Em mil novecentos e noventa e
quatro eu já estava recuperada, quer dizer, não chorava todos os dias a morte
do meu pai; já conseguia chorar dia sim, dia não. Estava trabalhando em outro
jornal e estava até namorando um bonitão que morava no meu prédio.
Aos poucos as coisas iam se encaixando e eu e Bruno
seguíamos em frente, sem pressa e recuperando nossa habitual tranqüilidade.
Eu já sentia vontade de ir às
festas e de receber pessoas em minha casa que, aliás, nesta época era muito
movimentada não só pela da localização, como pela enorme quantidade de amigos
que eu tinha. Agora eu estava à vontade para recebê-los em minha casa, pois não
havia mais a figura mal humorada e às vezes até mal educada de meu ex-marido,
que quase sempre me deixava constrangida.
Era uma outra fase de vida, a
fase da leveza, da liberdade e da possibilidade de alegria e se não fosse pela
imensa saudade que eu sentia de meu pai, seria sem dúvida, a melhor fase da
minha vida. Finalmente eu era “quase totalmente” feliz.
Mil novecentos e noventa e quatro
também foi o ano que o Brasil ganhou mais uma Copa do Mundo e em um dos jogos,
resolvi convidar meus primos e meu irmão para assistirem ao futebol em meu
apartamento.
Preparei tudo, cerveja,
salgadinhos e o espírito de festa para receber bem a todos; eu me programava
para uma tarde divertida com meus primos e meu irmão, mas não podia imaginar
que iria ter muito mais que futebol e cerveja para me divertir.
Eu sempre gostei da companhia de
meus primos e do meu irmão. Sentia-me uma
Smurfete em meio aos Smurfs; ou
seja, a única mulher que podia entrar naquele universo tão masculino. Era muito
bom poder participar das conversas e saber como os homens realmente pensam. Era
como estar no “Mundo de Marlboro” sem
precisar fumar nenhum daqueles cigarros horrorosos ou domar qualquer cavalo selvagem.
Os primeiros a chegar foram meus
primos, Marcos e Carlos, o Bird. Não
demorou muito, chegou meu irmão, José, dizendo que havia convidado Carlos, o Espanhol para assistir ao jogo em minha
casa.
Carlos, o Espanhol, era um amigo
de meu irmão que por sua vez era irmão de um amigo meu de nome Inácio. Sugeri, então
que meu irmão ligasse Inácio e também o convidasse para assistir ao jogo
conosco. Meu irmão mais que depressa, acatou a sugestão, mas naquela pressa desnecessária, ele acabou ligando, por engano,
para a casa de uma senhora, que atendeu ao telefone aos berros e sem nenhum
motivo, mandou que meu irmão fosse pra pqp,
assim que ele perguntou se era da casa do Inácio. Detalhe: esta senhora também
achou que meu irmão fosse um “filho da
Guta”.
Pasmo com as ofensas gratuitas, ele desligou o
telefone e ficou em silêncio por alguns segundos, como quem tenta entender o
que tinha acontecido e em seguida, começou a desabafar:
-“Essa mulher é louca”; por que ela me xingou tanto? Eu só perguntei se era da casa do
Inácio. Não havia motivo pra ela gritar comigo. Fui educado, usei o “por favor”,
por que essa agressão? Ah não! Eu tenho que ligar pra ela de novo e saber por
que ela me xingou tanto!
Meu irmão sempre teve a mania de
querer entender o porquê da atitude alheia. Pra que ele queria entender as
razões de uma mulher tão mal educada e totalmente desconhecida e que obviamente
não estava disponível para conversas.
Até hoje, quando penso nessa história, não entendo por que ele queria
entender a “Maleducada”, pra que tentar entender pessoas que não interessam,
não basta ter que tentar entender as atitudes dos pais, dos filhos, dos
maridos, das esposas, dos chefes, dos parentes? Pra que ele queria entender
aquela mulher?
Mas meu irmão não ia deixar barato,
ele precisava saber por que tinha
sido destratado.
Pressionando o botão redial do telefone, meu irmão, sem saber dava início a uma história
que se estenderia por todo o dia e só terminaria de madrugada.
Depois de apertar o “famigerado” botão, o inconformado José
esperou que a “Miss Candura” atendesse
e disse:
-Por que a senhora me xingou? Eu só liguei errado, estava tentando falar
com meu amigo Inácio e a senhora começou a gritar e me xingar; teria sido bem
mais fácil se a senhora dissesse: não, aqui não tem nenhum Inácio, pronto, eu
teria agradecido, me desculpado e tudo teria acabado bem, mas agora eu quero
saber por que a senhora me xingou?
*Cá entre nós, seria ainda mais
fácil se ele esquecesse essa história e ligasse logo pro Inácio. *
Enquanto meu irmão falava e pedia
explicações, a mulher gritava e insistia em dizer que ele era um “filho da Guta”, a partir daí, a sorte da “Maleducada” estava lançada.
Aquela mulher não podia imaginar, nem nos seus
maiores devaneios, como seu dia iria acabar. Ela acabava de cruzar um dos arcos
do portão do Inferno de Dante; assim
que gritou pela segunda vez com meu irmão; sem saber, “abandonou para sempre a esperança de rever o céu”. Ela acabara de
entrar no Inferno.
A falta de educação da tele-senhora foi determinante para que
eu e meu irmão retomássemos a energia de nossa infância; aquela que nos unia em
torno dos ideais mais sórdidos. Foi como se de repente voltássemos no tempo e subitamente
despertasse em nós o exu-mirim há
anos adormecido.
Imediatamente após o telefonema
que libertou nossos instintos há anos trancados no porão do nosso passado, eu e
meu irmão começamos a cronometrar o dia e a cada quarto de hora, um de nós ligava
para a casa da “Lady da Telefonia Fixa”
perguntando se era da casa do Inácio.
Havia um revezamento organizado
entre as ligações, pois meus primos também entraram na brincadeira.
Meu aparelho de telefone tinha um
visor bem grande na frente que registrava o último número que havia sido
discado, com isso, foi possível anotá-lo e passar para outros amigos que
prontamente aderiram à brincadeira e entraram para a turma do “é da casa do Inácio?”.
Até o Inácio ligou para a mulher para
perguntar se era da casa do Inácio.
Algumas vezes encontrávamos o
telefone ocupado, acho que ela exausta tirava o fone do gancho para ter alguns
minutos de paz, mas nós não desistíamos; éramos muitos e estávamos empenhados
em fazer daquele dia um inferno para ser guardado para sempre na memória da “serena senhora”.
Essa brincadeira começou mais ou
menos às duas horas da tarde; já eram sete horas da noite e ela estava longe de
terminar.
Sob efeito da cerveja e da
euforia por mais uma vitória do Brasil, atormentar a “Maleducada” ia ficando cada vez mais engraçado. Ríamos muito
enquanto aquela criatura exibia sem pudor os muitos palavrões que colecionou ao
longo da vida. O repertório era imenso e confesso que algumas combinações eu
desconhecia.
Já estávamos exaustos de tanto
rir, o jogo de futebol havia acabado e a cerveja também; resolvemos então que
era hora de acabar com aquela “festa”; afinal era sábado e outras festas nos
esperavam.
Todos se despediram e foram
embora, mas não sem antes dar mais uma rodada de telefonemas.
Na despedida, Bird perguntou se eu não queria
acompanhá-lo à boate do clube que éramos sócios. Eu aceitei o convite, pois não
tinha nada programado para aquela noite.
Cada um foi pra sua casa e eu e
Bird combinamos de nos encontrar mais tarde, por volta das onze horas da noite.
Cumprindo o combinado, Bird
passou para me pegar às onze horas e seguimos para a tal boate não muito
animados.
Ficamos por lá um pouco, dançamos
mais um pouco e depois de algum tempo, resolvemos que era hora de irmos embora,
pois já passava das duas da madrugada e o programa não estava muito divertido.
No caminho, eu e meu primo resolvemos parar
num auto-lanche para comermos um sanduíche, pois até aquele momento nós só
havíamos nos alimentado basicamente de cerveja e algumas besteiras, como:
amendoins, castanhas, essas bobagens.
Chegamos à lanchonete e
escolhemos o que queríamos comer. Conversávamos distraídos enquanto esperávamos
famintos pelo nosso lanche.
O cheiro da comida sendo
preparada aguçava ainda mais nosso apetite e ficamos alegres ao avistar de
longe o garçom chegando com nossa bandeja. Mais alegres ainda ficamos ao
colocarmos as mãos nos nossos lanches e levá-los à boca na intenção da primeira
mordida, mas a tão esperada mordida inaugural não aconteceu.
Parecia que nossos movimentos
haviam sido ensaiados, pois ao levarmos os lanches à boca, avistamos ao mesmo
tempo um orelhão e simultaneamente, a mesma idéia maligna nos ocorreu e
imediatamente fomos tomados por um ataque de risos que nos impossibilitou de
morder aquele tão desejado lanche. Não conseguíamos nos controlar, mas depois
de alguns minutos de riso intenso, nossa euforia diminuiu e foi possível
executar nossa idéia sórdida.
Tentando ainda controlar o riso,
meu primo discou para a casa da
mulher “fina senhora” e disse: Alô, aqui é o Inácio, tem algum recado pra
mim?
Não foi possível nem ouvir a resposta
para cínica pergunta tampouco os palavrões que a mulher berrava ao telefone às
três da madrugada, pois um novo ataque de riso, muito mais intenso, tomou conta
de nós e em seguida, de todas as pessoas que estavam naquela lanchonete, só que
desta vez parecia que eu não ia conseguir parar de rir. Isso nunca tinha
acontecido antes comigo; eu realmente pensei que fosse morrer de tanto rir, meu
diafragma doía muito e mesmo assim era impossível parar.
Meu primo também estava passando
mal e com sacrifício dizia:
- Pára,
por favor, pára.
Quanto mais ele pedia, mais eu
ria; não estava mesmo conseguindo parar.
Depois de um bom tempo de sonoras
gargalhadas eu e Bird, finalmente conseguimos nos controlar. Fomos aos poucos
nos acalmando para conseguirmos comer nossos lanches e voltarmos para casa.
É espantoso, mesmo com a “barriga
cheia” e depois de ter encerrado meu dia com uma má ação, consegui dormir o
sono dos justos. Tive uma noite serena e de muita paz.
*Acho que há alguma coisa de muito errado comigo!*

Nenhum comentário:
Postar um comentário