Durante minha infância e até boa
parte da minha juventude, as comemorações de final de ano foram festejadas na
chácara da tia Neide. Todos se reuniam na chácara Lili para passar alguns dias e comemorar a virada do ano. Quando eu
digo todos, eram todos mesmo. Eu venho de uma família muito grande por parte de
pai; eram seis irmãos e cada irmão tem uma média de dois filhos. Além dos seis
irmãos de meu pai e suas respectivas famílias, havia meus avós paternos, a
família do irmão da minha avó, com seus dois filhos, a irmã de minha avó também
com seus dois filhos e minha bisavó, a
Nonna, que não falava quase nada em português, mesmo estando no Brasil há muitos milênios.
Tinha também a família do meu tio
Hélio, suas irmãs e primos, por parte de pai, das minhas primas Liane e Lílian:
Clerson, Cleber e a menina Clessi. Não, isto não é a escalação de um time de
futebol irlandês, esses são os nomes de batismo dos primos da Liane. É um curioso
caso de criatividade atropelando o bom senso, mas não é pra ficar penalizado,
Deus compensou os nomes dessas crianças dando-lhes uma beleza estonteante. Eles
eram e ainda são pessoas belíssimas.
Além dos familiares, existiam
também os namorados e as namoradas dos primos e primas que iam passar o reveillon
naquela chácara, os chamados agregados.
* agregado: termo usado principalmente pelos
tios para se referirem pejorativamente aos namorados das sobrinhas, deixando
bem claro que eles não eram da família e assim, poderiam sofrer a qualquer
momento, toda sorte de brincadeiras e humilhações até se casarem com elas, ou
não. *
Era uma espécie de bullying que testava eficazmente
o interesse dos pretendentes à mão das meninas.
Ao agregado
ficava reservada a função de ouvir todos os tipos de gracinha e nada dizer;
simplesmente sorrir com simpatia e nunca, jamais responder ou tentar a ousadia
de fazer uma gracinha maior que a dos tios, mesmo que essa gracinha fosse
engraçada; aliás, principalmente se essa
gracinha fosse engraçada. Ninguém tinha o direito de ser engraçado, só
nossos tios.
O agregado não tinha vez,
tinha regras e uma delas, a
principal, dizia que ele não tinha vez.
A ele cabia apenas a vocação para a paciência. Se ele reagisse seria remetido
ao limbo da indiferença e desprezo
total dos tios e com o tempo, isso se estenderia a toda a família, daí eles
seriam transferidos da categoria agregado
para a categoria maldito.
O maldito era tão maldito que não prestava pra mais nada, nem mesmo
para ser vítima das brincadeiras dos tios.
Quando um agregado atingia a categoria maldito,
ele já estava condenado, quer dizer,
até a sobrinha, a quem ele dedicara todo o amor, iria desprezá-lo
completamente; era apenas uma questão de tempo até que ela o expulsasse
definitivamente daquele clã.
Isso ocorria geralmente após as
festas de final de ano, conclusão: os coitados já começavam o ano levando o pé na bunda.
Alguns agregados sobreviviam à prova do Reveillon e eram finalmente
aceitos, passando para a categoria de ex-agregado
e “quase” da família, o que lhes
conferia o direito de, no ano seguinte, responder mais ou menos a altura algumas
das gracinhas dos tios, além de estar liberado para humilhar os outros
candidatos a agregados; os novatos.
O Reveillon na chácara da tia
Neide era uma espécie de prova final
a que todos os agregados teriam que ser submetidos, onde os “fanfarrões” mais fracos pediam para sair,
afinal, seria uma média de quatro dias de duros testes e provações.
Antes disso, vinha a fase
preparatória: o aniversário do tio Marcos: dia doze de dezembro e em seguida o
aniversário da minha avó paterna, vinte e três de dezembro.
No Natal, graças ao espírito
cristão, os agregados eram poupados.
Além das gracinhas e das
constantes avacalhações que sofriam, os agregados
eram obrigados a dormirem na chácara, o que acontecia na suave companhia dos tios e dos outros primos que às vezes, penalizados, tentavam inserir
os pobres e intimidados agregados na
roda.
A chácara da tia Neide era bem
grande, mas mesmo com muito espaço, faltava lugar para acomodar tanta gente. A
prioridade era sempre os mais velhos e as crianças, depois vinham as mulheres e
o resto, quero dizer, os homens se ajeitavam como podiam. Eles tinham que se
virar se quisessem ter um pouquinho de descanso. Assim sendo não faltava
criatividade na hora de acomodar os marmanjos.
A mesa de bilhar, a de ping-pong
e até a mesa de jantar virava cama. O chão era completamente tomado por
colchonetes onde dormia a maioria dos homens, que àquela altura, já tinham
bebido e comido exageradamente e o resultado dos excessos era percebido a
distância.
A casa de bonecas, com pé direito
de um metro e meio, que atingia uma temperatura de aproximadamente cinqüenta
graus centígrados, também era completamente ocupada, por alguns homens que se
julgavam muito mais espertos que os outros.
Os homens que escolhiam a casinha
das bonecas para passar a noite tinham que ser socorridos nas primeiras horas da
manhã seguinte. Eles eram devidamente hidratados, depois de receberem massagem
cardíaca e respiração boca a boca, do contrário simplesmente morreriam. Os “sortudos” que conseguiam um espaço na
casinha de bonecas saíam de lá, no dia seguinte, pálidos, pingando de suor e
com a pressão arterial a quase zero, mas o curioso é que, às vezes era travada
uma verdadeira batalha para ver quem iria ficar na casinha das bonecas, por aí
dá pra perceber o tamanho do desconforto causado principalmente pela espessa
densidade do ar na sala daquela chácara.
Naquele irrespirável recinto,
durante a noite, se estabelecia uma competição bizarra; era um desafio saber
qual daqueles “porcos” roncava mais e
os pobres agregados eram obrigados a
dormirem naquela pocilga.
No dia seguinte, sempre acontecia
uma discussão que nunca levava ninguém a lugar algum: um acusava o outro de ter
roncado e ninguém percebia que todos tinham roncado na mesma proporção; isto é,
na proporção de um mamute com estômago
cheio.
Depois do café da manhã, o dia
nos reservava muita diversão: piscina, sol, passeio de lancha, brincadeiras e
conversas com os primos. Tudo era tão bom que a gente se esquecia que outra
noite estava por vir e o sofrimento do desconforto seria inevitável.
Os agregados, depois da noite escura pareciam até mais animadinhos à
medida que o dia ia se revelando claro e alegre. Todos se divertiam muito, mas
quando a noite chegava, as opções de lazer ficavam restritas aos jogos e
brincadeiras que inventávamos.
Uma de nossas brincadeiras
preferidas era “Matador Killer”, tem
coisa mais redundante que essa? Matador
killer, traduzindo: matador/matador,
ou talvez, matador assassino.
Mas tudo bem, ninguém ali tinha
nem obrigação nem idade para ser muito coerente, éramos adolescentes e acho que
não há nada no mundo que seja mais “desobrigado” que um adolescente.
A brincadeira de Matador Killer não exigia muita
esperteza, na verdade devo dizer que exigia sim um pouco de idiotice de seus
participantes, pois era um “bando” de gente calada, sentada em circulo e que se
olhava atentamente para descobrir quem era o matador, o qual assassinava suas
vítimas literalmente, num piscar de olhos.
Todos os participantes tiravam de
uma caixinha um papelzinho e em um deles estaria a senha do matador e em outro
a senha do detetive, que teria, como missão, descobrir quem era o matador.
O segredo da brincadeira era
matar o maior número de pessoas sem ser descoberto pelo detetive, que também
tinha sua identidade preservada.
Dependendo da habilidade ocular
do matador a brincadeira poderia durar horas, isso claro se meu irmão não
estivesse brincando. Ele era mestre em estragar brincadeiras como essa. Ele
sempre fazia um comentário breve e arrasador que rapidamente punha tudo a
perder como pro exemplo: “morrer eu
morri, mas quem deu o pisco”?
Além de desconcentrar os
participantes que eram tomados por acessos de risos não só pelo teor absurdo da
pergunta, uma vez que ele tinha morrido, mas principalmente pela palavra pisco, que ele tinha acabado de
inventar; pior, ele dizia isso olhando diretamente para a pessoa que havia
piscado; ou seja, o matador que via todo seu empenho em ser discreto jogado
subitamente no lixo depois daquele comentário. Assim era necessário começar uma
nova rodada da brincadeira que quase sempre era interrompida novamente com a
mesma sutileza e pela mesma pessoa: meu irmão. Depois disso, ele sempre
arrematava com o seguinte comentário: “puta
brincadeira idiota” e saia indignado.
De certa forma ele tinha razão,
era mesmo uma brincadeira idiota, mas era tudo que nós tínhamos naquele
momento, já que a tecnologia da época se resumia a TV, que não “pegava” muito
bem na chácara. Outras opções seriam: baralho e outros jogos de tabuleiro, mas
não haveria nenhum jogo capaz de incluir aquela quantidade de participantes.
Outra brincadeira que muito nos
divertia, até o momento que não acabava em briga era a brincadeira de mímica,
mas quase sempre os grupos acabavam travando longas e perigosas discussões.
Assim, por incrível que possa parecer a brincadeira de Matador Killer era mesmo a melhor opção, além de ser a mais segura.
De brincadeira idiota em
brincadeira mais idiota ainda os dias iam passando e a gente ia se conhecendo
melhor e se gostando mais.
Pelo menos no começo era mesmo um
Feliz Ano Novo.
Todos os anos esperávamos
ansiosos o dia de irmos àquela chácara onde nos reuníamos somente para passar
um tempo feliz.
Curiosamente, mesmo com a
interferência dos tios em todas as comemorações de passagem de ano, todas as
minhas primas, assim como eu casaram-se;
algumas, assim como eu, mais de uma vez. Nossos “agregados” saíram-se muito bem em
todas as provas dos Reveillons na chácara, que infelizmente não existem mais.
Muitas pessoas que faziam a
alegria daquelas festas já não estão mais entre nós e uma delas é meu pai.
Das festas de final de ano
ficaram apenas as lembranças, que nos divertem até hoje.

Martinha,amei,voce escreve super bem e. me fez lembrar dos reveillons que passa vamos com a. Familia e de como eramos felizes,talvez ate sem saber o quanto.
ResponderExcluirBjs,
Marta, a Liane fez a maior propaganda do seu blog e realmente é muito bom! Adorei a Chácara Lili, ainda mais que conheço e curti tb a chácara daquele tempo. Parabéns e sucesso. Bjos,
ResponderExcluirDeta ( Odete Gouvêa Vasconcellos)
Martoquinha, prima querida!
ResponderExcluirSou sua fã nº1 e você sabe.
Encaro as recordações sobre a Chácara, que você deixou registrada neste texto, como um presente, para todos os que participaram daquela época tão feliz, da qual nós tivemos o privilégio de participar e compartilhar. Tenho a certeza, de que o Tio Hélio (meu pai), de onde estiver, está muito feliz por você tornar estas lembranças "inesquecíveis"! Obrigada, de coração...Com muito amor...
De sua prima,
Liane