domingo, 20 de maio de 2012



Já era noite e eu estava deitada no sofá da sala, assistindo TV. Tinha uma febre muito alta, até mesmo para uma criança. Lembro-me de minha mãe preocupadíssima. Ela vinha a cada quarto de hora medir minha temperatura. Meu pai, inquieto, roia o maior número de unhas que conseguia. Meus irmãos ainda estavam acordados por conta do clima de tensão que se instalara naquele apartamento.
A febre era resistente, não cedia nem com os medicamentos receitados pelo médico na tarde daquele mesmo dia, mas eu, curiosamente, me sentia bem e até estava gostando de ter toda aquela atenção.
 O mundo estava girando ao meu redor e isso era o máximo, afinal, eu era a filha do meio, aquela que fica num vácuo entre os caprichos e desmandos da filha mais velha e “malacostumada”, como costumava dizer meu avô, e o irmão mais novo, que além de ser o “picurrucho” da família, exigia muito de meus pais devido às constantes crises de asma e das alergias que frequentemente o acometiam.
Era a realização! Era um dia raro!
Naquele dia, eu era a protagonista. O show era meu e de mais ninguém. O sofá era meu e de mais ninguém. Minha mãe só tinha olhos para mim e para mais ninguém.  E o que eu podia fazer para deixar aquele dia especial ainda mais especial? Nada, pois mesmo com a febre ele parecia perfeito.
Mas, de repente, eu tive a idéia de começar a produzir com a garganta, um barulhinho mais ou menos assim: crrrrr, crrrr, crrrr.
 Naquele momento, ao produzir o barulhinho curioso, eu não tinha nenhuma intenção a não ser aliviar um pouco a dor na garganta tão inflamada.
Não fazia parte dos meus planos, alarmar ninguém, aliás, eu não tinha plano algum, muito menos tinha a consciência de que aquele barulhinho inocente poderia assustar alguém, além disso, achei muito interessante aquele ruído: crrr, crrrr. Acho que era a primeira vez que eu produzira tal som.
Continuei por algum tempo com o som ingênuo e isso começou a transformar a preocupação de minha mãe em desespero.
Confesso que não percebi a mudança de grau no estresse de minha mãe.
Quando se tratava de doença e de desgraça que pudessem acontecer com seus filhos, minha mãe via o mundo sob óptica própria; ela usava lupas enormes e super poderosas e tudo ficava muito, muito grave mesmo.
Lembro-me que ela, nervosíssima, pediu que minha irmã subisse “imediatamente” ao apartamento dos meus avós, que moravam no andar de cima e chamasse meu avô.

*Minha mãe adorava e ainda adora advérbios*

 Meu avô era enfermeiro e poderia ajudar a desvendar o mistério daquele som, o crrr, e também daquela febre tão alta.
Rapidamente meu avô chegou. Ele já exibia no rosto uma expressão séria e preocupada, que só piorou depois de me ver.
Acho que todo mundo já sabe que numa família de descendentes de italianos, uma criança doente é uma tragédia comparada à que viveu a Família Kennedy.
Instantes depois da chegada de meu avô, surge minha avó muito afobada perguntando:
O que está acontecendo? A febre da menina subiu?
Ninguém respondeu.
Minha mãe continuou:
-Pai, será que é crupe?Será que é sororoca?
Achei muito legal aquelas palavras! Sororoca era bem engraçada! E crupe! Essa era ainda melhor. Era quase o barulhinho que eu continuava fazendo: crrrrr, crrrr, crrrr.
Para quem não sabe, neste caso, crupe era a obstrução aguda da laringe devido ao processo inflamatório, o que poderia causar sufocamento e sororoca era o soluço da agonia final.
Quase nada dramático.
Por aí já dá pra perceber bem a dimensão que uma simples inflamação de garganta assume numa família italiana.
Enquanto meus avós e minha mãe conversavam, meu pai não perdia tempo e chamava logo o pediatra. O Dr. Olímpio.
Esse sim! Ele era “o cara”!
O Dr. Olímpio era mestre naquilo que fazia. Os longos anos de pediatria e seus nove filhos lhe conferiram uma calma, um preparo e o mais importante, uma noção de psicologia infantil extraordinários.
A figura do Dr. Olímpio me causava um pouco de medo, principalmente por causa de um “palito de sorvete grande” e sem sorvete, claro, que ele insistia em enfiar na minha garganta, todas as vezes que eu o via. Mesmo assim, eu o adorava, quando ele estava por perto, eu me sentia importante, me sentia notada.
Ele me compreendia. Ele sabia como chegar até mim. Ele tinha todas as respostas.
Mas, neste caso específico, melhor que ter a resposta certa era saber fazer a pergunta certa e isso era mais uma de suas especialidades.
Bem, ele chegou e com calma me examinou minuciosamente.
Deu um sorriso, pousou a mão no meu tórax e baixinho perguntou:
-“Marta, por que você está fazendo esse barulho”.
Prontamente respondi:
-“Porque é gostoso”!
Até aquele momento, ninguém havia se lembrado de me fazer essa pergunta tão básica, pertinente, sagaz e inteligente, que acabaria de vez com todo o sofrimento de meus pais e avós.
Ninguém se preocupara com o obvio, com o simples; bastava perguntar o porquê daquele barulhinho.
Isso era a chave de tudo e essa idéia só poderia mesmo ter partido da experiência e da genialidade do tão competente Dr. Olímpio.
Nem bem eu acabava de pronunciar a última sílaba da palavra “gostoso”, pude perceber um abalo na estrutura terrestre. Nuvens densas e turvas começaram a encobrir o céu límpido. A expressão da minha mãe, havia se transformado. Reconheci, no seu olhar, a face mais cruel da Besta.
Sim, ela estava furiosa.
Suas sobrancelhas, que antes, erguiam-se nas extremidades interior, mudaram e agora eram as extremidades exteriores que subiam; e isso, eu sabia, não era bom; já era o primeiro sinal da hecatombe que estava por vir.
Minutos depois, fez-se as trevas.  A Terra simplesmente parou.
Os Deuses, apavorados, refugiaram-se no Olimpo mais próximo e subitamente, senti o ar ficar cada vez mais denso.
Naquele momento de tensão eterna pude perceber a burrada que tinha feito, mesmo que sem querer, porém, só tive realmente certeza que o pior me aguardava quando olhei para minha irmã e em seu rosto desenhou-se um brando sorriso de satisfação.
Mal a porta fechou, com o Dr. Olímpio já do lado de fora; foi possível ouvir por todo o quarteirão a voz da minha mãe:
-“Gostoso! Gostoso!
-Você vai ver o que é gostoso agora!”
Eu já me preparava para ser colocada na masmorra e ter as pálpebras coladas, quando meu pai, meu avô e minha avó, que eram da abençoada turma do “deixa disso” intercederam por mim e aplacaram, um pouco, a fúria da minha mãe.
Graças a eles e não aos deuses, que já tinham se recolhido de medo, sobrevivi àquele episódio.
Com apenas três ou quatro “cascudos”, que me esquentaram mais que a febre, fui dormir esperando pelo próximo dia, que eu acreditava, seria bem melhor.
Quando penso nessa história uma dúvida me consome:
Será que o Dr. Olímpio me ferrou de propósito?
Será que na verdade ele já estava de “saco cheio” de tanta criança? Afinal, ele tinha nove filhos.
Será que ele não gostou de ter saído de sua casa tarde da noite?
Será que ele foi pra casa rindo?
Que pena...  Nunca terei essas respostas.

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