domingo, 27 de maio de 2012


O novo apartamento era bem espaçoso e confortável. Tinha uma sacada ampla com vista para a rua de onde podíamos avistar até a escola onde eu e meu irmão estudávamos.
Eu continuava dividindo o quarto com minha irmã, mas já podia apagar a luz para dormir, ela já havia se recuperado dos traumas causados pelas histórias de terror que as duas velhinhas lhe contavam.
Meu irmão tinha um quarto só pra ele com seus brinquedos e todos seus pertences.
Não faltava espaço pra ninguém.
Foi nesse apartamento que comecei a descobrir as afinidades que tinha com meu irmão, ele crescera um pouco e já era possível brincarmos juntos.
Meu irmão nunca “topou” brincar de boneca ou casinha comigo, mas eu, por outro lado, estava sempre disposta a “encarar” as brincadeiras de menino.
Jogávamos bola no corredor do prédio e quebramos dois lustres; brincávamos de pega-pega por todo o apartamento e tivemos as primeiras reclamações dos vizinhos sobre barulho. Brincávamos de esconder da minha irmã pra vê-la chorar, e quase apanhamos de minha mãe por isso; às vezes até jogávamos um joguinho de tabuleiro que tinha um copinho vermelho com um dadinho dentro. Tenho certeza que meu irmão se lembra desse jogo e do copinho maldito.  
O espaço era maior, tínhamos a companhia um do outro, podíamos descer do prédio para comprar sorvete na sorveteria da esquina, tínhamos uma sacada grande e ensolarada com vista para a rua, tínhamos muitos brinquedos para inventar quantas brincadeiras a nossa imaginação mandasse.
Aparentemente estava tudo certo, era pra tudo ficar melhor, mas não foi bem assim que aconteceu.
Nosso comportamento piorava dia-a-dia. Ondas de inquietude nos arrebatavam frequentemente e mesmo sendo crianças tínhamos a noção de que não estávamos sendo bonzinhos e poderíamos pagar caro por isso. Sabíamos que estávamos abusando da paciência dos adultos, mas mesmo conscientes, não conseguíamos parar de aprontar. Todos os dias uma nova idéia surgia e pior, era posta em prática imediatamente, sem nos preocuparmos com as conseqüências.  Era como se um inspirasse o outro, de repente nos descobrimos como duas crianças rebeldes com energia sobrando para incomodar.
Queríamos instaurar o caos. Queríamos “causá, mano”. Estávamos possuídos, nada nos aquietava; nada nos saciava.
 Enquanto nossa energia fervia, minha mãe recebia semanalmente, cartas nada agradáveis da administração do condomínio cobrando providências.  
Depois que eu e meu irmão nos associamos nada mais podia nos deter, nem mesmo minha mãe. Ficamos muito fortes e as coisas fugiam do controle dela.
 Uma outra carta do condomínio havia chegado e agora era, na verdade um aviso. O condomínio alertava meus pais que nossa “batata estava assando”; ou seja, se eles não controlassem nosso comportamento desvairado seríamos “convidados” a nos retirar do prédio; trocando em miúdos, estávamos na eminência de sermos expulsos daquele condomínio por mau comportamento.
 Meu irmão e eu começávamos a nos preocupar, mas nem essa preocupação foi capaz de nos conter, muito pelo contrário, despertou em nós uma espécie de “exu mirim adormecido”.
A sacada do nosso apartamento era encostada à sacada do apartamento do vizinho, apenas uma fina parede as separava e tudo que não queríamos mais era jogado na sacada do pobre vizinho: casca de fruta, tampa de caneta, logo depois a caneta, chiclete mascado, palito de sorvete, papel de bala, a bala, lixo nuclear, hospitalar, doméstico, enfim, tudo, tudo mesmo ia parar na casa dos vizinhos. Eles, apesar de serem pessoas educadas e compreenderem que crianças fazem essas coisas, estavam muito incomodados com o tanto de coisas que aquelas crianças; estavam fazendo.
Nós não dávamos nem um dia de trégua, todos os dias era dia de importunarmos os vizinhos. Era nossa atividade principal e para isso usávamos todos os recursos disponíveis: lixo, papel sujo, palito de sorvete, brinquedos velhos e quebrados, pistolinhas d’água, etc.
A família do apartamento ao lado morava com uma idosa, a “vovó”. A senhorinha, que mal andava, era posta, todas as manhãs, sentadinha numa cadeira na sacada para o banho de sol.
A pobre velhinha mal sabia onde estava, mas, meu irmão sim, ele sabia calcular com precisão a localização da vulnerável vovó e não perdeu tempo: munido de sua arminha d’água e quase num ato suicida, debruçou-se no parapeito da sacada para atirar e acertar, sem piedade, a indefesa velhinha.
Senil, incapacitada, vulnerável, dependente e úmida, ela não reagia, apenas procurava mexendo a cabeça com lentidão, de onde vinha tanta água.
 Ao ver meu irmão fazendo aquilo, pensei em ajudar a velhinha, aconselhando-o a parar com a crueldade, mas que se dane, acabei ajudando meu irmão. Corri para pegar uma segunda arminha de água e o ajudei a ensopar de vez a velha.
Isso foi literalmente a gota d’água para os vizinhos, que imediatamente fizeram uma reclamação formal ao condomínio e pior, chamaram minha mãe e exigiram dela uma atitude. A atitude chegou de forma radical e juro, doeu. Meu irmão e eu sentimos na pele a atitude de minha mãe.
Resolvemos, então, dar um tempo nas brincadeiras e passamos uma semana nos comportando como verdadeiros monges, mas era obvio que aquele comportamento artificial, obtido através de violenta coação não iria durar muito tempo. Não estávamos convencidos a mudar, era tudo uma simulação com um único objetivo: voltar mais fortes e mais aterrorizantes.
 Estávamos agora sob o olhar atento de minha mãe, na verdade sempre estivemos, mas naquela ocasião ela havia redobrado a vigilância. Estudávamos uma maneira de continuar nossas atividades ilícitas, mas os olhos de águia de minha mãe nos seguiam fria e lentamente. Era assustador.
Estava muito difícil achar uma brecha, mas meu irmão conseguiu. Depois de chupar uma manga, driblou a segurança; minha mãe, e sorrateiramente atirou a casca e o caroço no apartamento do vizinho; acabou acertando a testa da senhorinha que tomava banho de sol. Para completar, ao debruçar na sacada para acertar a testa da velha, meu irmão viu meu pai estacionando o carro. Ele ia almoçar em casa todos os dias e naquele dia, meu irmão resolveu fazer uma brincadeirinha com meu pai. 
É difícil de acreditar, mas ele só queria brincar mesmo e para isso pegou uma faca da cozinha, esperou meu pai atrás da porta do elevador.  Quando a porta se abriu ele pulou e disse:
-Mãos ao alto! Isso é um assalto!
Meu irmão adorava filmes de bang-bang e vivia reproduzindo as cenas e as falas dos personagens desses filmes, mas para nossa surpresa, quem saiu do elevador não foi o meu pai, foi a nossa vizinha de frente, a única que ainda nos tolerava, a única que ainda cumprimentava meus pais, a única que ainda sorria com simpatia para mim e para o meu irmão.
Deu pra ver a expressão do rosto do meu irmão se transformar. Ele ficou pálido na hora e tentou justificar da seguinte forma:
-“Desculpa” Dona Eny, pensei que fosse meu pai.
O susto foi tão grande que Dona Eny, que já tinha certa idade, começou a passar mal, teve o tal malestar e quase desmaiou, foi preciso ser amparada e “medicada” com água e açúcar. Nesse momento meu pai chegava pelo outro elevador e deu de cara com aquela confusão.
Depois de acalmar Dona Eny, foi a vez do outro vizinho sair de seu apartamento para encontrar meus pais que estavam no corredor do prédio ainda se desculpando com Dona Eny.
O vizinho, irado, segurava a casca e o caroço da manga nas mãos e ameaçava bater no meu irmão.
Meu pai imediatamente pulou em defesa do filho, afinal, ele beirava a delinqüência, mas ainda era seu filho. Estava montado o cenário de um barraco memorável e que foi determinante para que na semana seguinte, após receber a derradeira e decisiva carta, minha mãe começasse a procurar outro lugar para morarmos.
Depois que nos mudamos daquele apartamento, curiosamente nosso comportamento voltou ao normal. Passamos a ser crianças mais ou menos comportadas.
 Até hoje não consigo saber o que desencadeou nosso comportamento intempestivo no tempo que ocupamos aquele apartamento. Talvez ele abrigasse “espíritos zombeteiros” ou tivesse alguma substância alucinógena na caixa d’agua daquele edifício.
Também não sei dizer como nosso comportamento melhorou; só sei que ficou claro para meus pais que precisávamos de espaço, de uma casa com quintal e assim, nos mudamos para uma pequena casa num bairro muito bom da mesma cidade. 

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