irmã, por exemplo, ganhou uma TV em preto e branco, portátil, marca Colorado RQ, um modelo de designe arrojado e tecnologia avançada. Vez ou outra era necessário recorrer ao bom e velho Bom-Brill, para melhorar o sinal.
  • Eu ganhei um toca fitas também moderníssimo com cinco botões, sendo um deles de cor laranja, marca Crown, o melhor em reprodução e gravação de som, vinha com fone de ouvido e microfone com suporte, mais a imprescindível função auto-stop; era o auge da tecnologia bem ali no meu quarto. Aquele aparelho gravava a minha voz. Era comovente!

Fiz novas e grandes amizades nessa escola e quase todas moravam bem perto da casinha onde eu vivia.
Sônia, Liliana e Cristiana, todas colegas queridas que moravam bem perto. Tinha também a Názia. Ah! Názia! Não sei como acabei o ginásio sem estrangulá-la.
Conheci a Názia graças a minha mãe. Devo mais isso a ela.
A Názia era uma criatura doce, mas de aparência no mínimo estranha. Aos onze anos ela já tinha “cara de mãe” e “corpo de vó”.  Ela era o que hoje chamamos de nerd.
Muito tímida, desengonçada e insegura, a menina tentava passar despercebida, mas minha mãe tinha que perceber a pobre. A garota tentando se esconder do mundo e minha mãe, pimba, achou!
Vou explicar melhor:
Meu pai me levava de carro para o colégio todas as manhãs, mas as aulas de educação física eram no período da tarde e eu tinha que tomar o ônibus de um bairro para outro, o que significava uma distância relativamente grande, além disso, o Culto à Ciência ficava num bairro considerado meio perigoso e minha mãe se preocupava por ter que me deixar ir sozinha para ao colégio; foi quando ela viu aquela menina estranha, vestindo o mesmo uniforme que eu usava, parada no ponto de ônibus que ficava quase em frente à minha casa. Minha mãe não perdeu tempo e resolveu nos apresentar.
Ela achava que se fôssemos juntas para o colégio correríamos menos risco. Eu tentei argumentar dizendo que aquela “figura” poderia até dar azar; eu disse que poderia ser até mais perigoso ficar perto dela que ir sozinha para o colégio, mas enquanto eu falava, minha mãe me ignorava e apressava-se em atravessar a rua pra fazer um contato imediatíssimo de segundo grau.
Para completar o quadro de mico que ela, minha própria mãe, pintava para mim, ofereceu “carona”, claro que sem perguntar para meu pai, todas as manhãs para Názia, que aceitou prontamente.
Minha mãe tinha acabado de resolver um problema dela criando um para mim
Por dentro eu sentia vontade de fugir, de sair correndo e me perder. Não era possível que aquilo estivesse acontecendo comigo! Ter que ir à escola todos os dias grudada na Názia era o fim. Só minha mãe pra fazer aquilo comigo. Além disso, eu já pressentia devido à disciplina severa do Culto à Ciência, que algum dia eu iria precisar mentir ou omitir certas coisas de minha mãe e com a Názia sempre por perto isso poderia ficar bem complicado. Aquela menina tinha cara de quem não sabia “se safar” e minha mãe adorava fazer questionários imensos que exigiam respostas rápidas e seguras e isso, claramente não era o forte da Názia. Driblar minha mãe exigia um preparo que obviamente aquela menina não tinha.
Perguntas como: quando vai ser a próxima reunião de pais e mestres? Quando vai ser a prova de matemática? Já chegou o boletim? Vocês ainda não receberam as cadernetas de presença! Como assim? Por que está demorando tanto?
Essas perguntas todas emendadas eram para profissionais; ou seja, era para pessoas criadas por mães como minha mãe e que foram obrigadas a desenvolver certas habilidades e uma rapidez de raciocínio necessária para sobrevivência. Seres amedrontados como a Názia não estavam preparados para encarar pessoas como minha mãe.
Eu já podia ver a cara da pobre Názia ficando zonza e quase chorando dizendo: eu não sei, eu não sei! Pare com isso, já disse que não sei!
Minha mãe é capaz de emendar uma pergunta à outra sem ao menos respirar. A gente mal acabava de responder a primeira e ela já está no final da segunda. É um dom impressionante esse da minha mãe. Ela não pergunta; ela interroga. 
Eu nunca conheci os pais da Názia, mas tenho certeza que eram bem diferentes dos meus, especialmente a mãe. Tenho certeza que a mãe dela em nada se parecia com a minha.
Depois do primeiro choque, eu já começava a me acostumar com a presença da Názia. Eu até tentava conversar com ela, mas nem sempre conseguia. Ela respondia a tudo com monossílabos: sim, não, é, foi às vezes ela abusava das palavras e usava logo dois ou três: não sei ou acho que sim. Isso era tão estimulante que logo eu desistia do diálogo, ou melhor, da tentativa dele.
Com o tempo fui me acostumando e me apegando àquele jeito desajeitado da Názia e comecei a gostar dela a minha maneira. Só uma coisa me deixava muito irada: era quando batia à janela do meu quarto todas as manhãs e ela, que falava tão baixinho, gritava com voz estridente: Martá!
Meu Deus! Aquilo mexia com os meus nervos, principalmente quando estava frio e chovendo e eu queria muito ficar na cama e perder hora de propósito.
 A Názia nunca perdia hora, nunca faltava, nunca ficava doente! Cheguei a desconfiar que ela fosse um ET imortal, ou uma espécie de Highlander, condenada a ficar pra sempre naquela idade e naquela forma. 
Como pode alguém nunca ficar doente? Além disso, ela não tem sono, preguiça ou coisas mais interessantes a fazer que ir à escola? Como pode?  E por que ela fazia questão de colocar um acento agudíssimo no último A do meu nome?  
Infelizmente, no hall dos que me irritavam naquela vizinhança, a Názia não estava sozinha, ela fazia companhia a triste e sombria figura de um outro vizinho: o Fausto.
O Fausto era um outro nerd que havia estudado comigo na escola onde eu fiz o primário. Esse menino seguiu me assombrando por todo o curso; fui obrigada a dançar quadrilha com ele, carrego essa vergonha até hoje. Devo dizer que ele contribuiu muito para aumentar meu desejo de mudar de escola. Ao entrar no Culto à Ciência achei que tivesse me livrado da criatura. Mas quem pode controlar o destino? Não é que eu iria reencontrá-lo mesmo mudando de escola. Foi a maior e mais desagradável surpresa que tive no auge dos meus então onze anos de vida.
O Fausto era meu vizinho de frente. Eu disse de frente! Ele passava o dia todo vigiando minha casa. Se eu ameaçasse colocar o pescocinho pra fora da janela, logo via a carinha irritante do Fausto me espreitando, com um sorrisinho nos lábios, numa tentativa inútil de ser simpático. Ele fazia de tudo para se aproximar de mim, até que conseguiu.
 Numa manhã de sábado ele, mal intencionado, aproximou-se de meu inocente irmãozinho e rapidamente, sem que eu pudesse impedir, apresentou um jogo de botões convidando-o para brincar. Meu pequeno e, repito inocente irmão, sem se dar conta da artimanha daquele ser abissal metido a esperto, aceitou o convite.
Aquilo me revoltou. Como aquela criatura conseguiu atingir seu objetivo tão rápido? Como ele tinha ido parar dentro da minha casa? Ele estava lá, bem na minha sala, gritando com voz aguda: gooool!
Esforçando-me para manter a calma e fingindo indiferença, resolvi não falar nada para meu irmão. Minha intenção era ignorar o sujeito até que ele desistisse de mim. Foi aí que aprendi a primeira lição sobre os homens: quanto mais você os ignora, mais eles insistem e investem em você.
Comecei, então a tratá-lo muito, mas muito mal. E aí aprendi a segunda lição sobre os homens: se quiser manter um homem literalmente babando por você, não basta ignorá-lo, há que mal tratá-lo.
Eu tentei de tudo, tudo mesmo: desprezo, ofensas, caretas e até sinais obscenos e atitudes nojentas, mas nada, absolutamente nada fazia o Fausto se afastar de mim e da minha casa.  Eu vivia um filme de horror intitulado “O DESPERTAR COM OS NERDS”
De segunda à sexta era a Názia, que gritava na minha janela acentuando o último A do meu nome, e aos sábados, bem cedo, vinha o Fausto com aquela voz fina, gritando e batendo na janela. “Zezinho, vamos jogar botão”? Deus do céu, o que havia acontecido com minhas manhãs?
 Acho que por culpa do Fausto desenvolvi uma rejeição por homens de voz fina.
 Ainda hoje acho inadmissível um homem de voz fina. Que me perdoem Anderson Silva e todos os outros “fala fina” do planeta, mas o mínimo que um homem tem que fazer é falar grosso.
O Michel Jackson, por exemplo, tenho pra mim, que ele só morreu porque tinha voz fina. Provavelmente, ele deve ter atormentado aquele pobre médico a madrugada inteira, repetindo com aquela vozinha: Não consigo dormir, não consigo dormir! Quero mais Demerol, quero mais Demerol! Me dá Demerol, me dá Demerol!
Daí deu no que deu, ninguém agüenta isso. Uma hora a gente mata mesmo. Dá pra entender o estado de saturação do médico, que a certa altura da madrugada pensou: agora você vai ter o que merece, vou te espetar uma overdose de “nunca mais falou pra ele”, mais conhecido como Propofol.
  Se o advogado do médico tivesse embasado sua defesa no argumento do grau de irritabilidade que um homem de voz fina pode causar nas pessoas, eu aposto que o Dr. Conrad Murray seria absolvido por unanimidade.
Mas, graças a Deus, eu não precisei matar o Fausto. Logo, as coisas se ajeitaram, pois meu irmão começou a se interessar por esportes e trocou as manhãs de sábado de jogos de botão por atividades esportivas no clube que ficava bem próximo a nossa casa.
O Fausto teve que se conformar em me vigiar a distância, da varanda de sua casa.
Quanto a Názia, bem, essa continuou fiel e assídua, comparecendo à minha janela todas as manhãs e cuidando para que eu nunca, nunca mesmo, perdesse hora.
Enquanto morei naquela casinha fomos à escola juntas todos os dias e quer saber, eu gostava da companhia dela e às vezes me pego pensando no que será que foi feito de Názia? Como será que ela está hoje? Será que casou e tem filhos?
Nunca mais tive notícias dela ou de Fausto. Espero, sinceramente, que eles estejam bem e felizes, pois, não sei por que, não há como não gostar desses nerds; eles são parte de minha adolescência e embora não pareça, tenho carinho por eles.
Às vezes gosto de fantasiar e imaginar que Fausto e Názia se conheceram durante um “simpósio sobre bullying”. Eles teriam se apaixonado, em função das muitas experiências parecidas que viveram, teriam se casado e estão felizes até hoje vivendo no Mundo Encantado dos Nerds.

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