domingo, 8 de julho de 2012


 De todas as amizades que fiz na minha passagem pelo Culto à Ciência nenhuma foi igual à amizade de Filomena, mais conhecida por Filó.
Conheci Filó durante uma aula de francês na oitava série do ensino fundamental, na época, quarta série do ginásio. Ela era nova naquele colégio, estava chegando de uma escola de freiras com disciplina também muito rígida, na qual não estava se adaptando muito bem e não foi muito difícil perceber por que. 
Na minha sala de aulas havia quarenta e cinco lugares e adivinhe aonde a nova aluna iria se sentar? Bem atrás de mim.
Tem coisa que a gente vive e que não se pode negar que foi o destino que preparou. Acredito que foi ele que nos posicionou cuidadosamente para que déssemos prosseguimento à sua obra, pois com tantas classes naquele colégio e tantas carteiras naquela sala ela iria sentar-se bem ali, atrás de mim.
Eu ainda não havia trocado uma só palavra com aquela menina quando, de repente, no meio da aula, ela me fez a seguinte pergunta: “mas o que esta filha da puta está falando?” Era aula de francês, a professora lia um texto de Victor Hugo e Filó, que nunca tinha tido esta matéria na escola de onde vinha não conseguia entender uma só palavra que a D. Maria de Lourdes, mais conhecida como Maria Bon Jour, dizia.
Respondi que não fazia a menor idéia do que a professora falava, afinal, como era de meu costume, eu não estava prestando muita atenção, estava mais uma vez fazendo uma de minhas longas viagens mental, que sempre me levavam para muito longe das explicações dos professores.
Não sei o que aconteceu, mas as palavras da menina realmente me comoveram e naquele momento uma estranha química começava surgir entre nós. Os elementos da minha alma se fundiram aos elementos da alma daquela menina, numa mistura homogenia e forte o bastante para resistir aos longos anos que estavam por vir.
Foi uma espécie de amor à primeira vista ou amizade à primeira vista.
Eu ainda não sabia, mas a partir dali, estava formada uma dupla imbatível, uma amizade rara que sobreviveria por muito tempo.
Filó e eu nos tornamos uma espécie de “Don Quixote e Sancho Pança”, “Batman e Robin”, ou ainda se preferir, “Claudinho e Bochecha”, não importa, o que realmente interessa é que daquele momento em diante eu não estava mais sozinha, tinha encontrado a pessoa perfeita para seguir comigo os longos anos de caminhada naquele colégio tão tradicional e tão exigente, que pouco tinha de inovador ou interessante para oferecer a uma adolescente sonhadora como eu era.
No colégio estávamos sempre juntas, trocávamos confidências e segredos guardados há tempos. Aos poucos nossas afinidades foram se evidenciando e fomos descobrindo que tínhamos muito em comum, especialmente nosso humor e nossa alegria, mas a descoberta  que mais nos impressionou e que provavelmente nos uniu definitivamente, foi perceber que o pai de Filó estava para minha mãe, assim como a mãe dela estava para meu pai. Em casa, tínhamos o mesmo problema e a mesma solução só que invertidos.
A mãe de Filó, assim como meu pai era uma criatura cordata, carinhosa, compreensiva e mais centrada, já o pai dela, assim como minha mãe era pessoa desconfiada, extremamente exigente e costumava perder o humor com facilidade. Assim como minha mãe o pai da Filomena tinha uma postura enérgica com relação aos estudos e aos assuntos referentes à escola. Estavam sempre em estado de alerta, prontos para fazerem questionários intermináveis, que mais pareciam interrogatórios.
Aqueles dois desconfiavam de tudo, qualquer atitude nossa rapidamente se transformava em alguma suspeita, que era motivo suficiente para a instauração de uma CPI, com direito a acareação entre as partes, no caso, eu e Filomena.
Eles sempre tinham a certeza que nós estávamos fazendo coisas que na realidade, jamais havíamos se quer pensado em fazer.
 Implicavam com tudo e com todos, mas por estranha coincidência, nunca se opuseram a nossa amizade, muito pelo contrário, faziam muito gosto nela. Assim, Filó se tornara a amiga perfeita para freqüentar minha casa, pois tinha anos de treinamento de “respostas rápidas” e, portanto, poderia entrar em contato com minha mãe sem colocar em risco minha integridade física. Ela, assim como eu, sobrevivera aos anos de convivência com criaturas do tipo..., sei lá, tipo minha mãe e o pai dela.
Eles perguntavam muito e tínhamos que saber a resposta exata na hora certa. Não podíamos pensar demais nem de menos, era preciso uma sincronia perfeita entre o tempo da pergunta e o tempo da elaboração da resposta; isto é, tínhamos que produzir em tempo adequado a resposta satisfatória. Se pensássemos demais, era mentira; por outro lado, se respondêssemos muito rápido já havíamos combinado a resposta, portanto era mentira. Falar com eles era mesmo uma ciência que exigia habilidade específica, reflexos rápidos e muita, muita agilidade mental.  Era coisa pra profissional.
O pai da Filó tinha um vício a mais que minha mãe, ele queria porque queria arrancar as orelhas da menina; isto é, a qualquer deslize a garota faria companhia a Van Gogh na foto. Já pensou uma adolescente sem orelhas? É rezar para não precisar usar óculos.
Sr. Luiz era temido por todos, principalmente por Filó e eu também temia pelas orelhas da minha amiga. Nem pensar ter uma amiga sem orelhas. Tudo que acontecia de errado no colégio ou fora dele, Filó dizia: agora meu pai me arranca as orelhas. Agora foi! Não tem mais jeito!
Embora as orelhas de Filó estivessem sempre na reta nós não parávamos de desafiar a sorte e a disciplina ultrapassada daquele colégio.
 O Culto à Ciência tinha uma regra: depois de três advertências levaríamos uma suspensão de um dia; depois da suspensão de um dia, cada desacato às normas seria punido automaticamente com três dias de suspensão. Eu e Filó fomos advertidas e/ou suspensas todos os anos de nossa vida estudantil naquele colégio e às vezes tomávamos logo uma suspensão sem mesmo sermos advertidas.
Ora porque estávamos conversando muito, ora porque não entrávamos em aula, ora porque tínhamos “feito algum comentário impertinente”, ora porque alguém pôs fogo nas cortinas da classe.
De alguma forma sempre estávamos envolvidas em incidentes que nos levavam à diretoria e às suspensões. Éramos muito boas na criação e execução de coisas mal feitas, como por exemplo: a abertura da passagem secreta para facilitar nossa fuga nos dias que matávamos aula, ou empilhar as carteiras da sala antes do início de cada aula, ou ainda, desenhar caricaturas dos professores na lousa durante os intervalos. Também fazia parte de nosso repertório de atividades, murchar os pneus dos carros estacionados em frente ao colégio.
Fomos também as responsáveis pela criação, formação e ensaio do coro do hum. Explico: o coro do hum era formado por nós e por outros integrantes escolhidos a dedo, quero dizer, outros alunos de nossa total confiança e com as mesmas tendências a delinqüência que eu e Filomena.
Esses alunos a certa altura da aula começavam a fazer o seguinte som: huuuuummmm, huuuuuummmmm, o segredo do sucesso do coro do hum era produzir esse som com a boca fechada e olhando fixamente para o professor como quem presta muita atenção à aula. A prática do coro do hum, quando bem sucedida, levava a classe à suspensão coletiva.
 Suspensão coletiva, na minha casa era justificada da seguinte maneira: eu não fiz nada, mas “tava” todo mundo fazendo então eu também fui punida. Meus pais fingiam comprar essa idéia, lamentavam o ocorrido e nada mais acontecia.
Já na casa de Filó, com a mesma justificativa, as orelhas dela eram quase arrancadas. O pai dela tinha mesmo obsessão nas orelhas da menina.
Filó e eu nunca terminávamos o ano letivo no prazo normal, sempre estávamos de “segunda época”, que era a chance derradeira de recuperação para alunos como nós. Nós aproveitávamos essa chance e sempre conseguíamos passar de ano, exceto no segundo colegial, quando nos deparamos com nossa primeira reprovação e com o perigo real de ver as orelhas de Filó arrancadas.
Na metade da segunda vez que cursava o segundo colegial decidi mudar de escola, fui para o Ateneu Campinense, escola recém inaugurada, localizada bem perto da minha casa. Foi uma separação muito difícil para nós.
Filó tentava convencer seu pai a deixá-la mudar de escola também, eu ajudava nos argumentos e depois de muitas e exaustivas conversas, o pai de Filomena finalmente concordou com a mudança, mas impôs uma condição: a menina estava obrigada a entrar na faculdade, do contrário teria suas orelhas arrancadas.
Graças a Deus, aos nossos esforços e às orações de minha avó, seis meses depois, minha amiga também se matriculava na mesma escola e pudemos seguir juntas novamente.
No Ateneu as coisas melhoraram muito, pois a nova escola era bem mais liberal que o tradicional Culto à Ciência. Os professores eram jovens e já não éramos suspensas a todo instante; nossos professores eram bem mais abertos e até se divertiam com nosso jeito descontraído. 
Nesta época já havíamos amadurecido um pouco e começávamos a pensar na faculdade que iríamos cursar.
Prestamos vestibular, eu para Comunicação Social,  mas Filó resolveu garantir as orelhas e prestar Administração que era bem menos concorrido na época.
Em 1980 entrávamos na faculdade, na Pontifícia Universidade Católica de Campinas, e Filó logo conseguiria transferência para o curso de Comunicação Social. Nossa intenção era seguirmos juntas, mas o destino iria se manifestar em breve e teríamos então que nos separar por um tempo.
De lá para cá muitos anos se passaram e vários acontecimentos marcaram nossas vidas: casamento, maternidade, separação, mudanças, perdas e desilusões. Muita coisa mudou, mas quando estou com minha amiga tenho a nítida sensação que ainda sou aquela menina e quando olho pra ela também consigo enxergar a menina Filó, com a alegria e a beleza de seus quinze anos. Por mais que o tempo marque implacavelmente nossos rostos e nossos corpos, quando nos encontramos conseguimos reviver um pouco nossa adolescência. Juntas, somos e seremos sempre jovens e estamos prontas pra mais uma gargalhada. Em nosso sorriso terá, pelo menos naquele momento, o mesmo brilho e a mesma alegria que há trinta e oito anos atrás.
O tempo pode ter interferido e transformado muito nossas vidas, transformou nossa aparência, nossas mentes e nossos conceitos, mas nunca conseguiu mudar aquela química. Tivemos grandes perdas, durante esses anos de amizade, mas não perdemos a alegria, as desilusões existiram, mas foram diluídas, nossas lágrimas lavaram nossas dores e assim, preservamos intactas na nossa essência.
Lá no fundo, bem no íntimo, eu e Filó somos meninas e ainda vamos brincar juntas por muito tempo, se Deus quiser. 

Um comentário:

  1. kkkkk... adorei!!! Tenho uma amiga, assim... aliás... tive pq ela teve uma morte TRÁGICA a 6 anos!!! Mas, continuo dando muita risada dela!!! Lembranças ótimas que ninguém tira. E até hoje, eu penso ao menos 1 vez por semana nela. A vida realmente nos traz estas pessoas para nos dar esta alegria de viver.
    O tal do coro HUMMMMM com a boca fechada... kkkkkk , também fez parte da minha vida !!!1
    parabéns, adorei!!! lucyla

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