domingo, 10 de junho de 2012


 Na minha vida conheci poucas pessoas tão doces quanto tia Neide. A sua voz, o seu jeito e especialmente as suas atitudes são de doçura incomparáveis. Nem com todas as mazelas que a vida lhe impôs tia Neide perdeu a ternura. Parecia que tudo estava bem sempre, embora na realidade, nem sempre estivesse e eu só soube disso muitos anos depois, quando já estava numa idade que ela, sabiamente julgou que eu iria entender.
 A tia Neide conseguia juntar na mesma personalidade nobreza e humildade, delicadeza e força. Mesmo sendo uma mulher de muitas posses e aparência exuberante nunca testemunhei nenhuma atitude que menosprezasse ou hostilizasse alguém. Com licença, por favor e obrigada foram sempre palavras constantes em seu vocabulário, mesmo quando se dirigia aos mais humildes. Os mais velhos sempre mereceram ser tratados por senhor e senhora, não importando quem fossem.
 Ela tinha e tem uma nobreza rara na alma e um sorriso lindo no rosto. Não há uma vez se quer que eu tenha encontrado tia Neide sem que ela me fizesse um elogio e deixasse bem claro o quanto gosta de mim. Acho que por isso me transformei em sua maior fã.
 Por outro lado, minha tia sempre foi uma mulher com muitas dúvidas, que ainda hoje atormentam a sua vida, como por exemplo: dúvida com relação ao clima: será que vai esfriar? Parece que virou um ventinho. Dúvida com relação à prevenção: será que levo ou não o paletó? Dúvida noturna: tomo ou não tomo uma “aspirininha” antes de dormir? Dúvidas com relação às cores: será que eu gosto mais do sapato cinza chumbo, do preto claro ou do preto nem tão claro assim? Dúvida quanto à capacidade do seu estômago: será que eu como ou não mais um pedacinho? Dúvida com relação à medicina: será que eu tomo ou não tomo os remédios que o médico receitou? E assim por diante.  Ela resolveu dúvidas existenciais muito mais sérias e complexas no decorrer de sua vida, mas essas ainda persistem.
Com essa personalidade especial, minha tia Neide era e ainda é muito querida e ficar em sua casa era sempre muito bom.
Essa consciência eu só tive depois de adulta, quando eu era criança ir para a casa da tia Neide era apenas uma garantia de diversão; a começar pela própria casa: muito espaçosa com vários ambientes, piscina, balanço, enfim, tudo que criança gosta principalmente aquelas criadas em apartamento.
O lugar que eu mais gostava naquela casa era a sala do piano, onde eu ouvia admirada minha tia tocar músicas que eu só conheci através dela. Não era o repertório mais moderno do mundo e nem passava perto da Jovem Guarda, movimento muito popular naquela época, mas eram músicas belíssimas e que em muito contribuíram para enriquecer minha bagagem musical, que considero boa até hoje. Minha tia me incentivava a cantar e eu adorava cantar sendo acompanhada de seu belíssimo piano.
A casa da tia Neide tinha tudo que eu gostava especialmente a companhia de minhas primas: Liane e Lílian.  
A Liane me encantava. Ela era alegre e muito ativa; “topava” todas as brincadeiras, principalmente as de mau gosto, como ficar “grudada” na grade da janela da frente gritando pra quem passava na rua: “Moço, moço, eu sou um macaco, me dá uma banana”?
Eu e minha irmã adorávamos essa brincadeira idiota e também grudávamos na grade da janela para gritar bem alto essa sandice.
Que vergonha! Quando penso na mensagem subliminar dessas palavras, me dá vontade de chorar, juro!
A Lílian, bem a Lílian era o que a gente chamava de café com leite:

* Café com leite: expressão usada pelas crianças daquela época, para qualificar outras crianças antes de desprezá-las de vez. *

A Lílian era bem mais nova que eu, Liane e minha irmã, por isso não se encaixava muito nas brincadeiras que inventávamos como, por exemplo, essa genial brincadeira das bananas.
Outra brincadeira que nós adorávamos era a de super-herói. Sim, isso mesmo. Eram três meninas que brincavam de super-herói.
 Liane era o Batman, minha irmã era o Robin e eu, bem eu também era um pouco café com leite e se quisesse participar da brincadeira teria que me contentar com personagens menos nobres como: o Pingüim, o Charada, o Coringa, mas nunca a Mulher-Gato, essa era reservada à minha irmã, por causa dos olhos verdes. Quando minha irmã queria ser a Mulher-Gato, eu teria que me contentar em ser o Robin, o que quase sempre me deixava feliz porque eu não seria tão humilhada e massacrada como eram os vilões daquele seriado. Ser o Robin já era algum progresso afinal, naquela brincadeira os vilões acabavam sempre levando a pior, menos a Mulher-Gato, que sempre conseguia fugir.
Tive uma alegria imensa quando nos seriado de Batman e Robin apareceu a Batgirl, pensei: agora sim chegou a minha vez, mas que nada, minha irmã passou a ser a Batgirl e eu fiquei sendo definitivamente aquele idiota do Robin mesmo, uma vez que Liane nunca abriu mão de ser o Batmam.
Brincar de Batman e Robin na casa da tia Neide era perfeito, tinha espaço para tudo, o escritório era a Prefeitura de Gothan City, o corredor que dava acesso ao quarto da empregada era a Batcaverna e o resto da casa era usado como cenário para reproduzirmos as aventuras de Batman e Robin.
Quando cansávamos da brincadeira de super-herói mudávamos para a brincadeira de Shows da Jovem Guarda, onde minha irmã era Vanderléia, Liane, com sua tendência máscula, era Roberto Carlos e eu, obviamente era a Martinha. Todas tinham sua vez de se apresentar para a platéia fantasma, em cima do banco de alvenaria recoberto por pastilhas azuis que se transformava em palco na nossa imaginação.
Num rompante raro de feminilidade, às vezes usávamos este mesmo banco como passarela, para brincarmos de Concurso de Miss Universo.  
Outra brincadeira muito apreciada por nós e que também demonstrava com clareza nosso excelente desenvolvimento intelectual e motor era a competição saudável de lerdeza no consumo de picolé.
Explico:
Todas as tardes o mesmo sorveteiro passava com seu carrinho e sua gaitinha inconfundível e tia Neide se apressava para comprar sorvetes para as fofurinha, que a essa altura já estavam suadas e sujas de tanto brincar. Cada fofinha ganhava um sorvete e aquela que acabasse por último era a vencedora de uma competição velada e burra com o único propósito de fazer picuínha para aquelas que já haviam consumido seu sorvete em tempo normal. Por causa dessa competição totalmente sem sentido acabávamos por perder meio sorvete, pois nos dias mais quentes o alimento não suportava por muito tempo tanta idiotice.
Tudo na casa da tia Neide era perfeito, tudo era muito bom, o sorvete, a brincadeira das bananas, os super-heróis, Jovem Guarda, Concurso de Miss, o piano e a companhia de minhas primas, mas infelizmente isso não ia continuar assim por muito tempo. Nós ainda não sabíamos, mas toda a paz e alegria que habitavam aquela casa estavam com os dias contados. Estava para acontecer o “evento” Caco.
Caco era um cãozinho lindo da raça Basset, que iria chegar trazido pelo meu tio Hélio, marido de tia Neide, e acabar de vez com a graça de todas as pessoas que freqüentavam aquela bela casa. 
Aquele cãozinho meigo, pouco a pouco foi crescendo e mordendo quem se aproximasse dele. Eu fui uma das primeiras, pois sempre gostei muito de animais e desavisada, quis acariciá-lo assim que o vi na tola esperança de conquistar sua amizade. Tomei!
O cão mordia todas as pessoas, fossem da família ou não. Uma a uma ele cravava os dentes afiados sem dó nem piedade e sem nenhum motivo aparente. No começo ele era especialista em calcanhares, mas com o tempo ele passou a comer o membro todo.

 * Se o Dr. Patty ou o Encantador de Cães tivessem conhecido o Caco, tenho certeza que não teriam tido a carreira tão brilhante que têm hoje. O Caco era capaz de desencantar qualquer encantador, de acabar com a sabedoria de qualquer doutor. O Caco era uma mistura do diabo-da-tasmânia com o Cujo, o cão assassino. *

Ninguém podia se aproximar dele, mas em compensação, ninguém gostava dele só meu tio Hélio e a Lílian, que nunca se conformou com o fato de todos hostilizarem o cão demoníaco.
Ela tenta, até hoje em vão, justificar aquele comportamento diabólico.
Depois do Caco a casa da tia Neide nunca mais foi a mesma. A tranqüilidade e segurança daquele lar foram subtraídas assim que Caco se juntou aos integrantes daquela família.
A qualquer momento poderíamos ter um membro arrancado ou uma veia perfurada. Tínhamos que ficar atentos aos movimentos súbitos do Caco, principalmente, meu primo, Carlos, mais conhecido como Bird, que era a sua vítima preferencial.
 O Caco normalmente se alimentava de carne, legumes frescos e pedaços do Bird.
Empregada não parava mais na casa da tia Neide, mesmo com o salário adicional por insalubridade e periculosidade, todas desistiam depois de algumas mordidas, o que acontecia geralmente antes de terminar a primeira semana.
Também ficou terminantemente proibida a entrada de senhoras com varizes naquela casa. O Caco era quem mandava. Ele selecionava quem iria ou não freqüentar a casa e destes, quem iria ou não sair ileso depois de visitá-la.
Durante muitos anos o Caco reinou absoluto naquele lugar. Ele era “o cara”, muito antes do Lula. Ele era temido e se fazia mais poderoso a cada vítima.
Tudo isso só teve fim quando meus tios se mudaram para um apartamento e Caco foi parar na chácara da família vindo falecer alguns anos depois.
Dizem que seu espírito (de porco, diga-se de passagem) vaga até hoje pela Chácara Lili, nome de muita originalidade, escolhido pelos meus tios e inspirado nas iniciais dos nomes de suas filhas, para “batizar” a chácara da família que existe até hoje e que também guarda muitas lembranças, mas isso é uma outra história.

Um comentário:

  1. ficou bem divertido!!!!! imagino sua tia quando ler!!! e as primas tb!!!!!

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