domingo, 29 de julho de 2012



Eu sempre acreditei na sorte. Ter ou não ter sorte, para mim, independe da vontade ou do trabalho de qualquer ser humano. Alguns dizem que a sorte é apenas uma questão de postura otimista em relação à vida, ou seja; pensamentos positivos que atraem atitudes positivas que atraem sorte. Outros dizem que pra ter sorte não há que se fazer nada, é só relaxar e não pensar no amanhã. Há ainda os que não acreditam em sorte; para esses, tudo o que acontece em nossas vidas é de alguma forma, fruto de nossos esforços ou de nossas escolhas.
Eu não tenho nenhuma opinião embasada em alguma teoria sobre esse assunto, não sei qual é o caminho para chegar à sorte, mas mesmo assim, acredito nela e às vezes penso que tudo pode ser bem mais simples: o Cara lá de cima fica com uma roleta girando nosso destino e determinando se hoje vamos ou não ter sorte. 
O fato é que a gente nunca sabe qual será o dia de nossa sorte; o dia em que ela vai brilhar para nós, pois assim como a morte, a sorte não pode ser programada ou determinada e nunca saberemos quando e como uma delas vai chegar.
Acho que já nascemos prontos para aceitar essas incertezas, nunca pensamos que hoje, justamente hoje, pode ser o último dia de nossas vidas ou o primeiro de uma vida bem melhor. Temos que aceitar cada dia como ele vem: bom ou ruim, alegre ou triste. É assim, teremos que enfrentá-lo da forma que ele se mostrar, contudo, aceitar não significa concordar e confesso existem fatos e acontecimentos no mundo e na vida de algumas pessoas que eu não concordo, pois não entendo. Não consigo entender porque determinadas coisas acontecem da forma que acontecem.
Um exemplo disso foi a morte do médium Chico Xavier. Esse homem veio pra Terra com a missão de fortalecer a fé, de pedir para que o mundo desse uma chance ao perdão, de tentar minimizar o sofrimento daqueles, que perderam entes queridos e de nos ensinar que a vida não se resume a essa nosso plano, há algo mais.
Ele passou seus dias dedicando-se integralmente ao próximo, a estranhos que acolhia e considerava sinceramente irmãos.
Pois bem, no dia de sua morte, o Brasil estava em festa; era Copa de 2002 e o País todo festejava a conquista de mais um título; em meio àquele torpor, com o povo embriagado pela alegria da vitória brasileira, morre Chico Xavier.
 A mídia noticiou sua morte sem dar a devida dimensão àquela perda, talvez para não macular o brilho da festa da conquista do novo título ou porque, a notícia e as imagens da alegria nas ruas do País do Futebol dessem mais “IBOP”.
 A perda daquele homem, que por lógica deveria causar uma comoção nacional, foi timidamente anunciada, poucos lamentaram sua morte, poucos perceberam que o Brasil sem Chico Xavier não seria o mesmo Brasil, seria um Brasil mais triste, mais desamparado, mesmo possuindo mais uma taça.
A imprensa pouco divulgou a importância das obras do médium e durante semanas exibiu a imagem da taça e dos jogadores tratados como heróis nacionais.
Injusto. Posso até arriscar dizer que foi falta de sorte morrer num dia de tanta festa, mesmo achando que Chico Xavier estava muito além de tudo isso.
O mesmo aconteceu com o prefeito de Campinas: Antônio da Costa Santos, conhecido como Toninho, que foi covardemente assassinado na noite de dez de setembro de dois mil e um; ou seja, horas antes da queda das Torres Gêmeas nos EUA, fato que ocupou e ainda ocupa os noticiários de todo o mundo. O mundo parou estarrecido para assistir às cenas da queda das torres.
 O horror das imagens das torres desabando se sobrepôs ao horror do assassinato de Toninho, com isso, a imprensa não deu a cobertura que poderia ter dado ao assassinato do prefeito, o que provavelmente, levaria a sociedade a cobrar atitudes enérgicas das autoridades para o esclarecimento desse crime, que até hoje permanece impune.
 O assassinato do prefeito de Campinas não era um assassinato qualquer como tantos que infelizmente já estamos acostumamos a ver; tratava-se do assassinato do prefeito de uma cidade importante do interior do maior ou mais desenvolvido estado brasileiro. O que diminuiu a importância deste fato foi outro de maior brutalidade.
 Não estou aqui questionando a importância nem o “peso” dos fatos, tampouco afirmando que um mereça mais cobertura da imprensa que outro, apenas quero localizar no tempo e no espaço tais fatos e a conseqüência de terem acontecido no momento em que aconteceram. 
Se Chico Xavier morresse em outra data, uma ou duas semanas depois, por exemplo, sua morte não dividiria a atenção com nada, portanto, sua história e seus feitos poderiam ser mais divulgados. O Brasil saberia mais sobre sua vida, sua fé e suas obras. O mesmo aconteceria com Toninho; se a imprensa não tivesse assunto tão brutal quanto a derrubada das Torres Gêmeas, a indignação com as circunstâncias da morte de um homem público descente, íntegro e tão bem intencionado, teria maior destaque nas mídias nacionais, deixaria indignado um maior número de pessoas e possivelmente, a pressão da sociedade escandalizada “exigiria” uma investigação mais clara, mais honesta e mais eficaz. Se tudo tivesse acontecido em outro dia, em outra hora, talvez hoje o verdadeiro assassino de Toninho tivesse sido punido.
É triste constatar, mas nesse caso, o assassino do prefeito teve mais sorte que sua vítima; sem saber, ele escolheu um dia propício para cometer aquele crime.
A sorte é aleatória e por isso não contempla apenas os justos, os bons ou os que trabalham, ela não funciona dentro da lógica da recompensa, ela tem uma lógica própria que eu nunca entenderei.
 Alguns cientistas, por exemplo, passam a vida estudando e pesquisando, a fim de encontrar soluções para questões humanas sérias ou curas de doenças graves e mesmo que consigam sucesso, não têm o devido reconhecimento, enquanto outros, sem grandes esforços ficam famosos e enriquecem rapidamente.
Vamos pensar no que aconteceu com o autor da música Feelings. Esse homem tem uma sorte descomunal! Essa música foi composta em mil novecentos e setenta e cinco, ou seja, há quase quarenta anos; vendeu mais de cento e sessenta milhões de cópias e foi tocada em cinqüenta países. Está entre as cem músicas mais conhecidas de todos os tempos. É realmente um fenômeno, praticamente o mundo inteiro conhece Feelings; todo mundo sabe cantar, nem que seja um pedacinho dessa música. 
Seu autor, Maurício Alberto Kaisermann, mais conhecido como Morris Albert, não conta com um vasto repertório em seu currículo; suas músicas mais famosas são Feelings e She’s My Girl. Essas são suas grandes obras. Pois bem, este homem vive hoje na Itália aproveitando a fortuna que “construiu” através de sua obra.
Resumindo: o cara compôs uma mísera música, que “sabe-se” lá por que fez esse sucesso estrondoso e vive confortavelmente, até hoje, dos lucros do inexplicável sucesso.
Pode se dizer que esse homem vive há décadas de “Feelings; nothing more than fillings”.  

Com licença, mas tenho que comentar: Esse sujeito nasceu virado pra lua; é muita sorte! Se não é sorte, então o que é?  Pacto com Ele, o Cão, o Demo, o Tinhoso? Só pode ser isso! Ou então o “Caboclo Cantadô” baixou e soprou essa música na orelha dele, só na orelha dele, na de mais ninguém. Não tem outra explicação. Como ele conseguiu tanto sucesso e tanto dinheiro com essa musiquinha tonta? E esse Michel Teló? Dá pra alguém me explicar... Como uma músiquinha de mau gosto, com quatro frases e cinco notas foi capaz de fazer tanto sucesso?
Francamente, não consigo entender.

E o que falar sobre Van Gogh? Tem coisa mais injusta que essa? O cara morreu na miséria, esquecido, abandonado, sofrido, atormentado, em toda sua vida vendeu apenas um quadro e depois de sua morte, claro; seus quadros não têm preço, o valor de sua obra é inestimável. Que sacanagem! Chega a ser revoltante! Dá até pra entender; até eu, vivendo nessa miséria e nessa falta de sorte, tomaria um porre de absinto e cortaria um “leio” da orelha!
Eu segui esse texto até agora sem mencionar a palavra azar e mantendo a educação, mas não tem jeito; agora eu tenho que dizer: vai ter azar assim na casa do cacete, porra!
Não dá pra agüentar isso! É muita injustiça.

 Que sorte é essa? E não venha me falar de talento; Morris Albert não é mais talentoso que Van Gogh. Assim não dá! A gente tem que se estressar mesmo! Até porque, vamos combinar: que puta música chata! Aquele negócio entra na cabeça e gruda! Fica lá três dias se deixar; só sai se a gente escutar Rebolation, que também gruda. E Rebolation? Alguém pode me explicar o que é isso e como essa coisa foi parar na mídia fazendo o sucesso que fez? Valha-me Deus Nossa Senhora! Assim não dá pra ser feliz!

Pode parecer desdém, mas não é; todo esse meu discurso foi uma introdução para apresentar a sorte do Tobias.
Tobias era um gatinho que eu achei encostado ao pneu de um caminhão num posto de gasolina à beira da estrada. Chovia muito naquele dia e eu estava voltando da Unicamp, Universidade de Campinas, com meu namorado, o qual, eu ainda não sabia, mas a minha “sorte” tinha me reservado como marido, quando o pneu de nosso carro furou e ele teve que parar naquele posto imundo para trocá-lo.
Nessa hora que eu ouvi um miado que de tão fraco parecia distante. Aquele miado era muito insistente e resolvi descer do carro, mesmo com toda chuva, para ver de onde ele vinha. Deparei-me com um filhotinho de gato vira-lata branquinho e fofinho. Aquele serzinho estava faminto e tremia de frio.
Acho que se eu tivesse demorado algumas horas para encontrá-lo ele teria morrido, mas, mais uma vez o destino interferiu e lá estava eu para impedir a morte do bichinho.
Penalizada e disposta a cuidar daquele gatinho branquinho, fofinho e fraquinho, eu o recolhi. Comprei leite no posto, pedi para esquentar e fui alimentando o animalzinho bem lentamente, com muita paciência e zelo. Limpei e sequei o bichano e o acomodei dentro da minha blusa para aquecê-lo com o calor da minha pele.
Durante todo o caminho que me levava de volta pra casa, uma pergunta não saía da minha cabeça: e agora? O que eu vou fazer com esse gato?
Meu irmão era alérgico a pelos de animais; eu já pegara, contra a vontade de meu pai, uma cachorrinha de nome Fafá, que certamente comeria aquele gatinho indefeso. Era claro que ele estava frágil e precisava de muitos cuidados; cuidados de pessoas especiais, pessoas com muito amor... Pronto! Quando pensei em amor meus avós maternos me vieram imediatamente à mente. Estava ali a solução do meu problema e do problema do gato.
Nessa época, meus avós estavam morando numa casa muito ampla e confortável, bem perto da minha; eles poderiam muito bem acolher aquele gatinho, havia espaço para ele, além disso, eu também ficaria perto do animalzinho que já me conquistara.
A idéia me parecia ótima, mas eu ainda tinha dúvidas, fiquei com um pouco de receio que minha avó se negasse a ficar com o bichinho, pois até onde eu sabia, ela gostava de cachorros e nunca tinha se mostrado fã de gatos, mas mesmo assim, resolvi arriscar.
Coloquei no rosto uma expressão muito mais comovente que a expressão de abandono da cara do gato; fui até a casa de meus avós disposta a comovê-los e assim convencê-los a adotar aquela criaturinha.
Para minha alegria, ao chegar, constatei que a casa estava vazia. Aquilo era mais um ponto pra sorte do gato, uma vez que, com a casa vazia não haveria chance de recusa, era só colocar o gatinho pra dentro e pronto. Eu sabia que se ele conseguisse entrar, meus avós jamais teriam coragem de colocá-lo pra fora. Isso foi fácil, através de uma fresta na janela grande da sala de jantar, coloquei enrolado nuns trapinhos, o gatinho sortudo para dentro e fui embora tranqüila, pois algo me dizia que meus avós cuidariam dele.
Dito e feito, aquele gato também nasceu virado pra lua, meus avós chegaram e encontraram o serzinho carente bem no meio da sala de jantar. Foi incrível! Os velhos ficaram numa alegria como a de quem ganha um prêmio. Durante semanas eles só falavam no gatinho que havia surgido do nada, espontaneamente!
 Meu avô tratou logo de escolher um nome para o bichano e o batizou o com o imponente nome de Tobias. Minha avó acordava de madrugada para alimentar e verificar se o gato estava bem, o casal estava feliz por ter de novo de quem cuidar e assim, o pequeno felino se tornou rapidamente o xodó da casa.
 Tobias foi crescendo e sendo tratado como lorde. Era alimentado com leite integral e carne de primeira cortada em pedacinhos bem miudinhos para que ele não engasgasse.
Tobias ficou grande, forte, mimado e feio. Gente, como era feio! Ele tinha uma cara triangular e meio amassada e até os olhos do gato eram feios.
Juro, se eu soubesse que aquele animal iria ficar tão feio eu jamais teria deixado na casa de meus avós, teria largado num trem fantasma e ele que se virasse pra sobreviver.
Às vezes sentia até remorso por ter dado coisa tão feia aos meus avós. Coitados dos velhos, dedicando tanto amor pra aquele filhote de “Deus que me Perdoe”, dava até dó. Mas eles pareciam não se importar com a feiúra do gato e amavam aquele bichinho incondicionalmente.
Tobias tinha mais sorte e mais amor que muita gente nesse mundo e claro que isso só fortalecia aquela criatura horrorosa. Além de feio ele ficou “metido”: pulava no colo de todo mundo, miava quando alguém sentava em sua poltrona predileta; fazia o que queria e meus avós achavam tudo uma gracinha.
O tempo foi passando e o gato chegou à idade adulta. Todas as noites ele saia para namorar. Inacreditável, mas ele arrumava namorada mesmo com aquela feiúra desengonçada.
Algumas noites ele voltava pra casa machucado, pois frequentemente apanhava ou das gatas que namorava ou de seu rival, um gato preto bem maior que rondava aquela vizinhança.
Tobias já era feio, imagina como ele ficava machucado!
Muitas foram as noites que meu avô saiu no frio para defender o bichano. Era doloroso para o velho ver o feioso “levar a pior” na disputa pelas gatas. Era sério, meus avós gostavam mesmo daquele gato.
 Tobias envelheceu e morreu na casa de meus avós, sempre cercado de amor e conforto. Aquele gatinho vira-lata teve uma vida invejável; nasceu na rua, passou fome, frio, escapou da morte e foi parar num lar caloroso e confortável.
 Ninguém; nem mesmo o próprio gato, poderia supor o tamanho de sua sorte.  Ele estava tentando sobreviver ao frio e a chuva embaixo do pneu daquele caminhão. O minuto, a hora e os anos seguintes estavam nas mãos do destino.
 Eu imagino que quando ele achou que tudo estava perdido e que não sobreviveria, eu cheguei e o levei da chuva para um lar, do abandono para a sorte.
Gosto de acreditar que coisas assim podem acontecer com a gente também e sempre que posso, recorro à lembrança de Tobias para reforçar a esperança que tudo que não está muito bem pode e vai melhorar.
Se hoje estamos no frio e na chuva, amanhã poderemos não estar. 
É só uma questão de sorte.

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