domingo, 1 de julho de 2012


Com o interesse de meu irmão pelos esportes, nosso contato não era mais tão freqüente quanto na época em que morávamos no apartamento, o qual por pouco não “demolimos”. Ele passava quase todas as tardes no clube praticando basquete, natação, futebol, enfim, todas as modalidades de esporte que o clube oferecia. Já eu preferia me dedicar aos estudos, claro que das matérias que mais gostava: história, algumas partes da biologia, e a preferida, português.
Eu amava português e passava horas do meu dia fingindo que era professora de uma classe fantasma com alunos invisíveis a quem eu ministrava longas aulas de português. Pra incentivar a brincadeira, meu pai me presenteou com uma lousa bem grande, assim eu poderia dar mais realidade àquela fantasia, que ele julgava muito saudável.
Eu estudava tanto que geralmente estava à frente das aulas da professora de verdade na minha classe de verdade.
Durante muito tempo, a língua portuguesa foi minha paixão, em compensação, a matemática, era e ainda é meu grande desafeto.
Já nos primeiros anos de minha vida acadêmica, percebi essa deficiência. Lembro-me muito bem das primeiras aulas que me colocaram em contato com essa matéria demoníaca, era tudo muito difícil de assimilar, era um mistério que eu não estava preparada para desvendar.
Eu ainda estava aprendendo as operações básicas: somar, subtrair, dividir e multiplicar e já me sentia perdida. Também não conseguia entender que negócio era aquele de unidade, dezena e centena, mas tudo ficou muito pior quando fui apresentada aos problemas.
Quando a professora escrevia na lousa: problema, já sabia que, pelo menos eu teria mais de um.
Ela escrevia:

Sr. José comprou balas, deu cinco balas para Paulinho, seu filho mais velho e nove balas para João, seu filho mais novo. Quantas balas o Sr. José comprou?”
 Pronto, a partir desse momento dava-se a mixórdia... Milhares de imagens começavam a se formar dentro da minha cabeça. Ao invés de focar no raciocínio lógico do problema, eu começava logo a imaginar: Por que o Sr. José havia dado mais balas para um filho e menos para o outro? Por que o Sr. José fez essa divisão tão injusta? Será que o filho mais velho do Sr. José não podia comer muitas balas? Será que ele era doente; diabético, talvez? Tendência às cáries? Será que ele tinha feito alguma “malcriação” para o pai e por isso merecia menos balas? Será que o Sr. José não gostava muito do filho mais velho e por quê? Seria o filho mais velho adotivo ou fruto de um relacionamento extraconjugal da mulher do Sr. José? Que critério misterioso era esse que o Sr. José usava para distribuir as balas desigualmente entre os filhos? Por que, por que o Sr. José fazia tal diferença entre seus próprios filhos? Isso não era atitude de um bom pai. Que dó do filho que ganhou menos balas! E como será que ele se sentia diante daquilo? Será que ele chorou ou fingiu que não se importou por ser orgulhoso e não querer demonstrar a decepção? Talvez não tenha ligado mesmo. Talvez não gostasse muito de doces.
Será que ele estava acostumado a ser preterido? Será que isso sempre acontecia? E o filho que ganhou mais balas? Será que foi até o irmão e redistribuiu as balas igualmente, como deveria ter feito o Sr. José, ou será que ele ficou fazendo “fusquinha” para o irmão que ganhou menos balas? Coisa do tipo: eu ganhei nove, você ganhou só cinco, lá, lá, lá, lá, lá, lá!
 E onde estava a mãe dos meninos que não tomava uma atitude? Cadê essa mulher? Meu Deus! Será que ela morreu? Coitado do irmão mais velho, sem mãe e com poucas balas.

Toda essa viagem mental era um desgaste emocional e me tirava de vez o foco do raciocínio lógico que a matemática exigia além de me fazer perder a explicação que a professora estava se esforçando em dar aos alunos. Aliás, perder o foco era tudo o que eu sabia fazer durante as aulas de matemática, eu não conseguia me concentrar em absolutamente nada que a professora estava falando, eu não tinha o menor interesse por aquele assunto.
Todos os dias, antes de começar a aula de matemática eu fechava os olhos e prometia a mim mesma que iria prestar atenção, que não iria pensar em mais nada além dos assuntos referentes à aula, mas eu nunca conseguia cumprir a promessa; a vida alheia, mesmo que fictícia, como a dos filhos do Sr. José, me era muito mais fascinante muito mais emocionante e eu não conseguia controlar a minha imaginação.
No ginásio, a coisa se complicou ainda mais, pois a matemática nunca sabia quanto valia o x; era eu que tinha que calcular. Ela exigia isso de mim e não era nada fácil, pois eu ainda não tinha entendido os problemas de “quadradinho” do primário e já aparecia o x pra acabar comigo. Pior, eu ainda não tinha entendido nem pra que eles queriam saber o valor do x e já chegava o y e o z pra eu calcular; aí, a coisa “fedeu” de vez.
 Até hoje não sei como cheguei à faculdade com toda essa deficiência, não sei como fiz pra me livrar da matemática, só sei que consegui e isso me dá um grande alívio.
 A única coisa que consegui assimilar durante os muitos anos de estudo de matemática foi regra de três. Tudo pra mim, até hoje, funciona dentro desta lógica: se tal coisa está para outra coisa, assim como uma coisa está para outra tal coisa, então essa coisa será alguma outra coisa qualquer. Só consigo entender essa idéia porque tudo está relacionado.
Mas, deixando de lado as aulas de matemática e de língua portuguesa, o fato é que eu e meu irmão já não tínhamos mais tempo um para o outro, nossos interesses haviam seguido caminhos opostos: ele gostava de testar os limites do corpo e eu os da mente, ele era do tipo ativo e eu bem acomodada. Mas, num dia nublado e de muito frio eu e meu irmão nos vimos juntos novamente, estávamos em casa, totalmente desocupados, e quando isso acontecia, não podia dar em boa coisa: eu e meu irmão juntos e com tempo sobrando... Que perigo...
 Nós buscávamos atividades para nos entreter. Já havíamos jogado nosso joguinho de tabuleiro, com aquele maldito copinho, já havíamos brincado com a cachorrinha Fafá, pobre cachorrinha Fafá; já havíamos verificado a programação da TV, mas ainda estávamos entediados. Foi quando uma idéia me ocorreu:
Nossa casa ficava quase em frente a um ponto de ônibus muito movimentado. Nem bem um lotação parava para um grupo de pessoas, outras tantas já se organizavam em fila para pegar o próximo carro, que passaria em meia hora.
Vendo aquele movimento todo bem na porta da minha casa, comecei imaginar como seria se as pessoas achassem objetos no ponto de ônibus, provavelmente elas ficariam muito contentes com sua sorte. Resolvi então, fabricar os pacotinhos vazios e deixá-los no ponto de ônibus só para observar a reação das pessoas. Enquanto fabricava os pacotinhos uma idéia complementar me ocorreu: e se no interior do pacotinho tivesse alguma coisa interessante... Mas o que? Ah!  Cocô! Como seria a reação das pessoas encontrando cocô embrulhado em pacotinhos de presentes? Era hora de averiguar, afinal, eu tinha o laboratório ideal para por em prática tal experimento: o ponto de ônibus.
Assim, meu irmão e eu dávamos início a nosso mais novo empreendimento: A Fábrica de Cocô.
Algodão, pó de café e água morna eram a matéria prima para a confecção de nosso produto. O algodão era molhado e moldado em forma de cocô; o tamanho variava de acordo com a embalagem onde o produto ia ser colocado. Depois de moldado, o algodão era tingido e empanado em pó de café, e só depois de passar por um processo rápido de secagem era acomodado na embalagem e embrulhado cuidadosamente.
Os cocôs ficavam perfeitos. Era o “próprio troço”. Dedicávamos-nos seriamente àquela atividade; eu mais habilidosa, me concentrava na fabricação dos cocôs, enquanto meu irmão, com velocidade e destreza, colocava os pacotinhos em posição estratégica no ponto de ônibus. Estávamos ficando “craques” naquilo, éramos os melhores fabricantes de cocôs falsos de toda a região.
 Ríamos muito cada vez que um pacotinho era achado e carregado, o mais curioso era, que antes de pegá-los, as pessoas olhavam discretamente à sua volta como quem disfarça a atitude esperta. Isso deixava a brincadeira muito mais excitante, pena que quase ninguém abria o pacote de imediato, a maior parte das pessoas camuflava o achado em meio aos seus pertences e controlava a curiosidade para não abri-lo em público.
Eram raras as vezes que conseguíamos acompanhar a expressão de alguém ao abrir o pacotinho, quando isso finalmente acontecia eram momentos de tensão, pois os curiosos, irados, lançavam olhares minuciosos pela rua procurando os autores daquela brincadeira de mau gosto.
Naquele dia passamos a tarde toda brincando de fabricar cocô e acompanhar a reação das pessoas e ríamos muito do infortúnio alheio. Achávamos muita graça naquela brincadeira, era diversão garantida, mas como tudo na vida tem um fim, essa história de fábrica de cocô estava com os dias contados, pois não demorou a sermos desmascarados, pelo dono da venda da esquina, que ficava em frente ao ponto de ônibus. Ele foi uma das primeiras vítimas que fizemos e inconformado, iniciou uma investigação pela vizinhança, a fim de descobrir quem eram os autores daquele malfeito. Não foi difícil perceber que eram as crianças da casa da frente, afinal não éramos nenhum mestre do disfarces. Vivíamos “dando bandeira” cada vez que deixávamos um novo pacotinho no ponto de ônibus, além disso, nossas gargalhadas eram altas, o que despertavam a atenção das pessoas.
O dono da venda se solidarizava com todas as vítimas de nossa brincadeira e logo se apresentava, apressando-se em tranqüilizá-las.
Ele as alertava que se tratava de um falso cocô, pois, depois de analisar, revirar, cheirar e quase comer o nosso cocô, ele havia descoberto até nossa fórmula secreta.
A descoberta da fórmula secreta pelo dono da venda pôs fim ao nosso empreendimento e a fábrica de cocô teve que ser desativada, mas mesmo sem a fábrica, vez por outra eu fazia pacotinhos sacanas para deixar no ponto de ônibus.
 Certo dia ao invés de cocô, coloquei um pé de frango com as unhas pintadas de vermelho em um lindo pacotinho de presentes e isso surpreendeu até o dono da venda, que naquele dia acabou rindo muito.
 Logo meu irmão e eu perdemos o interesse pela fabricação de cocôs e fomos em busca de outro passatempo, mas confesso que não me lembro de ter inventado nenhuma outra brincadeira que fosse tão divertida quanto aquela.   

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