As
crianças da minha família tinham várias obrigações: A primeira delas era comer bem, depois vinham: ser estudiosa e comer bem, desenvolver suas
aptidões musicais e comer bem, ser educada e comer bem, ser obediente e comer
bem, ter bons modos sempre e comer bem e finalmente, sentar-se à mesa “direitinho”
pra comer bem.
O
descumprimento da Regra Máster: comer bem,
viga forte de sustentação de nossos nem
tão pequenos seres, poderia resultar em danos permanentes para as crianças,
que eventualmente, conseguissem chegar à idade adulta.
A
criança que não comesse bem estava sujeita a: ficar feia, fraca e boba e,
portanto exilada no limbo da indiferença dos adultos. A má alimentação também ocasionaria
problemas graves, que resultariam em seqüelas irreversíveis como: séria
dificuldade de aprendizado, o que não lhe permitiria uma boa educação formal. Em
conseqüência, a criança se tornaria um adulto burro e isso no futuro, acarretaria no total fracasso profissional;
o que por sua vez, a levaria à absoluta incapacidade de ganhar dinheiro e,
portanto, à impossibilidade de comprar comida.
Não
era difícil ouvir frases do tipo: “Deixa”,
“deixa”, “deixa” ela! Não quer comer... tudo bem, não come, mas você vai ficar
burra e quando crescer vai puxar carroça.
* Obs.
a mesma frase também valia para a criança que não queria estudar. *
Era terrível!
Crescer pra puxar carroça?
Esse
era o grau de importância da comida no universo ítalo-infantil.
Para essas crianças, não comer era quase ter
um encontro, com hora e dia marcados, com a Cuca,
é, aquela que vem “pegá”! Isso, a do Nana Neném.
Eu,
meus irmãos e a maioria dos meus primos já havíamos aprendido por bem a acatar aquelas regras.
Aos
domingos, encontrávamos todos, na casa de nossos avós paternos. Todos os gordinhos
domingueiros esperando as guloseimas da nonna.
Exibíamos
orgulhosos e felizes a nossa robustez e éramos frequentemente, agraciados com
os diversos tipos de demonstrações de carinho de nossos tios e tias.
Elas,
as tias, nos prendiam ao colo e faziam perguntas “bobas” que não queríamos responder e antes de finalmente nos soltar
davam-nos beijos e um abraço bem apertado. Chegava a doer.
Eles,
os tios, a cada vez que passavam por nós, brindavam-nos com beliscões, apertõezinhos
no nariz e eventuais tapas na bunda. Isso
quando não sobrava uma mordida aqui ou ali, se “marcássemos”. A ordem era: “ficar
esperto” e aprender a desviar, principalmente dos tios, eles sempre foram
bem mais “carinhosos”. Era puro amor!
Parece
incrível, mas bem lá no fundo nós gostávamos disso e sentíamos um tipo de
rejeição quando não nos era desferido nenhum golpe.
Todas
aquelas crianças, pelo menos naquela hora, eram felizes. Todas aquelas crianças
pareciam sinceramente felizes.
Hoje,
quando analiso o resultado tenho que admitir que meus pais e meus avós tinham
razão. Eles poderiam não ter o argumento correto: “puxar carroça”, mas certamente o estudo e a boa alimentação nos
foram de grande valia.
Fazendo
um balanço geral, percebi que todos os meus primos têm curso superior, todos são
cultos e conversam sobre qualquer assunto sem passar vergonha. Todos, ou pelo menos a grande maioria, são bem
sucedidos profissionalmente.
Todos,
ainda hoje, apreciam uma boa mesa e uma boa companhia para compartilhá-la.
Todos
brigam com a balança.
Todos
ficam apavorados quando chamados de gordo e pior, todos vão te chamar de gordo, sem o
menor dó, se assim você estiver.
Quanto
a mim, é difícil analisar; acho que sou a tal da exceção que confirma a regra,
pois, estou bem acima do meu peso e há bastante tempo não tenho uma vida
profissional.
Curioso...
Até onde eu me lembro, eu sempre obedeci àquelas regras. Comi direitinho,
estudei e li bastante, fiz uma boa faculdade, me formei com destaque e quase
sempre obedeci meus pais. Tentei fazer tudo certo!
O
que será que deu errado?

Nenhum comentário:
Postar um comentário