domingo, 13 de maio de 2012



As crianças da minha família tinham várias obrigações: A primeira delas era comer bem, depois vinham: ser estudiosa e comer bem, desenvolver suas aptidões musicais e comer bem, ser educada e comer bem, ser obediente e comer bem, ter bons modos sempre e comer bem e finalmente, sentar-se à mesa “direitinho” pra comer bem.
O descumprimento da Regra Máster: comer bem, viga forte de sustentação de nossos nem tão pequenos seres, poderia resultar em danos permanentes para as crianças, que eventualmente, conseguissem chegar à idade adulta.
A criança que não comesse bem estava sujeita a: ficar feia, fraca e boba e, portanto exilada no limbo da indiferença dos adultos. A má alimentação também ocasionaria problemas graves, que resultariam em seqüelas irreversíveis como: séria dificuldade de aprendizado, o que não lhe permitiria uma boa educação formal. Em conseqüência, a criança se tornaria um adulto burro e isso no futuro, acarretaria no total fracasso profissional; o que por sua vez, a levaria à absoluta incapacidade de ganhar dinheiro e, portanto, à impossibilidade de comprar comida.
Não era difícil ouvir frases do tipo: “Deixa”, “deixa”, “deixa” ela! Não quer comer... tudo bem, não come, mas você vai ficar burra e quando crescer vai puxar carroça.

* Obs. a mesma frase também valia para a criança que não queria estudar. *

Era terrível! Crescer pra puxar carroça?
Esse era o grau de importância da comida no universo ítalo-infantil.
 Para essas crianças, não comer era quase ter um encontro, com hora e dia marcados, com a Cuca, é, aquela que vem “pegá”! Isso, a do Nana Neném.
Eu, meus irmãos e a maioria dos meus primos já havíamos aprendido por bem a acatar aquelas regras.
Aos domingos, encontrávamos todos, na casa de nossos avós paternos.  Todos os gordinhos domingueiros esperando as guloseimas da nonna.
Exibíamos orgulhosos e felizes a nossa robustez e éramos frequentemente, agraciados com os diversos tipos de demonstrações de carinho de nossos tios e tias.
Elas, as tias, nos prendiam ao colo e faziam perguntas “bobas” que não queríamos responder e antes de finalmente nos soltar davam-nos beijos e um abraço bem apertado. Chegava a doer.
Eles, os tios, a cada vez que passavam por nós, brindavam-nos com beliscões, apertõezinhos no nariz e eventuais tapas na bunda. Isso quando não sobrava uma mordida aqui ou ali, se “marcássemos”. A ordem era: “ficar esperto” e aprender a desviar, principalmente dos tios, eles sempre foram bem mais “carinhosos”. Era puro amor!
Parece incrível, mas bem lá no fundo nós gostávamos disso e sentíamos um tipo de rejeição quando não nos era desferido nenhum golpe.
Todas aquelas crianças, pelo menos naquela hora, eram felizes. Todas aquelas crianças pareciam sinceramente felizes.  
Hoje, quando analiso o resultado tenho que admitir que meus pais e meus avós tinham razão. Eles poderiam não ter o argumento correto: “puxar carroça”, mas certamente o estudo e a boa alimentação nos foram de grande valia.  
Fazendo um balanço geral, percebi que todos os meus primos têm curso superior, todos são cultos e conversam sobre qualquer assunto sem passar vergonha. Todos, ou pelo menos a grande maioria, são bem sucedidos profissionalmente.
Todos, ainda hoje, apreciam uma boa mesa e uma boa companhia para compartilhá-la.
Todos brigam com a balança.
Todos ficam apavorados quando chamados de gordo e pior, todos vão te chamar de gordo, sem o menor dó, se assim você estiver.
Quanto a mim, é difícil analisar; acho que sou a tal da exceção que confirma a regra, pois, estou bem acima do meu peso e há bastante tempo não tenho uma vida profissional.
Curioso... Até onde eu me lembro, eu sempre obedeci àquelas regras. Comi direitinho, estudei e li bastante, fiz uma boa faculdade, me formei com destaque e quase sempre obedeci meus pais. Tentei fazer tudo certo!
O que será que deu errado?

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