No terceiro andar do prédio no
centro da cidade onde passei a maior parte de minha infância morava também
minha tia Nely, mãe de Carlos Alberto, o Bird, meu primo irmão, que passou
alguns anos de sua infância calçando uma botinha ortopédica, cuja função não
era apenas corrigir os “pés chatos”,
mas também atingir impiedosamente a
canela de todos, indistintamente.
O Bird, literalmente, marcou a infância de todos nós, pois era comum
apresentarmos hematomas depois das festas de aniversários de família, ou dos
encontros casuais nos fins de semanas na casa dos meus avós paternos.
Carlos Alberto, o Bird, adquiriu
uma espécie de cacoete do joelho pra baixo: era só avistar uma canelinha
desavisada que ele “pimba”, ia logo
carimbando com uma mancha roxa produzida pela ponta de sua botinha ortopédica.
O Bird tinha verdadeira obsessão por canelas, o menino chutava até canela em
pó.
Durante toda infância, Bird se dedicou a um
único objetivo: transformar todas as crianças da família em dálmatas.
Ele nunca teve justificativas ou motivos
aparentes para aqueles chutes era apenas um vício adquirido durante os anos de
uso daquelas botinhas assassinas.
Liane era seu dálmata predileto, pois era doce demais
para revidar os pontas-pés de Bird e por isso, tornou-se a prima mais malhada
de todas.
Comigo era um pouco diferente; eu
também usava botinhas ortopédicas...
Carlos Alberto era um garoto nada fácil de
lidar, ele insistia em marcar as
pessoas justamente quando elas estavam bem distraídas e não esperavam pelo
ataque. Qualquer um, a qualquer momento poderia tomar uma botinada impiedosa do pequeno Bird.
Velhos, jovens, crianças,
qualquer um, bastava ter uma canela,
que ele dava logo uma botinada pra
quebrar. Aquele menino não respeitava nem perna mecânica, ele bicava sem dó.
Bird só não apanhava como deveria
e precisava por causa de sua mãe; tia Nely, tia muito querida por todos os
sobrinhos, que muitas vezes deixavam de revidar os “bicos” desferidos por Carlos Alberto só para não aborrecê-la, pois
ela não reagia muito bem quando seu único filho levava a pior. O senso de
proteção e o amor de tia Nely pelo filho eram tão grandes que ela não agüentava
vê-lo apanhar, mesmo que merecidamente.
Tia Nely, irmã de meu pai, era e
ainda é uma tia extremamente amorosa, presente e disponível. Ela está sempre
por perto, oferecendo ajuda, oferecendo colo e oferecendo amor. Embora adorando
crianças, optou por ter apenas um filho, o
terrível Carlos Alberto, e talvez por isso, tenha resolvido adotar em seu
coração todos os sobrinhos, especialmente as meninas, a quem sempre dedicou
toda atenção e carinho, que só uma tia muito amorosa é capaz de dar.
Tia Nely é acolhedora e sempre
esteve por perto, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e
na pobreza. Ela sim é fiel; ela sim
merece um adesivo colado no carro com os dizeres: Tia Nely é Fiel.
Tia Nely me ensinou muitas coisas.
A primeira foi logo na infância, quando eu ainda estava sendo alfabetizada, ela
me alertou que a palavra rato não se
escreve com dois erres.
Na adolescência ela me ensinou a
fazer escova nos cabelos com o pente! Técnica muito importante e que
faz toda a diferença no estilo de vida de uma mulher inteligente e independente.
Quando me tornei mãe, ela me
ensinou a bater o purê de batatas com leite morno para que ele ficasse fofinho
e mais gostoso, a fim de melhor
alimentar o pequeno Bruno. Tinha que ser leite; tinha que ser morno
e tinha que bater se não, não seria
digno de alimentar um bebê.
Também me ensinou a fazer bolinho
de arroz, moldando a massa com duas colheres para dar um formato uniforme às porções,
coisa muito séria na formação dos bolinhos de arroz.
Graças à tia Nely, também adquiri
a mania de colocar azeite em tudo.
Ela também me ensinou a burlar a
receita e falsificar uma “schiacciata”,
comprando massa de pizza pronta na padaria da esquina, regando com um fio de azeite,
claro, e salpicando sal grosso antes
de assar.
Dentre todas as coisas importantes que aprendi com minha querida
tia uma com certeza iria mudar para sempre minha maneira de conduzir a vida.
Era a lição máster, a lição imprescindível e que nem meu pai, nem minha mãe
estavam aptos a me ensinar, mas como sempre, tia Nely estava lá, ela não ia me
faltar e assim, ainda na minha adolescência, ela, cumprindo seu papel de tia e
madrinha, me apresentou ao mundo
alcoólico.
O universo das biritas, mais
especificamente, das caipirinhas, estava bem ali, sendo apresentado com muita doçura por tia Nely. Mais tarde, minha
tia Lia irmã de minha mãe, aprimorou as lições acrescentando ao meu cardápio
etílico, outras bebidas como: vinhos importados, espumantes, frisantes e até
atingir o nível máximo: o wisky.
Eu e tia Nely costumávamos passar
algumas tardes no clube de campo que éramos sócias e nos dias de semana a
cantina deste clube, quase sempre estava fechada, mas tia Nely, que pensava em
tudo, preparava sempre um lanchinho e as doces caipirinhas para levar ao
passeio.
Eu adorava tudo aquilo e sentia
que éramos amigas, mais do que isso; éramos cúmplices; afinal nós estávamos
bebendo juntas e isso era um elo indestrutível.
Nós ríamos e conversávamos a
tarde toda. Não me lembro muito bem sobre o que falávamos, mas sei que essas
idas ao clube e as conversas regadas a caipirinhas fracas e doces, nos
aproximaram ainda mais.
Tia Nely sempre gostou de
conversas animadas e de uma cervejinha nas tardes quentes, tudo na dose certa,
pois é muito comedida em tudo que faz.
Os anos passaram e minha afeição
por essa tia tão querida só aumentou, pois a cada ano passado ela demonstrava
mais e mais o seu carinho e sua dedicação para com as muitas sobrinhas que a
vida lhe deu.
No decorrer de sua vida, entre
todas as batalhas que venceu, tia Nely arranjou tempo para conquistar o amor e
a admiração de cada uma das sobrinhas, sempre com amizade e companheirismo,
sempre presente, sempre constante.
Tenho certeza que não sou a única
a reconhecer seu valor e que tem por ela um carinho especial; tenho certeza que
tia Nely já esteve presente para apoiar incondicionalmente
todos os seus sobrinhos nos momentos difíceis que passaram, assim como nas
alegrias que viveram.
Tenho certeza que ela conquistou
para sempre o nosso amor e nossa gratidão.
Um beijo e obrigada, tia.
Obs. Quanto ao Bird, Carlos
Alberto, bem... Ele cresceu.

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