Com o interesse de meu irmão
pelos esportes, nosso contato não era mais tão freqüente quanto na época em que
morávamos no apartamento, o qual por pouco não “demolimos”. Ele passava quase todas as tardes no clube praticando
basquete, natação, futebol, enfim, todas as modalidades de esporte que o clube
oferecia. Já eu preferia me dedicar aos estudos, claro que das matérias que
mais gostava: história, algumas partes da biologia, e a preferida, português.
Eu amava português e passava horas
do meu dia fingindo que era professora de uma classe fantasma com alunos
invisíveis a quem eu ministrava longas aulas de português. Pra incentivar a
brincadeira, meu pai me presenteou com uma lousa bem grande, assim eu poderia
dar mais realidade àquela fantasia, que ele julgava muito saudável.
Eu estudava tanto que geralmente
estava à frente das aulas da professora de
verdade na minha classe de verdade.
Durante muito tempo, a língua
portuguesa foi minha paixão, em compensação, a matemática, era e ainda é meu
grande desafeto.
Já nos primeiros anos de minha
vida acadêmica, percebi essa deficiência. Lembro-me muito bem das primeiras aulas
que me colocaram em contato com essa matéria demoníaca, era tudo muito difícil
de assimilar, era um mistério que eu não estava preparada para desvendar.
Eu ainda estava aprendendo as
operações básicas: somar, subtrair, dividir e multiplicar e já me sentia
perdida. Também não conseguia entender que negócio era aquele de unidade,
dezena e centena, mas tudo ficou muito pior quando fui apresentada aos problemas.
Quando a professora escrevia na
lousa: problema, já sabia que, pelo
menos eu teria mais de um.
Ela escrevia:
“Sr. José comprou balas, deu cinco balas para Paulinho, seu filho mais
velho e nove balas para João, seu filho mais novo. Quantas balas o Sr. José
comprou?”
Pronto, a partir desse
momento dava-se a mixórdia... Milhares de imagens começavam a se formar dentro
da minha cabeça. Ao invés de focar no raciocínio lógico do problema, eu
começava logo a imaginar: Por que o Sr.
José havia dado mais balas para um filho e menos para o outro? Por que o Sr.
José fez essa divisão tão injusta? Será que o filho mais velho do Sr. José não
podia comer muitas balas? Será que ele era doente; diabético, talvez? Tendência
às cáries? Será que ele tinha feito alguma “malcriação” para o pai e por isso
merecia menos balas? Será que o Sr. José não gostava muito do filho mais velho
e por quê? Seria o filho mais velho adotivo ou fruto de um relacionamento
extraconjugal da mulher do Sr. José? Que critério misterioso era esse que o Sr.
José usava para distribuir as balas desigualmente entre os filhos? Por que, por
que o Sr. José fazia tal diferença entre seus próprios filhos? Isso não era
atitude de um bom pai. Que dó do filho que ganhou menos balas! E como será que
ele se sentia diante daquilo? Será que ele chorou ou fingiu que não se importou
por ser orgulhoso e não querer demonstrar a decepção? Talvez não tenha ligado
mesmo. Talvez não gostasse muito de doces.
Será que ele estava acostumado a ser preterido? Será que isso sempre
acontecia? E o filho que ganhou mais balas? Será que foi até o irmão e redistribuiu
as balas igualmente, como deveria ter feito o Sr. José, ou será que ele ficou fazendo
“fusquinha” para o irmão que ganhou menos balas? Coisa do tipo: eu ganhei nove,
você ganhou só cinco, lá, lá, lá, lá, lá, lá!
E onde estava a mãe dos meninos
que não tomava uma atitude? Cadê essa mulher? Meu Deus! Será que ela morreu?
Coitado do irmão mais velho, sem mãe e com poucas balas.
Toda essa viagem mental era um
desgaste emocional e me tirava de vez o foco do raciocínio lógico que a
matemática exigia além de me fazer perder a explicação que a professora estava
se esforçando em dar aos alunos. Aliás, perder o foco era tudo o que eu sabia
fazer durante as aulas de matemática, eu não conseguia me concentrar em
absolutamente nada que a professora estava falando, eu não tinha o menor
interesse por aquele assunto.
Todos os dias, antes de começar a
aula de matemática eu fechava os olhos e prometia a mim mesma que iria prestar
atenção, que não iria pensar em mais nada além dos assuntos referentes à aula, mas
eu nunca conseguia cumprir a promessa; a vida alheia, mesmo que fictícia, como
a dos filhos do Sr. José, me era muito mais fascinante muito mais emocionante e
eu não conseguia controlar a minha imaginação.
No ginásio, a coisa se complicou
ainda mais, pois a matemática nunca sabia quanto valia o x; era eu que tinha que
calcular. Ela exigia isso de mim e
não era nada fácil, pois eu ainda não tinha entendido os problemas de “quadradinho” do primário e já aparecia o
x pra acabar comigo. Pior, eu ainda
não tinha entendido nem pra que eles queriam saber o valor do x e já chegava o y e o z pra eu calcular; aí, a coisa “fedeu” de vez.
Até hoje não sei como cheguei à faculdade com
toda essa deficiência, não sei como fiz pra me livrar da matemática, só sei que
consegui e isso me dá um grande alívio.
A única coisa que consegui assimilar durante
os muitos anos de estudo de matemática foi regra
de três. Tudo pra mim, até hoje, funciona dentro desta lógica: se tal coisa está para outra coisa, assim
como uma coisa está para outra tal coisa, então essa coisa será alguma outra
coisa qualquer. Só consigo entender essa idéia porque tudo está
relacionado.
Mas, deixando de lado as aulas de
matemática e de língua portuguesa, o fato é que eu e meu irmão já não tínhamos
mais tempo um para o outro, nossos interesses haviam seguido caminhos opostos:
ele gostava de testar os limites do corpo e eu os da mente, ele era do tipo
ativo e eu bem acomodada. Mas, num dia nublado e de muito frio eu e meu irmão
nos vimos juntos novamente, estávamos em casa, totalmente desocupados, e quando
isso acontecia, não podia dar em boa coisa: eu e meu irmão juntos e com tempo
sobrando... Que perigo...
Nós buscávamos atividades para nos entreter.
Já havíamos jogado nosso joguinho de tabuleiro, com aquele maldito copinho, já havíamos brincado com a cachorrinha Fafá, pobre cachorrinha Fafá; já havíamos verificado a programação da TV, mas
ainda estávamos entediados. Foi quando uma idéia me ocorreu:
Nossa casa ficava quase em frente
a um ponto de ônibus muito movimentado. Nem bem um lotação parava para um grupo
de pessoas, outras tantas já se organizavam em fila para pegar o próximo carro,
que passaria em meia hora.
Vendo aquele movimento todo bem
na porta da minha casa, comecei imaginar como seria se as pessoas achassem
objetos no ponto de ônibus, provavelmente elas ficariam muito contentes com sua
sorte. Resolvi então, fabricar os pacotinhos vazios e deixá-los no ponto de
ônibus só para observar a reação das pessoas. Enquanto fabricava os pacotinhos
uma idéia complementar me ocorreu: e
se no interior do pacotinho tivesse alguma coisa interessante... Mas o que?
Ah! Cocô! Como seria a reação das
pessoas encontrando cocô embrulhado em pacotinhos de presentes? Era hora de
averiguar, afinal, eu tinha o laboratório ideal para por em prática tal
experimento: o ponto de ônibus.
Assim, meu irmão e eu dávamos
início a nosso mais novo empreendimento:
A Fábrica de Cocô.
Algodão, pó de café e água morna
eram a matéria prima para a confecção de nosso produto. O algodão era molhado e
moldado em forma de cocô; o tamanho variava de acordo com a embalagem onde o
produto ia ser colocado. Depois de moldado, o algodão era tingido e empanado em
pó de café, e só depois de passar por um processo rápido de secagem era
acomodado na embalagem e embrulhado cuidadosamente.
Os cocôs ficavam perfeitos. Era o
“próprio troço”. Dedicávamos-nos
seriamente àquela atividade; eu mais habilidosa, me concentrava na fabricação
dos cocôs, enquanto meu irmão, com velocidade e destreza, colocava os
pacotinhos em posição estratégica no ponto de ônibus. Estávamos ficando
“craques” naquilo, éramos os melhores fabricantes de cocôs falsos de toda a
região.
Ríamos muito cada vez que um pacotinho era
achado e carregado, o mais curioso era, que antes de pegá-los, as pessoas
olhavam discretamente à sua volta como quem disfarça a atitude esperta. Isso
deixava a brincadeira muito mais excitante, pena que quase ninguém abria o
pacote de imediato, a maior parte das pessoas camuflava o achado em meio aos
seus pertences e controlava a curiosidade para não abri-lo em público.
Eram raras as vezes que
conseguíamos acompanhar a expressão de alguém ao abrir o pacotinho, quando isso
finalmente acontecia eram momentos de tensão, pois os curiosos, irados,
lançavam olhares minuciosos pela rua procurando os autores daquela brincadeira
de mau gosto.
Naquele dia passamos a tarde toda
brincando de fabricar cocô e acompanhar a reação das pessoas e ríamos muito do
infortúnio alheio. Achávamos muita graça naquela brincadeira, era diversão
garantida, mas como tudo na vida tem um fim, essa história de fábrica de cocô
estava com os dias contados, pois não demorou a sermos desmascarados, pelo dono
da venda da esquina, que ficava em frente ao ponto de ônibus. Ele foi uma das
primeiras vítimas que fizemos e inconformado, iniciou uma investigação pela
vizinhança, a fim de descobrir quem eram os autores daquele malfeito. Não foi
difícil perceber que eram as crianças da casa da frente, afinal não éramos
nenhum mestre do disfarces. Vivíamos “dando
bandeira” cada vez que deixávamos um novo pacotinho no ponto de ônibus,
além disso, nossas gargalhadas eram altas, o que despertavam a atenção das
pessoas.
O dono da venda se solidarizava
com todas as vítimas de nossa brincadeira e logo se apresentava, apressando-se
em tranqüilizá-las.
Ele as alertava que se tratava de
um falso cocô, pois, depois de analisar, revirar, cheirar e quase comer o nosso
cocô, ele havia descoberto até nossa fórmula secreta.
A descoberta da fórmula secreta
pelo dono da venda pôs fim ao nosso empreendimento e a fábrica de cocô teve que
ser desativada, mas mesmo sem a fábrica, vez por outra eu fazia pacotinhos sacanas para deixar no ponto
de ônibus.
Certo dia ao invés de cocô, coloquei um pé de
frango com as unhas pintadas de vermelho em um lindo pacotinho de presentes e
isso surpreendeu até o dono da venda, que naquele dia acabou rindo muito.
Logo meu irmão e eu perdemos o interesse pela
fabricação de cocôs e fomos em busca de outro passatempo, mas confesso que não
me lembro de ter inventado nenhuma outra brincadeira que fosse tão divertida
quanto aquela.

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