O novo apartamento era bem
espaçoso e confortável. Tinha uma sacada ampla com vista para a rua de onde
podíamos avistar até a escola onde eu
e meu irmão estudávamos.
Eu continuava dividindo o quarto
com minha irmã, mas já podia apagar a luz para dormir, ela já havia se
recuperado dos traumas causados pelas histórias de terror que as duas velhinhas
lhe contavam.
Meu irmão tinha um quarto só pra
ele com seus brinquedos e todos seus pertences.
Não faltava espaço pra ninguém.
Foi nesse apartamento que comecei
a descobrir as afinidades que tinha com meu irmão, ele crescera um pouco e já
era possível brincarmos juntos.
Meu irmão nunca “topou” brincar de boneca ou casinha
comigo, mas eu, por outro lado, estava sempre disposta a “encarar” as brincadeiras de menino.
Jogávamos bola no corredor do
prédio e quebramos dois lustres; brincávamos de pega-pega por todo o
apartamento e tivemos as primeiras reclamações dos vizinhos sobre barulho. Brincávamos
de esconder da minha irmã pra vê-la chorar, e quase apanhamos de minha mãe por
isso; às vezes até jogávamos um joguinho de tabuleiro que tinha um copinho vermelho com um dadinho dentro. Tenho certeza que meu irmão se lembra desse
jogo e do copinho maldito.
O espaço era maior, tínhamos a
companhia um do outro, podíamos descer do prédio para comprar sorvete na
sorveteria da esquina, tínhamos uma sacada grande e ensolarada com vista para a
rua, tínhamos muitos brinquedos para inventar quantas brincadeiras a nossa
imaginação mandasse.
Aparentemente estava tudo certo,
era pra tudo ficar melhor, mas não foi bem assim que aconteceu.
Nosso comportamento piorava
dia-a-dia. Ondas de inquietude nos arrebatavam frequentemente e mesmo sendo
crianças tínhamos a noção de que não estávamos sendo bonzinhos e poderíamos pagar caro por isso. Sabíamos que estávamos
abusando da paciência dos adultos, mas
mesmo conscientes, não conseguíamos parar de aprontar. Todos os dias uma nova idéia surgia e pior, era posta em
prática imediatamente, sem nos preocuparmos com as conseqüências. Era como se um inspirasse o outro, de repente
nos descobrimos como duas crianças rebeldes com energia sobrando para incomodar.
Queríamos instaurar o caos. Queríamos “causá, mano”. Estávamos possuídos, nada nos aquietava; nada nos
saciava.
Enquanto nossa energia fervia, minha mãe
recebia semanalmente, cartas nada agradáveis da administração do condomínio
cobrando providências.
Depois que eu e meu irmão nos
associamos nada mais podia nos deter, nem mesmo minha mãe. Ficamos muito fortes
e as coisas fugiam do controle dela.
Uma outra carta do condomínio havia chegado e
agora era, na verdade um aviso. O condomínio alertava meus pais que nossa “batata estava assando”; ou seja, se eles
não controlassem nosso comportamento desvairado seríamos “convidados” a nos retirar do prédio; trocando em miúdos, estávamos
na eminência de sermos expulsos daquele condomínio por mau comportamento.
Meu irmão e eu começávamos a nos preocupar,
mas nem essa preocupação foi capaz de nos conter, muito pelo contrário, despertou
em nós uma espécie de “exu mirim
adormecido”.
A sacada do nosso apartamento era
encostada à sacada do apartamento do vizinho, apenas uma fina parede as
separava e tudo que não queríamos mais era jogado na sacada do pobre vizinho: casca de fruta, tampa de caneta, logo depois
a caneta, chiclete mascado, palito de sorvete, papel de bala, a bala, lixo
nuclear, hospitalar, doméstico, enfim, tudo, tudo mesmo ia parar na casa
dos vizinhos. Eles, apesar de serem pessoas educadas e compreenderem que
crianças fazem essas coisas, estavam
muito incomodados com o tanto de coisas
que aquelas crianças; estavam fazendo.
Nós não dávamos nem um dia de
trégua, todos os dias era dia de importunarmos os vizinhos. Era nossa atividade
principal e para isso usávamos todos os recursos disponíveis: lixo, papel sujo,
palito de sorvete, brinquedos velhos e quebrados, pistolinhas d’água, etc.
A família do apartamento ao lado
morava com uma idosa, a “vovó”. A
senhorinha, que mal andava, era posta, todas as manhãs, sentadinha numa cadeira
na sacada para o banho de sol.
A pobre velhinha mal sabia onde
estava, mas, meu irmão sim, ele sabia calcular com precisão a localização da
vulnerável vovó e não perdeu tempo: munido de sua arminha d’água e quase num
ato suicida, debruçou-se no parapeito da sacada para atirar e acertar, sem
piedade, a indefesa velhinha.
Senil, incapacitada, vulnerável,
dependente e úmida, ela não reagia, apenas procurava mexendo a cabeça com
lentidão, de onde vinha tanta água.
Ao ver meu irmão fazendo aquilo, pensei em
ajudar a velhinha, aconselhando-o a parar com a crueldade, mas que se dane, acabei ajudando meu irmão. Corri
para pegar uma segunda arminha de água e o ajudei a ensopar de vez a velha.
Isso foi literalmente a gota
d’água para os vizinhos, que imediatamente fizeram uma reclamação formal ao
condomínio e pior, chamaram minha mãe e exigiram dela uma atitude. A atitude
chegou de forma radical e juro, doeu. Meu irmão e eu sentimos na pele a atitude de minha mãe.
Resolvemos, então, dar um tempo nas brincadeiras e passamos
uma semana nos comportando como verdadeiros monges,
mas era obvio que aquele comportamento artificial, obtido através de violenta
coação não iria durar muito tempo. Não estávamos convencidos a mudar, era tudo
uma simulação com um único objetivo: voltar mais fortes e mais aterrorizantes.
Estávamos agora sob o olhar atento de minha
mãe, na verdade sempre estivemos, mas naquela ocasião ela havia redobrado a
vigilância. Estudávamos uma maneira de continuar nossas atividades ilícitas, mas os olhos de águia de minha mãe nos seguiam fria e lentamente. Era
assustador.
Estava muito difícil achar uma brecha, mas meu irmão conseguiu. Depois de
chupar uma manga, driblou a segurança;
minha mãe, e sorrateiramente atirou a casca e o caroço no apartamento do
vizinho; acabou acertando a testa da senhorinha que tomava banho de sol. Para
completar, ao debruçar na sacada para acertar a testa da velha, meu irmão viu
meu pai estacionando o carro. Ele ia almoçar em casa todos os dias e naquele
dia, meu irmão resolveu fazer uma brincadeirinha com meu pai.
É difícil de acreditar, mas ele
só queria brincar mesmo e para isso pegou uma faca da cozinha, esperou meu pai atrás
da porta do elevador. Quando a porta se
abriu ele pulou e disse:
-Mãos ao alto! Isso é um assalto!
Meu irmão adorava filmes de bang-bang e vivia reproduzindo as cenas
e as falas dos personagens desses filmes, mas para nossa surpresa, quem saiu do
elevador não foi o meu pai, foi a nossa vizinha de frente, a única que ainda nos tolerava, a única que ainda cumprimentava meus
pais, a única que ainda sorria com simpatia para mim e para o meu irmão.
Deu pra ver a expressão do rosto
do meu irmão se transformar. Ele ficou pálido na hora e tentou justificar da
seguinte forma:
-“Desculpa” Dona Eny, pensei que fosse meu pai.
O susto foi tão grande que Dona
Eny, que já tinha certa idade, começou a passar mal, teve o tal malestar e quase desmaiou, foi preciso
ser amparada e “medicada” com água e açúcar. Nesse momento meu pai chegava pelo outro elevador e deu de cara
com aquela confusão.
Depois de acalmar Dona Eny, foi a
vez do outro vizinho sair de seu apartamento para encontrar meus pais que
estavam no corredor do prédio ainda se desculpando com Dona Eny.
O vizinho, irado, segurava a
casca e o caroço da manga nas mãos e ameaçava bater no meu irmão.
Meu pai imediatamente pulou em defesa do filho, afinal, ele
beirava a delinqüência, mas ainda era seu filho. Estava montado o cenário de um
barraco memorável e que foi
determinante para que na semana seguinte, após receber a derradeira e decisiva
carta, minha mãe começasse a procurar outro lugar para morarmos.
Depois que nos mudamos daquele
apartamento, curiosamente nosso comportamento voltou ao normal. Passamos a ser
crianças mais ou menos comportadas.
Até hoje não consigo saber o que desencadeou
nosso comportamento intempestivo no tempo que ocupamos aquele apartamento.
Talvez ele abrigasse “espíritos
zombeteiros” ou tivesse alguma substância alucinógena na caixa d’agua
daquele edifício.
Também
não sei dizer como nosso comportamento melhorou; só sei que ficou claro para
meus pais que precisávamos de espaço, de uma casa com quintal e assim, nos
mudamos para uma pequena casa num bairro muito bom da mesma cidade.

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