Minha avó materna era uma mulher
de muita fé, ela rezava com tanta certeza que conseguia alcançar quase tudo que
pedia. Foi com ela que aprendi a acreditar,
ela me ensinou como, quando e porque rezar. Essa é uma das maiores gratidões
que tenho, pois enfrentei momentos em minha vida, que francamente, não sei como
teriam sido se eu não tivesse aprendido a ter fé.
Meus avós maternos eram meus padrinhos de
batismo e eu sempre me senti abençoada por isso e por causa da fé de minha avó
eu tinha uma constante sensação de proteção, pois sempre que precisava pedia
que ela rezasse por mim.
Minha avó era uma espécie de
atalho entre mim e o sagrado e hoje graças a ela, eu também sou uma mulher de
fé e também rezo, mas na minha adolescência eu achava muito mais fácil pegar carona na fé da minha avó.
Eu encomendava rezas de todos os
tipos: vó, reza pra eu conseguir colar na
prova? Eu não estudei. “Vó, reza pra professora faltar, hoje? Vou ter prova
oral e não estudei. Pede pro pneu do carro dela furar, assim ela chega atrasada.
Vó, eu briguei com o namorado, reza pra ele ficar muito mal e pedir pra voltar?
Vó, reza pro pai da Filó não arrancar as orelhas dela? Vó, nasceu uma espinha
no meu rosto, reza pra ela secar até amanhã?”
E assim seguiam os pedidos
mais absurdos e minha avó me garantia que ia rezar e que, se eu acreditasse,
iria conseguir sempre o que
precisava. Muitas vezes, a maioria delas, o meu pedido era alcançado e eu
acreditava piamente que era por causa das orações de minha avó. Eu tinha
certeza que ela tinha esse poder. Ela era minha fada e eu era encantada por ela. Ficar perto da minha avó me dava
paz... Muita, muita paz.
Até hoje não consigo calcular
muito bem a idade da minha avó, me parece que ela sempre teve a minha idade,
não importando a idade que eu tivesse; quando eu era criança ela era apenas uma
menina e sabia brincar, quando eu fiz quinze anos ela estava no auge de sua
adolescência e queria saber de tudo que se passava comigo e quando eu fui mãe
ela era mãe também e compreendia todas as minhas angústias e meus tolos
orgulhos.
Minha avó não tinha idade, tinha cumplicidade e queria viver comigo todas
as minhas fases.
Eu nunca menti para minha avó,
ela merecia só a minha verdade, pois sabia sempre o que fazer com ela; à minha
avó eu declarava sem pudor os meus sentimentos mais secretos, os meus medos
mais ocultos, as minhas angústias, os meus desejos e as minhas alegrias, somente
ela tinha tudo de mim.
Minha avó, assim como as fadas,
não tinha qualidades, tinha dons: o dom
de acolher, o dom de compreender, o dom de transformar, o dom de alegrar e o
principal, o dom de fazer a gente acreditar que nessa vida nada é definitivo e
amanhã tudo será diferente e melhor, esse era o precioso dom da esperança.
Minha avó era mesmo dona de uma
magia poderosa. Transformava um simples almoço em um farto banquete, um pequeno
bolo numa festa inesquecível, uma corriqueira visita num acontecimento raro.
Ela vivia tudo com intensidade,
era alegre, adorava dançar, adorava vinhos e doces, mas minha avó tinha um lado
transgressor e claro, era o meu preferido. Percebi esta outra faceta de minha
avó aos sete anos, quando minha mãe decidiu que já havia chegado a minha hora
de abandonar o hábito de chupar chupeta.
Eu vivia pela casa com uma
chupeta na boca e um cobertorzinho imundo que eu arrastava por onde passava.
Não era permitido se quer lavar aquele paninho nojento, eu não admitia limpeza
quando se tratava do meu cobertorzinho; pois bem, aos sete anos veio a sentença:
acabou o paninho e a chupeta. Você já está grande demais.
Aquela notícia me enlouqueceu, só
uma pessoa poderia me ajudar, minha avó.
Subi apressada as escadas do
prédio onde morávamos e fui pedir ajuda a ela, que rapidamente encontrou a
solução para meu grande problema,
costurando uma chupeta nova na bainha do meu vestido curto e ainda me instruiu
a ser muito cuidadosa: “Não deixe sua mãe
perceber, só use a chupeta quando for
dormir, promete”? Eu fiz exatamente o que ela me pediu e em pouco tempo,
sem me dar conta, tinha abandonado a chupeta até para dormir.
Sem perceber, bem aos poucos
deixei aquele vício; nada drástico, ela havia suavizado tudo pra mim.
Aos treze anos, comecei a fumar e
ela, com uma habilidade que até então eu desconhecia, roubava cigarros do maço
de minha mãe, que também fumava para dá-los a mim.
Naquela época os males que o
cigarro causava não eram divulgados e quase ninguém sabia o quanto o vício de
fumar era prejudicial, a intenção de minha avó era, mais uma vez, dar o que eu
queria, sem saber que aquilo estava me prejudicando.
Foram muitas as vezes que eu matei aula e fui
me abrigar na casa de minha avó. Quando eu chegava, ela dizia com um sorriso
satisfeito no rosto: “quando tinha sua
idade eu também adorava bater falhão”.
Aquela observação quase me matava de rir, que termo era aquele? “Bater falhão”? Logo em seguida, nos
juntávamos para passar trotes pelo
telefone para a irmã dela, tia Risoleta, uma mulher também de muita fé, mas de
lucidez um pouco comprometida, pois esperava que, algum dia, iria chegar um
aviso dos céus.
Ela acreditava mesmo naquilo e
curioso que neste caso, até o telefone valia; até ele poderia ser um
instrumento escolhido pelos deuses para passar mensagens cifradas para a tia
Risoleta.
Eu e minha avó ligávamos pra casa
dela e ficávamos alguns segundos falando: “cacá,
cacá, cacá”. Isso não tinha significado algum, era apenas uma bobagem que
eu e minha avó inventamos, mas que deixava a tia Risoleta ocupada, tentando
desvendar a mensagem cifrada.
Logo depois dos nossos
telefonemas, tia Risoleta ligava pra minha avó, contava o ocorrido e
perguntava:
-Será que é algum aviso, Leonor. O que será que significa cacá. Será que é alguma pessoa? Quem será cacá?
Minha avó, como quem não sabia de nada e com
toda a calma do mundo dizia: Não sei
Riso, nem imagino o que isso pode significar.
Agora calcule: se os deuses
estavam usando o telefone para se comunicar com a tia Risoleta, por que eles
usariam códigos, no caso cacá? Por
que eles não falavam direito com ela dizendo logo o que queriam? Afinal, o mais
difícil foi fazer a ligação do além.
Claro que questões tão obvias nem passavam
pela cabeça torturada da tia Risoleta
e claro que minha avó não iria alertá-la, pois se fizesse nosso trote perderia
totalmente a função.
Pobre tia Risoleta, nunca
descobriu o que o cacá significava, tampouco quem eram as
autoras daqueles telefonemas indecifráveis.
Eu e minha avó levamos essa
brincadeira por algum tempo, depois achamos prudente parar, antes que tia
Risoleta apresentasse mais alguma seqüela além das que já demonstrava ter.
Pode parecer maldade, mas não era;
minha avó sabia dar a dosagem certa àquela brincadeira, ela também sabia que
aquilo distrairia a tia Risoleta dos problemas diários e da infelicidade
sacramentada que vivia.
Aquela brincadeira ocupava minha
tia e a tirava da freqüência daqueles dias igualmente infelizes. O cacá alimentava a esperança de que um
dia sua vida iria mudar e que ela já havia recebido o primeiro sinal.
Mas, o lado transgressor de minha
avó não se limitava costurar chupetas na barra do meu vestido ou passar trotes por telefone; meus avós estavam
envolvidos em causas políticas muito nobres, que lhes renderam alguns
problemas.
Meu avô era fundador, na minha
cidade, do Partido Comunista e sua
casa vivia cheia de militantes que se
reuniam quase todas as noites para discutir os rumos políticos de nosso país.
Eles conspiravam e lutavam contra a ditadura militar, e a casa da minha avó era
praticamente um “aparelho”, expressão
usada pelos chamados “comunistas”
para se referirem aos locais destinados às reuniões do Partido.
Algumas vezes, militantes do
partido se esconderam na casa de minha avó, pois estavam sendo procurados e
claro que a casa de meus avós sempre esteve disponível para abrigá-los ou
socorrê-los.
Meu avô e minha avó eram, para
mim, uma espécie de Bonnie & Clyde
da época, com a diferença de serem os mocinhos da história e não os bandidos.
Eles lutavam contra um regime injusto e cruel, porém muito forte que não tratava
nada bem quem se opunha a ele.
Aos nove anos, acompanhei meus
pais e minha avó a uma visita ao meu avô no DOPS. Minha mãe dizia que meu avô estava em “férias forçadas”. Eu não compreendia muito bem aquilo, afinal,
quem queria passar férias naquele lugar horrível?
Lembro-me muito bem do clima
tenso e triste daquele lugar sinistro; do piso de cimento velho e sujo e das
paredes úmidas e opressoras.
Lembro-me da expressão sofrida
das pessoas; eram muitas, muitos jovens; lembro-me do semblante abatido de meu
avô e da dor nos olhos expressivos de minha avó.
A ditadura militar tinha mais esse
poder: entristecer e quase apagar o brilho dos olhos da minha fada.
Era Copa de Setenta e a Nação parecia estar em festa, ninguém notava;
ninguém percebia o que acontecia por trás da alegria do time campeão que
impressionava o País.
Minha avó estava triste, estava
sem par, mas logo meu avô seria posto em liberdade e tudo iria recomeçar com a
mesma força e esperança de quem acreditava na mudança possível. Ele retomava as
reuniões e todas as atividades relacionadas ao Partido e minha avó, fingindo repreendê-lo dizia: “o lobo perde o pêlo, mas não perde o vício”.
Assim eles prosseguiam com sua
luta sigilosa e legítima; meu avô tomava a frente seguro, convicto e sem medo,
pois sabia que tinha a melhor camarada
do mundo na retaguarda.

Marta,fiquei emocionada,eh essa avo que gostaria de ser.
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