Durante alguns anos de minha
infância eu e minha família passávamos as férias de final de ano na casa de
campo de um tio de minha mãe; tio Geraldo, homem alegre e de sorriso fácil, que
gentilmente nos cedia sua casa de campo todo janeiro.
Minha mãe tratava logo de
convidar mais pessoas para nos acompanhar naquelas férias e eram quase sempre
as mesmas; tia Neide e tio Hélio com as filhas Liane e Lílian, tia Nely e tio
Nine com os filhos Nininho e Renata, tia Ivone e tio Juliano com as filhas
Andréa e Vânia e a ala dos solteiros: tia Lia, irmã mais nova de minha mãe e
seu então namorado João, tio Marcos e tio Nilton, irmãos de meu pai, Marcio, primo
de meu pai, e às vezes as amigas de minha tia Lia: Joce, Louary e Isa. Era
muita gente mesmo, mas a casa era grande e confortável o suficiente para
acomodar todas essas pessoas.
O lugar era lindo; uma região de
montanhas com vegetação rica que formava uma paisagem de beleza ímpar, mas não
oferecia muita opção de lazer, por isso era importante que tivéssemos um bom
número de pessoas, de preferência animadas, para garantir a diversão.
Havia companhia para todos e eu
me dividia entre as brincadeiras perigosas com Nininho e as nem tão perigosas
assim com Liane.
Liane adorava subir em árvores, principalmente
quando estava aborrecida, o que me causava admiração e inveja, pois eu, desde a
mais tenra idade, fui instruída por minha mãe, de maneira bem didática que
altura matava. Explico:
Nós morávamos no quinto andar de
um prédio e nas janelas do apartamento não havia, nem nunca houve grade ou rede de proteção para prevenir algum
acidente com uma das três crianças
que habitavam aquele apartamento; minha mãe confiava mais no método
desenvolvido e testado por ela, que consistia no seguinte: de tempos em tempos
ela, a mamãe, colocava seus três
filhinhos para darem uma espiadinha lá em baixo e dizia com voz carinhosa e
convincente: “está vendo como é alto? As
crianças tolas e já amedrontadas sinalizavam com a cabeça que sim; depois disso,
ela prosseguia: é por isso que você não pode se debruçar na janela, pois se
você cair vai chegar lá em baixo muito rápido, vai se espatifar no chão e não
dá tempo de acudir porque a cabeça vai pra um lado, um braço vai pra cá, o
outro vai pra lá e o corpo fica no meio; você morre e nunca mais vê o papai e a
mamãe”.
Com minha mãe aprendei as
primeiras noções de física; isto é, massa vezes aceleração é igual à morte
trágica e sangrenta. Ela confiava muito na eficácia desta fórmula, nenhuma
criança era louca o bastante para ousar desafiá-la.
Por sorte, desenvolvi apenas medo de altura, pois analisando melhor
discurso de minha mãe, poderia muito bem ter desenvolvido outras fobias como:
medo de abandono, pânico de sangue, transtornos do sono, tiques e problemas na
fala, mas Deus, na sua infinita sabedoria, me fez resistente à psicologia de
minha mãe.
Lembro-me muito bem quando numa
tarde eu voltava pra casa depois de ter ido nadar no rio com Nininho, escondida
de meus pais e encontrei Liane chorando no alto de uma árvore batendo revoltada
com um pauzinho em seu tronco. Parei e perguntei o que tinha acontecido, por
que ela estava tão triste e ela explicou que estava ali porque tios Marcos e
Marcio não a deixaram participar de alguma brincadeira, alegando que ela era
muito criança, mas deixaram que minha irmã, que era apenas oito meses mais
velha, participasse. Aquilo a magoara profundamente e enquanto chorava, repetia: “a Vanja é só oito meses mais velha que
eu, só oito meses...”
Eu tentei consolá-la e convencê-la
a descer da árvore, uma vez que, por motivos óbvios, eu jamais subiria até
aquela altura, mas foi inútil; Liane havia “embirrado” e quando isso acontecia,
ela permanecia irredutível por um período bem longo. Eu a deixei ali chorando e
batendo com o pauzinho no tronco da pobre árvore e enquanto eu me afastava
ouvia seus soluços e aquela vozinha inconformada se distanciando: só oito meses... Só oito meses. Liane
logo desistiria daquela tristeza, pois ser triste, já naquela época, não fazia
parte de seus planos de vida, além disso, já estava quase escurecendo, o que
sempre abreviava suas fugas.
A noite, como era de costume
estávamos todos reunidos novamente e brincávamos juntos até sermos vencidos
pelo cansaço e cairmos no sono pesadamente para repor as energias que seriam
muito necessárias para o próximo dia.
Não havia televisão, apenas
joguinhos, conversa e violão. Naquelas férias tínhamos todo tempo do mundo para
aprender com o outro, para aprender o outro e isso nos divertia e nos
bastava. Eram tempos menos eletrônicos, tínhamos que dividir o que havia dentro
de nós, além dos joguinhos de tabuleiro, onde quanto mais crianças jogassem
melhor seria. Às vezes até brigávamos, mas isso era parte do nosso entendimento
e logo chegaria um adulto para conciliar e tudo voltava a ficar bem.
Não sei se estou sendo nostálgica, mas tudo
parecia mais simples, mais calmo e menos urgente. Não sei se é só uma
impressão, mas na minha lembrança de infância, as crianças me pareciam menos
exigentes, mais protegidas e talvez por isso mais felizes. Aos nossos olhos, nossos
pais eram grandes, fortes e sábios deixavam bem claro o que queriam de nós,
para eles, algumas coisas eram incontestáveis: o não era não, o depois era
depois; o certo era certo e o errado era inaceitável, assim aprendíamos as
acatar, a esperar e a respeitar. Sabíamos como e até onde ir; acho que regras
claras na nossa infância fizeram de nós adultos mais seguros e mais livres,
para fazermos escolhas.
Nessas férias aprendíamos o que
nenhuma escola era capaz ensinar: a delícia de estarmos em família, a
convivência, o carinho pelos nossos primos e tios e a alegria por podermos
estar juntos todos os dias, inventando brincadeiras e nos divertindo com nossas
diferenças.
Eram dias de sol, de movimento de
muito barulho, de muita alegria e que com certeza deixaram saudades em todos
nós.
Não sei por que paramos de ir
àquela casa nas férias de final de ano. Não me lembro por que aquelas férias
pararam de existir, só sei que ficamos algum tempo sem viajar até que num certo
ano, seguindo sugestão de minha tia Lia fomos acampar na praia de Maranduba.
Eram os anos setenta e acampar
era uma novidade, essa era uma opção de férias bem alternativa e meu pai era um
pouco resistente à idéia. Ele gostava de conforto e sossego, mas Lia e João,
agora casados; convenceram-no a experimentar a novidade. Não demorou muito para
que todos nós aprendêssemos a gostar daquele estilo de viagem, além disso,
naquela época, o litoral Norte do estado de São Paulo era pouco explorado e
suas praias eram belíssimas, o que levou meu pai a construir na praia da
Lagoinha, que ficava bem próxima à praia de Maranduba.
Eu
ainda não sabia, mas minhas férias iriam ficar ainda mais divertidas nessa nova
praia, mas isso é uma outra história.

Martinha, Parabéns! De "Cinderela" à escritora!!!!bjbjbjbj
ResponderExcluirquem é vc? e por que cinderela?
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