domingo, 26 de agosto de 2012



Depois do fim do meu casamento, da morte do meu pai e de tantas outras perdas que “carimbaram” todo o ano de 1992 e o começo de 1993, eu achei que já tinha vivido minha cota de desgraça por pelo menos uma década, mas eu estava enganada.
 No meio de 1993 eu ainda tentava me reequilibrar no salto e seguir em frente, mas em setembro, depois de um feriado prolongado, o qual eu aproveitei para fazer uma cirurgia, me deparei com mais uma surpresinha nada agradável.
A data da cirurgia foi escolhida propositalmente para que eu não perdesse nenhum dia de trabalho, afinal, eu já havia faltado várias vezes ao longo do ano anterior devido aos muitos velórios que tive de comparecer.
Sabe como é, né? Tem gente que não combina o horário e nem a data que vai morrer; esse povo não quer nem saber; vai morrendo e pronto, você que se vire para ir ao velório, ao enterro ou à missa de sétimo dia; esse tipo de gente não quer saber se você tem chefe, trabalho, ou tempo para velórios; morrem até às segundas-feiras; tem gente que morre até na final de Copa do Mundo, no jogo do Brasil x Argentina, não dá nem pra acreditar, mas é verdade, tem gente que acha de morrer no meio do jogo.
Mesmo tendo todo cuidado para não exceder nas faltas; submetendo-me a uma cirurgia no único feriado prolongado daquele ano, fui demitida logo na segunda-feira, e claro, no final do dia, depois de ter cumprido todo o horário de trabalho.
Foi um dia sacrificado, pois eu fui trabalhar toda costurada. Tinha pontos no rosto, nas orelhas, nas costas, na virilha, no ombro e nas pernas; eu estava mais costurada e remendada que o monstro do Jovem Frankstein.
Depois da demissão anunciada, tudo o que eu conseguia pensar era: se iam me demitir, porque não fizeram isso logo de manhã, ou melhor, porque não me demitiram antes do feriado? Assim, teriam me poupado do vexame de ter que ir trabalhar de moletom e sem calcinha.
Mas tudo bem, afinal, não tem outro jeito mesmo, não tem como não aceitar uma demissão, é como levar o pé na bunda de namorado, você pode até chorar, mas isso é tudo que dá pra fazer; quer dizer, existem as malucas que querem se matar, que quebram tudo, que gritam muito e arranham todo o pretendente a ex-namorado e o carro dele; tem também as auto-destrutivas, que ameaçam grampear a xoxota pra sempre, mas quando se trata de uma pessoa mais ou menos normal, ela sabe que não há nada que se possa fazer além de lamentar e partir pra outra.
Enfim, voltando ao assunto, a demissão foi sem justa causa; a empresa havia sido vendida e passava por mudanças e eu era uma dessas mudanças; isto é, me mudaram de dentro para fora dela; assim, só me restava correr atrás do seguro desemprego, que me garantiria mais uns meses de sobrevivência antes de achar um novo emprego.
Foi justamente nesta ocasião, devido a esta demissão, que eu percebi que era pobre. Até então eu não havia me dado conta desta realidade; sempre morei bem, sempre tive acesso à boa escola, boa comida, boas roupas e nunca tinha enfrentado uma fila de seguro desemprego antes.
Foi ali que a visão de mim mesma mudou para sempre. De repente eu percebi o tamanho da minha insignificância social; eu era apenas uma unidade demográfica pobre, que precisava entrar numa fila com tantas outras unidades demográficas também pobres, a fim de pegar um dinheirinho para garantir minha sobrevivência por alguns poucos meses. Isso mesmo, todo aquele sacrifício garantiria apenas alguns meses de sobrevivência; isso se eu adotasse uma forma franciscana de ser e de viver.
Depois de pegar o endereço, os papéis necessários e os documentos exigidos, me dirigi ao banco. Ao chegar à instituição financeira em questão, me deparei com uma fila mais ou menos do tamanho da Muralha da China. Era a maior fila que eu já tinha experimentado em toda minha vida, e nela havia uma das maiores concentrações de pobres por metro quadrado do planeta; pior, era a maior concentração de pobre mal humorado por metro quadrado.
Aquela era a fila dos desgraçados; era como estar num pedacinho do umbral, pois ali, naquele lugar, naquela hora e naquela fila estavam todos pagando algum tipo de penitência, exceto o Robson esse, coitado, teve que pagar uma penitência a mais que todos os outros; a vida já se mostrava dura para o pequeno Robson.

Já sei, eu não expliquei quem é o Robson, mas calma. Tudo tem sua hora. Agora é hora de continuar falando da fila.

A fila era quilométrica, o calor insuportável, a lentidão do serviço público indescritível e a energia das pessoas era no mínimo densa.
Eu observei, não havia ninguém sorrindo, ninguém era simpático, ninguém esboçava o menor sinal felicidade ou gentileza, era nível de satisfação zero. Somente com esses fatores, o Robson já poderia ter passado mal, mas ainda faltava mais um componente no seu miserável dia.
Eu já conhecia a fama da fila do seguro desemprego, já havia sido alertada por outros ex-colegas de trabalho, que haviam sido demitidos antes de mim; assim fui prevenida para um dia longo e estafante. Tinha comigo: o jornal do dia, um livro, água, chocolate e cigarro, claro.
Eu já estava naquela fila há mais ou menos duas horas e muito pouco havia mudado, parecia que eu não tinha avançado nem um milímetro, eu estava no mesmo lugar e mais pessoas chegavam; sempre com as mesmas perguntas: é o fim da fila? Minha vontade era responder: não, é o começo; tá todo mundo de costas. Ou então: cê tá aqui pro seguro desemprego? Não, pra cirurgia do abdome. Cê também tá sem emprego; não, meu emprego é esse mesmo; eu sou “filalóloga”. Ah! Cê veio pra pegar um dinheirinho, né? Não, vim pra pagar promessa; sabe como é, na falta da Escadaria da Penha resolvi entrar nessa fila mesmo.
Eu também já estava ficando mal humorada.
Enquanto eu ouvia e respondia a essas perguntas, que definitivamente não mereciam respostas, o Robson não parava; pulava, corria até o começo da fila, lá na “casa do carvalho”, e voltava suado, rindo como tonto e com uma cara mais desgranhenta do que a que ele já tinha antes da corrida. O menino corria com um pé na calçada outro na rua, alternava as posições correndo de frente e de costas, pulava com os dois pés juntos da calçada para a rua e vice-versa, batia nas bolsas à tira-colo nos ombros das mulheres e às vezes se jogava pra cima das pessoas. Tanto fez o menino, até que caiu.
O Robson tinha uma energia irritante, especialmente para aquele momento que eu estava vivendo: sol quente, em pé, fila lenta, perguntas infames, etc. Cheguei a idealizar botinhas de concreto, achei que um par delas resolveria o problema da criança.

Apresentando o Robson:
Robson era um garotinho de aproximadamente oito anos que estava com a mãe e com a irmãzinha de uns cinco anos à minha frente naquela fila. A mãe do menino estava claramente cansada e irritada e já havia alertado o pequeno Robson que sua paciência estava por um fio. O menino literalmente não parava nem para ouvir o apelo da mãe e continuava pulando.
 Eu incrédula, observava aquela criança. Nenhum ser normal pula tanto num dia tão quente. Não é possível, aquilo era coisa de gente que não foi batizada, obviamente tratava-se de um pagão.
 A mãe do pagãozinho dizia: Robson, pára. Cê sabe que eu tenho “sistema nervoso”. Vai brincando comigo. Robson, se ocê cair de novo cê vai apanhar bem aqui, na frente de todo mundo. Continua, Robson, continua cê vai ver quando a gente chegar em casa.
A mãe falava e o menino ignorava.
Por alguns segundos, depois de quase cair pela segunda vez, o Robson parou ao lado da mãe, que perguntou: Cê tá com fome, fio?
Robson sacudiu a cabeça dizendo que sim. A mulher abriu a bolsa e de dentro dela, coisas bizarras começaram a surgir: um tubo de talco, fralda de pano, um exemplar da revista Contigo, uma mini-bíblia, três agasalhos, um saco plástico transparente onde pude ver muitos papéis que acreditei serem documentos, além de dois cones de fotografia, que eu já não via há pelo menos uns vinte anos, uma sacolinha plástica branca, onde só se via a sombra esverdeada de seu conteúdo e ela: a sombrinha, item obrigatório na bolsa de todo pobre.
Eu já havia notado que a bolsa daquela mulher estava estofada além do normal, pois as costuras estavam até esgarçando, era fácil concluir que coisas estranhas e desnecessárias poderiam sair de dentro dela, mas para meu espanto, de dentro daquela sacolinha plástica de conteúdo esverdeado, saíram as quatro bananas mais verdes que eu tinha visto em toda minha vida.
Aquelas bananas estavam absurdamente verdes. Tenho certeza que a mulher tirou da bananeira do quintal antes de sair de casa, pois não há no mercado banana tão verde daquele jeito; e digo mais, tenho certeza que a bananeira chorou ao golpe precipitado do facão.
 As bananas estavam tão verdes que reclamaram até para saírem da casca.
Pode-se ouvir o barulho quando aquela mãe começou a descascar a contrariada banana: chiiiiiek, chiiiiiek. A fruta estava até reclamando; cada chiiiiiek queria dizer: não, agora não! Volta semana que vem.
Eu tentei impedir e ofereci meu chocolate para o Robson, mas a mulher, orgulhosa, disse que preferia que o menino comesse a banana. Eu tentei mais uma vez e disse que aquela banana “parecia estar” muito verde, mas ela disse que o garoto estava acostumado a comer banana daquele jeito. Resolvi não interferir mais e só temia pela garotinha, que tinha menos idade, mas que, graças a Deus, não aceitou a banana, alegando não ter fome.
O anjo da guarda da garotinha funcionava, mas o do Robson estava bem distraído ou era mais inútil que o anjo da guarda da família Kennedy.
É incrível ver como tantas crianças sobrevivem à ignorância dos pais. O Robson era uma delas, quer dizer, eu acho que era uma delas, pois quero seguir acreditando que ele sobreviveu àquela banana e àquela mãe.
Robson demorou um pouco para conseguir consumir a fruta; era notório que estava difícil desgrudá-la da boca e mastigá-la apropriadamente, mas ele conseguiu e acabou comendo toda a banana sem parar de pular, o que me fez, por alguns instantes, acreditar que o menino estava mesmo acostumado a comer banana verde.
Minutos depois, quero dizer, poucos minutos depois, se pode ver uma mudança gradativa no comportamento do pequeno Robson.
Ele já não pulava mais como antes e foi ficando cada vez mais quieto, até que parou de vez e se encostou ao quadril da mãe. Subitamente, uma palidez tingiu-lhe o rosto moreno e o menino levou a mão à altura do estômago.
Era o primeiro sinal de que algo estava por vir.
A mãe com impaciência perguntou:
-Por que tá com esse beiço branco, Robson? Deixa eu vê. Abre essa boca.  
Até a “ginginva” tá branca, Robson! O que cê tem? Fala moleque!
E continuou:
-É por isso que eu não gosto de sair de casa com vocês. Tô falando pro cê pará de pular faz uma hora, mas cê não obedece, parece que eu tô falando cas parede;  tá vendo, agora tá com essa cara de filhote de cruz-credo, ô menino dos inferno.
 Fala, moleque, por que cê tá branco?
A cada frase que a mulher falava, dava um tapa nas costas do Robson. Podia se ouvir o eco dos pulmões do garoto a cada golpe. Tantos foram os tapas que o pobre Robson acabou vomitando no pé da mãe, não sem antes passar pelos cabelos da irmãzinha, que amedrontada assistia a tudo calada com os olhos arregalados.
Que tristeza presenciar aquilo. Eu me senti impotente diante da estupidez daquela criatura, que repreendia e cobrava explicações da criança, que estava passando mal à sua ignorância.
Não havia como interferir, não há argumento capaz de penetrar aquele grau de ignorância. Ela nunca iria admitir que o Robson vomitou por causa da banana; para aquela mulher, o garoto havia passado mal por “não parar quieto”, além disso, quem bate em alguém que está passando mal? Que loucura assistir àquela cena.
Por outro lado, o azarado e agora indisposto Robson nem de longe imaginava por que estava apanhando. Algumas crianças apanham simplesmente porque os pais estão com vontade de bater, de extravasar a raiva contida. Aquela foi a vez do Robson e eu só queria saber por quê? Por quê? Numa fila daquele tamanho aquilo tinha de acontecer bem na minha frente? Por quê? De que ia me servir assistir aquilo se eu pouco podia ajudar. Pode parecer egoísmo, mas porque eu? Eu não passo muito bem vendo essas coisas. 
Ela continuava:
-Eu devia ter deixado vocês na casa da vizinha. Bem que a Creide me avisou pra não trazer estorvo. Olha o que você fez “gumitô” tudo ni mim e na Kelly. Agora vamo ter de ir embora, moleque dos inferno. Vão bora, vão bora. Anda, peste!
Imediatamente, a mulher pegou as crianças e saiu apressada e vomitada daquela fila.
Antes que ela fosse embora, eu consegui dar minha garrafinha de água e meu chocolate para a menina Kelly, sem que a mãe percebesse; eu me sentia na obrigação de fazer alguma coisa e tentei “salvar”, pelo menos uma das crianças.
 A Kelly foi embora praticamente pendurada por um dos braços. Dava pra ver o omoplata saltando das costas magras enquanto as perninhas curtas se apressavam para acompanhar os passos largos e furiosos da mãe.
Robson ia mais atrás, enquanto a mãe gritava: anda moleque, anda logo. Depressa, cê
vai me fazer perder o ônibus, agora? Anda coisa ruim, peste do inferno... Bora, Kelly, apressa o passo, menina...
A mãe foi se afastando com as crianças enquanto mil pensamentos me ocorriam.
Embora não parecesse, aquela era uma boa mãe; estava com os filhos enfrentando dificuldades, estava à sua maneira educando as crianças e não tinha esquecido de levar uma merendinha para elas (as tais bananas verdes).
Mais uma vez eu estava mergulhando em pensamentos sem me dar conta que eu havia ficado para trás, lá, naquela fila sem fim, só que agora eu estava sem água e sem chocolate.
Só me restava fumar.

Um comentário: