Já
era noite e eu estava deitada no sofá da sala, assistindo TV. Tinha uma febre
muito alta, até mesmo para uma criança. Lembro-me de minha mãe preocupadíssima.
Ela vinha a cada quarto de hora medir minha temperatura. Meu pai, inquieto, roia
o maior número de unhas que conseguia. Meus irmãos ainda estavam acordados por
conta do clima de tensão que se instalara naquele apartamento.
A
febre era resistente, não cedia nem com os medicamentos receitados pelo médico
na tarde daquele mesmo dia, mas eu, curiosamente, me sentia bem e até estava
gostando de ter toda aquela atenção.
O mundo estava girando ao meu redor e isso era
o máximo, afinal, eu era a filha do meio, aquela que fica num vácuo entre os
caprichos e desmandos da filha mais velha e “malacostumada”, como costumava
dizer meu avô, e o irmão mais novo, que além de ser o “picurrucho” da família, exigia muito de meus pais devido às
constantes crises de asma e das alergias que frequentemente o acometiam.
Era
a realização! Era um dia raro!
Naquele
dia, eu era a protagonista. O show
era meu e de mais ninguém. O sofá era
meu e de mais ninguém. Minha mãe só
tinha olhos para mim e para mais ninguém. E o que eu podia fazer para deixar aquele dia
especial ainda mais especial? Nada, pois mesmo com a febre ele parecia
perfeito.
Mas,
de repente, eu tive a idéia de começar a produzir com a garganta, um barulhinho
mais ou menos assim: crrrrr, crrrr, crrrr.
Naquele momento, ao produzir o barulhinho
curioso, eu não tinha nenhuma intenção a não ser aliviar um pouco a dor na
garganta tão inflamada.
Não
fazia parte dos meus planos, alarmar ninguém, aliás, eu não tinha plano algum,
muito menos tinha a consciência de que aquele barulhinho inocente poderia
assustar alguém, além disso, achei muito interessante aquele ruído: crrr, crrrr. Acho que era a primeira vez
que eu produzira tal som.
Continuei
por algum tempo com o som ingênuo e isso começou a transformar a preocupação de
minha mãe em desespero.
Confesso
que não percebi a mudança de grau no estresse de minha mãe.
Quando
se tratava de doença e de desgraça que pudessem acontecer com seus filhos,
minha mãe via o mundo sob óptica própria; ela usava lupas enormes e super poderosas
e tudo ficava muito, muito grave mesmo.
Lembro-me
que ela, nervosíssima, pediu que minha irmã subisse “imediatamente” ao apartamento dos meus avós, que moravam no andar
de cima e chamasse meu avô.
*Minha mãe adorava e ainda adora advérbios*
Meu avô era enfermeiro e poderia ajudar a
desvendar o mistério daquele som, o crrr,
e também daquela febre tão alta.
Rapidamente
meu avô chegou. Ele já exibia no rosto uma expressão séria e preocupada, que só
piorou depois de me ver.
Acho
que todo mundo já sabe que numa família de descendentes de italianos, uma
criança doente é uma tragédia comparada à que viveu a Família Kennedy.
Instantes
depois da chegada de meu avô, surge minha avó muito afobada perguntando:
O que está acontecendo? A febre da menina
subiu?
Ninguém
respondeu.
Minha
mãe continuou:
-Pai, será que é crupe?Será que é sororoca?
Achei
muito legal aquelas palavras! Sororoca era bem engraçada! E crupe! Essa era
ainda melhor. Era quase o barulhinho que eu continuava
fazendo: crrrrr, crrrr, crrrr.
Para
quem não sabe, neste caso, crupe era a obstrução aguda da laringe devido ao
processo inflamatório, o que poderia causar sufocamento e sororoca era o soluço
da agonia final.
Quase
nada dramático.
Por
aí já dá pra perceber bem a dimensão que uma simples inflamação de garganta
assume numa família italiana.
Enquanto
meus avós e minha mãe conversavam, meu pai não perdia tempo e chamava logo o
pediatra. O Dr. Olímpio.
Esse
sim! Ele era “o cara”!
O Dr.
Olímpio era mestre naquilo que fazia. Os longos anos de pediatria e seus nove
filhos lhe conferiram uma calma, um preparo e o mais importante, uma noção de
psicologia infantil extraordinários.
A
figura do Dr. Olímpio me causava um pouco de medo, principalmente por causa de
um “palito de sorvete grande” e sem sorvete, claro, que ele insistia em
enfiar na minha garganta, todas as vezes que eu o via. Mesmo assim, eu o
adorava, quando ele estava por perto, eu me sentia importante, me sentia
notada.
Ele
me compreendia. Ele sabia como chegar até mim. Ele tinha todas as respostas.
Mas,
neste caso específico, melhor que ter a resposta certa era saber fazer a pergunta
certa e isso era mais uma de suas especialidades.
Bem,
ele chegou e com calma me examinou minuciosamente.
Deu
um sorriso, pousou a mão no meu tórax e baixinho perguntou:
-“Marta, por que você está fazendo esse
barulho”.
Prontamente
respondi:
-“Porque é gostoso”!
Até
aquele momento, ninguém havia se lembrado de me fazer essa pergunta tão básica,
pertinente, sagaz e inteligente, que acabaria de vez com todo o sofrimento de
meus pais e avós.
Ninguém
se preocupara com o obvio, com o simples; bastava perguntar o porquê daquele
barulhinho.
Isso
era a chave de tudo e essa idéia só poderia mesmo ter partido da experiência e
da genialidade do tão competente Dr.
Olímpio.
Nem
bem eu acabava de pronunciar a última sílaba da palavra “gostoso”, pude perceber um abalo na estrutura terrestre. Nuvens
densas e turvas começaram a encobrir o céu límpido. A expressão da minha mãe,
havia se transformado. Reconheci, no seu olhar, a face mais cruel da Besta.
Sim,
ela estava furiosa.
Suas
sobrancelhas, que antes, erguiam-se nas extremidades interior, mudaram e agora
eram as extremidades exteriores que subiam; e isso, eu sabia, não era bom; já era
o primeiro sinal da hecatombe que estava por vir.
Minutos
depois, fez-se as trevas. A Terra
simplesmente parou.
Os
Deuses, apavorados, refugiaram-se no Olimpo
mais próximo e subitamente, senti o ar ficar cada vez mais denso.
Naquele
momento de tensão eterna pude
perceber a burrada que tinha feito, mesmo que sem querer, porém, só tive
realmente certeza que o pior me aguardava quando olhei para minha irmã e em seu
rosto desenhou-se um brando sorriso de satisfação.
Mal
a porta fechou, com o Dr. Olímpio já do lado de fora; foi possível ouvir por
todo o quarteirão a voz da minha mãe:
-“Gostoso! Gostoso!
-Você vai ver o que é gostoso agora!”
Eu
já me preparava para ser colocada na masmorra e ter as pálpebras coladas,
quando meu pai, meu avô e minha avó, que eram da abençoada turma do “deixa
disso” intercederam por mim e aplacaram, um pouco, a fúria da minha mãe.
Graças
a eles e não aos deuses, que já tinham se recolhido de medo, sobrevivi àquele
episódio.
Com
apenas três ou quatro “cascudos”, que
me esquentaram mais que a febre, fui dormir esperando pelo próximo dia, que eu
acreditava, seria bem melhor.
Quando
penso nessa história uma dúvida me consome:
Será
que o Dr. Olímpio me ferrou de propósito?
Será
que na verdade ele já estava de “saco
cheio” de tanta criança? Afinal, ele tinha nove filhos.
Será
que ele não gostou de ter saído de sua casa tarde da noite?
Será
que ele foi pra casa rindo?
Que
pena... Nunca terei essas respostas.

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