domingo, 9 de setembro de 2012


Entrar para o Mundo de Marlboro nem sempre é fácil. No meu caso, só foi possível por ter um irmão que me colocava diretamente em contato com meus primos e alguns de seus amigos.

O Mundo de Marlboro é um lugar interessante e ao mesmo tempo bizarro. Lá, os conceitos são muitas vezes invertidos e o que nos parece desprezível e abominável é enaltecido pela maioria de seus membros.
Os membros do Mundo de Marlboro se recusam a aceitar a evolução das relações humanas; especialmente no que diz respeito ao relacionamento entre homens e mulheres. É como se uma mentalidade primitiva regesse o comportamento das pessoas daquele mundo tão “masculino”.
Para se perceber isso, não basta apenas entrar no Mundo de Marlboro, há que participar dele e para tanto faz-se necessário conquistar a plena confiança de seus membros, a ponto de ser considerada mais um “brother”.
Se ainda quisermos aprender alguma coisa com e sobre esses brothers, é preciso que eles, “esqueçam” que você é mulher; o que só é possível se existir um grau de parentesco capaz de inibir o interesse sexual por você, portanto, já deu pra perceber que nós mulheres, só entramos em Terra de Marlboro pelas mãos de um homem, que seja da família, do contrário, você não entra e se entrar, cuidado, será como caça.
Desde criança eu costumava brincar com meu irmão e com meus primos, especialmente o Bird, com quem passei boa parte da minha infância.
Crescemos juntos e isso foi fator determinante para anular definitivamente qualquer possibilidade de interesse sexual entre as partes.
Com Marcos, passei a conviver mais intensamente depois da adolescência, mesmo assim, ainda deu tempo de criarmos um laço de amizade bem forte, mas que não impedia que, de vez em quando, ele se arriscasse em alguma gracinha machista, só para não perder a prática. Essas gracinhas eram encaradas por mim como doces tolices de primo homem e mais novo e em nada interferiam no amor, na amizade, na confiança e na admiração que eu sentia e sinto por ele. Eu amo esse meu primo e até hoje, conservamos nossas afinidades e conseguimos conversar com total honestidade por horas, principalmente depois de algumas “doses”.
Conviver de perto com o sexo oposto me ajudou muito nas relações com outros homens. Para mim, esta convivência foi fundamental para aprender a lidar com eles e entender a sua natureza e a sua linguagem.
Desde cedo percebi que os homens funcionam no sistema binário; por exemplo: ou dá, ou desce.
Outra coisa muito importante que aprendi a respeito dos homens foi que eles mentem, todos eles mentem. Alguns ainda, são capazes de adequarem com velocidade e destreza espantosas o seu raciocínio ao que eles acham que “aquela mulher”, que “naquele momento” lhes interessa quer ouvir; isso é pior que mentir; é iludir.
Mentir e/ou iludir é uma unanimidade entre os homens; é um cacoete da alma masculina.
Transitando por Terra de Marlboro também pude constatar o que há tempos desconfiava: príncipe encantado não existe, pois como o próprio nome diz, ele é encantado; ou seja, está sob efeito de encantamento, portanto, logo irá “acordar” e das profundezas deste ser emergirá seu sapo interior mostrando de vez o seu caráter e as suas intenções; e digo mais, nem príncipe Willian é encantado; por baixo daquela roupinha real é bem provável que more um sapo verde, feio, desajeitado e gosmento.   
Aliás, quem inventou essa história de príncipe encantado? Por que fizeram isso com a gente? Por causa desta crença tem muita mulher que passa a vida beijando sapo na esperança dele virar príncipe um dia.
Pobres tolinhas, que ilusão!
 A verdade é que o mundo está repleto de sapos. Vivemos na Sapolândia desde os primórdios da humanidade e falando em primórdios da humanidade, justiça seja feita, dizer que os homens sempre mentiram é exagero; houve uma época em que eles não mentiam: a Pré-história
Nesta época, eles não mentiam por que ainda não sabiam falar e porque não tinham que convencer a gente de nada; usavam a força e pronto. Era comum ver os futuros príncipes puxando suas escolhidas pelos cabelos e arrastando-as até a caverna mais próxima, sem “xavequinho”, sem luz de velas e sem música ambiente e sem papinho do tipo: eu sou o último romântico. Faziam tudo rapidinho e depois sumiam sem se quer dar um telefonema no dia seguinte. Depois de alguns meses nascia outra coisinha pré-histórica, que iria crescer e ficar igualzinho a todos os outros “uga-bugas” que povoavam a Terra.
Nessa época não adiantava reclamar, ainda não existiam nem delegacia da mulher e nem a Lei Maria da Penha; tudo era na base da força mesmo e quem podia mais, chorava menos.

Chocante é constatar que muito pouco mudou de lá pra cá. Para boa parte dos homens o que interessa ainda é: afogar o ganso, molhar o biscoito, descabelar o palhaço. “É disso que o veio gosta”.
Alguns homens ainda conservam o inacreditável hábito “pegar” animaizinhos inocentes e fazem isso na maior cara-de-pau. Não sei se por comodidade ou por bizarra preferência, esses homens correm para “pegar” pobres ovelhinhas.
Você já pensou?
Coloque-se no lugar desses animaizinhos e imagine que você é uma ovelhinha fofinha e bonitinha, de lãzinha branquinha e carinha rosadinha, que está distraída saltitando livremente pelos pastos verdejantes, quando de repente aparece uma criatura que tem duas vezes o seu tamanho que nem é da sua espécie, é de outra categoria, de um outro mundo que nada tem a ver com o seu, que produz sons que você nunca ouviu e nem sabe decodificar; pois bem, essa criatura sem noção te pega e enquanto você tenta correr, ele creu. Você, pobre ovelhinha branquinha de carinha cor-de-rosa, fica ali, impotente, com os olhinhos lacrimejantes, com carinha de ovelhinha que comeu e não gostou, ou melhor, que foi comida e não gostou. Sua “dignidade ovelhal” dói e tudo que consegue dizer é: mééééé! Méééééé! 
Que sina essa a das ovelhinhas.
O fato é que bicho homem não tem jeito mesmo, já estamos no século XXI e ele se recusa a evoluir. Ainda não tratam com o devido respeito nem as mulheres e nem as ovelhinhas.
Dentro do casamento é um pouco diferente; a questão não é mais evolução, é crescimento, pois ele se recusa a crescer e espera que você seja ao mesmo tempo: mãe, amante, psicóloga, enfermeira, cozinheira, arrumadeira e trepadeira.
No papel de mãe, ele espera que você ache bonitinhos todos os seus gases, assim como a mãe dele achava quando ele era bebê: Ah! Que lindo! O neném da mamãe arrotou! Hum, que fedorzinho, o nenê fez punzinho?
Ele faz questão de mostrar o bilau e espera que você diga: Ah! Que lindo! É seu?
Quando ele sai do banho e não joga a toalha no chão ou arruma muito mal e porcamente a própria cama, ou ainda, quando executa qualquer tarefa absolutamente banal, ele espera que você diga: Ah! Que lindo! Foi você que fez? Sozinho? Muito bem!
Ainda no papel de mãe ele espera que você coloque limites em suas atitudes inconseqüentes e egoístas: O que significa essa marca de batom na sua camisa? Muito bem, você vai ficar de castigo e não vai “encostar” em mim até o Natal do ano que vem, só pra aprender a não sujar a camisa, desmazelado! Vai já lavar isso.
No papel de amante, você terá que ter sempre os cabelos arrumados, as pernas depiladas os olhos maquiados, além de alguma frase de efeito como: Uau! Nunca vi tão grande!
No papel de arrumadeira é preciso dedicar horas de seu dia para manter todas suas coisinhas em ordem: a coleção de latinhas de cerveja, os bonecos G.I.Joe e toda coleção do Comandos em Ação, além das miniaturas de carrinhos, que um dia ele jurou que teria. Também é preciso dobrar suas meias e cuecas, pois muitas vezes falta-lhes coordenação para isso. 
No papel de psicóloga você deverá entender tudo, além de adivinhar o que significa seus braços cruzados, o seu silêncio, sua cara amarrada e suas respostas vagas.
No papel de cozinheira você deve preparar com esmero seu prato predileto e achar ótimo quando ele disser que está “quase” igual ao da mãe dele. Não parece, mas isso é um elogio.
No papel de enfermeira você deverá ter disposição para cuidar de cada resfriado do seu marido como se ele tivesse acabado de sair de uma seção de quimioterapia, pois é assim que ele reage aos resfriados.
Já no papel de trepadeira, às vezes é necessário muito talento, pois você deve fazê-lo crer que ele é o mais gostoso do planeta e que te dá mais tesão que o Brad Pitt em Tróia.
Como ficou claro, os homens além de mentirem necessitam que você também minta pra eles.
Essas mentiras alimentam o seu ego, bem como os relacionamentos e se você teimar em dizer a verdade tudo desanda, pois o equilíbrio dos mundos e das relações entre homens e mulheres está, há séculos, baseado em papéis pré-determinados por nossas expectativas, por nossas fantasias.
Sabemos que é mentira, mas não ousamos desmenti-las. Isso poderia por fim às nossas verdades.

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