domingo, 22 de julho de 2012



Durante minha infância e até boa parte da minha juventude, as comemorações de final de ano foram festejadas na chácara da tia Neide. Todos se reuniam na chácara Lili para passar alguns dias e comemorar a virada do ano. Quando eu digo todos, eram todos mesmo. Eu venho de uma família muito grande por parte de pai; eram seis irmãos e cada irmão tem uma média de dois filhos. Além dos seis irmãos de meu pai e suas respectivas famílias, havia meus avós paternos, a família do irmão da minha avó, com seus dois filhos, a irmã de minha avó também com seus dois filhos e minha bisavó, a Nonna, que não falava quase nada em português, mesmo estando no Brasil há muitos milênios.
Tinha também a família do meu tio Hélio, suas irmãs e primos, por parte de pai, das minhas primas Liane e Lílian: Clerson, Cleber e a menina Clessi. Não, isto não é a escalação de um time de futebol irlandês, esses são os nomes de batismo dos primos da Liane. É um curioso caso de criatividade atropelando o bom senso, mas não é pra ficar penalizado, Deus compensou os nomes dessas crianças dando-lhes uma beleza estonteante. Eles eram e ainda são pessoas belíssimas.
Além dos familiares, existiam também os namorados e as namoradas dos primos e primas que iam passar o reveillon naquela chácara, os chamados agregados.

* agregado: termo usado principalmente pelos tios para se referirem pejorativamente aos namorados das sobrinhas, deixando bem claro que eles não eram da família e assim, poderiam sofrer a qualquer momento, toda sorte de brincadeiras e humilhações até se casarem com elas, ou não. *

 Era uma espécie de bullying que testava eficazmente o interesse dos pretendentes à mão das meninas.
 Ao agregado ficava reservada a função de ouvir todos os tipos de gracinha e nada dizer; simplesmente sorrir com simpatia e nunca, jamais responder ou tentar a ousadia de fazer uma gracinha maior que a dos tios, mesmo que essa gracinha fosse engraçada; aliás, principalmente se essa gracinha fosse engraçada. Ninguém tinha o direito de ser engraçado, só nossos tios.
O agregado não tinha vez, tinha regras e uma delas, a principal, dizia que ele não tinha vez. A ele cabia apenas a vocação para a paciência. Se ele reagisse seria remetido ao limbo da indiferença e desprezo total dos tios e com o tempo, isso se estenderia a toda a família, daí eles seriam transferidos da categoria agregado para a categoria maldito.
O maldito era tão maldito que não prestava pra mais nada, nem mesmo para ser vítima das brincadeiras dos tios.
Quando um agregado atingia a categoria maldito, ele já estava condenado, quer dizer, até a sobrinha, a quem ele dedicara todo o amor, iria desprezá-lo completamente; era apenas uma questão de tempo até que ela o expulsasse definitivamente daquele clã.
Isso ocorria geralmente após as festas de final de ano, conclusão: os coitados já começavam o ano levando o pé na bunda.
Alguns agregados sobreviviam à prova do Reveillon e eram finalmente aceitos, passando para a categoria de ex-agregado e “quase” da família, o que lhes conferia o direito de, no ano seguinte, responder mais ou menos a altura algumas das gracinhas dos tios, além de estar liberado para humilhar os outros candidatos a agregados; os novatos.
O Reveillon na chácara da tia Neide era uma espécie de prova final a que todos os agregados teriam que ser submetidos, onde os “fanfarrões” mais fracos pediam para sair, afinal, seria uma média de quatro dias de duros testes e provações.
Antes disso, vinha a fase preparatória: o aniversário do tio Marcos: dia doze de dezembro e em seguida o aniversário da minha avó paterna, vinte e três de dezembro.
No Natal, graças ao espírito cristão, os agregados eram poupados.
Além das gracinhas e das constantes avacalhações que sofriam, os agregados eram obrigados a dormirem na chácara, o que acontecia na suave companhia dos tios e dos outros primos que às vezes, penalizados, tentavam inserir os pobres e intimidados agregados na roda.
A chácara da tia Neide era bem grande, mas mesmo com muito espaço, faltava lugar para acomodar tanta gente. A prioridade era sempre os mais velhos e as crianças, depois vinham as mulheres e o resto, quero dizer, os homens se ajeitavam como podiam. Eles tinham que se virar se quisessem ter um pouquinho de descanso. Assim sendo não faltava criatividade na hora de acomodar os marmanjos.
A mesa de bilhar, a de ping-pong e até a mesa de jantar virava cama. O chão era completamente tomado por colchonetes onde dormia a maioria dos homens, que àquela altura, já tinham bebido e comido exageradamente e o resultado dos excessos era percebido a distância.  
A casa de bonecas, com pé direito de um metro e meio, que atingia uma temperatura de aproximadamente cinqüenta graus centígrados, também era completamente ocupada, por alguns homens que se julgavam muito mais espertos que os outros.
Os homens que escolhiam a casinha das bonecas para passar a noite tinham que ser socorridos nas primeiras horas da manhã seguinte. Eles eram devidamente hidratados, depois de receberem massagem cardíaca e respiração boca a boca, do contrário simplesmente morreriam. Os “sortudos” que conseguiam um espaço na casinha de bonecas saíam de lá, no dia seguinte, pálidos, pingando de suor e com a pressão arterial a quase zero, mas o curioso é que, às vezes era travada uma verdadeira batalha para ver quem iria ficar na casinha das bonecas, por aí dá pra perceber o tamanho do desconforto causado principalmente pela espessa densidade do ar na sala daquela chácara.
Naquele irrespirável recinto, durante a noite, se estabelecia uma competição bizarra; era um desafio saber qual daqueles “porcos” roncava mais e os pobres agregados eram obrigados a dormirem naquela pocilga.
No dia seguinte, sempre acontecia uma discussão que nunca levava ninguém a lugar algum: um acusava o outro de ter roncado e ninguém percebia que todos tinham roncado na mesma proporção; isto é, na proporção de um mamute com estômago cheio.
Depois do café da manhã, o dia nos reservava muita diversão: piscina, sol, passeio de lancha, brincadeiras e conversas com os primos. Tudo era tão bom que a gente se esquecia que outra noite estava por vir e o sofrimento do desconforto seria inevitável.
Os agregados, depois da noite escura pareciam até mais animadinhos à medida que o dia ia se revelando claro e alegre. Todos se divertiam muito, mas quando a noite chegava, as opções de lazer ficavam restritas aos jogos e brincadeiras que inventávamos.
Uma de nossas brincadeiras preferidas era “Matador Killer”, tem coisa mais redundante que essa? Matador killer, traduzindo: matador/matador, ou talvez, matador assassino.
Mas tudo bem, ninguém ali tinha nem obrigação nem idade para ser muito coerente, éramos adolescentes e acho que não há nada no mundo que seja mais “desobrigado” que um adolescente.
A brincadeira de Matador Killer não exigia muita esperteza, na verdade devo dizer que exigia sim um pouco de idiotice de seus participantes, pois era um “bando” de gente calada, sentada em circulo e que se olhava atentamente para descobrir quem era o matador, o qual assassinava suas vítimas literalmente, num piscar de olhos.
Todos os participantes tiravam de uma caixinha um papelzinho e em um deles estaria a senha do matador e em outro a senha do detetive, que teria, como missão, descobrir quem era o matador.
O segredo da brincadeira era matar o maior número de pessoas sem ser descoberto pelo detetive, que também tinha sua identidade preservada.
Dependendo da habilidade ocular do matador a brincadeira poderia durar horas, isso claro se meu irmão não estivesse brincando. Ele era mestre em estragar brincadeiras como essa. Ele sempre fazia um comentário breve e arrasador que rapidamente punha tudo a perder como pro exemplo: “morrer eu morri, mas quem deu o pisco”?
Além de desconcentrar os participantes que eram tomados por acessos de risos não só pelo teor absurdo da pergunta, uma vez que ele tinha morrido, mas principalmente pela palavra pisco, que ele tinha acabado de inventar; pior, ele dizia isso olhando diretamente para a pessoa que havia piscado; ou seja, o matador que via todo seu empenho em ser discreto jogado subitamente no lixo depois daquele comentário. Assim era necessário começar uma nova rodada da brincadeira que quase sempre era interrompida novamente com a mesma sutileza e pela mesma pessoa: meu irmão. Depois disso, ele sempre arrematava com o seguinte comentário: “puta brincadeira idiota” e saia indignado.
De certa forma ele tinha razão, era mesmo uma brincadeira idiota, mas era tudo que nós tínhamos naquele momento, já que a tecnologia da época se resumia a TV, que não “pegava” muito bem na chácara. Outras opções seriam: baralho e outros jogos de tabuleiro, mas não haveria nenhum jogo capaz de incluir aquela quantidade de participantes.
Outra brincadeira que muito nos divertia, até o momento que não acabava em briga era a brincadeira de mímica, mas quase sempre os grupos acabavam travando longas e perigosas discussões. Assim, por incrível que possa parecer a brincadeira de Matador Killer era mesmo a melhor opção, além de ser a mais segura.
De brincadeira idiota em brincadeira mais idiota ainda os dias iam passando e a gente ia se conhecendo melhor e se gostando mais.
Pelo menos no começo era mesmo um Feliz Ano Novo.
Todos os anos esperávamos ansiosos o dia de irmos àquela chácara onde nos reuníamos somente para passar um tempo feliz.
Curiosamente, mesmo com a interferência dos tios em todas as comemorações de passagem de ano, todas as minhas primas, assim como eu casaram-se; algumas, assim como eu, mais de uma vez. Nossos “agregados” saíram-se muito bem em todas as provas dos Reveillons na chácara, que infelizmente não existem mais.
Muitas pessoas que faziam a alegria daquelas festas já não estão mais entre nós e uma delas é meu pai.
Das festas de final de ano ficaram apenas as lembranças, que nos divertem até hoje.

3 comentários:

  1. Martinha,amei,voce escreve super bem e. me fez lembrar dos reveillons que passa vamos com a. Familia e de como eramos felizes,talvez ate sem saber o quanto.
    Bjs,

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  2. Marta, a Liane fez a maior propaganda do seu blog e realmente é muito bom! Adorei a Chácara Lili, ainda mais que conheço e curti tb a chácara daquele tempo. Parabéns e sucesso. Bjos,
    Deta ( Odete Gouvêa Vasconcellos)

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  3. Martoquinha, prima querida!
    Sou sua fã nº1 e você sabe.
    Encaro as recordações sobre a Chácara, que você deixou registrada neste texto, como um presente, para todos os que participaram daquela época tão feliz, da qual nós tivemos o privilégio de participar e compartilhar. Tenho a certeza, de que o Tio Hélio (meu pai), de onde estiver, está muito feliz por você tornar estas lembranças "inesquecíveis"! Obrigada, de coração...Com muito amor...
    De sua prima,
    Liane

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