De todas as amizades que fiz
na minha passagem pelo Culto à Ciência nenhuma foi igual à amizade de Filomena,
mais conhecida por Filó.
Conheci Filó durante uma aula de
francês na oitava série do ensino fundamental, na época, quarta série do
ginásio. Ela era nova naquele colégio, estava chegando de uma escola de freiras
com disciplina também muito rígida, na qual não estava se adaptando muito bem e
não foi muito difícil perceber por que.
Na minha sala de aulas havia
quarenta e cinco lugares e adivinhe aonde a nova aluna iria se sentar? Bem atrás
de mim.
Tem coisa que a gente vive e que
não se pode negar que foi o destino que preparou. Acredito que foi ele que nos
posicionou cuidadosamente para que déssemos prosseguimento à sua obra, pois com
tantas classes naquele colégio e tantas carteiras naquela sala ela iria sentar-se
bem ali, atrás de mim.
Eu ainda não havia trocado uma só
palavra com aquela menina quando, de repente, no meio da aula, ela me fez a
seguinte pergunta: “mas o que esta filha
da puta está falando?” Era aula de francês, a professora lia um texto de
Victor Hugo e Filó, que nunca tinha tido esta matéria na escola de onde vinha
não conseguia entender uma só palavra que a D. Maria de Lourdes, mais conhecida
como Maria Bon Jour, dizia.
Respondi que não fazia a menor idéia
do que a professora falava, afinal, como era de meu costume, eu não estava prestando muita atenção, estava mais uma
vez fazendo uma de minhas longas viagens mental, que sempre me levavam para
muito longe das explicações dos professores.
Não sei o que aconteceu, mas as
palavras da menina realmente me comoveram e naquele momento uma estranha
química começava surgir entre nós. Os elementos da minha alma se fundiram aos
elementos da alma daquela menina, numa mistura homogenia e forte o bastante
para resistir aos longos anos que estavam por vir.
Foi uma espécie de amor à primeira
vista ou amizade à primeira vista.
Eu ainda não sabia, mas a partir
dali, estava formada uma dupla imbatível, uma amizade rara que sobreviveria por
muito tempo.
Filó e eu nos tornamos uma
espécie de “Don Quixote e Sancho Pança”, “Batman
e Robin”, ou ainda se preferir, “Claudinho
e Bochecha”, não importa, o que realmente interessa é que daquele momento
em diante eu não estava mais sozinha, tinha encontrado a pessoa perfeita para seguir
comigo os longos anos de caminhada naquele colégio tão tradicional e tão
exigente, que pouco tinha de inovador ou interessante para oferecer a uma
adolescente sonhadora como eu era.
No colégio estávamos sempre
juntas, trocávamos confidências e segredos guardados há tempos. Aos poucos
nossas afinidades foram se evidenciando e fomos descobrindo que tínhamos muito
em comum, especialmente nosso humor e nossa alegria, mas a descoberta que mais nos impressionou e que provavelmente
nos uniu definitivamente, foi perceber que o pai de Filó estava para minha mãe,
assim como a mãe dela estava para meu pai. Em casa, tínhamos o mesmo problema e
a mesma solução só que invertidos.
A mãe de Filó, assim como meu pai
era uma criatura cordata, carinhosa, compreensiva e mais centrada, já o pai
dela, assim como minha mãe era pessoa desconfiada, extremamente exigente e
costumava perder o humor com facilidade. Assim como minha mãe o pai da Filomena
tinha uma postura enérgica com relação aos estudos e aos assuntos referentes à
escola. Estavam sempre em estado de alerta, prontos para fazerem questionários
intermináveis, que mais pareciam interrogatórios.
Aqueles dois desconfiavam de
tudo, qualquer atitude nossa rapidamente se transformava em alguma suspeita,
que era motivo suficiente para a instauração de uma CPI, com direito a acareação
entre as partes, no caso, eu e Filomena.
Eles sempre tinham a certeza que nós estávamos fazendo coisas
que na realidade, jamais havíamos se quer
pensado em fazer.
Implicavam com tudo e com todos, mas por
estranha coincidência, nunca se opuseram a nossa amizade, muito pelo contrário,
faziam muito gosto nela. Assim, Filó se tornara a amiga perfeita para freqüentar
minha casa, pois tinha anos de treinamento de “respostas rápidas” e, portanto,
poderia entrar em contato com minha mãe sem colocar em risco minha integridade
física. Ela, assim como eu, sobrevivera aos anos de convivência com criaturas
do tipo..., sei lá, tipo minha mãe e
o pai dela.
Eles perguntavam muito e tínhamos que saber a resposta
exata na hora certa. Não podíamos pensar demais nem de menos, era preciso uma
sincronia perfeita entre o tempo da pergunta e o tempo da elaboração da
resposta; isto é, tínhamos que produzir
em tempo adequado a resposta satisfatória. Se pensássemos demais, era
mentira; por outro lado, se respondêssemos muito rápido já havíamos combinado a
resposta, portanto era mentira. Falar com eles era mesmo uma ciência que exigia
habilidade específica, reflexos rápidos e muita, muita agilidade mental. Era coisa pra profissional.
O pai da Filó tinha um vício a mais que minha mãe, ele queria porque
queria arrancar as orelhas da menina; isto é, a qualquer deslize a garota faria
companhia a Van Gogh na foto. Já pensou uma adolescente sem
orelhas? É rezar para não precisar usar óculos.
Sr. Luiz era temido por todos,
principalmente por Filó e eu também temia pelas orelhas da minha amiga. Nem
pensar ter uma amiga sem orelhas. Tudo que acontecia de errado no colégio ou
fora dele, Filó dizia: agora meu pai me
arranca as orelhas. Agora foi! Não tem mais jeito!
Embora as orelhas de Filó
estivessem sempre na reta nós não
parávamos de desafiar a sorte e a disciplina ultrapassada daquele colégio.
O Culto à Ciência tinha uma regra: depois de três advertências levaríamos uma suspensão de um dia; depois da suspensão de um dia, cada desacato às
normas seria punido automaticamente com
três dias de suspensão. Eu e Filó fomos advertidas e/ou suspensas todos os
anos de nossa vida estudantil naquele colégio e às vezes tomávamos logo uma
suspensão sem mesmo sermos advertidas.
Ora porque estávamos conversando
muito, ora porque não entrávamos em aula, ora porque tínhamos “feito algum comentário impertinente”, ora porque alguém pôs fogo nas cortinas da classe.
De alguma forma sempre estávamos
envolvidas em incidentes que nos levavam à diretoria e às suspensões. Éramos
muito boas na criação e execução de coisas mal feitas, como por exemplo: a
abertura da passagem secreta para facilitar nossa fuga nos dias que matávamos
aula, ou empilhar as carteiras da sala antes do início de cada aula, ou ainda, desenhar
caricaturas dos professores na lousa durante os intervalos. Também fazia parte
de nosso repertório de atividades, murchar os pneus dos carros estacionados em
frente ao colégio.
Fomos também as responsáveis pela
criação, formação e ensaio do coro do
hum. Explico: o coro do hum era formado por nós e por outros integrantes
escolhidos a dedo, quero dizer, outros alunos de nossa total confiança e com as
mesmas tendências a delinqüência que eu e Filomena.
Esses alunos a certa altura da
aula começavam a fazer o seguinte som:
huuuuummmm, huuuuuummmmm, o segredo do sucesso do coro do hum era produzir
esse som com a boca fechada e olhando fixamente para o professor como quem
presta muita atenção à aula. A prática do coro
do hum, quando bem sucedida,
levava a classe à suspensão coletiva.
Suspensão coletiva, na minha casa era
justificada da seguinte maneira: eu não
fiz nada, mas “tava” todo mundo fazendo então eu também fui punida. Meus
pais fingiam comprar essa idéia, lamentavam o ocorrido e nada mais acontecia.
Já na casa de Filó, com a mesma justificativa,
as orelhas dela eram quase
arrancadas. O pai dela tinha mesmo
obsessão nas orelhas da menina.
Filó e eu nunca terminávamos o
ano letivo no prazo normal, sempre estávamos de “segunda época”, que era a
chance derradeira de recuperação para alunos como nós. Nós aproveitávamos essa
chance e sempre conseguíamos passar de ano, exceto no segundo colegial, quando
nos deparamos com nossa primeira reprovação e com o perigo real de ver as
orelhas de Filó arrancadas.
Na metade da segunda vez que
cursava o segundo colegial decidi mudar de escola, fui para o Ateneu Campinense, escola recém
inaugurada, localizada bem perto da minha casa. Foi uma separação muito difícil
para nós.
Filó tentava convencer seu pai a
deixá-la mudar de escola também, eu ajudava nos argumentos e depois de muitas e
exaustivas conversas, o pai de Filomena finalmente concordou com a mudança, mas
impôs uma condição: a menina estava
obrigada a entrar na faculdade, do contrário teria suas orelhas arrancadas.
Graças a Deus, aos nossos
esforços e às orações de minha avó,
seis meses depois, minha amiga também se matriculava na mesma escola e pudemos
seguir juntas novamente.
No Ateneu as coisas melhoraram
muito, pois a nova escola era bem mais liberal que o tradicional Culto à Ciência.
Os professores eram jovens e já não éramos suspensas a todo instante; nossos
professores eram bem mais abertos e até se divertiam com nosso jeito
descontraído.
Nesta época já havíamos
amadurecido um pouco e começávamos a pensar na faculdade que iríamos cursar.
Prestamos vestibular, eu para Comunicação Social, mas Filó resolveu garantir as orelhas e prestar Administração
que era bem menos concorrido na época.
Em 1980 entrávamos na faculdade,
na Pontifícia Universidade Católica de
Campinas, e Filó logo conseguiria transferência para o curso de Comunicação Social. Nossa intenção era
seguirmos juntas, mas o destino iria se manifestar em breve e teríamos então
que nos separar por um tempo.
De lá para cá muitos anos se
passaram e vários acontecimentos marcaram nossas vidas: casamento, maternidade,
separação, mudanças, perdas e desilusões. Muita coisa mudou, mas quando estou
com minha amiga tenho a nítida sensação que ainda sou aquela menina e quando
olho pra ela também consigo enxergar a menina Filó, com a alegria e a beleza de
seus quinze anos. Por mais que o tempo marque implacavelmente nossos rostos e
nossos corpos, quando nos encontramos conseguimos reviver um pouco nossa
adolescência. Juntas, somos e seremos sempre jovens e estamos prontas pra mais
uma gargalhada. Em nosso sorriso terá, pelo menos naquele momento, o mesmo
brilho e a mesma alegria que há trinta e oito anos atrás.
O tempo pode ter interferido e
transformado muito nossas vidas, transformou nossa aparência, nossas mentes e
nossos conceitos, mas nunca conseguiu mudar aquela química. Tivemos grandes
perdas, durante esses anos de amizade, mas não perdemos a alegria, as
desilusões existiram, mas foram diluídas, nossas lágrimas lavaram nossas dores
e assim, preservamos intactas na nossa essência.
Lá no fundo, bem no íntimo, eu e
Filó somos meninas e ainda vamos brincar juntas por muito tempo, se Deus quiser.

kkkkk... adorei!!! Tenho uma amiga, assim... aliás... tive pq ela teve uma morte TRÁGICA a 6 anos!!! Mas, continuo dando muita risada dela!!! Lembranças ótimas que ninguém tira. E até hoje, eu penso ao menos 1 vez por semana nela. A vida realmente nos traz estas pessoas para nos dar esta alegria de viver.
ResponderExcluirO tal do coro HUMMMMM com a boca fechada... kkkkkk , também fez parte da minha vida !!!1
parabéns, adorei!!! lucyla